Category Archives: Eu

Chuva Molha-Parvos

Molhando este parvo, gotículas minúsculas e irregulares…
Nem sequer tocam o chão, quanto mais molhá-lo!
Ainda assim, não tarda e voltam às nuvens e voltam a cair

Novamente, novamente, novamente e novamente…
Até acabar a água azul desta casa, um ciclo sem novidade:
Cai das nuvens, molha parvos, rega solos e ascende aos céus.

Depois, gelada, torna a chuva a cair em cima dos parvos
E tomam os parvos o seu lugar por baixo da chuva,
Enfim, tomam os parvos o seu lugar no ciclo da água!

275076144_47a24a6308.jpg

Anúncios

Mono No Aware

Mono No Aware

de

Ken Liu

mononoaware1.jpg

Kanji de Mono no Aware

Ainda que o título sugira algo completamente enigmático, este pequeno conto (que venceu o Prémio Hugo para a mesma categoria) debruça-se sobre a grande próxima aventura da humanidade: deixar o nosso condenado planeta e seguir à procura de um novo lar pela imensidão do cosmos, com todos os perigos inerentes.

Contudo, através da história do protagonista (o último japonês do universo com quem simpatizamos imediatamente) e duma subtil metáfora, revela-se uma mensagem sobre a consciência da transitoriedade das coisas que me tocou verdadeiramente.

Olhamos para as coisas, especialmente as mais belas, e sabemos que elas se vão findar um dia e isso entristece-nos, mas ao mesmo tempo damos conta que essa existência efémera faz parte deste universo. Porque me comove? Porque não me revolta? Porque um dos objectivos da história é precisamente aconselhar-nos a aceitar que somos apenas excertos, passagens, flores e borboletas de um livro cujo autor, pagína de início e página final se desconhecem.

O conceito japonês Mono No Aware (sensibilidade melancólica sobre coisas efémeras) é uma preciosidade cultural nipónica e através deste conto (de ficção científica) o Autor dá a conhecer ao mundo este étimo de forma ímpar. Parabéns, Ken Liu!

Sei que os prémios valem o que valem, mas este conto merece mesmo ser distinguido. Aconselho vivamente, até porque a Saída de Emergência publicou o mesmo conto na sua BANG! e esta revista tem a apelativa qualidade de ser gratuita.

 


O Núcleo

O Núcleo

de

Peter V. Brett

500x.jpg

by 1001 Mundos

Capítulo final do Ciclo dos Demónios e, tal como o título sugere, descida infernal ao núcleo deste mundo que, ainda que acossado por inúmeros tipos de demónios, inclusive humanos, me encantou com a sua magia.

Quanto ao enredo, a Sharak Ka (Guerra Nocturna) intensifica-se e aproxima-se a todo o vapor do final, mas com as forças da superfície em claras dificuldades para resistir às cada vez mais organizadas incursões das forças demoníacas. Resta agora saber se Arlen e Jardir, acompanhados por Renna, conseguirão alcançar a Colmeia a tempo, acabar com a Mãe dos Demónios e impedir a derrota certa dos humanos na noite. Portanto, para fio narrativo: uma corrida contra o tempo…

Por outro lado, parece-me que os maiores cuidados do Autor, mesmo num capítulo final, foram todos para as personagens e se no início Arlen, o Homem Pintado, merecia um destacadíssimo relevo, suplantando todas as demais personagens, chegamos agora ao último capítulo com a sensação de que todas as personagens se tornaram importantes. Claro que a missão de Arlen nunca é esquecida (na minha opinião é ele o verdadeiro Libertador e todos os outros se libertaram à sua conta…), mas as personagens “secundárias” – como Jardir (inicialmente um traidor que virou um dos meus personagens preferidos), Inevera (de longe a rainha desta e de muitas histórias), Abban (negociante e trapaceiro exímio), Briar (o Lamacento que perdeu a família e encontrou uma nova), Ashia (feroz mãe e guerreira), Leesha (que de menina ostracizada virou a condessa do Outeiro), Renna (companheira de Arlen), Elissa e Ragen (verdadeiros pais de Arlen) – e todo o demais lote de personagens terciárias merecem destaque. Claro que o carisma e as tolices do mestre Roger Meia-Mão neste livro fazem-se sentir, mas há tanto que o compensa…

O ritmo da estória, ao jeito bem habitual de Peter V. Brett, é alucinante e se ao princípio nos questionamos como será possível alcançar o Núcleo a tempo, no final ficamos espantados com a capacidade do Autor para levar a bom porto toda a história, ainda que talvez houvesse algumas pontas que gostássemos de ver um pouco mais exploradas. Enfim, cumpre bem o seu papel.

Chegando ao final desta saga, importará dizer que este não é o melhor livro da saga (A Lança do Deserto e A Guerra Diurna são na minha opinião os melhores da saga), mas oferece um final digno de toda a saga e isso talvez seja o mais importante.

Contudo, parece-me que teremos mais estórias sobre este universo num futuro próximo. Afinal de contas, será mesmo possível derrotar todos os demónios deste mundo?


DEBATES IMPROFÍCUOS

Dentista com o paciente:
– O senhor tem os dentes tortos, quer colocar um aparelho?
– Quem disse que tenho os dentes tortos? A senhora? Já viu que está a ficar careca?
– Eu a ficar careca? O senhor usa óculos de garrafão!
– A senhora é gorda!
– Contudo, o bafo do senhor tresanda a álcool!
– E a senhora tem cara de quem precisa de sexo!
– E você é um pulha que deve bater na sua mulher só porque ela lhe diz que tem os dentes tortos!
– Eu tenho os dentes tortos? A senhora está a ficar careca! Quem é você para me dizer que estou a ficar com os dentes tortos?!?!?

Quem atentar bem a este pobre e caricaturado diálogo, percebe facilmente que os dentes tortos do paciente são o primeiro problema identificado. Igualmente percebe que lhe é sugerida uma solução. Contudo, ofendido o paciente (quiçá estúpido como uma pedra…) pelo notado problema, ignora a sua tortuosa dentadura e parte para o “Quem é você para me dizer o que quer que seja? Você até tem igualmente defeito!”. Por sua vez, igualmente ofendida pelo paciente, a dentista retribui na mesma moeda e leva retorno e torna a responder e assim sucessivamente até facilmente percebermos que o primeiro problema (os dentes tortos do paciente) continua por resolver e vai continuar por se resolver.

Isto, infelizmente, é o que temos na televisão portuguesa (especialmente no mundo do futebol e na vida política). Argumentos sobre um tema rapidamente se dispersam e divagam para o “Queres que eu respeite isso, mas tu nunca o fizeste!” ou “Sim, sim! Mas o teu clube/partido é tão incompetente/criminoso como o meu!”.

Portanto, o que temos para discutir quando as pessoas não sabem discutir? Como encontramos juntos uma solução se as partes se focarem apenas em comparar problemas? Mais, o que fazemos quando esta forma de desargumentar é reiteradamente propositada pelos propagandistas do inócuo e do vazio?

Bem sabemos que existe a liberdade de expressão, mas onde está o acrescer da responsabilidade inerente a quem tem voz pública e a exerce de forma leviana, imprecisa e geralmente de forma sofista?

sofistas.jpg


Abrindo Universos…

Eu vejo-o antes de existir
E invento-o: um novo verso,
Um boneco capaz de sentir,
Mesmo feito de osso diverso,

Ou então, se por aqui insistir,
Fecho este, abro outro universo
E lá novo mito deverá coexistir
Sem o Tempo, velho e perverso.

Surja a ideia e todo me concentro
Nestes mundos que tenho cá dentro,
Todos eles ao leme do meu centro,

E não, não sou um demiurgo deus
Como o das escrituras dos judeus,
Sou só um poeta, ora dizendo adeus.

Javad_alizadeh_-penetrating-pen.jpg


O que somos?

Como o dia, do sol e das sombras,

A noite, dos gritos e dos silêncios,

E a areia, ora da terra ora do mar,

Tudo o que se vê agora, já se esvai!

Tudo que se tem aqui, nunca se tem!

Tudo o que se é (o corpo, a alma

E os feitos…) é sempre algo pouco

E sempre algo mais, como a poesia.


Advogado do Diabo

Eu queria não ser aquele tipo que se preocupa em enviar emails a jornalistas, dando conta, de forma objectiva, que detectei imprecisões claras no texto deles.

Eu queria não ser aquele tipo a quem devolvem uma gentileza com acusações de iliteracia e que eu não percebo nada daquilo que leio.

Eu queria não ser aquele tipo cuja opinião sobre jornalistas é exatamente a mesma que tenho pelos políticos e por todos os outros que adoram ser preguiçosos ao mesmo tempo que proactivam a sua qualidade de papagaios.

Eu queria não ser aquele tipo que vive num mundo em que:

  1. Os jornalistas imprecisos vão permitir
  2. Que os corruptos políticos tomem o poder
  3. Aos injustos procuradores justiceiros,
  4. Aos relaxados e soberanos juízes que actuam como funcionários públicos
  5. E ao inerte povo sem ideias.

Eu queria não ser aquele tipo que vive num mundo em que ninguém respeita advogados; já que terei que ser eu, advogado, a escrever pelas vitimas, a alegar pelos inocentes, a clamar por justiça, a lutar contra a injustiça, a ir preso por ser um cidadão exemplar e a ser saneado publicamente de modo a recordar às pessoas o que é o Estado de Direito Democrático.