Monthly Archives: Junho 2016

brexit

É mais fácil dividir um país do que unir uma nação tal como é mais fácil um divórcio do que um engate. Este precisa de química emocional, de faíscas invisíveis e do avante conquistador. Contudo, para um divórcio, basta bater com uma porta e fazer-se esquecido de tudo quanto bom sucedeu antes de voltar à orgulhosamente posição de solteiro. O problema é que, por muito que se embarque em ressacas orgiásticas e em mil engates de “uma noite e chega”, inevitavelmente, as memórias virão ao de cima.

Os Brexitistas padecem do mesmo mal.

Quando forem recordados do que é a existência de alfândegas no Canal da Mancha, do que são taxas alfandegárias por tudo e por nada, das inevitáveis fugas de capital, do que é voltar a pertencer a uma insularidade solitária e afins… aí sim verão do que se esqueceram no maldito referendo.

E se dúvidas houvesse, “sim” e “não” são as respostas mais perigosas do mundo.

É mais fácil dividir do que unir.

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Caindo do Céu

Quem quer ir para o céu?
Porque querem ir para lá?
Não se bastam com a terra
De cá? Lá em cima tudo cai:
Os arcanjos solitários caem
Exilados pelo omniprepotente
As nuvens cheias precipitam-se
Chorando de forma comovente
As belas estrelas também caem
Num fogo embrasacadente,
Os pássaros vão tombando
Quando se esgota a corrente
E até os dois astros magnos
Se quedam ali pelo poente.
Será que queremos subir?
Será que queremos cair?
Não sei, por isso repito:
Quem quer ir para o céu?

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Fallen Angel


Dissertando um pouco sobre o Português

A língua portuguesa, uma amálgama de verbos latins, nomes gregos e adjectivos exóticos, é o bem cultural mais valioso para a comunidade lusa e para as restantes comunidades que partilham essa mesmíssima língua.

Não sei, ou pelo menos, noto pouco o que sucede com o inglês e os seus sotaques ou o francês e os seus crioulos ou ainda o castelhano e seus afins. Noto, no entanto, uma diferença abissal entre o português de Portugal, o português do Brasil e o português de Angola e de Moçambique. E utilizo as proposições “de” e “do”porque efectivamente considero-a, a língua, um bem público de todos os que se servem dela. O português é uma língua sem patrão e sem rei.

Não vou falar do abstruso AO, porque está tudo dito por outros mestres. Vou deter-me a falar do sentimento que corre em cada vez que uma palavra portuguesa sai da boca de alguém, tenha ele que nacionalidade tenha:

O português que nasceu em Portugal é hoje uma língua refinada pelo quase mil anos de existência. É hoje um objecto imaterial que serve de matéria bruta para vários escritores, novos e velhos, nos maravilharem como tão bem sabem fazer cada vez que se servem de uma caneta. O desenvolvimento económico dos últimos trinta anos, o aumento da literacia portuguesa e o aumento da idade de escolaridade obrigatória, veio formalizar e tecnificar um pouco aquilo que os portugueses dizem. Hoje, aqui, não se diz escola, não se diz contínua nem se diz trolha; diz-se estabelecimento escolar, diz-se técnica de manutenção e limpeza e diz-se servente de pedreiro. As idiossincrasias vigentes, mormente aquelas que estão nos centros do poder, optam por utilizar muitas palavras para dizer cada vez menos. Utilizam esta manha sofista para se refugiarem nos tempos e modos verbais e nos “se” quando alguma inconsistência ou falsidade se desmascara. É uma língua cada vez mais preocupada em falar juridicamente bem de forma a que o martelo e a espada não lhes caia em cima. Por outro lado, no português das gentes portuguesas continua a ressoar aquele desfado fadado a esperar por um passado melhor e um futuro descansado. Essa nostalgia traduz-se nos comuns: “Vai-se andando!” e “Um dia de cada vez…” ou então em “Estamos à espera…”. Acho normal que assim seja num país que já foi tão poderoso e influente e hoje tem apenas orgulho naquele jogador da Madeira que dizem que é o melhor do mundo. “Uma tristeza, é o que é!”

No Brasil o caso é o inverso. Toda a palavra é alegria e humor mesmo no meio do caos social em que o país se encontra mergulhado. A “vida serve para ser vivida”, ou sambada nas ruas  ou sem pudor nos bailes funks ou abraçada nos bailes do forró ou ao som da música sertaneja. A palavra é dita com o orgulho de quem não tem nada e que não precisa de mais nada senão de se fazer ouvir. A formalidade e refinamento do português de Portugal é substituída pela informalidade e pela graciosidade que se delonga em sílabas completamente pronunciadas; sempre com alegria. A facilidade de expressões como “Oi, meu amor!” surgido no trato com um cliente ou “Tá traquilo…” surgido do fecho de um contrato tem o condão de tornar a língua calorosa. E todos nós queremos mais o calor do que o frio, não é? É um português sem medo, e às vezes preguiçoso, esse que vive e cresce na América do Sul.

Por último, o português dos angolanos e dos moçambicanos. Como é óbvio, e como não podia deixar de ser, as diferenças entre os dois portugueses falados existem. Existem vários, inúmeros, dialectos que se utilizam às vezes paralelamente e outras vezes conjuntamente com a língua portuguesa, o que, nestes últimos casos, enriquece ainda mais uma língua tão tropical como a portuguesa. O quimbundu (Angola) e o maconde (Moçambique) são apenas pequenos grandes exemplos dos inúmeros linguajares que se usam para cortejar moças e ofertar sorrisos nestas nações tão jovens. No entanto, há algo que os liga. Cada frase de um angolano ou de um moçambicano pode conter tanto uma tentativa de falar bem melhor que os outros, o que às vezes se torna cómico, ou então pode sentenciar uma lei universal. A tragédia é tanta que maior parte dos vintegenários destes dois países sabe mais com vinte anos do que os velhos restelares que se arrastam com os seus fatos e gravatas gastas de Portugal e do Brasil. Algo como “Tudo cai do céu, até as nuvens…” obriga-nos a um silêncio solene e algo como “O burro acompanhado do leão não fala ao cavalo.” leva-nos de imediato a perceber o quanto devemos ignorar aqueles parceiros que se tornaram chefes e agora não nos falam. Há um timbre diverso entre estes dois países, mas a autoexigência de sentimentalizar uma palavra é comum. Isto leva-me a uma questão existencial: Para que estudei eu tanto se os velhos-moços de África logram com as suas histórias transformar substantivos comuns em verbos tão incomuns como precisos para cada situação? Aquilo que dizem logra fazer-nos sentir e entender aquilo que nos querem dizer; objectivo essencial de qualquer meio de comunicação.

E até podia concluir dizendo que a nossa língua é maravilhosa e continuar num rol de adjectivos infindável. Mas acho que já todos sabemos disso. Por isso, deixem de idolatrar o jogador da Madeira e permitam-se a adorar a Vossa Língua.


Linguajando…

Tantos idiomas e porque me calas?
Quantos verbos e verbetes para apenas
Durar este silêncio? Pouco falas
E eu falo mais, tudo sem cantilenas,

Ou talvez incerto desdiga torto
Aquilo que está certo neste peito,
A voz treme mas eu não me importo:
Até esse nariz em ti é perfeito!

Tu não queres uma língua correcta
E eu quero dizer tudo o que quero
Com a linguagem mais incorrecta
Que conheço, quero ser sincero

E dizer-te: meu amor, por sinais,
Versos ou em rimas imprecisas, eu
Quero ser tudo aquilo de que precisas
Para viver e para amar, nada mais.

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The Vampire Diaries


Mia Couto

Qual o papel de um escritor? Questão pertinente, às vezes facilmente respondidas, outras vezes debatida com ferocidade. Vamos lá arregaçar as mangas:

Será que o papel do escrito é escrever apenas sobre a condição humana? Será que é apenas inventar mundos, personagens e mensagens? Mensagens sublimes? Mensagens claras? Mensagens poéticas?

Mais!

Será que um escritor é um brincador de palavras, um troca-definições, dizer verde misturando as palavras verde e amarela? Apenas isso?

Mais!

Será alguém que nos motiva a sonhar? Será alguém que nos motiva a conhecer?

Mais!

Um escritor, seja ele de que quadrante for, desde que seja escritor verdadeiro, não um mero escrevente, é um catalisador de emoções, um estimulador emocional e alimentador da alma.

Obrigado Mia Couto, por escreveres aquilo que escreves.


Ainda entre lobos e ovelhas

Li ontem  a opinião “As costas de Bruce”, de António José Saraiva; mais uma opinião sobre a carneirada e sobre os lobos solitários. Dizia o homem, em síntese vertiginosa, que não se revê na multidão que apoia e vibra com um concerto musical e vai ainda mais longe ao referir que as pessoas idolatram os cantores porque ao deixarem de ir a celebrações religiosas passaram a ter necessidade de encontrar outros recantos onde possam pôr fim à necessidade de celebrar em conjunto os seus instintos de pertencer à carneirada. Para finalizar, critica ainda os artistas por não saberem envelhecer e continuarem a tentar ser aquilo que eram há trinta ou quarenta anos atrás.

Ora, sob pena de as opiniões se transformarem em meras manifestações de preferências, é preciso ter cuidado, mais uma vez, e não estereotipar uma multidão de pessoas.

Senão vejamos o absurdo:

Eu não gosto de pagar com cartão de débito, pago só com dinheiro. Prefiro assim porque todo o resto do mundo paga com cartão. Como eu não pertenço esmagadora maioria, à carneirada, sou lobo… AUUUUUU!!!

Eu não gosto de modas só porque não gosto de modas… Quem gosta de uma, por mais útil que seja, é carneiro. Logo, eu sou lobo… AUUU!!!

Eu não gosto de andar de carro porque todas as pessoas andam de carro. Eles são carneiros e eu sou lobo… AUUUU!!!

Alguém percebe onde quero chegar? Não são os nossos gostos pessoais que nos permitem afirmar a nossa qualidade de lobo e a qualidade de carneiros dos outros.

O que nos distingue, lobos e carneiros, é o facto de pensarmos por nós próprios e aceitar ou negar tendo consciência do que aceitamos ou negamos. Por exemplo, eu sei que fast food me faz mal e ainda assim não me importo de comer esse lixo uma vez por mês. É essa consciência que me faz não pertencer à carneirada. Bem diferente é a questão de comer porque os outros comem.

O condicionamento da alma não se infere porque se está no meio de dezenas de milhares de pessoas a celebrar um evento. Infere-se é de comportamentos não lógicos, como tendências homicidas e contra a vida em geral (Terroristas e psicopatas e sociopatas), quando lhe é ensinado pela sociedade todos os valores contrários. Celebrar a alegria, obter o prazer para o corpo e para a alma é lógico, ainda que hedonista, mas não é instinto de carneiro.

Pode levantar-se a seguinte questão: todos os hábitos criados ou que ainda se vão criar, por mais quotidianos ou menos quotidianos, tendem para transformar os seus habitantes em carneiros? Se assim for, pensar, hábito dos hábitos para os mais racionalistas, também os vão tornar carneiros mentais? Se assim for… estamos tramados.

Portanto, todos temos os nossos gostos. Não há é que dizer que quem gosta de ir a concertos, a estádios de futebol ou à Praça do Marquês de Pombal celebrar um título pertence à carneirada. Isso, desculpem-me, é a arrogância dos opinadores/manifestadores de preferências a falar; algo que, infelizmente, também parece estar na moda ao invés das nostálgicas opiniões o mais objectivas possíveis.

 

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