Monthly Archives: Dezembro 2017

O Bem e o Mal

O Bem e o Mal

de Camilo Castelo Branco

Curioso acerca da obra de Camilo Castelo Branco, o primeiro escritor português a viver inteiramente da escrita (ajudado pela Sra. Dona Ferreirinha…), e tendo por casa alguns livros duma colecção incompleta, resolvi pegar nas duzentas e seis páginas d’O Bem e o Mal.

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Por conseguinte, abri o livrinho e, assim de rajada, deparou-se-me a palavra quietude.

Ora, hoje em dia a quietude de um primeiro capítulo é algo raro (e alguns dirão mesmo: é algo raro porque é chato!). Contudo, no século dezanove não havia televisão nem havia videojogos, computadores e muito menos telemóveis. Vale por dizer que os fiéis leitores daqueles tempos tinham menos entreténs e mais tempo e mais paciência para descobrir um livro do que os apressados consumidores de livros de hoje.

Adentrando na obra, vamos descobrindo um verdadeiro melodrama típico do Romantismo (movimento artístico surgido nos finais do século dezoito e boa parte do século dezanove).

Nesta senda, com algum humor e ironia à mistura, o Autor apresenta-nos um rol de personagens que nenhum escritor da actualidade se atreve a copiar. A almejada alvura de espírito, por norma destinada a uma vítima, a um mentor ou a um protagonista, é nesta obra transversal a quase todos os personagens. Com um ou outro pormenor aqui e ali que diferencia uma ou outra personagem, a verdade é que, tirando os infames vilões, todos os outros são um festim para quem gosta de zombar das chamadas personagens unidimensionais.

Há o nobre fidalgo (ainda que teimoso e com raízes preconceituosas) que abriga em sua casa um casal de irmãos órfãos (um vigário ponderado e uma virgem mui discreta) e um justo e bravo Casimiro cujo peito é atacado pela filha mais doce e santa do nobre fidalgo. Por fim, como se todas as anteriores não fossem suficientes boas de alma, há o amável lavrador Ladislau, o incansável carpinteiro, a enigmática Condessa de Azinhoso, o João pastor, Dona Brites e, certamente, outros cujo nome não invocarei mas que ficam igualmente lembrados enquanto santas almas incapazes de malevolências que se rebelam contra a infâmia da tragédia e da maldade.

Dirão os críticos consensualmente e os actuais consumidores de livros que tanta bondade enjoa, que não é real e peca por não representar a sociedade em que vivemos. Ora, presumo que o Autor sabia isso mesmo e, portanto, com alguns laivos irónicos, não deixou de confrontar as mesmas personagens com alguns problemas da sociedade daquela época; problemas, aliás, que continuam hoje por resolver como a diferenciação negativa das antigas famílias, a falta de limites da liberdade de imprensa, o valor do silêncio de um arguido, a tendência maliciosa do homem que vive em sociedade e outros que agora não desvendo. Nas mãos de um grande escritor, a unidimensionalidade é só mais uma ferramenta para criar uma grande obra.

Enfim, é uma obra de outros tempos, mas com alguns apontamentos que ainda hoje relevam.  É uma obra a ser lida e relida pelo enorme manancial de verbos e adjectivos que nela se bem primam. E, por fim, é uma obra para quem, ainda hoje, dá valor à nossa língua portuguesa.

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O Legado Skywalker

Há teorias que defendem que Star Wars é muito mais que a história da família Skywalker. Permitam-me discordar! A história de Star Wars pode ter muitos nomes, muitas famílias, muitos grupos, mas a verdade é que todo a galáxia Star Wars gira em torno da sua família principal: os Skywalker!

Luke Skywalker, com o seu lightsaber azul ou verde, é o maior herói da ficção científica de todos os tempos, Darth Vader (Anakin Skywalker), e a sua assustadora respiração, é o maior vilão de ficção científica de todos os tempos (talvez de todo o cinema) e, gostem ou não gostem, a Princesa Leia Organa (também uma Skywalker) será para sempre a princesa das princesas da ficção científica.

São marcos cinematográficos, são marcos do género e são marcos da própria cultura adepta de ficção científica!

Assim, foi com espanto que recebi a notícia que a Disney quer acabar com esta família. Perdoem-me, mas que merda de estratégia é esta? Querem lá pôr que famílias? A dos realizadores? O cavaleiro jedi Mickey? A princesa Minnie? O R2 – AÚÚ do Pateta?!?!?

Que raio de ideia é essa?

Pensar em Star Wars sem Skywalkers é pensar em Piratas das Caraíbas sem Jack Sparrow, em Transformers sem autobots, em Jurassic Park sem dinossauros, em Harry Potter sem Harry Potter, em 007 sem James Bond, em Indiana Jones sem Indiana Jones e por aí fora…

Não é estúpido, é um desrespeito completo!

E, vamos lá ver, eu não quero nem exijo que todos os filmes de Star Wars tenham um Skywalker como protagonista. Mas exijo, enquanto fã, enquanto consumidor de todo o tipo de produtos Star Wars, que não acabem com o Legado Skywalker!

No entanto, com o último filme que vi, temo que o Lado Negro da Disney ganhe!

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Alienação Parental…

Dizem que és meu pai,
Mas em ti não acredito,
Oh ser celeste maldito!
Um pai que é bom pai

Não faz abandonado
O filho nem se cala
Ou se esfuma da sala
Quando convocado.

Pai tenho o que minha
Mãe escolheu, não tu:
Sempiterna adivinha

Sem cara, sem nada
E de paradeiro não sito
Em parte determinada!


As palavras demasiado fortes

Alguém que escreva regularmente sabe dar-se conta do poder das palavras. A título de exemplo, requerer e solicitar são palavras diferentes de pedir. Senão vejamos: requer-se o pagamento de algo, solicita-se um documento nas finanças e pede-se um favor a alguém.

Nessa senda, é diferente ter desejos pelo pipi, pela vagina e pela cona de uma mulher. No primeiro caso, podemos estar perante a demência da pedofilia, prevista e punida pelo nosso Código Penal Português; no segundo ansiamos formalmente pela rápida abertura de um par pernas despido; e, por fim, ao desejarmos uma cona significa que estamos sedentos de penetrar algum orifício putanesco que só serve mesmo para esse efeito.

Ora, observando o politicamente correcto em vigor, temos hoje liberdade para tudo; especialmente para utilizar sem medos a palavra cona e suas derivações como conaça (quando é mesmo boa) ou coninha (quando é mesmo apertadinha). Temos até a liberdade canibal para dizer “quero comer uma cona!”.

Ora, a verdade é que, para além de se utilizarem livremente palavras horríveis nos dias de hoje, estas palavras banalizaram também sentimentos de despreendimento e descarinho pela mulher, alguém que também tem sentimentos (pelo menos algumas…) e que também sente como nós, homens (desde prazer à dor, passando pelo orgulho até à humilhação).

Por isso, e chegando finalmente ao desenlace desta ideia, pensemos um pouco se as mulheres, qualquer delas, que nascem, caminham e morrem ao nosso lado neste passeio pela vida merecem ouvir faltas de educação constantes relativos à sua genitália.

Acho que não.

Existem sempre palavras mais bonitas para usar e, para os mais criativos, inventem novas palavras.

Claro que não faltarão criaturas que adorem ouvir uns bons palavrões quando as hormonas pululam na cama e que pedem, requerem e solicitam palavras feias quanto à sua mariazinha. Qual o mal de asneiras e de as utilizar aí? Nenhum, desde que o façam sem desrespeitar a pessoa que está com vocês.

Não sejam toscos nem brutos.

Respeitem!


A Bebida…

Um dia o meu pai disse-me que cinco minutos de bebedeira podem deitar por terra a reputação de uma vida inteira. Como estava envergonhado e achei as palavras mesmo sábias, acedi com a cabeça e fiquei calado. (Bebera demais numa noite de festa, correra o risco de morrer para ali abandonado na casa de um parceiro de copos que não conhecia assim tão bem e envergonhara-me a mim próprio.)

Enfim, repetindo-me para o sublinhar, aceitei que o meu pai tinha razão.

De um momento para o outro, deixamos de ser o Zé, a Maria, o Chico ou a Joana e passamos a ser aquele tipo que bebeu demais e se vestiu de mulher (procurem o significado de hijra), adormeceu na sanita enquanto o vomitava por entre as pernas, correu despido à volta do hotel enquanto abanava a gaita ao passar por um casal de velhotes, acordou para lá das fronteiras num bordel espanhol de terceira categoria ou descobriu que afinal as algemas não eram nenhum fetiche de uma senhora, mas sim uma agente da polícia a constituí-lo arguido por ser levemente mais estúpido que os outros. Acreditem, a palavra envergonhar é um puro e brandíssimo eufemismo para as parvoíces que as leveduras do álcool nos levam a alcançar.

Mas o que vale é que todos temos a típica história borracha para contar aos filhos e aos netos.

Viva a Bebida!!!