Monthly Archives: Abril 2018

Saudades

O mar, sem onda alta
E azul, um azul jamais
Avistado, sobressalta
Qualquer um dos locais

Nesta fortificada Malta
E eu, sozinho neste cais,
Sinto tanto a tua falta
Aqui como lá em Cascais.

Ou talvez mais – muitas
Mais, tantas e infinitas
Saudades que, malditas,

Até o peito se me corrói –
E magoa e ferra e só dói;
Mas não! Nada nos destrói!

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by Richard Harpum

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O Arco-íris

Quando éramos crianças, o arco-íris tinha sete cores,
Mas parece-me hoje que ele perdeu alguma tira de cor
Ou será apenas a névoa que ficou mais forte?
Talvez o tempo tenha passado e mudado o arco-íris
Tal como me mudou a mim, mas não mudou o facto de
Eu continuar apenas à tua procura e
Continuar a não te encontrar em lugar nenhum.

Fecho os olhos, olho para dentro,
Escuto o bate-bate do meu coração ecoando o teu nome,
Uma e outra vez, uma e outra vez, e
Peço-lhe com cuidado que aguente até te conseguir ver novamente,
Esperando igualmente que, ao contrário de mim, nada te tenha mudado…
Nem mesmo o tempo neste moribundo mundo cinzento,
Com esta maldita névoa que desaparecerá algum dia e,
Como deveria ser, devolverá o que nos roubou.

Em seguida, esbracejo e grito de tanto vazio que aqui vai
Enquanto por dentro se desarrumam, caóticas e sem ordem,
Uma data das mais desconsoladas questões:
O que perdi? O que perdemos?
Será que ainda te posso dar mão?
Ou será que já tens as mãos fechadas para mim?
Não sei… só sei que vai escurecendo a névoa.

A noite entrevada vai esbulhando, à vez, cada matiz do incompleto arco-íris e
Quando, finalmente, as trevas o apagam por completo do céu,
Envolvo-me no negrume, sozinho com os meus passos e
Só com uma gélida sinfonia: a dos pingos da chuva caindo e
A das minhas lágrimas castanhas escorrendo cheias dúvidas:
E se eu não tivesse vindo por aqui?
E se eu tivesse tomado outro caminho?

Abrando… e abrando porque não quero chegar ao fim desta ponte sem ti
Quero encontrar-te antes do final deste passadiço em que vou caminhando e
Quero encontrar-te bem, inteira, perfeita, raiando luz,
Talvez trazendo as sete nuances que faltam ao arco-íris no sorriso,
Talvez pronta a abraçares-me com carinho e,
Só depois, beijamo-nos e beijamo-nos e beijamo-nos
Até, já cansados de beijos, devolvermos juntos as setes cores que faltam ao céu.

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by kevinflemming88


Dói…

Hoje dói-me e talvez o mundo não veja a ferida, mas ela está cá. Pior que chaga, pústula ou trauma há esta aflição geral que se espalha sem motivo conhecido pela minha consciência e depois afecta o resto do meu corpo.

Como uma serpente rateira, ataca-me com o seu veneno durante a noite, quando me sinto em segurança, engrossa-me o sangue com uma letargia peçonhenta e amarra-me a vontade de continuar nesta desconfortável cama.

E não, não quero sair daqui desta cama porque dói levantar-me, porque dói caminhar para o trabalho, porque dói trabalhar, porque dói, porque dói, porque dói apenas e tão só  porque dói continuar nesta rotina: levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama, levantar, trabalhar, comer, trabalhar, casa, comer, cama…

E o mundo vê um sorriso e pensa que está tudo bem, mas não está.

Dói…

Dói…

Dói…

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by Masahiro Ito