Monthly Archives: Novembro 2017

Admirável Mundo Novo

Admirável Mundo Novo

de

Aldous Huxley

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by ANTÍGONA

Depois de ter ficado algo traumatizado com a distopia de George Orwell, o célebre 1984, decidi arriscar-me com Aldous Huxley no seu Admirável Mundo Novo e, tenho que dizer, o resultado foi inesperado para mim, ainda que em muito semelhante ao que me sucedeu com Orwell.

Primeiramente, há que dar mérito à posição de Huxley relativamente ao futuro.

Ao contrário do seu aluno Orwell (que vai ao extremo de nos causar o pânico total dizendo que no futuro o Big Brother Estado será capaz, através da dor, do medo e do terror, formatar o Indivíduo quanto ao que sabe, quanto ao que pensa saber e até, pasmemo-nos, quanto ao que sente…), Huxley, em termos muito simplistas aqui aflorados, defende que para controlar o Indivíduo, especialmente a longo prazo e com custos orçamentais baixos, será necessário o absoluto controlo da génese embrionária do sujeito e o absoluto condicionamento do mesmo sujeito ao longo do seu desenvolvimento físico e cognitivo, formatando-o para aceitar o regime político vigente (Cheio de classes que vai desde os alfas-mais até ao quase-abortos epsilões…), ao estilo de vida querido pelo Estado (Consumam aquilo que quiserem, fodam aquilo que puderem, mas tudo sem amor e sem famílias…) e a toda a ideologia que lhe está subjacente (“Nosso Ford…”, “Meio grama de soma…”).

Segundo ponto, o mundo “utópico” criado pelo Autor. É certo que nos arrepia um pouco aquelas fábricas de alfas-mais, de betas-menos e de deltas-caquis, mas, a meu ver, o Autor esmera-se por narrar tal civilização com toda a simpatia que um felizardo pai descreve um filho; algo que se revela essencial para percebermos que, ainda que nos cause estranheza, o Brave New World é um sítio onde impera uma total felicidade, ainda que forçada.

Todos são felizes nesse mundo…

Bem, todos talvez não!

Como mais tarde na história se verá, há um trio de personagens (apenas simpatizei com duas…) que, por variadas razões, prefere ser um liberto infeliz ao invés de um espécime condicionado feliz.

Terão feito a escolha certa?

É algo que apenas os leitores poderão responder.

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A Espia

A Espia

de

Paulo Coelho

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by Pergaminho

Mais um autor estreado e, após uma brevíssima leitura de duas noites, o que tenho para dizer desta pequena história acerca de quem foi Margaretha Gertruida Zelle, mais conhecida por Mata Hari?

Primeiramente, muito pouco quanto à narrativa em si mesma. Há o mergulhar na água e há o molhar o pé; e, neste caso, o Autor preferiu molhar apenas o pé em vez de mergulhar.

Terá feito de propósito?

Parece-me que sim. O fim último deste livro não é o de contar exaustivamente a verdadeira história de Mata Hari (está longe, muito longe de disso…), é sim o de utilizar uma figura exótica, por vezes perdida e algo enigmática para a maioria das pessoas para transmitir algumas mensagens do próprio Autor.

E aqui está um ponto forte: o português polido e ansioso por ser inspirador do Autor é agradável; muito agradável se ainda não forem leitores amargurados e desejosos de dizer mal dos chamados “guias de autoajuda”. Para estes, lembro que a maior parte dos livros têm mensagens. Algumas são subtis, outras são mais evidentes; mas a verdade é que todos os bons livros as têm.

Contudo, quanto a mim falo, eu gosto mesmo é de boas estórias, boas personagens e bons enredos. A Espia não pretende ser esse tipo de livro, pretende apenas utilizar uma figura da vanguarda feminina numa altura em que ainda vigorava o patriarcado conservador na Europa para inspirar as pessoas a não terem medo da própria identidade e, ainda mais importante, a abraçarem a sua própria identidade.


Crítica Justice League

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Justice League

de

Zack Snyder

Acabei agora de ver um dos filmes mais esperados do ano e sinceramente não posso dizer que esteja desiludido. Antes pelo contrário, posso dizer que excedeu as minhas expectativas.

Infelizmente, a tragédia pessoal que assolou a vida de Zach Snyder e provocou a intervenção de Joss Whedon veio a resultar numa simbiose quase perfeita entre a visão cinematográfica bastante estilizada de Snyder e a importância que Whedon dá às personagens no roteiro de um filme.

E não me interpretem mal, continuo a achar que o filme BvS: Dawn of Justice continua muito bom, sombrio, tal e qual um filme sobre a morte de um símbolo de esperança deve ser. Se alguém quer matar o Superman no grande ecrã, tem que ter um tom agreste, horrível e carregado de trevas.

No entanto, na senda de Wonder Woman, que nos falou da importância da paz e na extrema urgência de de lutar contra a guerra num tom muito próprio, este Justice League tem também o seu tom mais luminoso, com uma mensagem de esperança ainda mais forte.

Dirão alguns que todos os filmes da DCEU deviam ter este tom.

Eu discordo.

Cada filme é um filme e deve ter o tom que melhor se adequa à narrativa e à mensagem que merece ser passada. Man of Steel teve um tom mais épico,
BvS: Dawn of Justice teve outro tom mais negro, Wonder Woman iluminou um pouco as coisas e este Justice League veio dizer-nos para continuarmos a acreditar, para continuarmos a olhar para o céu.

E haveria tanto mais para dizer quanto ao tom, mas fiquemos por aqui…

Quanto ao argumento em si, após a chamada de Lex Luthor, Steppenwolf respondeu ao chamamento e regressou à Terra para lançar o inferno primordial sobre o nosso planeta. Compete agora ao Batman e à Wonder Woman juntar uma equipa de seres fenomenais de modo a travar as intenções do vilão. É a típica história de quadradinhos relativamente a um grupo de super-heróis; nada mais simples e que, cumprindo a fórmula, resulta na perfeição.

Claro que ao contrário dos filmes da Marvel (comparação inevitável), acontece a necessidade de conhecermos uma data de gente nova: Flash (numa versão mais cómica e ligeira que o da série televisiva), Aquaman (o mais badass de todos) e Cyborg (aflito com a possibilidade de deixar de ser uma pessoa e passar a ser uma máquina).

E o que dizer mais destes três?

Que são formidáveis, verdadeiramente formidáveis!

O roteiro passa apenas a mão sobre a superfície da água e não mergulha de todo nas suas profundezas, nas suas complicadas histórias pessoais. Tal fica para outras núpcias a solo e muito bem. Vale por dizer que se releva o essencial das suas personalidades, os seus desejos, os seus problemas e os seus poderes.

Mais pontos fortes, explorando o sentimento de culpa de Batman quanto à morte do Superman e o luto que a Wonder Woman ainda carrega após ver Steve Trevor morrer dá-nos um sentimento de continuação em relação aos outros filmes. Ademais, é óptima a química que continua a acompanhar o morcego e a amazona.

Quanto ao Superman, o seu regresso é poderoso e significante; algo que vai muito além do simples “S” que traz ao peito. Superman nunca esteve em tão boa forma como com Henry Cavil. Claro que olhos mais atentos vão reparar no bigode removido, mas os olhos menos atentos vão deixar passar… No entanto, não é tanto por aquilo que o Superman faz, mas por aquilo que conseguiu junto de Batman. Não é fácil tocar o Cavaleiro das Trevas, não é mesmo nada fácil. Todavia, o Último Filho de Krypton conseguiu-o e por isso merece palmas.

Quanto às personagens secundárias, Alfred continua em óptima forma, Lois tem um papel reduzido – e ainda assim muito importante para a história – , Martha serve de memória e Silas Stone, Mera, Jim Gordon, Henry Allen e outros que não vou relevar apresentam-se em muito boa forma também. Especialmente os novos actores deixam-nos ansiosos pelos filmes a solo de Flash, Aquaman e Cyborg. Há tanto potencial nestes filmes que até dói sabermos que ainda vão demorar a sair!

Por fim, o vilão: Steppenwolf.

Sinceramente, acho que a voz de Ciaran Hinds se adapta perfeitamente, mas tudo o resto é algo que percebemos ser digital. Talvez uma maquilhagem à base de próteses como a de Apocalipse no último filme dos X-Men ou a técnica Darth Vader (voz de um actor, actuação física de outro…) se adequava mais a este tipo de filme. O CGI consegue coisas formidáveis, mas por vezes ainda deixa muito a desejar. É o único ponto verdadeiramente negativo que encontro neste filme.

Tudo demais faz Justiça ao nome!

 


A propósito dos falados assédios e das suas vítimas…

O que vou contar a seguir é uma história verídica que se passou à minha frente:

Num antigo trabalho, tive uma Colega que em certo dia, enquanto procedia sentada a fazer o seu trabalho à frente de sensivelmente dez clientes (dava cartas numa mesa de póquer), teve o meu director agarrado às costas da sua cadeira a fazer movimentos pélvicos, quase como um cão com cio… só faltava babar-se e relinchar como um cavalo ejaculante!

Os clientes viram, nós, colegas de trabalho, vimos, as câmaras de segurança viram e quem quer que estivesse ali por perto também viu a minha Colega a ser alvo de uma “simples brincadeirinha” do director.

Alguns minutos depois, saída da mesa, a tal minha Colega veio bamboleando-se para junto de mim e de mais alguns colegas e, muito ofendida, refilava: “Vocês viram o que o fulano sicrano me fez? Parecia um cão agarrado à cadeira! Que nojo…”

Ora, ingénuo demais na altura e preocupado com uma colega de trabalho, perguntei-lhe revoltado: “Porque não disseste nada em frente a todos os clientes?” e acrescentei: “Tinhas envergonhado o cabrão em frente a toda a gente…”

E a minha cara Colega respondeu a sorrir: “Oh, ele é o director, não posso fazer nada…”

Sinceramente, com esta moda recente de apontar os dedos, ainda estou à espera de a ver vir para algum jornal a denunciar o porco do meu director…

Terá coragem agora quando não teve há alguns anos em que tinha montes de pessoas prontas a testemunhar a seu favor? Quando tinha câmaras de segurança a filmar o sucedido?


Em maus versos…

Cada passo meu é um verso,
Um verso frustrado, perverso
E, como tudo no meu universo,
Um buraco negro e adverso.

Olho o céu: “ajudinha, ajuda?”
Resposta: chuvada trombuda
Duma nuvem cinza e sisuda!
Enfim, posto isto, nada muda…

Não tenho um único diamante,
Azedo-me a beber espumante
E não, não tenho uma amante!

Será alarmante? Não sei, nada
Sei hoje desta jornada danada,
Cada vez mais puta e aputanada.


Ébriando solitariamente…

Hoje à noite estava eu num bar
E, numa comichão, faltou-me o ar
Faltou-me o chão e faltaste-me tu,
Meu único par, para me amparar.

Estava só, rodeado de bêbados risos
E muitas piadas cheias de improvisos,
Mas, sempre em falta: os teus sorrisos
Amorosos e perfeitos e brancos e lisos.

Pior, as mesas do bar estavam cheias
Embriagando de alegria todas as veias
Mas, como um copo vazio e sem ideias,

Eu ia bebendo, bebendo e bebendo
Com mais a recordar do teu sendo
Do que para me ir de ti esquecendo.


A vida de um homem bom…

Não acreditava nada em missas
Nem nessas modas das castiças,
Preferindo furtar-se às preguiças
De acreditar cego em tais justiças.

Escuso de correr atrás dum centil
Brincava a sério e jogava-se infantil
Dum velho cantil para um novo cantil
Cantando ébrio e tocando gentil

Peitos ao sul e paixões ao norte,
Vivendo de espírito esperto e forte
Até que ricamente lhe faltou a sorte
E lhe chegou a pobre hora da morte.