Category Archives: Ignorância

Agora sou EU quem o diz…

Recordando uma velha máxima dos meus avós, eu sou do tempo em que se brincava na rua com uma bola e se brigava na rua sem pau nem faca nem pistola. Punhos, garra e juízo para saber parar. Os árbitros e os intermédios eram normalmente os amigos, os pais ou os pais dos amigos a quem dávamos sempre ouvidos. As ruas e os descampados não engoliam ninguém nessa altura, só nos tornavam mais fortes.

Eu sou do tempo em que surgiu a Playstation, a Dremcast, a Nintendo 64 e o GameBoy; pelo que também sou do tempo em que os amigos se reuniam em casa uns dos outros para simplesmente: apanharem todos os 150 pokémons conhecidos, ultrapassarem à vez os níveis de jogos de aventuras (entrando um novo jogador a cada morte da Lara Croft) ou competirem entre si num combate de Tekken ou num jogo de PES 2; tudo sempre às gargalhadas ou às caralhadas.

Eu sou do tempo em que a televisão de quatro canais se desdobrou em centenas de canais e, repentinamente, surgiram mais razões para a TV se manter ligada durante todo o dia. A diversidade era tão grande: filmes non-stop, maratonas de séries, notícias 24 horas, canais de música barulhentos. Felizmente, existiam pais que nos mandavam desligar a TV e nos levavam à praia para apanharmos sol e sal.

Eu sou do tempo em que a internet explodiu e, de rajada, tornou os computadores em rápidas fontes de informação, permitindo a todos ver programas indisponíveis nos nossos países e, pasmemo-nos, em falar com pessoas do outro lado do mundo que gostavam das mesmas coisas que nós sem pagar mais um cêntimo por isso.

Eu sou do tempo em que a tecnologia era utilizada apenas por jovens sonhadores e não velhos jarretas. Eu sou do tempo em que esta tecnologia tudo fazia para aproximar as pessoas, inclusive arranjar encontros com gente de outras escolas.

Depois surgiram as redes sociais em todas as plataformas (TV, rádio, computadores, telemóveis). Surgiu o comércio online: vendendo casas, carros e periquitos. E, para mal de todos os nossos pecados consumistas, surgiu o demoníaco algoritmo do marketing personalizado, ao serviço de cada conglomerado e de cada caganita influencer ao ponto de, hoje, até pequenos jogos para crianças estrem cheios de anúncios ou armadilhas para monetizar as brincadeiras dos pequenos.

Novos e velhos foram puxados por memes emocionais para discussões superficiais, dividindo o mundo em dois polos sem razão e invadindo-nos os olhos de propagandas ultrapassadas há muito, mas reavivadas por gentes inumanas.

Eu sou do tempo que achava que o sonho de um mundo mais igual através da internet era possível, mas vi-o esfumar-se à medida que alguns governos democráticos deixavam outros governos despóticos tratar de bloquear conteúdos e permitiam aos bilionários criar plataformas controladas de acordo com os seus objectivos políticos.

Eu vi isso tudo, filhote…

Eu, tal como os meus pais e os meus avós, vi um mundo com tudo para ser perfeito; mas que algumas criaturas insistem em estragar.


Sobre a Migração – O Grande Tema Legislativas Portuguesas de 2024

Políticos, forças de segurança, organizações não governamentais, jornalistas, comentadores de televisão, populistas, progressistas, conservadores e conversadores de café ocasionais. Todos falam da emigração como um fenómeno recente (tal como fizeram com a Pandemia do Covid-19), mas nem todos se encontram conscientes de que tal fenómeno data dos primórdios da criação, ainda antes da humanidade nómada. É pena porque poderiam todos parar de discutir causas de algo que é natural a todos os seres: ir em busca de um lugar melhor para viver e criar a prole.

Ocupação de postos de trabalho a preços reduzidos, competitividade laboral inquinada, aumento de criminalidade, habitações lotadas, ruas cheias de emigrantes, insegurança para os que cá estão, recusa de vacinas e terrorismo religioso são talvez os subtemas que mais se cruzam com este grande fenómeno migratório. E, por um lado, até é bom que se discutam estas realidades que, pasmem-se os populistas, não afectam apenas as pessoas de bem; afectam os dois lados da moeda.

Ninguém fala dos sonhos desfeitos de uma pessoa que se vê obrigada a fugir de um lugar com medo do narcotráfico, dos receios de mudar de país/continente, do câmbio que leva 4/5 das poupanças, da dor causada pela distância das famílias ou da separação entre pais e filhos.

Ninguém fala das exorbitâncias cobradas a título de honorários aos emigrantes para solicitarem autorização de residência e trabalho ou do batelão de taxas e impostos pagos até finalmente um burocrata mandrião achar um buraquinho na agenda para recolher uma foto, a altura, as impressões digitais e a assinatura de um fulano que mal percebe a nossa língua, quanto mais as nossas manhas.

Ninguém fala de como os sucessivos governos e associações patronais (portuguesas, europeias, britânicas e norte-americanas) têm mantido a porta aberta aos que vêm de fora para baixar os preços de determinados sectores comerciais, das quais se destacam os trabalhadores de grandes superfícies comerciais, os técnicos de callcenters, os entregadores de comida ao domicílio e os eternos condenados da restauração e hotelaria.

Ninguém fala de como o respeito e a segurança (física, mental, laboral e social) de um estrangeiro corresponde igualmente à segurança de um nacional.

Tenho para mim que os populistas estão perdidos. Escumalha são, escumalha serão. Falam muito, mas todos nós sabemos o que eles pretendem das instituições democráticas: destruir e reinar.

Já quanto aos conservadores e aos progressistas, creio que ambos se podiam reunir em torno de uma opção geopolítica de grande envergadura com quatro pilares básicos:

1º) Controlar melhor quem entra na nossa casa (será sempre uma essencialidade básica, até por uma questão de cooperação interpolicial e interjudicial);

2º) Criar quotas regionais de entradas migratórias por mês/ano de modo a manter uma identidade cultural portuguesa com tendências por um estado de direito laico e democrático;

3º) Evidenciar esforços (inclusivamente militares) para evitar que tensões geopolíticas escalem para guerras geradoras de refugiados;

4º) E, por fim, forçar os países que adoram fundos de desenvolvimento, reciprocidade de vistos turísticos e extinção de pautas aduaneiras a adoptar com rigor e seriedade medidas bastante reais para evitar que os seus cidadãos (normalmente multiplicados como peixes pelos sermões dos padres…) também deixem de querer sair dos seus países de origem.

A ideia base será que quanto mais alimentados, abrigados, educados, integrados, democráticos e seguros estiverem os nossos vizinhos, mais seguros continuaremos nós. Exigir resultados ao ritmo necessário é fundamental a todos.


Foundation — 1ª Temporada e 2ª Temporada

by Apple TV

de Josh Friedman e David S. Goyer.

Confesso que ainda não li absolutamente nada da saga Fundação, escrita pelo afamado Isaac Azimov. Esta confissão é quase um pecado, mas o tempo e o dinheiro aptos a satisfazer todos meus desejos de leitura são escassos. Para além disso, tenho lido e conversado com pessoas acerca desta saga e todos têm convergido para uma opinião quase unânime: é uma história boa, tem um ritmo rápido, mas não consegues criar grande empatia com as personagens (o que não me espanta dada as tendências pulp dos anos 60 a 80). Podem imaginar as minhas reticências uma vez que para mim as personagens são sempre o núcleo duro das obras…

Adiante, e mesmo ciente de todas as críticas feitas a esta adaptação, nomeadamente da libertinagem criativa e pouco respeitosa relativamente ao material original bem como a tendência dos dias que correm para mudar o sexo original das personagens, creio que os defeitos apontados se esbatem perante o resto dos elementos desta adaptação. A qualidade do enredo, a qualidade dos arcos e o desenvolvimento das personagens, a mensagem, e os próprios efeitos audiovisuais não fica nada a dever à maioria das séries e filmes de ficção científica.

O enredo é intricado desde o primeiro episódio, com uma primeira linha narrativa focada na Dinastia Genética do Imperador Cleon II (inspirado, creio, no excelente mito das três faces da deusa Hekate e algo que, pelo que sei, é uma inovação). A segunda linha segue os séculos passados em Terminus e os problemas da Fundação. A terceira linha temporal prende-se com a vida de uma personagem totalmente reformulada chamada Gaal Dornick. Entre estas linhas, muita coisa ocorre nas sombras. E é esse o apelativo da história Fundação. Nós estamos a observar pequenos episódios aparentemente sem grande relevo para os pontos de mudança da história da galáxia, mas a verdade é que são estes momentos que conduzem às grandes mudanças. Especial…

Em termos de personagens, o claro destaque vai para o Imperador Cleon II (interpretado magistralmente pelo trio Cassian Bilton, Lee Pace e Terrence Mann) e para Harry Seldon (do extraordinário Jared Harris), mas Gaal Dornick (interpretado por Lou Lloubell) vai em crescendo. As várias nuances que cada um destes actores (com a ajuda dos demais) consegue dar às suas personagens é algo de extraordinário.

Na maioria dos planos visuais, como os anéis de Trantor, o interior de palácios ou os habitáculos das naves estelares, sentimo-nos estarrecidos. A imaginação não tem limites, desde a forma como a tecnologia é utilizada até aos pingentes vivos de murais especialmente artísticos. Posto isto, eu não embarco na onda de críticos desta adaptação de Fundação. Por norma até gosto que as séries não fujam muito ao material original, mas o que os realizadores estão a fazer ao dar um sopro de empatia de personagens pouco conhecidos e desenvolvidos enquanto mantêm o resto da história (inacabada pelo Autor, diga-se) é algo que muito me apraz. Recomendo vivamente aos fãs do género.


Cloud Cuckoo Land

Cloud Cuckoo Land

de Anthony Doerr

Uma vez que traduzido à letra (A Terra dos Cucos Nefelibatas ou A Terra dos Cucos das Nuvens) este livro cairia imediatamente na lista de livros a evitar devido a parecer uma parvoíce pouco desafiadora, a equipa da Editorial Presença preferiu ter uma abordagem mais conservadora e chamou simplesmente a este obra-prima: Uma Cidade nas Nuvens. Um título impossível de esquecer, certo? Enfim…

Em termos de enredo, o Autor complica e complica ao ponto de me espantar com a sua destreza técnica e planeamento de enredo no final do livro. Temos cinco personagens principais divididas por três linhas temporais, sendo que ainda temos de contar com os flashbacks de três personagens. Ufa…

No início, há aparentemente pouco a ligá-las, mas a verdade é que o enredo vai-se adensando e o que enlaça as três linhas temporais principais (bem como os flashbacks) vai-se tornando muito mais nítido ao ponto de nós percebermos que a verdadeira mensagem deste livro não é apenas que cada livro e bibliotecários são especiais e merecem ser preservados independentemente da doutrina ou do tom com que foram escritos. É realmente grandiosa a forma como o Autor entrega o final.

Por outro lado, em termos de personagens, aprecio particularmente o facto deste livro se reportar bastante à relação entre a adolescência e a terceira-idade. Não há propriamente um protagonista de trinta ou quarenta anos cuja força física se equivalha a uma experiência acumulada e que sirva de ponte entre todas as personagens. O Autor foca-se muito na juventude, na sua ingenuidade, na sua determinação e nos seus diversos problemas ao longo da história para nos fazer perceber a importância modeladora desses acontecimentos iniciais durante o resto da nossa vida.

O ritmo da narrativa é constante e os ganchos narrativos são bastante bem executados.

A prosa do Autor é bastante fluída e não teme socorrer-se de palavras menos comuns para o que quer que seja. Há igualmente uma maravilhosa tendência para comparações e metáforas bastante precisas e imaginativas. Apetecia-me destacar uma ou outra, mas estaria a ser injusto para com o autor ao revelar os seus tesouros metafóricos.

Em termos de conteúdo para lá dos enredos, e sem ser exaustivo, o Autor aborda inúmeros problemas actuais da sociedade como a solidão, a pobreza, os problemas da parentalidade singular, catástrofes climáticas, extinção massiva da biosfera, as consequências do medo, extremismos, conservadorismos, guerras, síndromes e patologias incompreendidas, manipulação de jovens solitários e vulneráveis através da propagação de idiossincrasias perigosas por meio de redes sociais e, por fim, os perigos da programação tecnológica.

É maravilhoso apreciar ao longo de todo o livro este condensar orgânico, tal como é revelador de uma extrema sensibilidade perceber todos os paralelismos que se fazem entre a Conquista de Constantinopla, a nossa década dos novos 20´s e o Futuro da Humanidade. Serão os nossos problemas sempre os mesmos ainda que com capas e vestimentas novas?

O que posso dizer mais? Anthony Doerr é um verdadeiro mestre tecelão. Fiquei abismado e imagino apenas um bocadinho do sofrimento que este homem passou para conseguir enlaçar todas estas histórias umas nas outras de modo a passar a mensagem e os paralelismos que queria passar. Magnífico, o melhor que li no último ano…


AUCTORITAS

Auctoritas. Os antigos romanos tinham esta palavra que há muito me ecoa no ouvido. Gosto particularmente dela e de tudo aquilo que ela representa. Até da sua sonoridade eu gosto: auctoritas

O referido conceito, facilmente intuitivo e que deu origem ao étimo português “autoridade”, aplicava-se normalmente ao prestígio moral de um cidadão na sociedade romana e, consequentemente, à sua capacidade para influenciar e reunir apoios em torno das suas posições políticas. O mesmo termo, para além de utilizado na ciência política, tem também um ângulo mitológico que se prende com o misterioso dom, quiçá divino, para o “poder do comando” de algumas figuras lendárias do Império Romano. Uma vez que defendo a laicidade do estado não gosto muito deste ângulo divino, mas mais adiante vão perceber porque o menciono agora.

Atravessando nós um momento em que vale tudo na política portuguesa (e na política ocidental também, sejamos verdadeiros…), é importante resgatar esta ideia de auctoritas na hora de nomear pessoas para posições importantes, designadamente assessores, gestores públicos, secretários de estado, ministros e até líderes da oposição.

Igualmente importante é não confundir este auctoritas com competência técnica. Há gente muito boa no que faz que não tem o hábito de decidir nem o dom de liderar. Logo, esta pessoa muito competente pode (e deve) ser escolhida pelo seu prestígio técnico para exercer um cargo público, mas não pode estar à frente de decisões como alguém que tenha um perfil de líder, um perfil carismático, aglutinador e capaz de comandar hostes.

Um líder com verdadeiro auctoritas, por mais que oiça e se aconselhe, decide e decreta caminhos. Ao técnico competente é-lhe delegada a missão de prosseguir conforme a liderança definiu. É tão fácil no papel, não é? O problema é por vezes perceber que um líder pode e deve ser igualmente uma pessoa competente tecnicamente, tal como o técnico pode (e deve) ser tão proativo (e valorizado) como um líder dado que é este que executa e dá corpo às diretrizes da própria auctoritas.

Posto isto, numa altura em que os ventos dos autoritarismos começam a ganhar força por todo o mundo onde antes não passavam de escumalha ignorante, é preciso que os políticos que defendem a harmonia e o equilíbrio das democracias percebam que só existem três formas de combater a polarização da sociedade:

  1. Escolher pessoas com um auctoritas inquestionável e inabalável para desempenhar cargos públicos de liderança;
  2. Tomar cada decisão com o intuito de preservar sempre o auctoritas do líder e o nosso próprio auctoritas;
  3. Investigar, expor as faltas e falsidades de auctoritas dos agentes mais radicais da política e despojá-los de opinião pública e tempo de antena.

Quando tratamos de malta que se encontra indecisa entre o método científico e o negacionismo é preciso encontrar alguém que ponha as pessoas a ouvir verdadeiramente o que é dito sobre determinado assunto; pelo que não pode ser uma pessoa qualquer encontrada num comício de uma qualquer juventude partidária que repita o que ouviu dizer nem um fulano que define a sua moral estritamente pela positividade da lei.

Quando tratamos dos problemas entre equilibrados e desequilibrados, não podemos deixar de preservar a nossa imagem enquanto escutamos as preocupações dos raciocínios mais ultrapassados — como racismos, xenofobias e demais misantropias — e apontamos a puxar para a superfície a sua falha essencial: medos e ódios não resultam e nunca resultaram em nada a não ser um estado de absoluta inacção e conformação com os actos mais vis e cruéis.

Quando se trata de distinguir o que é verdadeira acção política de uma narrativa meramente populista, devemos evidenciar todos os esforços para desmascarar os discursos mais bonitos e tentadores da praça pública.

Tornando aqui à mitologia, nunca se esqueçam que uma das alcunhas preferidas do Diabo é o simplesmente o Tentador e uma das suas ferramentas preferidas é a própria tentação. Logo, gente com prestígio moral e capaz de comandar massas deve apontar ao demónio e mostrar a todos porque até ele gostaria de ceder às tentações, mas não pode. Porque ceder à tentação é abrir a porta à entrada de uma sociedade ainda mais caótica.

Alguns dir-me-ão que já não há gente com auctoritas. Pois eu digo que há. É só uma questão de os procurar e definir critérios precisos para os jogar para a frente ao mesmo tempo que devemos fazer tudo para retirar às falanges radicais cada pingo de prestígio dos doidos que as fazem avançar.

by JFoliveras

Os Estrangeiros

Como é possível que na Europa estejamos a assistir à ascensão de movimentos populistas com tendências xenófobas? Num território como o europeu, onde diariamente tanto os professores como os media fazem questão de referir que a xenofobia e o racismo são desvalores bárbaros e contrários a uma sociedade desenvolvida, é paradoxal que estes movimentos estejam a crescer, tal como a antipatia pelo “estrangeiro que vem para cá tirar trabalho aos que cá estão”. Porque acontece isto?

Começando por provocar: estes radicais em ascensão até têm alguma razão na sumária identificação que fazem do problema. Tirando a ideologia da questão e correndo por um trilho pragmático, a verdade é que os migrantes que chegam à Europa vêm para cá porque (surpresa!) querem melhores condições de vida. Querem mais segurança, mais dinheiro e algumas perspectivas sérias de futuro para os filhos. E tanto os seus propósitos como a sua necessidade de ganhar sustento, motes que devem ser respeitados, gera competição entre a mão-de-obra interna e a que vem de fora.

Tudo isto é normal e bastante humano. O que não é normal nem humano é a inércia estadual perante a autêntica desregulação e ausência de fiscalização da actividade laboral. Vejamos alguns exemplos:

Patrões que, não conseguindo ou não querendo pagar o justo pelo trabalho prestado, contratam e trazem trabalhadores do Nepal, do Brasil ou dum qualquer país africano a preço de uva mijona. Fogem às contribuições, ao fisco e, mal o trabalhador manifesta algum desagrado, vai para a rua sem qualquer tipo de fundo de desemprego. Isto é mato nas empresas de construção.

Por outro lado, a restauração. Quem é que quer trabalhar num restaurante, num hotel ou num café cheio de bêbados seis dias por semana por 800,00€ pagos por fora? Ninguém, certo? Mas a verdade é que rareia o cafezinho em Portugal onde não há um emigrante a trabalhar nestas condições. E porquê? Porque precisa de pagar renda, contas e custos com processos de regularização de permanência em território nacional. O facto de poder vir a magoar-se e não ter direito a apoios financeiros do estado pouco lhe importa.

E quanto aos shoppings? Quem é que aguenta ganhar o salário mínimo e trabalhar para grandes empresas que do nada usam com uma facilidade mínima a mobilidade geográfica do trabalhador para o manter de cabeça baixa? E quem é que trabalha nas lojas dos shoppings maioritariamente? Os emigrantes, certo?

Até aqui só dei exemplos de mão-de-obra pouco qualificada, mas vejam o que sucede já nos hospitais com médicos da América Latina a fazerem turnos atrás de turnos em regime de recibos verdes. Ou na advocacia, com os advogados de outros países e outras leis a entupirem os serviços de estrangeiros e fronteiras com processos muitas vezes e propositadamente mal instruídos com o único intuito de evitar deportações de quem nunca se interessou pela legalidade.

Posto isto, o problema não se prende com a importação massiva de pagodes brasileiros, kizombas angolanas, chamuças indianas ou plásticos chineses. Sendo sincero, a maioria dos portugueses até acha piada às diferenças e até as consome, especialmente se forem gastronómicas. O problema prende-se com o facto dos estados europeus nada fazerem para evitar a desvalorização dos rendimentos de quem trabalha. Não é tanto uma questão de valores morais e culturais, é muito simplesmente uma questão de carteira e de valores monetários.

Quando ninguém vigia (incluindo o próprio trabalhador que se sujeita a tudo e mais alguma coisa) e quando ninguém controla dá-se isto: o que deveria ser excepcional começa a aproximar-se da regra geral. E o que sucede depois? Conformismo, pobreza, fome, descontentamento e ascensão de movimentos radicais. O Brexit, por exemplo, deveu-se em larga maioria ao facto de os britânicos deixarem de estar dispostos para acolher novas vagas de gente que, merecendo respeito, vinha ao abrigo desse ideal de mercado livre e concorrencial que, habitualmente, desvaloriza os rendimentos de pessoas que, inegavelmente, já se encontram inseridas num mercado livre e concorrencial.

Chegados aqui, depois de identificados alguns dos problemas a curto e longo prazo, importa debruçarmo-nos sobre formas de resolver estes problemas:

O primeiro ponto a ter em conta é que o ideal “mercado de livre concorrência” precisa de ser relativizado. Jamais poderá ser absoluto. Caso contrário, ou os concorrentes se aliam para não mais baixar os preços (e falseiam a concorrência, o que é ilegal…) ou então os concorrentes deixam de prestar o seu trabalho porque não estão para oferecer gratuitamente o seu produto/serviço de graça. Só assim, valorizando mais os rendimentos que o mercado, se consegue reter o talento que se forma nas nossas escolas e universidades.

O segundo ponto a ter em conta é exigir mais a quem quer vistos turísticos para, sub-repticiamente, permitir aos seus cidadãos que emigrem e não mais voltem. Dá imenso jeito, por exemplo, ao Brasil que os seus brasileiros viajem como turistas e depois apresentem uma manifestação de interesse para ficar em solo europeu, tal como dá jeito ao Brasil invocar o princípio da reciprocidade para dizer que os europeus também podem ir viver para território brasileiro quando quiserem. O problema é que nenhum pobretanas europeu quer voar para os braços abertos de um estado que pouco ou nada faz para melhorar a segurança das ruas, o estado das estradas e dos transportes, a educação primária e secundária, os serviços públicos, os preços dos supermercados, a ética patronal e os rendimentos de quem trabalha. Se um estado quer vistos turísticos tem de alcançar um patamar em que o princípio da reciprocidade se aplique num plano real (como ocorre entre Estados Unidos da América e a Europa) ao invés de um plano meramente teórico.

Terceiro ponto, apagar fogos no quintal do vizinho. Se a casa ao lado da nossa estiver a arder a reacção mais adequada será sempre levantar o rabo do sofá e ir ajudar o vizinho e bombeiros a apagar o incêndio. Caso contrário, o que sucederá à nossa casa? Os países europeus não podem continuar a permitir o corrente relaxo e o caos endémico nos países africanos. Se os povos africanos não conseguem assegurar a sua própria segurança interna e os seus dignatários roubam os fundos públicos ao invés de investirem em estradas e fortes projectos de agricultura e barragens, os estados europeus têm de intervir, exigir e, se for caso disso, repor a ordem. Caso contrário, continuarão a existir guerras civis e refugiados que, de forma totalmente justificada, fogem para solo europeu para competir em segurança com a mão-de-obra que cá já existe.

Uma última nota para referir que Elon Musk e todos os outros empresários dignos deste nome já se aperceberam que o futuro passará inevitavelmente pela exploração das estrelas; esta nossa casa não acolherá para sempre um tão grande número de pessoas.  Mas, no entretanto, e como a tecnologia ainda não nos permite fazer uma horinha daqui até Marte, é preciso defender até à exaustão a organização dos povos, a valorização dos rendimentos e o bem-estar das pessoas. Caso contrário, os movimentos populistas continuarão a aumentar. E a História está cheia de exemplos do horror e terror que estes movimentos populistas provocam quando chegam ao poder. Tanto para os estrangeiros como para os nativos.


Vox populi? Justa vox populi…

Por vezes ouvimos alguns populistas dizer: Vox populi, vox dei, que traduzido do latim para uma língua viva como a nossa significa voz do povo, voz de deus. É uma frase sonante, admito. Uma frase que até pode ter tido alguma relevância em eras seculares. Contudo, continuará a ter alguma razão de ser nos dias de hoje?

De um ponto de vista conotativo, podemos interpretá-la como um adágio que visa sensibilizar os patrícios políticos para os problemas da plebe votante. E deste ponto de vista até serve (algumas vezes, poucas, talvez pouquíssimas…) para pressionar a malta da política a mexer-se um bocadinho de modo a não perder votos nas eleições seguintes.

Contudo, se formos para um sentido mais literal, no sentido em que o povo normalmente interpreta, imaginem lá o Alto Pai da Criação ignorar o facto de a Organização Mundial de Saúde ter retirado a homossexualidade da lista de problemas de saúde há cerca de 32 anos — em 17 de Maio de 1990 mais precisamente — e repetir as mais recentes declarações de Khalid Salman (actual embaixador do Mundial 2022 no Catar e alguém que actualmente representa uma enorme falange do povo islamita). Imaginem lá a carantonha do Alto Deus a dizer-nos com o apontador levantado: “A homossexualidade é uma doença mental!”.

Enfim…

Por outro lado, deixemos os exemplos mais sonantes e estapafúrdios da actualidade. O que seria do povo de Deus se o próprio Deus começasse a repetir, por exemplo, as mais discretas e transversais vozes seculares do povo português: “Um olho no burro, outro no cigano”, “A mula e a mulher com pau se quer”, “A judeu e a porco não metas no teu horto” e “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Que Deus teríamos? Um Deus racista, misógino e xenófobo?

Pensemos.

Talvez exista mesmo uma expressão melhor e mais actual com tendências universalistas: Voz do povo? Só mesmo voz do povo…


Deixado em Paz

Um dia lá bem atrás –
Quando era um rapaz
Mas não queria
Ser um rapaz – pedia:

Deixem-me em paz!
Mas não sabia nada,
Não sabia correr atrás,
Não sabia a diferença

Entre um puto incapaz
E um tipo forte e capaz,
Não sabia mesmo nada
De nada, nem sequer sabia

Que ninguém acha a paz
Quando é finalmente deixado
Em paz e nessa mesma paz
É deixado também para trás.


Escravos de Linhas Imaginárias

Não é um homem, não é uma mulher,
É só e tão somente uma pessoa comum,
Que indefinida vida tinha, mas definida
Logo foi por um carimbo azul à chegada;

Definida por um adjectivo e os adjectivos
Diferenciam tal como leis, passaportes,
Funcionários, polícias, juízes e carrascos
Diferenciam pessoas que são só pessoas.

Chamam-lhes estrangeiros: São de fora!
Cumprem tantos deveres, mas e os direitos?
Separam-nos e metem-nos em filas imorais
Antes de repetirem: São ilegais! São ilegais!

E no fim são só pessoas com uma história,
Têm estudos, famílias, aspirações e sonhos,
São pessoas corajosas nascidas noutro lugar,
Não são só escravos de linhas imaginárias.


As Ceifas

Aguerrido quando jovem, viu de perto
A ceifa de mil amigos e, nesse aperto,
Mais de mil inimigos lá deixou decerto
Abandonados, pilhados e a descoberto.

Tanta morte amainou-lhe os ímpetos,
Refreou-lhe a paixão pelos insurrectos
Lutadores e, mesmo órfã de sonetos,
Ensinou-lhe a poesia e os seus afectos.

Assim, à paciência deu mais que um verso,
Compôs rimas para expor quem é diverso,
E pela paz versou ainda mais contra o adverso,

Mas os ceifadores deste infinito universo
Não querem a paz das pazes, querem o inverso:
Do homem bom querem só o ódio perverso!


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