Category Archives: Fantasia

A única magia…

Se gosto duma letra leve
E duma percussão pesada
Que me importa se é breve
Ou se rebenta apressada?

Que me importa se descreve
Uma musa ainda não esposada
Ou que importa que ela releve
Uma trágica paixão rosada?

Bem mais que física, é música:
Às vezes moderna e clássica
Outras simples magia básica;

Magia capaz de modas definir,
Capaz de cores opostas reunir
E capaz de todos os povos unir.

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Black Panther

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by Marvel Studios

Black Panther
De Ryan Coogler

Novo filme da Marvel e deste gostei particularmente.

Wakanda concilia a tradição com alta tecnologia, o argumento é sólido, não se alimenta em demasia da segurança da fórmula “história de origem” e tem bons desempenhos por parte de todos os actores envolvidos.

Ao contrário do que já li, a mensagem não é “temos que ajudar os nossos irmãos negros!” – como pareciam ansiar facções menos moderadas da nossa sociedade global.

Antes pelo contrário, o filme tem duas grandes mensagens:

A primeira é que, por mais que dê resultado determinado modo de agir, há sempre forma de fazer melhor.

A segunda, não sendo de toda inovadora para quem leu a saga Acácia de David Anthony Duram, revela-se igualmente importante: é preciso criar pontes em vez de barreiras porque no fim pertencemos todos a uma só tribo.

Um pequeno à parte, todos sabemos a quem se destina em primeira linha esta ultima mensagem; contudo não há que esquecer que metade da população americana votou nele e nessa ideia em particular de construir uma barreira. Posto isto, a mensagem não se destina ao líder de estado americano nem aos americanos. Destina-se a todas as pessoas deste mundo. Não sejam tolos e não se escondam dos problemas com barreiras.

Finalmente, o único ponto negativo do filme: uma tribo de Wakanda com o totem macaco e urrando como símios. Acho que nos dias que correm já se ouvem demasiados destes urros em estádios de futebol e estes animais tolos não precisam de ser incentivados por filmes que de certeza vão ver. (E sim, eu sei que nos comics esta tribo já existe e até se alimenta de macacos e retira todos os seus poderes deles… mas continuo com a mesma opinião.)

Quanto ao demais, vejam o filme que vão gostar…


O Grande Bazar e outras histórias

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by 1001 Mundos

O Grande Bazar e outras histórias

de Peter V. Brett

O Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett é uma das minhas obras preferidas de fantasia. O Homem Pintado, A Lança do Deserto e A Guerra Diurna foram sempre espectaculares, infalíveis e guardo dessas leituras as melhores recordações. A história parte de uma premissa simples, a noite está cheia de demónios que pretendem o fim da humanidade e esta tenta sobreviver a todo o custo. Contudo, no seu centro, a história é tudo menos simples. Existe conflito entre as ideias do pai e as ideias de um filho, explora-se o conflito entre os costumes sociais e as escolhas pessoais do individuo, prima-se pela ausência de personagens totalmente boas e pela ausência de personagens totalmente más, temos a tragédia, o trauma, a esperança, a intriga e… estava aqui o dia todo.

Entrando na obra em si, é uma antologia de três contos.

Os dois primeiros exploram as primeiras aventuras de um dos maiores protagonistas do Ciclo dos Demónios antes de ser ter tornado o herói que actualmente é no final d’A Guerra Diurna. Mostram-nos que a coragem não vem sozinha, vem sempre acompanhada por conhecimentos, espertezas e princípios; tudo o resto é vão. Para quem admira Arlen Bales (Arlen Fardos, nome muito mais bonito na tradução portuguesa…) e também um conhecido mercador krasiano, são dois contos que nos fazem admirar ainda mais estas duas personagens.

Quanto ao terceiro conto, o mesmo é interessante, explorando tanto uma nova personagem, o Lamacento Bryar Damaj, nascido de uma tragédia, e o velho padrinho de Arlen, o Mensageiro Ragen. O enredo prende-se com um resgate, mas, situando-se o seu final nos momentos imediatamente seguidos (ainda que bastante afastados) ao epílogo d’A Guerra Diurna, quero crer que não é verdadeiramente um conto, mas sim uma iniciação a’O Trono dos Crânios.

Ainda assim, o Autor continua a mostrar porque é um dos melhores criadores de personagens fantásticos da actualidade.

Como se o Homem Pintado, a Renna, a herbanária Leesha, o jogral Roger, o Shar’Dama Ka Jardir ou a sua mulher, a Damaji’ting Inevera, não bastassem para nos retorcermos todos à procura de um motivo para escolher por qual delas torcermos, agora ainda temos o Lamacento Briar…

E tudo num conto fantástico sem espadas, apenas lanças e magia, muita magia.


O Trono dos Crânios

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by 1001 Mundos

O Trono dos Crânios

de

Peter V. Brett

Há livros e histórias que não cansam e o Ciclo dos Demónios é uma dessas obras. Mais umas oito centenas de páginas, e continuo a ansiar por mais. Quero, quase desesperado, saber como acaba esta história. Infelizmente, só para Maio (se tudo correr bem…) é que devo ter acesso ao referido capítulo final da história.

Mas, enquanto o último livro não sai, o que há para dizer deste Trono dos Crânios?

Que é um livro essencialmente focado nos “protagonistas secundários”. Os conhecidos Leesha, Roger, Inevera, Abban e Briar têm um merecidíssimo destaque nesta obra; ao contrário de Arlen (agora seguido para todo o lado pela sua Renna) e de Jardir, que conseguem um grande feito, mas pouco mais deles se sabe. Destaque também para personagens secundários como as esposas krasianas de Roger, Amanvah e Sikvah, para os dois filhos mais velhos do Libertador, Jayan e Asome, e para a corte de Angiers com o conde Thamos à cabeça. Contudo, neste livro, temos uma nova protagonista incluída, Ashia, e, talvez por ser nova, foi a que mais me chamou à atenção neste livro.

Quanto ao enredo, ficou algo parado no que há história de Arlen diz respeito e quanto ao que há a descobrir quanto aos demónios (ficamos com água na boca para saber mais sobre o Consorte e seus amigos, mas é tudo…). Contudo, quanto a batalhas diurnas, batalhas noturnas, batalhas políticas e batalhas familiares é uma fartura açucarada. Conflito, conflito, conflito aos montes; tal como se quer num bom livro!

Por fim, há que referir a capacidade do Autor para contar histórias sem perder grande tempo com miudezas. Claro que neste quarto livro já não há muito a saber sobre passados e segredos ocultos, o conflito é constante, o drama também e a magia reverbera por todos os lados na prosa concisa, simples e leve do Autor. Não há descrições capazes de cortar o ritmo da história!

É simplesmente fascinante, inteligente e maravilhoso este Ciclo dos Demónios.

Venha o último capítulo!


O Desolado

Segue o Desolado seu desfado
E não se ouve o passo arrastado,
Só o esbafo do cavalo cansado
E o abutre faminto e assustado.

Já a pé, rompe o céu e a bota,
Molha-se a meia até ficar rota
E das bolhas rompe uma gota
Triste pelo avistar da derrota.

Ruíram e arderam todas as obras,
Já nem no lixo restam as sobras
E só o perseguem agora as cobras.

Diz Desolado, a que te agarras
Tão derrotado e com as garras
Gastas? A que tanto te amarras?


A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

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by Bertrand

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

de Gonçalo M. Tavares

Sendo um confesso apreciador do Autor e um confesso apreciador de Fantástico, o novo universo Mitologias criou-me imediatamente curiosidade. Mais um autor português de renome a mergulhar no ilimitado mundo do Fantástico? FIXE!!! MUITO FIXE!!!

Assim, após uma longa espera, lá abri o referido livro.

Contudo, fechado o livro, surge aquela velha máxima: há livros melhores que outros. E no caso específico deste Autor a verdade é que o mesmo tem obras que me levam a pô-lo nos píncaros e outras em que um leve encolher de ombros diz tudo.

Ora, neste A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado a ideia do Autor é simplesmente contar histórias sem ligar ao fio temporal das mesmas histórias. Se começarmos a ler a história de trás para a frente, do meio para os lados ou se saltitarmos e voltarmos atrás, o resultado é mesmo. E, ás tantas, o resultado é algo como uma antologia de contos e nalguns destes contos (capítulos) coincidem de vez em quando personagens doutros contos (capítulos).

Personagens estas que, tirando o Homem-do-Mau-Olhado e o seu último capítulo, não nos deixam saudades.

Mais, nesta obra leis como “Se tirares a cabeça a alguém ela morre.” não existem e nenhuma explicação é dada (propositadamente). Aqui, o interesse é não explicar nada, é não mostrar nada mais do que se mostra.

Acontecimentos, sem qualquer juízo valorativo, como o canibalismo, a revolução ou o julgamento são-nos apresentados em bruto, sem edição. Lá está, agora cada um que pense por si no que viu aqui acontecer e no que acha que aconteceu ao que não viu acontecer.

Penso que o Autor não se importaria de definir assim esta primeira obra: espantem-se e pensem!

No entanto, achei muito pouco. É verdade que existem momentos bem construídos, como “Onde está o amor de uma mãe pelos filhos, no corpo ou na cabeça?”; mas, regra geral, a falta de uma linha de continuidade gera-me tédio. Não gosto de antologias de contos, especialmente antologias de contos sobre a mesma história.

É demasiado ensaio e muita pouca história.

Desculpa, Gonçalo M. Tavares; continuo a gostar da tua obra, mas deste não gostei.


Admirável Mundo Novo

Admirável Mundo Novo

de

Aldous Huxley

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by ANTÍGONA

Depois de ter ficado algo traumatizado com a distopia de George Orwell, o célebre 1984, decidi arriscar-me com Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo e, tenho que dizer, o resultado foi inesperado para mim, ainda que em muito semelhante ao que me sucedeu com Orwell.

Primeiramente, há que dar mérito à posição de Huxley relativamente ao futuro.

Ao contrário do seu aluno Orwell (que vai ao extremo de nos causar o pânico total dizendo que no futuro o Big Brother Estado será capaz, através da dor, do medo e do terror, formatar o Indivíduo quanto ao que sabe, quanto ao que pensa saber e até, pasmemo-nos, quanto ao que sente…), Huxley, em termos muito simplistas aqui aflorados, defende que para controlar o Indivíduo, especialmente a longo prazo e com custos orçamentais baixos, será necessário o absoluto controlo da génese embrionária do sujeito e o absoluto condicionamento do mesmo sujeito ao longo do seu desenvolvimento físico e cognitivo, formatando-o para aceitar o regime político vigente (Cheio de classes que vai desde os alfas-mais até ao quase-abortos epsilões…), ao estilo de vida querido pelo Estado (Consumam aquilo que quiserem, fodam aquilo que puderem, mas tudo sem amor e sem famílias…) e a toda a ideologia que lhe está subjacente (“Nosso Ford…”, “Meio grama de soma…”).

Segundo ponto, o mundo “utópico” criado pelo Autor. É certo que nos arrepia um pouco aquelas fábricas de alfas-mais, de betas-menos e de deltas-caquis, mas, a meu ver, o Autor esmera-se por narrar tal civilização com toda a simpatia que um felizardo pai descreve um filho; algo que se revela essencial para percebermos que, ainda que nos cause estranheza, o Brave New World é um sítio onde impera uma total felicidade, ainda que forçada.

Todos são felizes nesse mundo…

Bem, todos talvez não!

Como mais tarde na história se verá, há um trio de personagens (apenas simpatizei com duas…) que, por variadas razões, prefere ser um liberto infeliz ao invés de um espécime condicionado feliz.

Terão feito a escolha certa?

É algo que apenas os leitores poderão responder.