Monthly Archives: Agosto 2016

Exemplos de Coragem

Desde que os chineses inventaram a pólvora que os heróis deixaram de existir. Ouvimos isto dos nossos pais, dos nossos professores e de todas aquelas bocas que se acham suficientemente sapientes para repetir algo que ouvem há muito tempo ser dito e que acham que é literalmente uma verdade universal.

Não é!

Este conselho, porque é de um conselho que se trata, adverte para a necessidade de sapiência e prudência em todas as nossas acções. O nosso universo não é para bravos tresloucados nem para nenhum joão-sem-medo. Todas as acções têm uma consequência, uma resposta activa ou omissiva, e, muitas vezes, essa réplica pode ser bastante dolorosa.

Todavia, não se deve levar o dito à letra e tomar como assente a inexistência de seres que transcendem todos os limites que o meio ambiente ou o meio social lhes impõe, vulgo heróis.

Os heróis existem.

Mas não onde pensamos. Quando ouvirem dizer que os soldados são heróis porque arriscam a vida por causas que não entendem (como se isso não fosse burrice), duvidem; quando virem filmes com homens de ferro, homens de aço e homens de lata a combater alienígenas (como se tudo isso não fosse meramente ficção americana, às vezes sem mensagem nenhuma), desconfiem; ou quando vos disserem que é preciso ter muita coragem para se ser um magnata capitalista (como se maior parte deles não tivesse começado com um empurrão valente de um terceiro), suspeitem.

Então onde estão os heróis?

Lembram-se daquele gordinho que continua a sorrir, mesmo sendo um alvo constante de piadas e gracejos que exploram algo tão pessoal e íntimo como a sua forma física? Ele levanta-se a ouvir o rádio a dizer que tem de emagrecer num dos ginásios publicitados, são raras as manhãs e as tardes em que não ouve uma piada sobre a sua enxúndia arredondada no trabalho e à noite é massacrado com reportagens na televisão a dizer que é moda correr e estar em boa forma. Depois de saberem isto tudo, questionem-se, será assim tão giro gozar com gordos? Não é, mas o gordinho continua a rir.

Quanta heroicidade existe numa vilã que se prostitui à beira das estradas para dar de comer aos filhos com que um bicho-homem qualquer lhe carregou o ventre antes de a abandonar? Quanto medo têm elas todos os dias de não regressar para junto de quem amam? Quantas melenas sem escrúpulos se lhe encostam e transpiram? Quantos hálitos hediondos as agridem e lhes imputam putices que elas têm que, literalmente, engolir? Tudo em prole da vida de um terceiro que, se calha, elas até tiveram oportunidade de abortar ou entregar a uma instituição de caridade; tudo em nome da vida.

Quanto de herói tem uma pessoa que insiste em enfrentar o rebanho, ousando proferir uma opinião que é a sua e não a de nenhum distinto comentador ou de um jornalista afamado? Será assim tão fácil dar um passo em frente? Será assim tão fácil abandonarmos o conforto do pelotão? Será assim tão fácil sabermos que temos razão, mesmo que a nossa tese seja desagradável e desaprazível, e arriscarmos abrir a boca para dizer que nem todas as soluções se prendem com a compreensão dos miseráveis nem com a beligerância dos poderes radicais? Não é, garanto-vos.

São pequenos exemplos que a coragem não é mais do que a superação das nossas próprias inseguranças e dos nossos próprios medos, são pequenos exemplos que desmentem o provérbio que os heróis se extinguiram com os fumos negros da pólvora que foi inventada lá pelos chineses.

Os heróis caminham ao nosso lado e não são divinos.

Têm a mesma carne e os mesmos ossos que nós.

E uma força de vontade muito maior.

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A Idolatria de Steve Jobs

Moisés, o mítico líder do grande êxodo hebraico, exilou-se ele próprio no Monte Sinai. Porquê? Precisava de falar com Deus, precisava de perceber o que fazer após ter saído finalmente do Egipto e ter deixado para trás as águas do Mar Vermelho. Dessa reunião, resultaram as tabuinhas com os bíblicos Dez Mandamentos; dez comandos destinados a ser a consciência social daquele povo despojado de qualquer direito pelos egípcios.

Enquanto isso, de que se lembrou o humilde povo hebreu? De ir buscar água? De encontrar comida? De ensinar a ler aos seus filhos? De cuidar dos doentes e dos seus velhotes? Não…

Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu.” (Êxodo 32:1)

Portanto, enquanto Moisés reflectia acerca do que realmente fazia falta ao seu povo, este criava algo vistoso, rico, polido e brilhante, mas sem qualquer conteúdo intrínseco: um BEZERRO DE OURO!!!

Se Steve Jobs tivesse sido um objecto, decerto teria sido um bezerro de ouro igual ao que a arrogância dos hebreus ergueu no deserto há milénios atrás. E porquê? Porque o insigne percebeu que as pessoas querem linhas caras, polidas, vistosas e brilhantes. Querem que lhes façam bezerros de ouro para elas pagarem – e bem, diga-se.

Os bezerros de ouro hoje têm nomes diferentes: iMac, iPhone, i Watch, iPhone, iPod e iPad; mas, como um celebre princípio físico nos ensina, a matéria no universo é sempre a mesma, só a sua forma se altera.

Até aqui, pronto, vá lá, é a natureza humana e a sua propensão desmedida para consumir o belo até se fartar. Ao invés de se concentrar nos princípios morais atinentes à sua conduta do dia a dia, consome, consome e consome… tudo sem reciclar na maioria das vezes.

No entanto, cumpre apreciar o que está por detrás do véu e cumpre questionar os motivos que levam a “independente” crítica, a “literata” comunicação social e os “elitismos” político-económicos a idolatrarem alguém como Steve Jobs; alguém que só teve o mérito de perceber as tendências de consumismo abezerradas do mundo e explorar essas mesmas tendências.

O homem não criou absolutamente nada! Limitou-se a juntar algumas boas ideias, roubou pelo caminho outras, e exigiu que as máquinas das suas empresas fossem, SIMPLESMENTE, vistosas, bonitas, caras, polidas e brilhantes.

No entanto, comparava-se a Newton, Tesla, Einstein, a Muhammad Ali e a outros nomes igualmente importantes que, realmente, fizeram algo de bom pelo mundo em que viviam.

Portanto, se há algo que devemos todos saber, é que o homem se comparava a todas estas personalidades apenas porque sabia deter o mérito de explorar as preferências consumistas da população mundial. É o mesmo que dizer que somos mais rápidos que o Usain Bolt nos cem metros desde que usemos um Bugatti, que somos mais rápido que o Phelps na água desde que usemos uma lancha ou melhor treinador do que o Mourinho desde que tenhamos um comando de Playstation na mão……

Ora, eu não quero aqui deixar de conceder o mérito profissional de Steve Jobs. Honra seja feito ao falecido, ele teve muito sucesso na sua carreira.

No entanto, a idolatria, quase mítica, que existe à volta de um sujeito cujo mérito tecnológico, científico ou cultural é diminuto, é o paradigma perfeito dos valores deturpados dos fazedores de opiniões.

A comunicação social, em vez de expôr objectivamente quem era Steve Jobs, faz publicidade a cada livro e filme que se faz sobre o guru do marketing; os economistas apontam-no como um exemplo a seguir, desconsiderando a data de gente que o seu estúpido e cretino ego puseram no desemprego bem como as estratégias de marketing (vulgo, filhas da putice) de vender produtos bonitos que à partida se irão estragar mais depressa do que produtos bons, mas feios; e, como não podia deixar de ser, os políticos (os iFodam-se os eleitores) são os primeiros a comprar os produtos sacramente marcados com uma maçã dentada e perdem-se neles nos plenários em vez de saberem o que estão a fazer ou a votar na Assembleia Geral da República.

E o maior problema é que desta vez, Moisés não se encontra prestes a descer iracundo de nenhum monte nem a partir com a frustração as tábuas dos mandamentos, pronto a chamar todos os idiotas à razão e à necessidade de se deterem no substâncial em fez do formal.

Por isso, a idolatria a Steve Jobs, e aos demais como ele, persistem mesmo depois do seu tempo ter passado…

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Um beijinho

Decerto que não estou
Perto, mas estou certo
Que queres acertar-me
Com um olhar incerto.

E talvez desta me corra mal
E rasgues os versos que lês
Em português, mais uma vez,
Ou lhes chames só clichês.

Mas, tentado a acreditar,
Arrisco um beijinho sem ar
Para soltar e te enviar
Em algo que deva rimar.

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Far Away by Midnight Artworks