Category Archives: morte, ceifeira

A vida de um homem bom…

Não acreditava nada em missas
Nem nessas modas das castiças,
Preferindo furtar-se às preguiças
De acreditar cego em tais justiças.

Escuso de correr atrás dum centil
Brincava a sério e jogava-se infantil
Dum velho cantil para um novo cantil
Cantando ébrio e tocando gentil

Peitos ao sul e paixões ao norte,
Vivendo de espírito esperto e forte
Até que ricamente lhe faltou a sorte
E lhe chegou a pobre hora da morte.

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Um Homem: Klaus Klump

Um Homem: Klaus Klump

de Gonçalo M. Tavares

 

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Sou um adepto confesso de Gonçalo M. Tavares (GMT) e há muito que sigo o seu trabalho. Após Aprender a Rezar na Era da Técnica e Jerusalém fiquei entusiasmado, mas Uma Viagem à Índia teve o condão de me refrear o entusiasmo e afastar-me durante algum tempo deste autor. Contudo, voltei a’O Reino de GMT e logo com Um Homem: Klaus Klump.

 

O livro, sobre as inúmeras transformações do espírito humano durante a guerra, está bastante forte em termos de imagética emocional, relevando-se as pouquíssimas palavras que o Autor utiliza para criar esse mesmo tempo e espaço emocionais. GMT é daqueles que mostra e expõe os mundos que cria mais com o que as pessoas sentem do que aquilo que os seus olhos observam. Não interessa qual a guerra, onde fica a cidade tomada pela guerra e muito menos interessam aqui cenas de acção ou explosões discritivas. Esqueçam o sangue, as tripas e os miolos no chão. O étimo guerra, para GMT, é substantivo, verbo, adjectivo e advérbio; é, mais que um conceito, uma universalidade de horrores intrínsecos. É claro que o “cavalo morto e abandonado durante dias no meio da estrada” ou “a baba a escorrer na nuca” continuam a ser sensorializações bastante elucidativas no desenrolar do enredo, mas por norma, O Reino de GMT está pintando com cheiros obscuros e matizes bélicas.

Quanto a personagens: Klaus Klump, o protagonista, é uma merda de homem que se transforma em algo hediondo depois de sobreviver à guerra. É certo que há alguns momentos em que temos verdadeiramente pena dele e outros que torcemos para que consiga os seus intentos vingativos, contudo é uma personagem fadada ao oblívio (tal como os horrores da guerra também estão fadados ao oblívio por uma questão simples: as pessoas que por ela passam não a querem recordar e aqueles que por ela não passam não a podem nunca perceber na sua plenitude). Todas as demais personagens, quase personagens-tipo: a vítima violada e ensandecida, o soldado violador, o patrão da prisão, o general assassinado, a prostituta traiçoeira que sobe na vida durante a guerra e até o rebelde consciente que não mais conseguirá tocar música estão igualmente e isoladamente fadadas ao oblívio; tal como a guerra se vai também elas se vão…

Felizmente, a reunião conjunta de todos os pontos de vista destes personagens ajuda a fazer desta obra um bom livro, algo negro e desesperançado em termos de tom narrativo, mas aquilo que mais próximo se assemelha a uma grande obra de guerra filosófica. É uma leitura obrigatória para os apreciadores dos cadernos de GMT.


O Rochedo

Um rochedo de pedra chorava
Baixinho, como um passarinho,
E o seu corpo firme fendia-se
Por não haver outro caminho.

Lá em baixo, naquele vale ermo,
Sem termo e enfermo, só os ventos
Se escutavam remoinhando tristes
Soprando para o deitar abaixo.

E os uivos do vento, uivos alobados,
A quebrá-lo a ele, inabalável penedo,
Com um profundo e sólido medo:
Virar um grão de areia muito cedo.

 

 

 


A Ceifeira

Sou perigo e um mal sem seguro,
Bem cedo descobri o que era impuro
E sem medo mergulhei no escuro
Desistindo do facho de luz futuro.

E cada vez que levanto um dedo
Há uma mentira ou um segredo,
Vai-se a coragem destilada do medo
E a gadanha gira como um brinquedo.

Escondida pelas sombras da escuridão
E pelos pântanos catingosos da podridão
Ando e ofereço a doença como gratidão
E levo o sofrimento com ou sem perdão.

Com a alma eivada por um findo perfume
Não tenho reservas, e, como de costume,
Corro as cortinas e os véus do negrume
Para esmagar a luz a qualquer vaga-lume.

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Death by Wreckluse