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Essas Palavras…

Essas palavras sem compromisso
Que te fogem da boca sem serviço
E se cravam como espinhos de ouriço
Nesta carne de homem quebradiço.

Essas palavras com que mal me chamas
A esses lábios e que saltam como escamas
E me descamam dos desejos e das camas
Ferem mais do que aquilo que tu me amas.

Essas palavras, essas palavras cruzadas
Que se escondem de mim desajuizadas,
Nunca mudas, mas sempre encapuzadas.

Essas palavras ditas: turvas e tortas,
E vindas de sítios escuros sem portas,
Deambulam até mim murchas, quase mortas.

 


A Boca

Todos falam da alma que vive nalgum imo secreto do nosso coração, alguns falam da inteligência, da esperteza, da consciência e da inconsciência que nos enche o cérebro e outros gostam de falar da importância dos rabos, esguios ou redondos, para a continuação da nossa espécie. Poucos falam na boca.

Contudo, vou falar da boca.

É certo que existem inúmeras formas de comunicar, mas, quer por grunhidos, estalidos ou sílabas, falar com a boca é falar com a boca. Escutar um provérbio, um dito ou um adágio duma boca enrugada e sábia ou ouvir uma boca espertalhona, solta, selvagem e às vezes estúpida é um passo evolutivo; que ninguém tenha dúvidas.

Mais, as estórias têm um timbre, altura e compasso diferente cada vez que são contadas à noite, à volta de uma fogueira, directamente vindas da memória da língua e da força de uma garganta contadora ou cantadora de histórias ao invés daquelas historietas que aprendemos a ler. Até o suspirar da alma dos seus ouvintes é feito pela boca.

A boca, como uma multifunções sequiosa e esfomeada, é a responsável por deixar entrar todo o tipo de proteínas e açúcares, fibras e demais porcarias que o nosso estômago e cérebro nos exigem mal passa do meio-dia ou da meia-tarde. Chega a hora da paparoca e lá está, seca ou aguando, a língua tacteando o que os dentes mastigam, à procura com o seu palato dos finos sabores da ambrósia do Olimpo ou da suculência dos pêssegos imortais do secreto imaginário chinês. É, portanto, a boca o órgão que ora sorvendo ora mastigando peca sem parar no que diz respeito à gula.

Veja-se, a boca é grande fonte de pecado! E este brota dela de inúmeras formas… Não fosse assim e como entreabríamos os lábios da boca para sermos invadidos pelo calor dum beijo molhado? Ou como ocorreriam os pequenos deslizes de lábios por linhas e dermes arrepiadas nos corpos das mais formosas musas? Musas estas que, numa ou noutra vez, se dispõem não só a amar-nos como a deixarem-se ser devoradas pela nossa mistura de fomes e apetites vorazes.

Mas há mais, muito mais.

Podem dizer que os olhos são o espelho da nossa alma, mas é a nossa boca a arauta de todos os nossos estados de espírito, ora muxoxando silêncios ora expelindo piroclastos raivosos e coléricos ora orando por esperanças e bênçãos lá dos céus. É verdade que é no fundo da nossa alma que se formam os batimentos, os meios-tons e as pausas de uma certa melodia ou os oxímoros e metáforas de um verso enigmático, mas, como sempre, é pela boca que surgem, ora num ritmo preguiçoso ora numa cadência furiosa, esses pequenos cantos: autênticos restos de magia divina que os anjos cá deixaram quando acabaram o trabalho de fazer o nosso mundo e se foram para outros recantos do Universo.

A boca, o órgão mais aberto e estúpido nalgumas ocasiões. A boca, o órgão mais fechado e sábio em algumas reuniões. A boca, ora mastigando pensamentos ora vomitando revelações. A boca, o órgão mais frio ou mais quente de inúmeras relações. A boca, brotando dela rimas, versos, cantos e demais canções.

A boca…