Category Archives: Boca

Desinspiração

A chuva cinzenta não
Borrou a tinta destas
Rimas nem destes versos;
Faltam-me os verbos e
Não, não foi o vento
Que levou minha arte.
Fugiram-me do peito a
Musa morena e os nomes
E os pronomes, todos eles
Fugiram, como um moscardo,
A este bardo, deixando-me só
Desinspirado e desvairado.

 

Anúncios

Meia-Volta…

Preguiçosa e toda despida
Dás meia-volta na nossa cama
E, como única contrapartida,
Exiges amor a quem tanto te ama.

Nada humilde e toda convencida
Pedes mais beijos e algum drama
Para chorar a infalível despedida
Que embacia um pouco esta chama.

Mas passam os minutos e nada muda
O lençol foge-te, deslizas-te desnuda
E eu, manhoso, aumento minha ajuda

Até, por fim, renovarmos – pelados,
Nunca calados e por vezes demorados –
Os nossos votos quentes e enamorados.


Pequeno, pequenino…

Hoje sinto-me pequeno, pequenino,
Nada homem, muito menos homenzinho,
Só um idiota armado em engraçadinho.

E bem me podes castigar, mas castigado
Já eu estou só por teus olhos fazer chorar
Tanto que entre soluços te falta o ar.

Magoei o peito que não devia magoar
Feri o coração que nunca devia ferir
E entristeci quem nunca devia ficar triste.

Hoje sinto que sou torpe, sujo e imundo!
Sinto que sou só erros e vergonhas
E sinto que só sou culpas sem desculpas…

Forgiveness-hands-rock.jpg


Perito em Desgosto

Tenho bastante mau-gosto
E, bastante a contragosto
E ao contrário deste Agosto,
Me aperitei em teu desgosto.

E eu queria ser mais forte,
Ser bastante melhor consorte
E andar contigo noutro porte,
Mas, má-sorte, sou um desnorte.

Tenho uma língua puta e poluta,
Uma língua de estupidez absoluta,
Mas aqui estou, de forma resoluta,
Pois, por ti, continuo nesta luta.

 

Forgiveness-hands-rock.jpg


Dia de Praia

Há o cheiro quente da areia
Que me amolece, me alheia
E me purga qualquer ideia
De me erguer, o que já rareia.

Marulhando o mar, fico ouvindo,
Calmo e néscio, o indo e vindo
Que me embala por um eco lindo:
Um eco azul oceânico e bem-vindo.

Por fim, suave, a mão companheira
Do meu lado, preguiçosa e soalheira,
Que faz de mim sua espreguiçadeira
E me abusa com sua boca beijoqueira.


A minha única lei

Em sorrisos de largura amena
Minhas mãos e a sua dezena
Acarinham essa pele morena

E, sem verbos, mas com o eco
Dum silêncio inquieto, eu peco
Mais que mil ladrões num beco.

Beijo-te muito e por todo o lado
E tu, às tantas, num sonoro brado
Pedes-me alto: só mais um bocado!

Nesse momento, serei eu um rei?
Talvez sim, talvez não; não o sei,
Só sei que o amor é minha única lei.


Essas Palavras…

Essas palavras sem compromisso
Que te fogem da boca sem serviço
E se cravam como espinhos de ouriço
Nesta carne de homem quebradiço.

Essas palavras com que mal me chamas
A esses lábios e que saltam como escamas
E me descamam dos desejos e das camas
Ferem mais do que aquilo que tu me amas.

Essas palavras, essas palavras cruzadas
Que se escondem de mim desajuizadas,
Nunca mudas, mas sempre encapuzadas.

Essas palavras ditas: turvas e tortas,
E vindas de sítios escuros sem portas,
Deambulam até mim murchas, quase mortas.