Monthly Archives: Maio 2016

À Terra…

Tanta porrada pelos ouros
Deste mundo, tantos couros
Esburacados, tantos louros
E apelidos; nada de tesouros.

Passa a vida debaixo do solo
O mineiro, sempre cego e tolo,
E iludido rouba tudo ao subsolo
Antes da terra lhe comer o miolo.

Não se ganha essa eterna guerra,
O tempo é paciente mas não erra
Numa mina ou lá no alto da serra,
E à Terra o que é da Terra.

 

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Como uma onda

És uma onda que vem e vai,
Não uma onda que vai e vem,
Amaste, entraste e também
Me deixaste só, sem ninguém.

Que queres que te diga?
Que faço? Talvez te siga
Ou talvez não prossiga
Nesta solidão que nos liga.

Talvez o beijo que guardado
Te tenho seja para outro fado,
Talvez não esteja do nosso lado
O destino e sejas só passado…

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Distinguindo uma catarse de uma celebração…

Há dias, o Escritor David Soares, plenamente reconhecido pelos humildes diletantes literários, veio criticar/opinar/escrever sobre os festejos que sucederam no Marquês de Pombal. Não assumindo qualquer cor clubística, tentando fazer, sem sucesso, uma opinião objectiva, o notável autor optou por criticar a pura embriaguez de felicidade que toma conta de uma multidão de cerca de cem mil pessoas que se junta apenas para cantar e saltar de alegria cada vez que o Benfica é campeão.

Até estava para começar este post desta forma “Perdoe-me o senhor Soares…”, mas não o vou fazer. Pedir aqui umas desculpas ou requerer um indulto era assumir que tenho culpa de algo… culpa por me sentir feliz quando vejo o clube de futebol pelo qual torço vencer, culpa por me sentir bem ao cantar em uníssono com uma multidão o hino desse clube, culpa por me sentir bem ao festejar com os meus amigos a alegria dessa conquista… não, não vou pedir desculpas.

Ora, e uma vez que não peço desculpas – até porque o próprio David Soares não é nenhum confessor, anjo ou divindade inatacável para me perdoar – vou assim partir para o ataque; mas não com “vexatórios vexilos garrafas de cerveja, latas de tinta em aerossol e porretes”.

A modas de cavalheiro, fá-lo-ei por palavras:

Ao sair de casa para ir dar uma volta até à Praça do Marquês de Pombal, saí consciente que a conquista futebolística não foi, não é e nem nunca será minha. Apenas saí de casa para ir celebrar uma alegria que palpitava dentro de mim nesse dia. Outra das coisas que tenho bem presente dentro de mim, é que havemos de aproveitar aquilo que nos enche de alegria e festejar essa alegria.

E se cantar, saltar, festejar e beber umas bejecas são comportamentos de bárbaros para o David Soares então precisa de rever o seu conceito de bárbaro bem como parar de estereotipar mais de cem mil pessoas. Se existe um, dois ou três gatunos que vão para uma festa roubar e agredir e vilipendiar monumentos, tal não pode nunca revelar o carácter do restante grupo que apenas quer festejar.

Também não saí de casa para ir idolatrar um grupo de pessoas, mas para festejar a vitória de uma equipa, de uma estrutura e de um clube. Critico tanto a idolatria como qualquer ser que tenha dois dedos de testa para perceber que não é pecado pensar por si.

Todavia, e quanto muito, permito que diga que lhe faz confusão sair de casa para ir apoiar algo como a vitória de um clube de futebol, mas senhor David Soares, permita-me que lhe chame a atenção para o facto de que se as pessoas fossem todas iguais e tivessem todos o mesmo gosto por poesia e copromancia o senhor não poderia inspirar-se em personagens tão distintas como Fernando Pessoa ou Aleister Crowley e criar uma obra tão boa como A Conspiração dos Antepassados.

Mais, ao chamar catarse, na sua acepção mais jactante, a uma celebração de pura alegria de vários vectores da sociedade, assume o David Soares que cada um daqueles que foi bater palmas e cantar são puros reflexos daquele pai de família que caso o Benfica não vença, vai até ao café, taxa de alcóol no sangue superior a 1,2, volta a casa,  carrega a mulher de porrada e depois acaba a noite em lágrimas porque o Benfica é tudo para ele.

Não, senhor David Soares. Eu, assim como muitos mais, não vivo para o Benfica, mas admito que me sinto tão bem por o Benfica, o clube do qual me declaro abertamente adepto, ser campeão quanto me sinto feliz por ter acabado um livro seu e aprender novos verbos.

Talvez o senhor não goste da comparação supra, mas, garanto-lhe, a alegria vem de todos os quadrantes… desde o recanto mais obscuro da literatura, canto esse que espero que consiga abandonar, até à rotunda central da cidade de Lisboa.

Mal por mal, Pombal?

E que tal antes uma festa que um funeral?

Um sincero abraço

De quem discorda de algumas das suas opiniões

Mas que admira o seu engenho literário

Francisco Fernandes


A maldição do futuro

Maldito presente que aturo,
Quero tanto o meu futuro
Que me perco nesse escuro,
Nesse esperar que procuro

Sem cessar e sem bem entender
Que preciso hoje de apreender
Este mesmo momento e ascender
Para voar sem nada a prender

As minhas aspirações e paixões,
É melhor esquecer estes grilhões
De apenas vindouras pretensões,
Só preciso, hoje, de ter colhões.

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A Pitonisa de Delfos


Achas que sou de aço?


Achas que eu sou de aço?
Tu sabes lá o que faço
Ou aquilo porque passo
Sem teu carinho e abraço.

Amar-te é completa loucura?
Já foi, agora é pura tortura,
O para sempre já não me dura
Não há amor para ti criatura.

Não precisas, estás farta
Então pronto, isto é Esparta:
Nem te despeças por carta
Vai-te! Raio que te parta!

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E quando o amor esquece

E quando o amor esquece
A paixão que tudo aquece?
Todo o mundo arrefece
E tudo nos não apetece.

Laranjas ficam amargas
Doem os rins e as ilhargas
Choros e risos às descargas
A morte tem as mãos-largas.

Que resta do que já não resta?
Alguma coisa que ainda presta?
Quero esquecer, dormir uma sesta
Ou então um tiro nesta testa.


A Ceifeira

Sou perigo e um mal sem seguro,
Bem cedo descobri o que era impuro
E sem medo mergulhei no escuro
Desistindo do facho de luz futuro.

E cada vez que levanto um dedo
Há uma mentira ou um segredo,
Vai-se a coragem destilada do medo
E a gadanha gira como um brinquedo.

Escondida pelas sombras da escuridão
E pelos pântanos catingosos da podridão
Ando e ofereço a doença como gratidão
E levo o sofrimento com ou sem perdão.

Com a alma eivada por um findo perfume
Não tenho reservas, e, como de costume,
Corro as cortinas e os véus do negrume
Para esmagar a luz a qualquer vaga-lume.

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Death by Wreckluse