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Febres Passageiras

A comunicação social, as redes sociais, as políticas de comunicação de instituições públicas e privadas muito têm contribuído para as explosões febris, diarreias verbais e gestos revoltados que por vezes nos tomam.

Bandido! Incompetente! Burro! Corrupto!

Tudo sentenças sumaríssimas, tudo saques de gatilho rápido e, como é óbvio, tudo injusto.

Hoje estava a ver o meu clube jogar, em certo momento o clube adversário marcou um golo e eu chamei os nomes todos aos meus jogadores até findar a primeira parte e ainda durante o intervalo. Mais tarde, a minha equipa empatou e venceu por quatro golos de diferença.

Findo o encontro, volto a olhar para trás, recordo a primeira parte e percebo que fui algo precipitado e injusto. Estava temporariamente febril, atacado por uma imprópria linguagem e até os meus amigos assustei com os meus modos, admito.

Dir-me-ão que é futebol, que acontece; mas eu não gosto de desculpas.

ERREI!

Preciso de ser mais forte, mais ponderado. Preciso aprender a engolir mais um pouco deste coração tonto que me quer saltar pela boca e obrigar esta cabeça serena a devolvê-lo ao seu lugar, no centro do peito, levemente descaído para a esquerda.

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O Desolado

Segue o Desolado seu desfado
E não se ouve o passo arrastado,
Só o esbafo do cavalo cansado
E o abutre faminto e assustado.

Já a pé, rompe o céu e a bota,
Molha-se a meia até ficar rota
E das bolhas rompe uma gota
Triste pelo avistar da derrota.

Ruíram e arderam todas as obras,
Já nem no lixo restam as sobras
E só o perseguem agora as cobras.

Diz Desolado, a que te agarras
Tão derrotado e com as garras
Gastas? A que tanto te amarras?


Alienação Parental…

Dizem que és meu pai,
Mas em ti não acredito,
Oh ser celeste maldito!
Um pai que é bom pai

Não faz abandonado
O filho nem se cala
Ou se esfuma da sala
Quando convocado.

Pai tenho o que minha
Mãe escolheu, não tu:
Sempiterna adivinha

Sem cara, sem nada
E de paradeiro não sito
Em parte determinada!


As palavras demasiado fortes

Alguém que escreva regularmente sabe dar-se conta do poder das palavras. A título de exemplo, requerer e solicitar são palavras diferentes de pedir. Senão vejamos: requer-se o pagamento de algo, solicita-se um documento nas finanças e pede-se um favor a alguém.

Nessa senda, é diferente ter desejos pelo pipi, pela vagina e pela cona de uma mulher. No primeiro caso, podemos estar perante a demência da pedofilia, prevista e punida pelo nosso Código Penal Português; no segundo ansiamos formalmente pela rápida abertura de um par pernas despido; e, por fim, ao desejarmos uma cona significa que estamos sedentos de penetrar algum orifício putanesco que só serve mesmo para esse efeito.

Ora, observando o politicamente correcto em vigor, temos hoje liberdade para tudo; especialmente para utilizar sem medos a palavra cona e suas derivações como conaça (quando é mesmo boa) ou coninha (quando é mesmo apertadinha). Temos até a liberdade canibal para dizer “quero comer uma cona!”.

Ora, a verdade é que, para além de se utilizarem livremente palavras horríveis nos dias de hoje, estas palavras banalizaram também sentimentos de despreendimento e descarinho pela mulher, alguém que também tem sentimentos (pelo menos algumas…) e que também sente como nós, homens (desde prazer à dor, passando pelo orgulho até à humilhação).

Por isso, e chegando finalmente ao desenlace desta ideia, pensemos um pouco se as mulheres, qualquer delas, que nascem, caminham e morrem ao nosso lado neste passeio pela vida merecem ouvir faltas de educação constantes relativos à sua genitália.

Acho que não.

Existem sempre palavras mais bonitas para usar e, para os mais criativos, inventem novas palavras.

Claro que não faltarão criaturas que adorem ouvir uns bons palavrões quando as hormonas pululam na cama e que pedem, requerem e solicitam palavras feias quanto à sua mariazinha. Qual o mal de asneiras e de as utilizar aí? Nenhum, desde que o façam sem desrespeitar a pessoa que está com vocês.

Não sejam toscos nem brutos.

Respeitem!


A Bebida…

Um dia o meu pai disse-me que cinco minutos de bebedeira podem deitar por terra a reputação de uma vida inteira. Como estava envergonhado e achei as palavras mesmo sábias, acedi com a cabeça e fiquei calado. (Bebera demais numa noite de festa, correra o risco de morrer para ali abandonado na casa de um parceiro de copos que não conhecia assim tão bem e envergonhara-me a mim próprio.)

Enfim, repetindo-me para o sublinhar, aceitei que o meu pai tinha razão.

De um momento para o outro, deixamos de ser o Zé, a Maria, o Chico ou a Joana e passamos a ser aquele tipo que bebeu demais e se vestiu de mulher (procurem o significado de hijra), adormeceu na sanita enquanto o vomitava por entre as pernas, correu despido à volta do hotel enquanto abanava a gaita ao passar por um casal de velhotes, acordou para lá das fronteiras num bordel espanhol de terceira categoria ou descobriu que afinal as algemas não eram nenhum fetiche de uma senhora, mas sim uma agente da polícia a constituí-lo arguido por ser levemente mais estúpido que os outros. Acreditem, a palavra envergonhar é um puro e brandíssimo eufemismo para as parvoíces que as leveduras do álcool nos levam a alcançar.

Mas o que vale é que todos temos a típica história borracha para contar aos filhos e aos netos.

Viva a Bebida!!!


Admirável Mundo Novo

Admirável Mundo Novo

de

Aldous Huxley

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by ANTÍGONA

Depois de ter ficado algo traumatizado com a distopia de George Orwell, o célebre 1984, decidi arriscar-me com Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo e, tenho que dizer, o resultado foi inesperado para mim, ainda que em muito semelhante ao que me sucedeu com Orwell.

Primeiramente, há que dar mérito à posição de Huxley relativamente ao futuro.

Ao contrário do seu aluno Orwell (que vai ao extremo de nos causar o pânico total dizendo que no futuro o Big Brother Estado será capaz, através da dor, do medo e do terror, formatar o Indivíduo quanto ao que sabe, quanto ao que pensa saber e até, pasmemo-nos, quanto ao que sente…), Huxley, em termos muito simplistas aqui aflorados, defende que para controlar o Indivíduo, especialmente a longo prazo e com custos orçamentais baixos, será necessário o absoluto controlo da génese embrionária do sujeito e o absoluto condicionamento do mesmo sujeito ao longo do seu desenvolvimento físico e cognitivo, formatando-o para aceitar o regime político vigente (Cheio de classes que vai desde os alfas-mais até ao quase-abortos epsilões…), ao estilo de vida querido pelo Estado (Consumam aquilo que quiserem, fodam aquilo que puderem, mas tudo sem amor e sem famílias…) e a toda a ideologia que lhe está subjacente (“Nosso Ford…”, “Meio grama de soma…”).

Segundo ponto, o mundo “utópico” criado pelo Autor. É certo que nos arrepia um pouco aquelas fábricas de alfas-mais, de betas-menos e de deltas-caquis, mas, a meu ver, o Autor esmera-se por narrar tal civilização com toda a simpatia que um felizardo pai descreve um filho; algo que se revela essencial para percebermos que, ainda que nos cause estranheza, o Brave New World é um sítio onde impera uma total felicidade, ainda que forçada.

Todos são felizes nesse mundo…

Bem, todos talvez não!

Como mais tarde na história se verá, há um trio de personagens (apenas simpatizei com duas…) que, por variadas razões, prefere ser um liberto infeliz ao invés de um espécime condicionado feliz.

Terão feito a escolha certa?

É algo que apenas os leitores poderão responder.


A Espia

A Espia

de

Paulo Coelho

A-Espia.jpg

by Pergaminho

Mais um autor estreado e, após uma brevíssima leitura de duas noites, o que tenho para dizer desta pequena história acerca de quem foi Margaretha Gertruida Zelle, mais conhecida por Mata Hari?

Primeiramente, muito pouco quanto à narrativa em si mesma. Há o mergulhar na água e há o molhar o pé; e, neste caso, o Autor preferiu molhar apenas o pé em vez de mergulhar.

Terá feito de propósito?

Parece-me que sim. O fim último deste livro não é o de contar exaustivamente a verdadeira história de Mata Hari (está longe, muito longe de disso…), é sim o de utilizar uma figura exótica, por vezes perdida e algo enigmática para a maioria das pessoas para transmitir algumas mensagens do próprio Autor.

E aqui está um ponto forte: o português polido e ansioso por ser inspirador do Autor é agradável; muito agradável se ainda não forem leitores amargurados e desejosos de dizer mal dos chamados “guias de autoajuda”. Para estes, lembro que a maior parte dos livros têm mensagens. Algumas são subtis, outras são mais evidentes; mas a verdade é que todos os bons livros as têm.

Contudo, quanto a mim falo, eu gosto mesmo é de boas estórias, boas personagens e bons enredos. A Espia não pretende ser esse tipo de livro, pretende apenas utilizar uma figura da vanguarda feminina numa altura em que ainda vigorava o patriarcado conservador na Europa para inspirar as pessoas a não terem medo da própria identidade e, ainda mais importante, a abraçarem a sua própria identidade.