Category Archives: Explosão de personalidade

Indiferente

Estás cega? Não vês que me sufocas com o tanto que as tuas mãos me apertam e os teus braços me seguram? Tens medo? Sim, talvez tenhas medo daquilo que não controlas e talvez teu maior medo seja mesmo o de não me poderes controlar. Contudo, desculpa-me: não aguento perder mais um segundo aqui contigo! Tudo aquilo que pensaste que eu podia ser caiu do céu e morreu na terra, tal como a primeira pessoa do plural morreu contigo e bem à tua frente!

E porquê?

Porque estou cansado de ser o que queres que eu seja! Porque estou cada vez mais descrente nisto nosso que já não é bem nosso! Porque me afoguei perdido neste mar agitado e voltei à tona boiando ainda mais perdido! E, por fim, porque não sei o que esperavas de mim ao exigires-me com tanta força para que seguisse caminhando com os teus sapatos, com as tuas botas e desfilando até dentro das tuas saias.

E o pior?

O pior é que cada passo que dava era só mais um passo errado noutra direcção, um trilho enganado ou certamente um fado equivocado e sem sentido. Errei, em ti, tantas vezes que meu erro se tornou indiferente e nessa indiferença de erros rotineiros me indiferenciei de ti até ao ponto de se me esgotar  o excessivo tanto que amava em ti. Finalmente, um pouco mais em mim, despertei ciente do que era realmente preciso: ser menos como tu, ser mais como eu.

Vou falhar?

Sim, eu sei que posso acabar falhando também. Sei que posso cair num buraco, pisar uma armadilha ou mergulhar num abismo ainda mais profundo que este. Todavia, por favor, não ignores que és apenas como eu: um alguém com outro alguém tremendamente desapontando, francamente desiludido e agradavelmente desenganado.

Estou diferente?

Não, estou apenas… indiferente!

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Mind Devour by Sebastian Eriksson


A máquina de Joseph Walser

A máquina de Joseph Walser

De Gonçalo M. Tavares

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by Caminho

De volta a’O Reino de Gonçalo M. Tavares (GMT) e de volta à cidade atacada pela guerra de Um Homem: Klaus Klump, o que poderei dizer sobre este livro? Sinceramente, talvez precisasse de muitos mais adjectivos do que aqueles que o Autor usa para contar a história de um homem de tão poucas palavras como Joseph Walser, protagonista desta estória com… tão poucas palavras, mas com tanto contado!

 

A sério, a habilidade que GMT tem para contar histórias que nos emocionam sem se desperdiçar com exaustivas descrições ou capítulos cheios de mistério e acção é algo que tem de ser reconhecido; bastante aplaudido de pé talvez.

 

Fazendo o devido paralelismo entre um Um Homem: Klaus Klump e A máquina de Joseph Walser (querido e desejado pelo próprio Autor, tal como consta da breve nota introdutória da edição que li), o primeiro opta por mostrar a guerra através dos sentimentos e dos pontos de vista de várias personagens enquanto que o segundo conta a história de um homem em guerra consigo mesmo. Mesmo lá fora, nas ruas não muito distantes da sua porta, e ainda assim longínquas, onde a guerra se vai desenrolando, as verdadeiras batalhas travam-se dentro no nosso protagonista, um pilar de fraqueza e apatia indestrutíveis.

 

O nome escolhido para a obra foi A máquina de Joseph Walser, mas bem poderia ter sido “A alma de Joseph Walser” ou “O coração de Joseph Walser”. A metáfora é sublime, e perfeita. Claro que a máquina, capaz talvez de cortar, mas certamente responsável pelas funções de vibrar e sentir do protagonista, existe mesmo na história. Não é meramente uma simples máquina, mas é, isso sim, uma grande metáfora para o que se passa com Joseph Walser.

 

Por fim, ao contrário de Klaus Klump, que não ficaria na memória não fosse o caso de constar no título de uma obra de GMT, Joseph Walser é daquelas personagens que não se esquecem. Joseph Walser talvez se esqueça de si, mas nós, tal como o encarregado Klober Muller, não nos esqueceremos dele.

 

Como nos podemos esquecer de alguém que tem a certeza que irá ser esquecido? Como nos podemos esquecer de alguém que sabe não deter qualquer ambição de reconhecimento público ou mesmo o reconhecimento íntimo da sua própria esposa? Como esquecer alguém tão pouco especial, tão esquecível, tal como a maior parte deste mundo de esquecidos do qual nós fazemos parte?

 

Magistral…

 

Após quatro livros d’O Reino, fiquei com a leve sensação que GMT o tem por seu Magnum Opus (não há um único livro mau nesta tetralogia de empatias obscuras), mas o Autor ainda é novo; logo, temo com agrado que coisas grandiosas advirão das suas penas carregadas de arte e imaginação.


Poder…

Bom, eu não sei se eu posso
Talvez tu também não possas
Mas sei que eles não podem
Enquanto nós aqui podermos…

 

 


Roseira Brava

Uma roseira brava, outrora cheia de espinhos, viçosos e aguçados,foi ficando uma rosa amestrada, complacente com a tesoura que lhe podava o carácter e a alma; tudo porque queria de si mesma apenas o perfume aveludado das suas pétalas vermelhas.

Como uma desconhecida que se desconhece a si mesma, foi-se desapegando das raízes como se o leite que o ventre da mãe-terra lhe deu não fosse a seiva que lhe empurrou o verdíneo caule para cima, para crescer, ainda que torto.

Sempre a troco do melhor lugar ao sol, foi ignorando a roseira a falta de espinhos e o cair das suas próprias folhas, o cair das unhas e dos pulmões, até que em vez da elegante tesoura de podar veio a última serra findando assim a sua pobre história.


Vinte Anos de Harry Potter

Ainda que longe de ser uma das minhas séries preferidas de livros, a verdade é que a magia de J.K. Rowling me encantou durante os breves anos da minha adolescência. A febre era tal que consegui ler a Ordem da Fénix (o maior livro da saga) nuns rápidos e necessários três dias e meio (talvez quatro, vá…).

Quando me perguntam o que acho da saga de Harry Potter ainda hoje digo o seguinte: bons prólogos, alguns demasiados sombrios para o seu público alvo, um vilão carismático e sete livros cheios de problemas atrás de problemas de três adolescentes mágicos que, num verdadeiro caminho sinuoso, se tornam adultos no final do sétimo livro. Claro que haverá mais por dizer, bastante mais…

Contudo, hoje quero mesmo é prestar uma pequena homenagem a uma das poucas sagas de livros que, ainda que tenha os seus defeitos, encantou várias gerações e nos devolveu a magia das letras e a fantasia da nossa imaginação ao glorioso panteão da Grande Literatura.

E no que a mim me diz respeito cumpre também referir, com alguma nostalgia à mistura, que conheci os corredores da minha própria escola enquanto ia também descobrindo os corredores Hogwarts, joguei futebol ao mesmo tempo que ia dando conta do que era o quidditch e experimentei o meu primeiro beijo no mesmo ano que Harry beijou Cho Chang.

Talvez haja ainda mais que vos possa contar, mas perderia a magia…

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by Bloomsbury Publishing


Se eu fosse seu…

Se eu fosse seu teria de limpar
O quarto, fazer a cama e arrumar
Um trabalho só para ficares feliz.

Se eu fosse seu não seria poeta
Pois teria que poupar as palavras
Escolhendo entre moedas e verbos.

Se eu fosse seu não seria livre
Nem teria latejando a liberdade
Desta jovem e sexual idade.

Se eu fosse seu seria um pigteu (*)
Se eu fosse seu nunca seria eu
E se eu fosse seu nunca seria meu.

 

 

 

(*) Inicialmente era para colocar “pigmeu”, mas enganei-me, saiu erro e, como acontece muitas vezes a quem escreve, achei que se adequava melhor uma espécie de neologismo chamada “pigteu“; algo que não vem no dicionário mas que fica entre o conceito fofinho de “pigmeu” e um conceito emporcalhado de “porco teu”. Se alguém achar estúpido, não peço desculpa…

 


Passos, passos e passinhos…

É certo que os grande passos da nossa vida acontecem pouco mais que umas cinco vezes em média. O primeiro passo trata-se efectivamente dum berreiro inconsciente à procura do primeiro fôlego, o segundo passo talvez nos suceda num pequenino primeiro beijo com aquela rapariga que jamais esqueceremos, o terceiro talvez ocorra entre o fim da mocidade e o início do mundo adulto, o quarto vem com um novo berreiro carente de oxigénio que nos faz prometer deixar de vez os vícios da adolescência perante o valor família e, finalmente, o quinto passo quando fechamos os olhos para aquilo que espero ser um merecido sonho eterno.

Entre esses grandes passos há outros, não tão quintessenciais, mas, ainda assim, bastante importantes. E um desses passos bastante importantes acontece efectivamente quando alcançamos o pequeno sucesso de acabarmos finalmente a nossa vida académica (Foda-se, ’tá feito!!!). Após vinte anos de pestanas queimadas, reflexões assustadas e permanentes dúvidas sobre o que fazer com essa porcaria do que é o meu suposto futuro e mais uma data de recursos alocados entre refeições na escola, mensalidades na universidade e propinas de ordens profissionais, está feito. (Foda-se, ’tá mesmo feito!!!)

Sou hoje o que lutei por fazer de mim e isso ninguém me tira!

No entanto, chegado aqui, e suspendendo por um momento as dúvidas incessantes sobre o que fazer a partir daqui, cumpre-me olhar para estes meus pés relativamente exaustos e recordar, não só os grandes passos que já dei, mas também aqueles passos preguiçosos e pequenos que tanto me custaram a dar. Ora por estar demasiado cansado ora por estar demasiado abatido com uma rotina infinita que às vezes me pareceu incapaz de trazer frutos, houve dias em que lutei quase com a vida para sair da cama, pousar os pés no soalho gelado, engolir o pequeno-almoço, apanhar a chuva invernada daquelas nuvens filhas da puta e sentar o traseiro nalguma cadeira desconfortável durante horas a fio para fazer o que tinha para fazer (ou desfazer) naquele dia.

Enfim, é hora de agradecer devidamente. É hora de massagear bastante bem os calcanhares, as palmas-dos-pés e os importantíssimos dedos mindinhos destas patorras (e talvez sarar também os calos com aquela porcaria do Protex Creme que as pessoas tanto gostam…). E é hora de prepará-los para os pequenos passinhos do caminho que se segue até ao próximo grande passo (leia-se: ganhar uns guitos, arame, paca, prata ou pilim…).

É que na verdade, seremos sempre uns meros caminhantes com passos dados e por dar…