Category Archives: Literatura

Ébriando solitariamente…

Hoje à noite estava eu num bar
E, numa comichão, faltou-me o ar
Faltou-me o chão e faltaste-me tu,
Meu único par, para me amparar.

Estava só, rodeado de bêbados risos
E muitas piadas cheias de improvisos,
Mas, sempre em falta: os teus sorrisos
Amorosos e perfeitos e brancos e lisos.

Pior, as mesas do bar estavam cheias
Embriagando de alegria todas as veias
Mas, como um copo vazio e sem ideias,

Eu ia bebendo, bebendo e bebendo
Com mais a recordar do teu sendo
Do que para me ir de ti esquecendo.

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A vida de um homem bom…

Não acreditava nada em missas
Nem nessas modas das castiças,
Preferindo furtar-se às preguiças
De acreditar cego em tais justiças.

Escuso de correr atrás dum centil
Brincava a sério e jogava-se infantil
Dum velho cantil para um novo cantil
Cantando ébrio e tocando gentil

Peitos ao sul e paixões ao norte,
Vivendo de espírito esperto e forte
Até que ricamente lhe faltou a sorte
E lhe chegou a pobre hora da morte.


À memória do Tio Hub

É regra nos dias que correm ouvirmos os pais dizer aos filhos: Vai à escola, escuta, tenta aprender, estuda, conhece, percebe, desaprende e talvez consigas descobrir algo novo. No entanto, por vezes, pecam os pais ao não dizer aos filhos: escuta os mais velhos, eles sabem muito. A mim fez-me bem aprender as horas com a minha avó, a aprender a ler com o meu avô e, creio, foi igualmente essencial o meu avô para que eu aspirasse a ser um contador de histórias; tal e qual ele era.

Hoje não trago nenhuma da sabedoria dos meus avôs, mas trago a sabedoria de um tio-avô chamado Hub do filme Secondhand Lions, de Tim McCanlies:

«There’s a long speech I give to young men. Sounds like you need to hear a piece of it….

Some times the things that may or may not be true are the things a man needs to believe in the most. That people are basically good. That honor, virtue, and courage mean everything; that money and power mean nothing. That good always triumphs over evil. That true love never dies.

(…)

Doesn’t matter if they’re true or not. A man should believe in those things anyway. Because they are the things worth believing in.»

Página 75 do Guião do filme SecondHand Lions de Tim McCanlies

 

Sinceramente, era capaz de estar aqui uma noite a escrever sobre este pequeno excerto, mas, para além de vos recomendar vivamente que revejam este filme (que é já um clássico de 2003, com o ainda mocinho Haley Joel Osment), deixo-vos aqui uma tentativa de traduzir tudo aquilo que o velho Hub McCann me fez sentir:

«Há um longo discurso que eu dou aos jovens. Parece-me que precisas de ouvir uma parte dele…

Às vezes as coisas que podem ou não podem ser verdade são coisas em que um homem mais precisa de acreditar.

Que as pessoas são basicamente boas. Que a honra, a virtude e a coragem significam tudo; que o dinheiro e o poder não significam nada. Que o bem triunfa sempre sobre o mal. Que o verdadeiro amor nunca morre.

(…)

Não importa se são verdade ou não. Um homem deve acreditar nessas coisas na mesma. Porque são essas as coisas em que vale a pena acreditar.»

SecondhandLions (f-13959.jpg

by New Line Cinema


NADA

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by Bertrand

NADA

de

Janne Teller

Tenho sempre algumas reservas quando me sugerem livros advindos do norte da Europa. Talvez seja um gosto adquirido essas leituras nórdicas, ou talvez não no meu humilde caso. Sucede que há já algum tempo que acho que os autores nórdicos são algo álgidos e com temáticas dignas de causar transtornos psicológicos ao mais preparado dos seres; algo em que, sinceramente, não me apetece mergulhar com grande regularidade (já me basta a nossa realidade…).

Sucede que me tinham falado demasiado bem deste livro e, chegado a certo ponto, não deu para resistir à sedutora publicidade “Proibido na Dinamarca”. Sim, num país cheio de liberdades proibir um livro…? (Whiskey Foxtrot Tango?!?!?). Tenho mesmo que ler isto senão nunca vou saber o que…

Enfim, comprei-o, li-o em pouco mais de umas cinco horas (treze euros de letras para estourar em trezentos minutos…) e, para não fugir à regra, a Autora (dinamarquesa) quase me deixava com fobia de crianças (pedofobia). Lá está, talvez o grande objectivo destes autores nórdicos completamente ensandecidos da pena seja mesmo este: levantam-se a pensar na forma de contar uma história que deixe os leitores transtornados. (Vai lá, vai…)

Mas quanto ao livro:

Primeiramente, este Nada é um simples ensaio em que se encontra presente uma grande dicotomia entre as ideias que se esvaziam no nada e as inúmeras significâncias (ou insignificâncias) que carregam a vida absolutamente senescente de cada ser humano.

Claro que há um enredo: um pequeno jovem gritando do alto de uma árvore que nada tem significado porque vamos todos morrer e uma turminha de adolescentes tresloucados tentando demonstrar ao primeiro, até às últimas e finais consequências, que existem muitas coisas com significado na vida de cada pessoa. Tipo, uns sapatos verdes, uma bicicleta, um par de luvas de boxe, alguns objectos de culto religioso, uma virgindade, um cadáver de um bebé e até mesmo um dedo de um aspirante a guitarrista… como podem ver, tudo converge para um fim extremamente engraçado…  isto se tiverem um daqueles refinadíssimos humores negros.

Sinceramente, penso que este enredo era bom para explorar sob inúmeros pontos de vista. Dava para criar um melodrama juvenil (aquilo por que eu, esperançosamente, esperava quando li a sinopse do livro), dava para criar um tomo densamente filosófico sobre o conflito material versus imaterial, dava para criar uma história sobre a existência ou inexistência inata de limites nos adolescentes e dava para criar uma absoluta confusão de historietas secundárias com tantas personagens que a Autora criou.

Contudo, a Autora não quis ir por aí; preferiu trilhar por um caminho mais frio, trágico e bastante perturbado; levantando bastantes perguntas pelo caminho e no final (daqueles que não permitem grandes sequelas, louvado seja o Senhor…) ficamos apenas com uma daquelas doidas lunáticas monologando sem apresentar grandes respostas a todas as perguntas que se foram levantando ao longo de pouco mais de cento e cinquenta páginas.

Ainda assim, e porque é justo fazê-lo, aqui fica o que retirei deste livro: O que somos sem todas as coisas a que damos significado? Nada! O que somos com todas as coisas a que damos significado? Nada! E porque somos apenas Nada?!?!? Porque quando morremos continuamos a ser Nada, ora foda-se…

Percebem agora porque não gosto muito dos escritos boreais?

PS: A sério, Janne Teller, temo sinceramente que algum dia te confiem a missão de alegrares o teu gato, o teu cão, o teu companheiro de vida ou até os teus filhotes. “Oh coisinha fofa, sabes uma coisa? Não chores, não vale a pena. Mesmo com tudo, não temos nada! Vamos todos morrer…”


Cai lá fora…

Cai lá fora, molhada,
E, não caindo calada,
Cai, pinga a pinga,
Fria e um pouco gelada.

Cai no chão, no corrimão
Da varanda e batendo
Nos vidros das janelas
Se vai a nuvem escorrendo,

Se vai o calor esmorecendo
E se vai o Verão dizendo:
Cuidado que aí vem descendo,
Aí vem o Inverno chovendo!

 

 


A Torre Negra

A Torre Negra

A Torra Negra- Livro 7

De Stephen King

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by Bertrand

A demanda pela Torre Negra terminou. Terá terminado como eu esperava ou gostava que terminasse? Acho que não. Acho que, tal como Roland diz, quando nos acercamos do nosso objectivo há sempre uma última onda que nos tenta afastar da margem; só que o problema foi mesmo esse. Não houve uma onda que sentíssemos verdadeiramente a tentar empurrar o Pistoleiro para longe da torre…

Quanto a vilões, a lista neste livro é interminável: Sayre, Dandelo, os taheens… tudo prontamente esquecível. A morte do Feiticeiro Negro, aquela que mais aguardávamos desde que o sacana deixara a porta entreaberta do quarto da mãe de Roland, foi a que mais desiludiu. Mordred, que até começou bem, revelou-se um fiasco tremendo, morto com uns poucos tiros e levando a coisinha mais fofa do mundo com ele. Finalmente, o Rei Rubro que de infernal nada teve no final. Tudo confrontos olvidáveis. A meu ver, o único vilão de jeito, foi mesmo o asqueroso Pimli Prentiss, cuja pontaria nos levou um membro muito querido quando já não estávamos à espera que tal acontecesse. A sério, um capítulo final a meu ver não deve ser apressado, mas, porra, tentar juntar todos os vilões no último capítulo não podia dar bom resultado…

Quanto ao ritmo da narrativa, o mesmo não se adequa de todo a um final; é completamente anticlimático. Roland torna a voltar ao nosso mundo para, mais uma vez, salvar King da merda de um atropelamento (que aconteceu mesmo), voltamos a uma viagem sem propósito à Tet-Corporation e aquela interminável parte das Terras Brancas… bem, digamos que me gelou a paciência. Depois ainda veio Patrick Danville no fim, um personagem em si bom, mas completamente deslocado da história… apenas e tão só para derrotar o vilão que todos esperavam que fosse o Pistoleiro, com uma única bala, a derrotar. Seria pedir muito?

E quando ao final da história de Susannah Dean? Não podia ter terminado de forma tão chocha um personagem tão interessante. Estou quase a chegar à Torre com Roland, mas talvez seja melhor não. “É melhor voltar parta trás depois de ter chegado tão longe…”

Adiante, a Torre Negra, o último capítulo da demanda do Pistoleiro. O que havia no seu interior e no último piso? Tudo? Nada? Um ponto de chegada que será apenas uma nova partida? Foi bem conseguida essa parte, mas podia ter sido muito melhor se o Autor tivesse despejado melhor a sua arte nos três últimos livros da história (especialmente deste último).

 

***

Olhando para o conjunto da obra, não posso deixar de apontar algo que gostaria de ter visto e que não aconteceu de todo assim que o Ka-tet chegou a Calla Bryn Sturgis:

No quinto livro, após a Batalha de Callas, Roland e o ka-tet deviam ter ido imediatamente até Algul Siento e acabado o trabalho; poupando muito tempo do último capítulo. Teria muito mais força Mia ganhar o controlo do corpo de Susannah se esta tivesse ai visto a morte que lá ocorreu…

N’A Canção de Susannah, porque não ter logo inserido a tão desejada batalhada entre Roland e Walter que nunca chegou a acontecer? Será que havia melhor agente do Rei Rubro para tentar acabar com a vida a Stephen King? Porque não colocar Roland frente a frente com o homem que lhe papou a mãe, foi o responsável pela ruína da sua casa, lhe matou o melhor amigo e o molestou durante tanto tempo?

Dandelo, Mordred e o Rei Rubro no último livro podiam ter sido tão, mas tão melhor usados; um para cada membro do ka-tet. Porque não começar por colocar o ka-tet a enfrentar uma criatura como o Dandelo logo no início da história e Susannah o puto-aranha? Se tivesse ido bem mais longe do que foi no quinto livro, haveria muito por onde escolher, mas não…

Porque não permitir que Dandelo apagasse mais um membro do grupo logo no início e não dar a Jake uma morte como a que deram? Atropelado? Por amor de Gan!!!

Porque não permitir a um membro do ka-tet alcançar a torre na companhia de Roland?

Porque não colocar Roland numa mesma situação idêntica ao do primeiro livro? Numa situação em que tivesse de escolher sobre a sua torre e um dos seus companheiros? Roland evoluiu ou não? Provavelmente, não e tal seria o perfeito fechar do círculo, algo que se pretende sempre… e depois sim podia vir o twist final.

É que assim, fosse a escolha de Roland qual fosse, tudo daria um sentido ainda mais forte à definição final da história. Voltaria atrás com um propósito melhor ainda, maior ainda… tudo faria mais sentido. Assim é um final que, não sendo mau, deixa muito a desejar.

***

E pronto, fiquei tão desiludido com o final da história que não pretendo voltar a ela tão depressa. Empurrei a A Lenda do Vento para a pilha dos livros que vou ler daqui a uns anos.


A Canção de Susannah

A Canção de Susannah

A Torre Negra – Livro 6

De Stephen King

A-Cancao-de-Susannah.jpg

by Bertrand

Finalmente, depois do sensaborão quinto livro da saga, temos um livro que nos volta a encher de vontade de virar páginas até ao seu término. Claro que não é tão bom como o primeiro livro, mas é tão bom como a segunda obra da série. Ou seja, é muito bom.

Depois do sucesso do confronto com os robóticos lobos, Mia apodera-se do corpo de Susannah e atravessa uma porta para um certo ano de 1999 de Nova Iorque, roubando a Treze Negra e dificultando a travessia de mundos. Contudo, claro está, o ka-tet, encontra uma possibilidade de atravessar os mundos dentro da impossibilidade que ao princípio surge na desesperada alma de Eddie Dean. Sucede que quando o grupo, agora com a companhia do padre Callahan, atravessa a porta se divide: Eddie e Roland para o quando de Calvin Tower e Jake, Oi e Callahan para o quando de 1999.

Certas divisões podem, por vezes, quebrar e desacelerar o ritmo de uma obra. Todavia, não é este o caso. Mia e Susannah e Detta formam um trio de personagens no mesmo corpo, pormenor delicioso, que aprofunda alguma da história do Rei Rubro, suas intenções, e o objectivo do filho demoníaco de Mia e Susannah. Roland e Eddie põe finalmente um ponto final naquela história burocrática, e secante, da compra e venda do terreno onde existe a rosa e depois vão ao encontro de um escritor que só por acaso se chama Stephen King e está à procura de ideias para continuar A Torre Negra. Por fim, temos Oi e Don Callahan liderados por Jake à procura de Susannah.

Claro que o livro mais difícil de escrever para o Autor talvez tenha sido este. Uma coisa é o final da história, às vezes pensada há muito tempo, outras nem tanto; e outra coisa é o livro que prepara esse final. Mas mesmo sendo difícil, lá o Autor trouxe à história um suculento e interessante livro que me deixa ansioso pelo capítulo final da saga.

Talvez aproveite para ler A Lenda do Vento, o livro 4.5 dos sete livros que inicialmente compunham a série, enquanto espero que a Bertrand se lembre de publicar o último livro desta obra; até porque a mesma já veio dizer que o livro final está na forja para este ano. Quero acreditar que lá para Agosto, no máximo, devo voltar a esta série para um final que espero digno.