Category Archives: Tolices

Indiferente

Estás cega? Não vês que me sufocas com o tanto que as tuas mãos me apertam e os teus braços me seguram? Tens medo? Sim, talvez tenhas medo daquilo que não controlas e talvez teu maior medo seja mesmo o de não me poderes controlar. Contudo, desculpa-me: não aguento perder mais um segundo aqui contigo! Tudo aquilo que pensaste que eu podia ser caiu do céu e morreu na terra, tal como a primeira pessoa do plural morreu contigo e bem à tua frente!

E porquê?

Porque estou cansado de ser o que queres que eu seja! Porque estou cada vez mais descrente nisto nosso que já não é bem nosso! Porque me afoguei perdido neste mar agitado e voltei à tona boiando ainda mais perdido! E, por fim, porque não sei o que esperavas de mim ao exigires-me com tanta força para que seguisse caminhando com os teus sapatos, com as tuas botas e desfilando até dentro das tuas saias.

E o pior?

O pior é que cada passo que dava era só mais um passo errado noutra direcção, um trilho enganado ou certamente um fado equivocado e sem sentido. Errei, em ti, tantas vezes que meu erro se tornou indiferente e nessa indiferença de erros rotineiros me indiferenciei de ti até ao ponto de se me esgotar  o excessivo tanto que amava em ti. Finalmente, um pouco mais em mim, despertei ciente do que era realmente preciso: ser menos como tu, ser mais como eu.

Vou falhar?

Sim, eu sei que posso acabar falhando também. Sei que posso cair num buraco, pisar uma armadilha ou mergulhar num abismo ainda mais profundo que este. Todavia, por favor, não ignores que és apenas como eu: um alguém com outro alguém tremendamente desapontando, francamente desiludido e agradavelmente desenganado.

Estou diferente?

Não, estou apenas… indiferente!

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Mind Devour by Sebastian Eriksson


Roseira Brava

Uma roseira brava, outrora cheia de espinhos, viçosos e aguçados,foi ficando uma rosa amestrada, complacente com a tesoura que lhe podava o carácter e a alma; tudo porque queria de si mesma apenas o perfume aveludado das suas pétalas vermelhas.

Como uma desconhecida que se desconhece a si mesma, foi-se desapegando das raízes como se o leite que o ventre da mãe-terra lhe deu não fosse a seiva que lhe empurrou o verdíneo caule para cima, para crescer, ainda que torto.

Sempre a troco do melhor lugar ao sol, foi ignorando a roseira a falta de espinhos e o cair das suas próprias folhas, o cair das unhas e dos pulmões, até que em vez da elegante tesoura de podar veio a última serra findando assim a sua pobre história.


Nomes Enlameados

Infelizmente, vivo num país, talvez num mundo, em que o verbo em destaque é «corromper» e os adjectivos preferidos são o «corrupto», o «corruptor» ou o «corrompido». Não se chama incompetente a quem o será, não se chama ignorante a quem o foi e nem tampouco se chama anormal a quem o é. A palavra que importa reter é sempre a mesma: corrupção.

A todas estas pessoas que jogam para a lama o nome dos outros, um pedido: sejam um pouco mais originais.

Já todos sabemos que a corrupção passiva existe quanto o funcionário que por si, ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, solicitar ou aceitar, para si ou para terceiro, vantagem patrimonial ou não patrimonial, ou a sua promessa, para a prática de um qualquer acto ou omissão contrários aos deveres do cargo, ainda que anteriores àquela solicitação ou aceitação.

Igualmente, já todos sabemos que a corrupção activa existe quando quem, por si ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, der ou prometer a funcionário, ou a terceiro por indicação ou com conhecimento daquele, vantagem patrimonial ou não patrimonial para a prática de um qualquer acto ou omissão contrários aos deveres do cargo, ainda que anteriores àquela solicitação ou aceitação.

(Cfr. Artigo 373º e 374º do Código Penal Português)

Existem mais crimes no nosso regime penal!

Dos artigos 131º ao 389º é sempre a abrir!

Já estamos todos fartos de andar a chamar corruptos a uns e a outros…

 


O Gordo e a Gorda

Quem me dera que o Gordo e a Gorda fosse o título de um romance com um final feliz, mas não é. Todos sabemos que os finais felizes têm sempre como protagonistas dois rostos perfeitos e corpos esbeltos embrulhados um no outro ao som de uma música feliz qualquer. Ademais, quando há música e gordos numa cena, todos sabemos, é uma cena cómica; não um final feliz.

Mas indo aos factos:

Há hoje um ataque cerrado à gordura. Há hoje inúmeras campanhas sobre: ginásios, consultas de nutricionistas, promessas de corpos esbeltos, personal trainers sempre preocupados, actividades ao ar livre cheias de ar puro, campeonatos de tudo e mais alguma coisa onde se transpiram litros de suor, a importância da educação física, a necessidade de uma alimentação saudável, a urgência da prevenção de obesidade e… outras quinhentas campanhas mais! Tudo em nome da saúde! (E de alguns interesses económicos e financeiros que nunca existem quando se fala de saúde, alimentação e ecologia.)

Percebem a ideia? O objectivo é ninguém ter barriga na nossa sociedade; como se fosse uma ofensa à sociedade nos dias que correm alguém ter uns quilitos de açúcar a mais. E até aqui tudo bem. Mas depois, a par do ataque à gordura, há um ataque inclemente ao gordo e à gorda.

Alerta!!! Olha o GORDO!!! Alerta!!!

Se repararem, todos nós tememos trilhar um preto, um cigano, um deficiente e até um estrangeiro com certo tipo de comentários ou acções que possam levantar problemas do foro dos mais altos valores humanos. Porém, nenhum de nós teme virar-se para alguém cuja barriga se salienta e dizer “Olha a barriguinha!”, “Estás de quantos meses?”, “Olha o meu pandinha fofo!!!” ou até mesmo muito doutoradamente “Estás a precisar de perder peso, gordinho…”.

Alerta!!! GORDO!!! Alerta!!!

Riam-se à vontade, mas é isto que acontece: O gordo e a gorda são primeiramente notados assim que entram numa sala! Depois são tratados como preguiçosos e gulosos! Depois são tratados como paradigmas de gente nojenta e asquerosa! Numa fase mais avançada, deixam de ser piadas e são tratados como doentes, com pena! Finalmente, são tratados como um problema de saúde pública que pesa literalmente no orçamento de estado todos os anos…

Nunca há o intermédio! Nunca são tratados como pessoas, estudantes e trabalhadores, que se esforçam para emagrecer tanto quanto os outros, e às vezes ainda mais. São apenas gordos…

É que, ora correndo com todo o peso que lhes custa a carregar ora tendo o necessário cuidado com a alimentação, maior parte destas pessoas com excesso de peso, em algum momento da vida, esforçou-se e esforça-se contra a sua genética. Alguns destes, em certo momento da vida, querem ter a leveza de uma pena, querem correr sem se preocupar com ataques de coração e querem ser consideradas pessoas bonitas – como se algumas não fossem lindas desde logo. No entanto, por variadas razões – que não a preguiça – muita desta gente não consegue emagrecer!

E o que fazem aqueles preguiçosos que comem que nem alarves, mas cuja sorte lhes ditou um metabolismo rápido? Gozam com o gordo, chamam o gordo por gordo em vez de o chamarem pelo nome ou, pior ainda, inventam uma alcunha gordalhufa e arredondada para o gordo. Claro está que há sempre espaço para os verdadeiros cabrões peçonhentos que, mesmo sabendo que magoam, apunhalam o gordo com um simples tap-tap na pequena banhinha ao som de: “Eu sou um gordinho gostoso, um gordinho gostoso…”

Enfim, sabem uma coisa? Conheço bastantes magros idiotas; gordos, quase nenhum.

Os gordos sabem o que magoa e sabem o que significa sofrer.

E quem sabe o que significa sofrer aprendeu a respeitar o sofrimento dos outros, mesmo que este sofrimento seja um grande e volumoso silêncio.


A Boca

Todos falam da alma que vive nalgum imo secreto do nosso coração, alguns falam da inteligência, da esperteza, da consciência e da inconsciência que nos enche o cérebro e outros gostam de falar da importância dos rabos, esguios ou redondos, para a continuação da nossa espécie. Poucos falam na boca.

Contudo, vou falar da boca.

É certo que existem inúmeras formas de comunicar, mas, quer por grunhidos, estalidos ou sílabas, falar com a boca é falar com a boca. Escutar um provérbio, um dito ou um adágio duma boca enrugada e sábia ou ouvir uma boca espertalhona, solta, selvagem e às vezes estúpida é um passo evolutivo; que ninguém tenha dúvidas.

Mais, as estórias têm um timbre, altura e compasso diferente cada vez que são contadas à noite, à volta de uma fogueira, directamente vindas da memória da língua e da força de uma garganta contadora ou cantadora de histórias ao invés daquelas historietas que aprendemos a ler. Até o suspirar da alma dos seus ouvintes é feito pela boca.

A boca, como uma multifunções sequiosa e esfomeada, é a responsável por deixar entrar todo o tipo de proteínas e açúcares, fibras e demais porcarias que o nosso estômago e cérebro nos exigem mal passa do meio-dia ou da meia-tarde. Chega a hora da paparoca e lá está, seca ou aguando, a língua tacteando o que os dentes mastigam, à procura com o seu palato dos finos sabores da ambrósia do Olimpo ou da suculência dos pêssegos imortais do secreto imaginário chinês. É, portanto, a boca o órgão que ora sorvendo ora mastigando peca sem parar no que diz respeito à gula.

Veja-se, a boca é grande fonte de pecado! E este brota dela de inúmeras formas… Não fosse assim e como entreabríamos os lábios da boca para sermos invadidos pelo calor dum beijo molhado? Ou como ocorreriam os pequenos deslizes de lábios por linhas e dermes arrepiadas nos corpos das mais formosas musas? Musas estas que, numa ou noutra vez, se dispõem não só a amar-nos como a deixarem-se ser devoradas pela nossa mistura de fomes e apetites vorazes.

Mas há mais, muito mais.

Podem dizer que os olhos são o espelho da nossa alma, mas é a nossa boca a arauta de todos os nossos estados de espírito, ora muxoxando silêncios ora expelindo piroclastos raivosos e coléricos ora orando por esperanças e bênçãos lá dos céus. É verdade que é no fundo da nossa alma que se formam os batimentos, os meios-tons e as pausas de uma certa melodia ou os oxímoros e metáforas de um verso enigmático, mas, como sempre, é pela boca que surgem, ora num ritmo preguiçoso ora numa cadência furiosa, esses pequenos cantos: autênticos restos de magia divina que os anjos cá deixaram quando acabaram o trabalho de fazer o nosso mundo e se foram para outros recantos do Universo.

A boca, o órgão mais aberto e estúpido nalgumas ocasiões. A boca, o órgão mais fechado e sábio em algumas reuniões. A boca, ora mastigando pensamentos ora vomitando revelações. A boca, o órgão mais frio ou mais quente de inúmeras relações. A boca, brotando dela rimas, versos, cantos e demais canções.

A boca…


Saudades de Naruto

Um dia descobri na internet uns vídeos altamente, cheios de música dos Sum 41 e acompanhados por inúmeras cenas rápidas de um anime baseado no manga (diz-se mangá) japonês Naruto de Masashi Kishimoto. Mal sabia eu que pouco depois levaria metade do mês de Setembro a ver uma maratona de episódios infindáveis e quase mais uma década atento aos lançamentos semanais das quintas feiras de uma “simples” história:

Jovem ninja, rebelde e isolado devido a ter um demónio-raposa dentro de si, tem o objectivo de chegar a Hokage (Líder Militar da Vila da Folha).

Como é hábito nas publicações semanais da Shonen Jump, a trama desta história desenvolve-se a um ritmo agradavelmente lento. E digo agradável porque se há algo que os autores de mangas gostam de fazer é contar a história da maioria dos personagens de uma história. Assim, vamos aos poucos conhecendo a história do personagem central e vamos também conhecendo a história das personagens secundárias. Ou seja, o ritmo é o mesmo de DragonBall (Alguém não conhece?): primeiro, conhecemos Bulma a fundo, depois o fantástico fodão Goku, mais adiante um interessante antagonista Vegeta, e assim por diante.

Sucede que, no caso de Naruto não há um Krillin nem uma Bulma ou um Vegeta que fiquem para trás no enredo enquanto o protagonista continua a evoluir. Todos evoluem. Por entre cenas de acção carregadas de emoção, e o desenvolvimento da personagem principal, cada personagem tem uma história bastante pessoal, com cada um a ter os seus desejos próprios e com cada um com os seus tipos e estilos de luta únicos. Todos têm passados, motes, fraquezas e forças. Todos eles, mesmo bonecos, são pessoas que poderiam realmente existir.

Destaco particularmente a rivalidade fantástica entre Uzumaki Naruto (luz destrambelhada do dia, cuja grande força é o poder de nunca desistir e que o leva a ser seguido por todos com quem se cruza) e Uchiha Sasuke (sombra fria da noite que vai, de genialidade em genialidade, mergulhando no abismo mais escuro para alcançar todo o seu fantástico potencial de modo a cumprir todos os seus mais recônditos objectivos). O embate final é de nos levar a lacrimejar ao ponto de não conseguirmos mais escolher qual deles merece mais o nosso coração. É só o maior paradigma de muitos momentos perfeitos…

Sim, é verdade que a série é destinada ao público mais juvenil (e talvez este precise mais deste tipo de séries do que doutras completamente atentatórias à sua maturidade)… mas, enfim, temas como o sofrimento de ser um outsider, a dor vazia da orfandade, a solidão gélida clamando por um caminho de vingança, o amor não correspondido, o utilitarismo sangrento dos massacres políticos e seus agentes, as meias-verdades condenáveis e condenadas, a ganância desmedida, as ilusões e utopias desmascaradas de grandes líderes e o único caminho possível para um final magnífico: nunca desistir dos nossos sonhos nem de ninguém. Todos estes ingredientes se encontram presentes nos cerca de setecentos episódios de Naruto (O manga… já que o anime contém bastantes histórias adjacentes chamados fillers).

A acrescer à maravilhosa trama de Naruto, temos ainda a banda sonora do anime que, garanto-vos, vos fará acelerar o coração de tal modo que de repente, e de tempos a tempos, dão por vocês em pé e de mão estendida a gritar: RASENGAAAN!!!


Falta de Palavras

Já repararam na quantidade de palavras que existe para dizer, tão pura e simplesmente, morte? Uns quantos exemplos? Pois não: falecimento, óbito, perecimento, finamento, passamento, extinção, decesso, ortotanásia, exício… e alguns mais, muitos mais.

Pelo contrário, a palavra beijo tem poucos sinónimos. Mais uns quantos exemplos? Existe ósculo (Mais horrível só mesmo o verbo oscular ou o acto, quase cirúrgico, de osculação!!!) e existe selo (Sendo que o selinho fica muito melhor). Tirando estas duas palavras? Mais nada… ou talvez só uns poucos recursos estilísticos como toque/roçar de lábios, enlace de línguas

Tristeza…

Como é que o mundo pode andar direito se temos mais palavras para o fenómeno funesto da morte do que palavras para o evento edénico que é um beijo?

Deste modo, não admira que os poetas portugueses, na generalidade, sejam pessoas tão tristes e trágicas…

Todavia, para colmatar a falha, existe uma quantidade infindável de conjugações com a palavra beijo: podemos dar um beijo longo (que é igual a dar um beijo francês, um beijo de língua ou um beijo apaixonado); temos ainda a possibilidade do simples beijo na boca, uma beijoca graciosa, um carinhoso selinho (em Portugal, um metálico bate-chapas…) ou um amigável beijo na cara.

Não tão aprazível é já o beijo de Judas

Há, portanto, poucas formas de dizer beijo, ainda que haja felizmente, em Portugal e no mundo, bastantes formas de beijar, já que cada ser tem a sua forma de beijar…

Enfim, para acabar em grande, lembrei-me agora de me despedir de todos, não com um beijo de despedida, mas com um grande beijo com desejos de feliz ano novo!

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