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2666

2666

de Roberto Bolaño

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Uma vez que a magna obra póstuma de Roberto Bolaño é dividida em cinco complexas partes, e de forma a fazer justiça ao Autor, decidi pronunciar-me separadamente sobre as cinco partes, que até tinham o propósito de ser cinco livros independentes dentro do mesmo universo, mas que, por decisão editorial e dos herdeiros, foram conjugados neste monstruoso 2666. Depois, logo farei a conclusão referindo-me em geral a toda a obra.

A Parte dos Críticos

Três críticos: um francês, um espanhol e um italiano tornam-se amigos através do gosto que nutrem pela obra literária de um enigmático autor alemão chamado Benno von Archimboldi. Tal paixão junta-os e permite-lhes bons momentos de fraternidades. Depois entra a única mulher do grupo, uma inglesa, e coloca tudo em alvoroço. E mesmo dentro deste alvoroço, a busca pelo referido autor alemão continua e leva-os até Santa Teresa, uma cidade mexicana fronteiriça onde mulheres são todos os dias assassinadas.

Ainda que os ganchos do Autor sejam sublimes e de alguma maneira originais, eles existem e obrigam-nos a virar a página. Claro que o arco narrativo é simplista e os três críticos mais não são que simples estereótipos do francês romântico, do espanhol de sangue-quente e do galante italiano (ainda que de cadeira-de-rodas…); mas temos Liz Norton, a inglesa, que é de longe a personagem mais interessante nesta Parte. Os seus medos femininos, os seus desejos femininos e as suas escolhas femininas são simplesmente humanas e falhas por isso mesmo.

Esta parte serve igualmente para levantar os dois pontos essenciais a compreender nesta obra: Benno von Archimboldi e Santa Teresa.

A Parte de Amalfitano

A parte das potenciais vítimas, como eu gosto de lhe chamar, tem menos personagens interessantes, mas o arco narrativo de Santa Teresa adensa-se e surge aqui a história de Amalfitano, um marido abandonado que se queda a cuidar da filha Rosa num ambiente que faz lembrar um lento, louco e suado purgatório para todos os que nela vivem.

A prosa do Autor consegue que cada palavra surja húmida, tensa e preocupada com o que se passa. Há medo, medo profundo e ansiedade neste pai a quem a droga e outros demónios mais lhe roubaram a mulher e cuja cidade onde vive lhe ameaça roubar também a filha.

Uma constante também é o medo de não nos lembrarmos. Evidentemente o medo de deixarmos de ser quem somos, e, portanto, o medo maior que alguém pode ter; não o supera sequer o medo da morte. Temos medo de nos esquecermos e de nos perdermos do nosso caminho, temos medo de nos esquecermos de quem somos e de nos perdermos da nossa alma e temos medo de nos esquecer de quem somos e deixarmos de existir ainda antes da nossa hora chegar. Bravíssimo este ponto de vista!

A Parte de Fate

Aqui a história, cruzando-se com a de Amalfitano e de Rosa, acompanha um jornalista que tem de cobrir um combate de boxe em Santa Teresa após perder a própria mãe. Não é uma parte fácil, está cheia de confirmações súbitas e de subtilezas suspeitas: há um serial killer em Santa Teresa, mas quem é (ou quem são) e porque são as vítimas apenas mulheres?

Há partes brilhantes, especialmente a do velho Barry Seaman (um arrependido Black Panther) que não vê os seus jovens aprenderem com os seus erros e com as suas lições. Depois o combate de boxe: toda a subtil violência social que gira à volta de um acontecimento explicitamente violento. Há os ricos, há as apostas, há as putas, há o sangue, há o conluio entre comunicação social e o poder… e há os vícios. Neste combate, e no que lhe sucede, encontra-se o primeiro indício que os assassinatos de mulheres não são apenas um erro do sistema culminados num ser hediondo, sociopata e misógino, mas sim algo mais… muito mais!

A Parte dos Crimes

Sendo de todo a parte mais entediante do livro (morreu esta, morreu aquela, foi encontrada aqui, foi encontrada ali…) é também a maior parte. E esta maior parte tem personagens interessantes – como o detective Juan de Dios Martinez, que sofre dos males do sexo desapaixonado, ou de Klaus Haas, um empresário alemão que se vê injustamente enclausurado numa prisão que mais parece o malebolge de Dante  – mas, sem sombra de dúvida, a grande personagem é a cidade de Santa Teresa. Diabos, é uma litania de raptos, torturas, violações, mortes e achamentos de cadáveres de tal ordem que a certo ponto (tal como na realidade) deixarmos de nos chocar e deixarmos de lhe prestar a devida importância. O desenrolar da lista de cadáveres (e nem todos do serial killer…) é assustadora e revela a verdade assustadora sobre a referida cidade: mesmo com a existência de um serial killer o que ressalta é a podridão humana que urbaniza malogradamente aquele pedaço de deserto fronteiriço.

A Parte de Archimboldi

A melhor parte do livro, sem dúvida nenhuma, conta-nos a história do jovem Hans Reiter e do velho Benno von Archimboldi. Ambientado na Alemanha no período que antecede a Segunda Guerra Mundial, no período da mesma guerra e no período que lhe sucede, vemos pelos olhos do desengonçado Reiter o mundo sucumbir e vemos uma paz assustada a ressurgir.

Não sei se o Autor fez de propósito ou não, mas a verdade é que talvez se possa desenhar um paralelo entre o inferno da Segunda Guerra Mundial e o inferno de Santa Teresa, que apenas surge na última parte para juntar as pontas soltas das outras quatro partes.

Mais, Archimboldi não nasce na guerra, mas nasce da Segunda Guerra Mundial e, no fim, prepara-se para enfrentar Santa Teresa. Mais que escritor, sempre soldado…

E o fim? Tão subtil, tão maduro e tão triste. O último monólogo do vendedor de gelados, queixando-se que as pessoas apenas se lembram do nome do gelado e não do nome nem da história do seu criador (que porventura quase parece que existiu apenas para dar o seu nome à porcaria dum gelado) é um subtil e final desabafo de um Autor, talvez com medo de ser esquecido e talvez com inveja da própria obra que ele mesmo criou. Paradoxal? Certamente. Verdadeiro? Claro. No fim da vida de uma pessoa que interessam os prédios que ergueu, as pontes que levantou ou os livros que escreveu? Já que o corpo não aguenta o que interessa é que a nossa história seja recordada!

Magnífico!

CONCLUSÃO SOBRE 2666

Vamos ver, certamente que cada uma das cinco partes, ainda que com valor próprio e mesmo funcionando no mesmo universo do Autor, seriam, divididas, boas estórias (mas nunca uma estória transcendente, como é o caso de 2666).

Truques narrativos, paradoxos, metáforas, estórias e histórias… 2666 é, como o número indica, uma besta ao quadrado em todos os sentidos. Narrativa, personagens, descrições: arte bestial ao quadrado! É apenas preciso um pouco de paciência e tempo, muito tempo. Demorei quase sete meses a acabá-lo (se bem que gosto de ler para me afastar da realidade, algo que é impossível com 2666, pelo que também não consegui pegar nele muitas vezes dois dias seguidos… demasiada realidade cruel).

Contudo, não há como negar a prosa agradavelmente divagante (e ainda assim objectiva) de Roberto Bolaño. Fenomenalmente, há um paradoxo evidente nesta obra: se lida depressa, entedia. Se a lermos devagar, caímos no desafio e colocamo-nos a pensar – o que alguns até acham perigoso. A quantidade de pensamentos, de ideias e de silêncios que despontam desta única e gigantesca obra é fenomenal e não me admira que digam que caiba o mundo inteiro nela nem que seja já um clássico da literatura mundial.

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Correr de Verdade

Forasteiro, tu, que és de fora por agora,
Tu, que vens donde só se fulmina o céu,
Não sabes o que é correr, correr, correr
Nem o que é correr para fugir de verdade
E para lá, bem para lá, do finado fôlego.

Forasteiro, tu, que não és cá de perto,
Tu, que vens lá de longe, muito longe,
Não sabes o que é correr zunindo tiros
Nem o que é correr de balas perdidas
Por entre o caos, o terror e a agonia.

Forasteiro, tu, que ainda te fartas de rir,
Tu, que desconheces o azar de aqui vir,
Não sabes o que é correr da vizinha morte
Nem sabes o que é correr para continuar
Vivendo nas ruas e ruelas destas favelas.

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PS: A tentativa lírica de cima é em honra de todas as pessoas que me são queridas e que vivem num dos países com mais recursos do mundo, mas onde impera ainda a pobreza de espírito, o crime e a fraqueza política.

Fica aqui o meu presente para vocês, meus queridos corajosos.

Que Deus não vos falhe a vós e não falhe também aos vossos queridos.


Frio…

Aqui, perdido e vazio,
Sentindo o lado frio
Da cama, estendo sombrio
A minha mão e esvazio-me

De esperança! Não resta
Mais nada aqui nesta
Hora em que esta besta
Tenta só dormir a sesta?

E sem o calor do sol além,
Será que tens frio também?
Ou será que já tens alguém
E eu passei a ser ninguém?

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Antecedentes…

Quanto de mal tem mal
Quando a maldade surge
Da memória do passado
Da mágoa do presente
E do medo do futuro?

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Problema Eutanásia

Sem vida, não há pessoa; logo, só há pessoa com vida. Vale por dizer que se uma sociedade é composta por pessoas, só há sociedade quando há pessoas e, logo, só há sociedade quando há vida.

Como o raciocínio atrás bem retrata, resultou da minha formação que fui ensinado que o maior bem da sociedade, o maior valor da sociedade, é a vida. E tal naturalmente decorre porque a sociedade, num instinto de autopreservação, obriga-se a proteger as suas pessoas; que é o mesmo que dizer que se obriga a proteger a si mesma. Portanto, e acabando com as redundâncias, a sociedade está obrigada a proteger a vida das pessoas que a compõem.

Todavia, colhe em mim a ideia que existe um único valor que consegue secundar o valor vida: o valor vida digna. É que é muito bonito invocar deuses, princípios, opções pessoais, juramentos deontológicos e n outros argumentos, mas a verdade é que sabemos todos que existe vida e vida.

Quero com isto dizer que a vida tem muitas coisas boas, muitas mesmo, e até os acontecimentos mais ruins podem ser vistos de uma forma positiva passado algum tempo (por mais que não seja, para nos ensinar com erros e a dor que deles resulta…).

Contudo, existe um factor que, quando permanente, é capaz de afastar todas as coisas boas na vida: o sofrimento. Sinceramente, de que vale o sol brilhante, o céu azul, a morena cheirosa e as flores da Primavera perante o esforço colossal de aguentar uma vida sem poder sair de uma cama, sem poder mover-se sozinho, sem poder sentar-se numa sanita sozinho, sem poder tomar banho sozinho, sem poder alimentar-se sozinho, sem poder satisfazer-se sexualmente sozinho…

Aqui, talvez a palavra-chave não seja, na sua grande essência, o sofrimento só por si, mas sim o sofrimento gerado pela incapacidade permanente de ser, por si próprio, alguém individual, alguém que se faça valer sozinho.

Claro que há pessoas teimosas, e tremendamente corajosas, que não se deixam abater por esta incapacidade e deixam de se importar com o quanto são dependentes todos os dias. Há pessoas que descobrem a sua força interior quando todas as restantes forças se vão e dedicam-se a outras formas de viver.

Porém, existem outras pessoas que percebem que, lá no fundo, nunca conseguirão ser felizes com tal incapacidade sem saída. E tal gera um sofrimento sem igual que apenas se acaba com a coragem (o outro verso da moeda) de dizer “Basta! Já não quero viver!”.

É aqui que se percebe que estar vivo, sem dignidade nenhuma, passa a ser um sofrimento tremendo que não pode ser imposto a estas pessoas que sofrem e é aqui que toda a sociedade tem o dever de compreender que ser pessoa é muito mais do que ter um coração que bate dentro dum saco de carne podre e imóvel.

Se alguém cujo sofrimento permanente e incurável lhe obliterou a vontade de viver, porquê negar-lhe o seu único desejo?

Estará a fazer mal à sociedade um tipo que diz que:

a) Eu não quero mais viver, só quero uma saída digna para mim;

b) Eu não quero mais chatear quem cuida de mim, só quero uma saída para eles;

c) Eu não quero continuar a receber tostões do Estado, só quero uma saída para que o Estado não tenha de inventar desculpas para dizer que não consegue tratar de mim.

Será que Deus fecha as portas a uma pessoa que, depois de tanto sofrimento, só quer ir ter com a sua Graça mais depressa? Será que um médico se ficará a sentir pior depois de acabar com o sofrimento incurável de um paciente sem solução? Será que algum juiz, político ou outro soberano qualquer, em última representação da sociedade, terá coragem de cobrar mais um imposto derradeiro (a vida) à custa do sofrimento permanente e incurável de um dos seus membros?

É lindo ver a democracia parlamentar (cheia de velhos cristãos retrógrados…) a votar por si mesmos, sem qualquer directriz parlamentar. Pena é que um voto seja uma escolha e nessa escolha retire uma outra escolha, completamente legítima, a quem tanto sofre no meu país…

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Cachorro Abandonado…

Quero apagar tuas músicas
E jogar fora essas melodias e
Essas letras que me fazem
Lembrar de ti a dançar e a
Balancear sorrindo sem jeito.

Quero queimar as tuas fotos
E jogar fora todas as imagens
E montagens que me fazem
Lembrar das noites infindas
A sorrir por te ter comigo.

E quero romper esta pulseira
E jogar fora todos os presentes
E todas as ofertas que me fazem
Lembrar de quando te lembravas
Deste cachorro abandonado…

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Sem paciência…

Sem paciência para o drama
Da moça que não sei se me ama
Ou se prefere ser solta dama,
Hoje só quero sair desta cama
E esquecer tudo, toda a grama
Deste peso vazio que me trama…