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Crítica: Romão e Juliana

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Romão e Juliana
de Mário Zambujal

Evidentemente, a obra (de leitura rápida) é uma paródia do reconhecidíssimo, trágico e intemporal par romântico Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Ora, paródias servem para rir, e é essa a principal missão deste Romão e Juliana: arrancar sorrisos com o velho e bom humor português.

Contudo, ainda que haja algum paralelismo em termos de arco narrativo com a peça inglesa, não deixam de se alçar e realçar as diferenças evidentes entre o par de Shakespeare e o par  de Zambujal. Logo, nota a tomar: Romão não é Romeu, Juliana não é Julieta.

Dito isto, tentem adivinhar o fim ao mesmo tempo que se riem das bacoradas a aleivosias de Mário Zambujal, um autor sempre irónico, e ora subtil ora descarado.

Ponto menos bom (e atenção que não é mau): existem discursos demasiadamente difíceis e elaborados. Ninguém fala assim, mesmo no tempo de D. João V. Contudo há a reparar que tal linguagem talvez seja propositadamente utilizada com o fim de sublinhar toda a ironia da obra. Sinceramente, apenas assim a percebo.

Por fim, não tendo como missão ser levado demasiado a sério, Romão e Juliana apresenta-nos um Portugal que a nós, portugueses, nos é ainda assim familiar. Quiçá pelo humor velhaco (mesmo dos libertinos mancebos) ou pelo amor malandreco que tão bem caracteriza as gentes de Viriato, a verdade é que esta obra vai mais além do que uma mera paródia e dá-nos uma ideia do que era e ainda continua a ser o amor à portuguesa.

Apetece-me mesmo dizer que me encontro convencido que o próprio amor à portuguesa parodia todos os outros amores. Será isso bom? Será prático? Não sei, leiam esta obra e depois logo chegamos a um consenso.

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Ressaca das Eleições Brasileiras

Enquanto português, e, por isso mesmo, com olho externo sobre o Brasil, penso que as causas sobre a ascensão de Bolsonaro são as seguintes:

1. Problema estrutural de educação.
Têm uma taxa de analfabetismo que julgo rondar os 7,2% segundo as últimas notícias que li sobre o assunto. Depois, e perdoem-me os brasileiros, a qualidade do ensino é péssima. Qualquer tipo que tenha frequentado uma escola portuguesa (cujo ensino público não é assim tão bom…) chega ao Brasil e se destaca (mesmo o aluno com mais dificuldades). Mais, e apenas a título de exemplo, encontrar um brasileiro que saiba falar inglês é uma raridade e a História de Portugal (que tem a sua influência, para o bem e para o mal, na História do Brasil) é algo bastante brumoso para a maioria do povo brasileiro.

2. A Presidenta Dilma
Mais preocupada em ser chamada de Presidenta do que noutro assunto qualquer (uma tremenda parvoíce, sendo que presidente é já só por si um étimo sem género e não há nenhum “presidentO” na língua portuguesa…) , a dona Dilma foi eleita pelo povo brasileiro, mas nunca percebeu que já não se encontrava ao serviço de Lula da Silva e nunca percebeu que a figura do Presidente do Brasil nunca poderia, em momento algum, pôr-se a tentar proteger um cidadão investigado por crimes de corrupção. Percebendo de antemão alguma frustração por algum abuso das entidades judiciárias, tentar fazer regressar Lula ao governo foi, mais que um erro crasso, um atentado à transparência política e um convite claro ao impeachment que sofreu.

3. Lula da Silva
Talvez por teimosia ou talvez por falta de melhor aconselhamento, Lula da Silva arrastou o PT para a fossa, não percebendo a importância do seu partido para a estabilidade política do Brasil. Mais, a falta de sentido de estado foi tão grande que em vez de se afastar da sua afilhada Dilma, do PT e do governo, ainda tentou voltar a concorrer às eleições, fraturando assim tanto o eleitorado como dando a entender que no PT não havia ninguém capaz para lutar por ser presidente.

4. Partido dos Trabalhadores
Não, nem todas as pessoas que votam em Bolsonaro são fascistas ou misóginas; pois algumas delas votaram em Lula e em Dilma. O PT, e suas bases, pagam agora por não terem criado um aparelho profissional, competentes e desgarrado de personalidades. A idolatria incondicional que prestaram a Lula, querendo colocar em causa o próprio aparelho judiciário, foi mergulhar na merda e continuara chafurdar nela. Mais, qual era o programa de governo de Hadad? Os projectos? As ideias? Resposta inacreditável: indulto a Lula. Mesmo sabendo que eles acreditam plenamente na inocência de Lula, o que pensa o resto do mundo? Apenas uma coisa: a corrupção é sistémica.

5. Direita Brasileira
A Oposição está sempre à procura de poder, dê por onde der, e conforme os métodos que estiverem à sua disposição. Socorrendo-se dos valores conservadores de Moro e restante companhia judiciária, fizeram um aproveitamento político e, passe a redundância, baixo. Claro que não contavam com a ascensão de Bolsonaro, mas talvez lhes sirva de lição.

6. Aparelho Judiciário
Não colocando de parte a hipótese de Lula ter sido efectivamente corrompido, o que está em causa é a entrega de uma casa (e outros valores) a Lula como contrapartida deste, enquanto esteve no poder, os favorecer ilicitamente. Contudo, ressoa (nunca consultei o processo) a inexistência de provas…
Mais, se fosse em Portugal que Moro (sabe-se agora apoiante de Bolsonaro) aparecesse durante uma campanha política revelando documentos em segredo de justiça via-se logo a contas com um processo disciplinar. No Brasil aplaudem o seu “heroísmo”…

7. Comunicação Social
Não é por a comunicação social se ter tornado um negócio que os deveres de prestação de informação isenta e precisa, bem como os deveres de prestar programação de qualidade (e não apenas futebol e big brothers e companhia…), se devem descurar. A título de exemplo, qualquer jurista português se assusta com aqueles programas brasileiros em que o jornalista entrevista um tipo detido e algemado e lhe pergunta “Porque você matou a sua mãe?”. Esse tipo de programas é um atropelo aos direitos fundamentais de qualquer cidadão, mesmo dos cidadãos mais torpes e, no entanto, é um tipo de programas que continua a existir. Desculpem-me os consumidores desses programas, mas esse tipo de programação emburrece as pessoas e torna-as mesquinhas e de visão curta.

8. Insegurança
O medo destrói regimes e a promessa de segurança ganha votos. É tão simples como isso. O Brasil teve mais assassinatos este ano num ano do que a União Europeia e os Estados Unidos da América juntos. Porque diabos o PT e os outros não tomaram nenhuma medida contra esta insegurança? Por amor de Deus, não custa a perceber isso, era só ver a Tropa de Elite (1 e 2)!

9. Igreja e bispos e padres de merda
“A César o que é de César, à Igreja o que é da Igreja.” Disse Jesus Cristo.
Contudo, os bispos e parolos religiosos querem mais que o Reino de Deus! Querem poder! E, por isso, toca de aproveitar a necessidade de orientação espiritual das “ovelhas” e apoiar Bolsonaro…

10. Povo
Por fim, ao contrário do que alguma comunicação social parece querer fazer crer, havia escolhas políticas para todos os gostos. Não existiam apenas PT (nem nomeio o boneco que concorreu por este partido) e Bolsnaro. Havia mais! Muito mais! Havia conservadores, liberais, socialistas, comunistas, centro-esquerda, centro-direita…. uma lista sem fim! Mas as pessoas preferiram um cowboy que respira fascismo por tudo quanto é poro. Logo, não adianta muito queixar-se quando começar a existir tiro por todo o lado e prisões sem ordens judiciais!


Abrindo Universos…

Eu vejo-o antes de existir
E invento-o: um novo verso,
Um boneco capaz de sentir,
Mesmo feito de osso diverso,

Ou então, se por aqui insistir,
Fecho este, abro outro universo
E lá novo mito deverá coexistir
Sem o Tempo, velho e perverso.

Surja a ideia e todo me concentro
Nestes mundos que tenho cá dentro,
Todos eles ao leme do meu centro,

E não, não sou um demiurgo deus
Como o das escrituras dos judeus,
Sou só um poeta, ora dizendo adeus.

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Pensamentos e Reflexões sobre Vinte Anos de Nobel de José Saramago

Começando por algo bom, Portugal não se esquece de um dos seus maiores escritores de todos os tempos.

Agora a alfinetada: como se pode esquecer José Saramago quando todos os anos a sua leitura é obrigatória nas escolas?

E Saramago, talvez por ser obrigatório, e por escrever o que tão bem escreveu, tornou-se uma seca para a grande maioria dos pais dos alunos portugueses e, por consequência, para os próprios alunos (a par da “seca” da Matemática, a par da “seca” de Eça Queirós e a par de inúmeras outras “secas” que os portugueses tanto estimam recordar com uma insana leveza…).

Contra a corrente maioritária lusa, o mundo inteiro estima-o e reconhece-o pelo que foi: um grande autor literário.

E não esqueçamos também uma pequena minoria de portugueses a gostar mais de Baltasar e Blimunda do que de Romeu e Julieta. Há ainda uma minoria que prefere sonhar com a passarola voadora a afundar-se no Nautilus de Júlio Verne. E há ainda uma minoria que continua a preferir o rebelde Caim ao soturno Código Da Vinci. Sem descorar a qualidade das obras, ideias e autores que acima menciono, quero acreditar que Saramago foi melhor e tem melhor obra.

A sua obra sofre, claro está, da pequenez dos números lusos. Somos poucos portugueses, temos pouca influência no mundo e, assim, torna-se difícil concorrer com as máquinas editoriais americanas e inglesas (que tanto lixo produzem… e vendem!).

Mas até nisso Saramago é especial. Ao contrário da maioria dos autores lusófonos, Saramago teve a honra de ver o seu Ensaio Sobre a Cegueira (adaptado no grande filme Blindness de Fernando Meirelles) nas telas de cinema do Festival de Cannes (e que feliz que ficou por isso…).

Todavia, esteve cá pouco tempo, muito pouco tempo.

Quantas boas estórias ficaram por contar?

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O que somos?

Como o dia, do sol e das sombras,

A noite, dos gritos e dos silêncios,

E a areia, ora da terra ora do mar,

Tudo o que se vê agora, já se esvai!

Tudo que se tem aqui, nunca se tem!

Tudo o que se é (o corpo, a alma

E os feitos…) é sempre algo pouco

E sempre algo mais, como a poesia.


Advogado do Diabo

Eu queria não ser aquele tipo que se preocupa em enviar emails a jornalistas, dando conta, de forma objectiva, que detectei imprecisões claras no texto deles.

Eu queria não ser aquele tipo a quem devolvem uma gentileza com acusações de iliteracia e que eu não percebo nada daquilo que leio.

Eu queria não ser aquele tipo cuja opinião sobre jornalistas é exatamente a mesma que tenho pelos políticos e por todos os outros que adoram ser preguiçosos ao mesmo tempo que proactivam a sua qualidade de papagaios.

Eu queria não ser aquele tipo que vive num mundo em que:

  1. Os jornalistas imprecisos vão permitir
  2. Que os corruptos políticos tomem o poder
  3. Aos injustos procuradores justiceiros,
  4. Aos relaxados e soberanos juízes que actuam como funcionários públicos
  5. E ao inerte povo sem ideias.

Eu queria não ser aquele tipo que vive num mundo em que ninguém respeita advogados; já que terei que ser eu, advogado, a escrever pelas vitimas, a alegar pelos inocentes, a clamar por justiça, a lutar contra a injustiça, a ir preso por ser um cidadão exemplar e a ser saneado publicamente de modo a recordar às pessoas o que é o Estado de Direito Democrático.


Conhecer a pessoa…

Se souberes o que uma pessoa recorda, se souberes o que dói a uma pessoa e se souberes os medos que a pessoa tem, parabéns, conheces a pessoa por completo…