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A propósito dos falados assédios e das suas vítimas…

O que vou contar a seguir é uma história verídica que se passou à minha frente:

Num antigo trabalho, tive uma Colega que em certo dia, enquanto procedia sentada a fazer o seu trabalho à frente de sensivelmente dez clientes (dava cartas numa mesa de póquer), teve o meu director agarrado às costas da sua cadeira a fazer movimentos pélvicos, quase como um cão com cio… só faltava babar-se e relinchar como um cavalo ejaculante!

Os clientes viram, nós, colegas de trabalho, vimos, as câmaras de segurança viram e quem quer que estivesse ali por perto também viu a minha Colega a ser alvo de uma “simples brincadeirinha” do director.

Alguns minutos depois, saída da mesa, a tal minha Colega veio bamboleando-se para junto de mim e de mais alguns colegas e, muito ofendida, refilava: “Vocês viram o que o fulano sicrano me fez? Parecia um cão agarrado à cadeira! Que nojo…”

Ora, ingénuo demais na altura e preocupado com uma colega de trabalho, perguntei-lhe revoltado: “Porque não disseste nada em frente a todos os clientes?” e acrescentei: “Tinhas envergonhado o cabrão em frente a toda a gente…”

E a minha cara Colega respondeu a sorrir: “Oh, ele é o director, não posso fazer nada…”

Sinceramente, com esta moda recente de apontar os dedos, ainda estou à espera de a ver vir para algum jornal a denunciar o porco do meu director…

Terá coragem agora quando não teve há alguns anos em que tinha montes de pessoas prontas a testemunhar a seu favor? Quando tinha câmaras de segurança a filmar o sucedido?

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Ébriando solitariamente…

Hoje à noite estava eu num bar
E, numa comichão, faltou-me o ar
Faltou-me o chão e faltaste-me tu,
Meu único par, para me amparar.

Estava só, rodeado de bêbados risos
E muitas piadas cheias de improvisos,
Mas, sempre em falta: os teus sorrisos
Amorosos e perfeitos e brancos e lisos.

Pior, as mesas do bar estavam cheias
Embriagando de alegria todas as veias
Mas, como um copo vazio e sem ideias,

Eu ia bebendo, bebendo e bebendo
Com mais a recordar do teu sendo
Do que para me ir de ti esquecendo.


A vida de um homem bom…

Não acreditava nada em missas
Nem nessas modas das castiças,
Preferindo furtar-se às preguiças
De acreditar cego em tais justiças.

Escuso de correr atrás dum centil
Brincava a sério e jogava-se infantil
Dum velho cantil para um novo cantil
Cantando ébrio e tocando gentil

Peitos ao sul e paixões ao norte,
Vivendo de espírito esperto e forte
Até que ricamente lhe faltou a sorte
E lhe chegou a pobre hora da morte.


CRÓNICA DE UM DIA ATAREFADO

O despertador tocou, a música chateando e as letras vermelhas piscando. Mais perro que as articulações dum velho ferrugento, arrastei-me para fora do ninho a custo. Tudo me dizia para ficar deitado menos a mãe que ainda me abre os cortinados.

Meio minuto depois, purga urinária matinal… ahhhh! e ablações normais: cara lavada à pressa com medo da água fria, desodorizante a queimar as axilas e o perfume a tentar afastar este cheiro ensonado que se ganha à noite e se vai perdendo até ao pequeno-almoço.

Apressando, o bolo da manhã embebido no café, o primeiro café do dia, tudo engolido sem grandes mastigares. Vai digestão!!! Tudo de empurrão!!!

Acelerando um poucochinho, o carro sai de marcha-atrás enquanto o cinto se prende e os óculos de sol se ajeitam na cana do nariz. O sol ainda se espreguiça a leste, mas que ninguém repare nestas olheiras cheias de vontades de não seguir em frente e de não apanhar este trânsito doido até ao trabalho. Todavia, o pior são estes ouvidos incapazes de se esquivarem a todas as buzinadelas matutinas. Mas que merda! Quem são os doidos que acordam com vontade de começar a refilar logo de manhã?!?!?

Chegado ao martírio, vejo que o escritório passou uma noite fria e  parece agora querer vingar-se em cima destes meus ossos que demoram a aquecer. E sim, o trabalho não me aquece, só me arrefece. Quem diz o contrário é porque não aprecia estar quieto, a gozar férias e a pensar que é tão bom não fazer a ponta dum…

E sabem? Os minutos até nem se esquecem de passar, mas o molhe de papeis que se começam a acumular em cima da minha mesa acumulam-se em câmara lenta, em s-l-o-w m-o-t-i-o-n… Mas donde será que vêm tantos papeis? Agarra-se numa folha, lê-se outra, torna-se atrás e, de repente, temos mais de mil páginas à frente ameaçando cegar-nos as vistas com tantas linhas escuras baralhando aquilo que já foi branco e da cor da neve. Às vezes, a vida de uma pessoa resume-se a linhas e mais linhas que se vão infinitando para lado nenhum.

Mas voltemos ao meu dia!

Para quem trabalha e não fuma, esqueçam a hora da bucha. Só nos resta contar até à hora do almoço… E como passa esta hora mais rapidamente que todas as outras. Minutos se passam até o prato do dia estar pronto, demora ainda mais um pouco a sobremesa, bebe-se o café e depois duma espreguiçadela lá está o ponteiro das duas da tarde a anunciar o tudo o que o mundo tem de mau: trabalhar sem nos deitarmos à sesta.

Por esta altura já se vai no segundo café, mas há sempre tempo para mais um ou dois quando se vai para fora do escritório. E agora? Os olhos muito abertos, não querendo pensar sequer em parar. No entanto, a lei manda: no tribunal os advogados só se levantam para alegações, o resto do tempo têm que estar sentadinhos a assistir aos alegadamente ladrãozecos, traficantes e demais putanheiros que só tiveram azar uma vez na vida: ser apanhados. Coitadinhos…

O ponteiro das rotações arranca-se e até se arronca se for preciso. Sempre a assapar pela autoestrada até ao escritório (fodam-se as coimas e as multas) tentando impedir que este sol que se vesperta caia de vez antes de eu terminar o dia.

Mas que diabos! Porque continua a minha secretária para ali cheia de trabalho?

E agora? E agora? E agora?

Esqueçam as seis, as sete e as oito.

Com sorte, sai-se às nove, nove mais cinco, nove mais dez…

Tudo para além disso é tão cruel que por breves segundos penso: mais valia ter-me alistado como paraquedista e ter pedido que me largassem no meio de uma zona de guerra. Que são tripas a voar, balas a zunir e gritos assustados comparado com o facto de termos de aguentar para lá das nove no escritório? Foda-se tudo e mais um pouco; trabalhar nem para quem gosta…

O que se gosta mesmo é quando se regressa finalmente a casa com um único desejo pulsando: purga total! Há finalmente tempo para cagar, tomar banho e, oh glória, uns cinco minutos para os cotonetes limparem a merda que ouvimos incessantemente durante o dia todo… Mais, alguma vez pensaram que toda a estupidez que ouvimos todos os dias, a toda a hora, vinda de todos os lugares possíveis e imaginários, pode ter efeitos nocivos? Quem nos garante que tantas baboseiras não nos envenenam aos poucos e poucos até por fim acabarem connosco? Limpem bem os ouvidos, meus amigos…

Por fim, uma ceia ligeira e, esperemos, um sono tranquilo.

Amanhã há mais, mas esperemos menos.

 


Cai lá fora…

Cai lá fora, molhada,
E, não caindo calada,
Cai, pinga a pinga,
Fria e um pouco gelada.

Cai no chão, no corrimão
Da varanda e batendo
Nos vidros das janelas
Se vai a nuvem escorrendo,

Se vai o calor esmorecendo
E se vai o Verão dizendo:
Cuidado que aí vem descendo,
Aí vem o Inverno chovendo!

 

 


O que está por trás da Catalunha livre?

Enquanto português, tenho alguma dificuldade em perceber os movimentos independentistas mais recentes dos nossos vizinhos. Custa-me perceber um povo (leia-se as suas massas…) que clamam por “Liberdade!” quando algo tão imaginário como fronteiras terrestres nunca impediu a liberdade de identidade de ninguém.

Algo curioso, e preocupado em entender o que não entendo, fui procurar os argumentos que sustentam então a referida Declaração de Independência da Catalunha:

  1. A Catalunha foi ocupada por Espanha!
  2. A Catalunha é explorada pelo governo de Espanha porque contribui mais em termos fiscais que as restantes regiões de Espanha!
  3. A Catalunha tem língua própria!

Ora, vejamos, quanto à ocupação espanhola da Catalunha, a Netipédia e os outros livros de História dizem que o Rei Fernando II de Aragão se casou, pacificamente, com a Rainha Isabel I de Castela. Deste casamento, para além da normal união das famílias, uniram-se territórios, povos e recursos. Falar em ocupação parece-me algo excessivo, não? Portugal foi ocupado por forças militares de Filipe II (I em Portugal), a Catalunha unificou-se a Espanha por vontade dos seus soberanos. Claro que depois houve egos, conflitos e zaragatas, mas isso não acontece em todas as ruas onde há vizinhos?

Quanto à exploração económica de Espanha, eu questiono: uma região mais rica não deve ajudar as outras mais pobres? Em vez de exploração que tal solidariedade? Só mesmo os ricos, e pobres de espírito, para não quererem ajudar os malsofridos… Será que o mundo deve ser assim tão egoísta? E não venham cá com conversas que sustentam os ciganos andaluzes, os pobres de Toledo ou os terroristas bascos… A Alemanha e os países nórdicos também dizem que sustentaram os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) durante a crise das dívidas soberanas e, como bem se sabe por cá, empréstimos não gratuitos não ajudaram ninguém. O que ajudou foi o trabalho das pessoas que com muito custo pagaram os seus impostos…

Por fim, a língua catalã. Será que algo tão bonito como uma língua (uma ferramenta ancestral de comunicação) deve ser tratado tão futilmente como arma de arremesso? Será o maior sinal de independência um povo ter a sua língua própria? Então o que farão os catalães se a Comarca do Vale de Aran, pertencente à Catalunha, disser que também quer a independência porque fala Aranês? Será que lha dão?

Sinceramente, desconfio que algo mais ande por trás destes indivíduos oportunistas que apenas desejam mais poder e dos paspalhos cheios de liberdades que apenas querem motivos para sair à rua para atacar polícias e clamar pela liberdade que, perdoem-me, não lhes falta desde que Franco morreu.

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De que adianta a luz do Sol?

De que adianta a luz do Sol
Se sem ti, e nesta escuridão,
Não vejo luzir nada de nada?

De que adianta o girar do Sol
Se sem ti, e nesta inexatidão,
Esta vida parece deseixada?

De que adianta o calor do Sol
Se sem ti, e nesta solidão,
Só sinto a minha pele gelada?

De que adianta o pôr-do-sol
Se sem ti, e nesta sofridão,
Nenhuma noite fica estrelada?

De que adianta o nascer do Sol
Se sem ti, e nesta ingratidão,
Não tenho tua boca apaixonada?