Category Archives: Vida

Obsessivo Compulsivo

Sim… eu sei que não devia
Ter seguido na sinistra via
Em que mal me via, todavia
As vozes que em mim ouvia –

Doidas retorcidas e doidas
Incontidas – pediam devidas
Medidas, exigiam insupridas
Praxes e reclamavam ávidas

Um eterno silêncio resoluto
Enquanto o mal com que luto
Alastrava e, bem convoluto,
Me desarmava em absoluto…

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Turtles All The Way Down

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Turtles All The Way Down
de John Green

Primeira imersão na obra deste Autor que me chamou a atenção pelas histórias que serviram de base aos filme  The Fault in Our Stars (que apesar de muito bom não pretendo voltar a ver tão depressa…) e Paper Towns.

E o que achei?

Bem, quanto ao argumento, tem um fio condutor narrativo pequeno pequenino: O que sucedeu ao pai milionário do interesse amoroso de Aza Holmes. O que se passou? E é basicamente isto.

Claro que tal enredo pequeno pequenino é de propósito, uma vez que o objectivo do Autor é dar-nos a conhecer Aza Holmes, ou Holmesy (como carinhosamente é tratada pela sua melhor amiga…); uma miúda aparentemente normal que vive com um transtorno obsessivo compulsivo bastante inquietante.

Através da própria experiência do Autor, tomamos contacto do modo como esta doença se manifesta silenciosamente mesmo que à vista de todos, os diversos problemas que esta doença causa e os perigos que representa para quem dela sofre. Os rituais exaustivos sempre obrigatórios, os problemas relativos ao isolamento, a capacidade de não conseguir revelar o que se passa mesmo quando quer, o sofrimento causado pela consciência da presença da loucura e, por fim, o risco para o próprio corpo.

O Autor aborda bastante bem este problema e através de metáforas objectivas e certeiras consegue-nos mostrar um pouco da aflição com que algumas pessoas se debatem diariamente.

E está muito bem conseguido até aqui.

E digo até aqui porque em certo ponto, bastante perto do final, percebemos que alguém conta a história mas de uma forma algo atabalhoada. O Autor era capaz de ter um pouco mais para dar na minha humilde opinião e tal não tornaria o livro demasiado cansativo.

Aza Holmes é uma menina que fica nos nossos corações.

PS: Uma breve nota de rodapé para a minha discordância quanto ao título dado pela editora portuguesa à tradução da obra. Ainda que perceba perfeitamente o título Mil Vezes Adeus preferia uma tradução mais aproximada de Turtles All The Way Down; algo como É só Tartarugas Por Aí Abaixo ou Tartarugas Até ao Infinito ou Tartarugas e Tartarugas e Tartarugas. É que a primeira é uma possível interpretação de um leitor; o título original remete-nos para o que é realmente importante nesta história: o problemático eu interior de Holmesy.


Febres Passageiras

A comunicação social, as redes sociais, as políticas de comunicação de instituições públicas e privadas muito têm contribuído para as explosões febris, diarreias verbais e gestos revoltados que por vezes nos tomam.

Bandido! Incompetente! Burro! Corrupto!

Tudo sentenças sumaríssimas, tudo saques de gatilho rápido e, como é óbvio, tudo injusto.

Hoje estava a ver o meu clube jogar, em certo momento o clube adversário marcou um golo e eu chamei os nomes todos aos meus jogadores até findar a primeira parte e ainda durante o intervalo. Mais tarde, a minha equipa empatou e venceu por quatro golos de diferença.

Findo o encontro, volto a olhar para trás, recordo a primeira parte e percebo que fui algo precipitado e injusto. Estava temporariamente febril, atacado por uma imprópria linguagem e até os meus amigos assustei com os meus modos, admito.

Dir-me-ão que é futebol, que acontece; mas eu não gosto de desculpas.

ERREI!

Preciso de ser mais forte, mais ponderado. Preciso aprender a engolir mais um pouco deste coração tonto que me quer saltar pela boca e obrigar esta cabeça serena a devolvê-lo ao seu lugar, no centro do peito, levemente descaído para a esquerda.


Luz Eterna…

E vindo o Fim do Mundo
Em fogo, gelo e destroços
Mergulhados neste fundo
Do abismo cheio de ossos,

O amor, sincero e profundo,
Resistiu, aliando esforços,
Floriu, mesmo sujo e imundo,
E gerou frutos como reforços.

Ah! que luz eterna, brilhante
E das estrelas mui semelhante
Ligando todo o perdido distante.

Ah! que luz tão quente e forte
Desafiando os filhos do desnorte
E amparando-os até à morte!


Alienação Parental…

Dizem que és meu pai,
Mas em ti não acredito,
Oh ser celeste maldito!
Um pai que é bom pai

Não faz abandonado
O filho nem se cala
Ou se esfuma da sala
Quando convocado.

Pai tenho o que minha
Mãe escolheu, não tu:
Sempiterna adivinha

Sem cara, sem nada
E de paradeiro não sito
Em parte determinada!


As palavras demasiado fortes

Alguém que escreva regularmente sabe dar-se conta do poder das palavras. A título de exemplo, requerer e solicitar são palavras diferentes de pedir. Senão vejamos: requer-se o pagamento de algo, solicita-se um documento nas finanças e pede-se um favor a alguém.

Nessa senda, é diferente ter desejos pelo pipi, pela vagina e pela cona de uma mulher. No primeiro caso, podemos estar perante a demência da pedofilia, prevista e punida pelo nosso Código Penal Português; no segundo ansiamos formalmente pela rápida abertura de um par pernas despido; e, por fim, ao desejarmos uma cona significa que estamos sedentos de penetrar algum orifício putanesco que só serve mesmo para esse efeito.

Ora, observando o politicamente correcto em vigor, temos hoje liberdade para tudo; especialmente para utilizar sem medos a palavra cona e suas derivações como conaça (quando é mesmo boa) ou coninha (quando é mesmo apertadinha). Temos até a liberdade canibal para dizer “quero comer uma cona!”.

Ora, a verdade é que, para além de se utilizarem livremente palavras horríveis nos dias de hoje, estas palavras banalizaram também sentimentos de despreendimento e descarinho pela mulher, alguém que também tem sentimentos (pelo menos algumas…) e que também sente como nós, homens (desde prazer à dor, passando pelo orgulho até à humilhação).

Por isso, e chegando finalmente ao desenlace desta ideia, pensemos um pouco se as mulheres, qualquer delas, que nascem, caminham e morrem ao nosso lado neste passeio pela vida merecem ouvir faltas de educação constantes relativos à sua genitália.

Acho que não.

Existem sempre palavras mais bonitas para usar e, para os mais criativos, inventem novas palavras.

Claro que não faltarão criaturas que adorem ouvir uns bons palavrões quando as hormonas pululam na cama e que pedem, requerem e solicitam palavras feias quanto à sua mariazinha. Qual o mal de asneiras e de as utilizar aí? Nenhum, desde que o façam sem desrespeitar a pessoa que está com vocês.

Não sejam toscos nem brutos.

Respeitem!


A Espia

A Espia

de

Paulo Coelho

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by Pergaminho

Mais um autor estreado e, após uma brevíssima leitura de duas noites, o que tenho para dizer desta pequena história acerca de quem foi Margaretha Gertruida Zelle, mais conhecida por Mata Hari?

Primeiramente, muito pouco quanto à narrativa em si mesma. Há o mergulhar na água e há o molhar o pé; e, neste caso, o Autor preferiu molhar apenas o pé em vez de mergulhar.

Terá feito de propósito?

Parece-me que sim. O fim último deste livro não é o de contar exaustivamente a verdadeira história de Mata Hari (está longe, muito longe de disso…), é sim o de utilizar uma figura exótica, por vezes perdida e algo enigmática para a maioria das pessoas para transmitir algumas mensagens do próprio Autor.

E aqui está um ponto forte: o português polido e ansioso por ser inspirador do Autor é agradável; muito agradável se ainda não forem leitores amargurados e desejosos de dizer mal dos chamados “guias de autoajuda”. Para estes, lembro que a maior parte dos livros têm mensagens. Algumas são subtis, outras são mais evidentes; mas a verdade é que todos os bons livros as têm.

Contudo, quanto a mim falo, eu gosto mesmo é de boas estórias, boas personagens e bons enredos. A Espia não pretende ser esse tipo de livro, pretende apenas utilizar uma figura da vanguarda feminina numa altura em que ainda vigorava o patriarcado conservador na Europa para inspirar as pessoas a não terem medo da própria identidade e, ainda mais importante, a abraçarem a sua própria identidade.