Category Archives: Geração

Febres Passageiras

A comunicação social, as redes sociais, as políticas de comunicação de instituições públicas e privadas muito têm contribuído para as explosões febris, diarreias verbais e gestos revoltados que por vezes nos tomam.

Bandido! Incompetente! Burro! Corrupto!

Tudo sentenças sumaríssimas, tudo saques de gatilho rápido e, como é óbvio, tudo injusto.

Hoje estava a ver o meu clube jogar, em certo momento o clube adversário marcou um golo e eu chamei os nomes todos aos meus jogadores até findar a primeira parte e ainda durante o intervalo. Mais tarde, a minha equipa empatou e venceu por quatro golos de diferença.

Findo o encontro, volto a olhar para trás, recordo a primeira parte e percebo que fui algo precipitado e injusto. Estava temporariamente febril, atacado por uma imprópria linguagem e até os meus amigos assustei com os meus modos, admito.

Dir-me-ão que é futebol, que acontece; mas eu não gosto de desculpas.

ERREI!

Preciso de ser mais forte, mais ponderado. Preciso aprender a engolir mais um pouco deste coração tonto que me quer saltar pela boca e obrigar esta cabeça serena a devolvê-lo ao seu lugar, no centro do peito, levemente descaído para a esquerda.

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A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

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by Bertrand

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

de Gonçalo M. Tavares

Sendo um confesso apreciador do Autor e um confesso apreciador de Fantástico, o novo universo Mitologias criou-me imediatamente curiosidade. Mais um autor português de renome a mergulhar no ilimitado mundo do Fantástico? FIXE!!! MUITO FIXE!!!

Assim, após uma longa espera, lá abri o referido livro.

Contudo, fechado o livro, surge aquela velha máxima: há livros melhores que outros. E no caso específico deste Autor a verdade é que o mesmo tem obras que me levam a pô-lo nos píncaros e outras em que um leve encolher de ombros diz tudo.

Ora, neste A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado a ideia do Autor é simplesmente contar histórias sem ligar ao fio temporal das mesmas histórias. Se começarmos a ler a história de trás para a frente, do meio para os lados ou se saltitarmos e voltarmos atrás, o resultado é mesmo. E, ás tantas, o resultado é algo como uma antologia de contos e nalguns destes contos (capítulos) coincidem de vez em quando personagens doutros contos (capítulos).

Personagens estas que, tirando o Homem-do-Mau-Olhado e o seu último capítulo, não nos deixam saudades.

Mais, nesta obra leis como “Se tirares a cabeça a alguém ela morre.” não existem e nenhuma explicação é dada (propositadamente). Aqui, o interesse é não explicar nada, é não mostrar nada mais do que se mostra.

Acontecimentos, sem qualquer juízo valorativo, como o canibalismo, a revolução ou o julgamento são-nos apresentados em bruto, sem edição. Lá está, agora cada um que pense por si no que viu aqui acontecer e no que acha que aconteceu ao que não viu acontecer.

Penso que o Autor não se importaria de definir assim esta primeira obra: espantem-se e pensem!

No entanto, achei muito pouco. É verdade que existem momentos bem construídos, como “Onde está o amor de uma mãe pelos filhos, no corpo ou na cabeça?”; mas, regra geral, a falta de uma linha de continuidade gera-me tédio. Não gosto de antologias de contos, especialmente antologias de contos sobre a mesma história.

É demasiado ensaio e muita pouca história.

Desculpa, Gonçalo M. Tavares; continuo a gostar da tua obra, mas deste não gostei.


Alienação Parental…

Dizem que és meu pai,
Mas em ti não acredito,
Oh ser celeste maldito!
Um pai que é bom pai

Não faz abandonado
O filho nem se cala
Ou se esfuma da sala
Quando convocado.

Pai tenho o que minha
Mãe escolheu, não tu:
Sempiterna adivinha

Sem cara, sem nada
E de paradeiro não sito
Em parte determinada!


As palavras demasiado fortes

Alguém que escreva regularmente sabe dar-se conta do poder das palavras. A título de exemplo, requerer e solicitar são palavras diferentes de pedir. Senão vejamos: requer-se o pagamento de algo, solicita-se um documento nas finanças e pede-se um favor a alguém.

Nessa senda, é diferente ter desejos pelo pipi, pela vagina e pela cona de uma mulher. No primeiro caso, podemos estar perante a demência da pedofilia, prevista e punida pelo nosso Código Penal Português; no segundo ansiamos formalmente pela rápida abertura de um par pernas despido; e, por fim, ao desejarmos uma cona significa que estamos sedentos de penetrar algum orifício putanesco que só serve mesmo para esse efeito.

Ora, observando o politicamente correcto em vigor, temos hoje liberdade para tudo; especialmente para utilizar sem medos a palavra cona e suas derivações como conaça (quando é mesmo boa) ou coninha (quando é mesmo apertadinha). Temos até a liberdade canibal para dizer “quero comer uma cona!”.

Ora, a verdade é que, para além de se utilizarem livremente palavras horríveis nos dias de hoje, estas palavras banalizaram também sentimentos de despreendimento e descarinho pela mulher, alguém que também tem sentimentos (pelo menos algumas…) e que também sente como nós, homens (desde prazer à dor, passando pelo orgulho até à humilhação).

Por isso, e chegando finalmente ao desenlace desta ideia, pensemos um pouco se as mulheres, qualquer delas, que nascem, caminham e morrem ao nosso lado neste passeio pela vida merecem ouvir faltas de educação constantes relativos à sua genitália.

Acho que não.

Existem sempre palavras mais bonitas para usar e, para os mais criativos, inventem novas palavras.

Claro que não faltarão criaturas que adorem ouvir uns bons palavrões quando as hormonas pululam na cama e que pedem, requerem e solicitam palavras feias quanto à sua mariazinha. Qual o mal de asneiras e de as utilizar aí? Nenhum, desde que o façam sem desrespeitar a pessoa que está com vocês.

Não sejam toscos nem brutos.

Respeitem!


A propósito dos falados assédios e das suas vítimas…

O que vou contar a seguir é uma história verídica que se passou à minha frente:

Num antigo trabalho, tive uma Colega que em certo dia, enquanto procedia sentada a fazer o seu trabalho à frente de sensivelmente dez clientes (dava cartas numa mesa de póquer), teve o meu director agarrado às costas da sua cadeira a fazer movimentos pélvicos, quase como um cão com cio… só faltava babar-se e relinchar como um cavalo ejaculante!

Os clientes viram, nós, colegas de trabalho, vimos, as câmaras de segurança viram e quem quer que estivesse ali por perto também viu a minha Colega a ser alvo de uma “simples brincadeirinha” do director.

Alguns minutos depois, saída da mesa, a tal minha Colega veio bamboleando-se para junto de mim e de mais alguns colegas e, muito ofendida, refilava: “Vocês viram o que o fulano sicrano me fez? Parecia um cão agarrado à cadeira! Que nojo…”

Ora, ingénuo demais na altura e preocupado com uma colega de trabalho, perguntei-lhe revoltado: “Porque não disseste nada em frente a todos os clientes?” e acrescentei: “Tinhas envergonhado o cabrão em frente a toda a gente…”

E a minha cara Colega respondeu a sorrir: “Oh, ele é o director, não posso fazer nada…”

Sinceramente, com esta moda recente de apontar os dedos, ainda estou à espera de a ver vir para algum jornal a denunciar o porco do meu director…

Terá coragem agora quando não teve há alguns anos em que tinha montes de pessoas prontas a testemunhar a seu favor? Quando tinha câmaras de segurança a filmar o sucedido?


À memória do Tio Hub

É regra nos dias que correm ouvirmos os pais dizer aos filhos: Vai à escola, escuta, tenta aprender, estuda, conhece, percebe, desaprende e talvez consigas descobrir algo novo. No entanto, por vezes, pecam os pais ao não dizer aos filhos: escuta os mais velhos, eles sabem muito. A mim fez-me bem aprender as horas com a minha avó, a aprender a ler com o meu avô e, creio, foi igualmente essencial o meu avô para que eu aspirasse a ser um contador de histórias; tal e qual ele era.

Hoje não trago nenhuma da sabedoria dos meus avôs, mas trago a sabedoria de um tio-avô chamado Hub do filme Secondhand Lions, de Tim McCanlies:

«There’s a long speech I give to young men. Sounds like you need to hear a piece of it….

Some times the things that may or may not be true are the things a man needs to believe in the most. That people are basically good. That honor, virtue, and courage mean everything; that money and power mean nothing. That good always triumphs over evil. That true love never dies.

(…)

Doesn’t matter if they’re true or not. A man should believe in those things anyway. Because they are the things worth believing in.»

Página 75 do Guião do filme SecondHand Lions de Tim McCanlies

 

Sinceramente, era capaz de estar aqui uma noite a escrever sobre este pequeno excerto, mas, para além de vos recomendar vivamente que revejam este filme (que é já um clássico de 2003, com o ainda mocinho Haley Joel Osment), deixo-vos aqui uma tentativa de traduzir tudo aquilo que o velho Hub McCann me fez sentir:

«Há um longo discurso que eu dou aos jovens. Parece-me que precisas de ouvir uma parte dele…

Às vezes as coisas que podem ou não podem ser verdade são coisas em que um homem mais precisa de acreditar.

Que as pessoas são basicamente boas. Que a honra, a virtude e a coragem significam tudo; que o dinheiro e o poder não significam nada. Que o bem triunfa sempre sobre o mal. Que o verdadeiro amor nunca morre.

(…)

Não importa se são verdade ou não. Um homem deve acreditar nessas coisas na mesma. Porque são essas as coisas em que vale a pena acreditar.»

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by New Line Cinema


CRÓNICA DE UM DIA ATAREFADO

O despertador tocou, a música chateando e as letras vermelhas piscando. Mais perro que as articulações dum velho ferrugento, arrastei-me para fora do ninho a custo. Tudo me dizia para ficar deitado menos a mãe que ainda me abre os cortinados.

Meio minuto depois, purga urinária matinal… ahhhh! e ablações normais: cara lavada à pressa com medo da água fria, desodorizante a queimar as axilas e o perfume a tentar afastar este cheiro ensonado que se ganha à noite e se vai perdendo até ao pequeno-almoço.

Apressando, o bolo da manhã embebido no café, o primeiro café do dia, tudo engolido sem grandes mastigares. Vai digestão!!! Tudo de empurrão!!!

Acelerando um poucochinho, o carro sai de marcha-atrás enquanto o cinto se prende e os óculos de sol se ajeitam na cana do nariz. O sol ainda se espreguiça a leste, mas que ninguém repare nestas olheiras cheias de vontades de não seguir em frente e de não apanhar este trânsito doido até ao trabalho. Todavia, o pior são estes ouvidos incapazes de se esquivarem a todas as buzinadelas matutinas. Mas que merda! Quem são os doidos que acordam com vontade de começar a refilar logo de manhã?!?!?

Chegado ao martírio, vejo que o escritório passou uma noite fria e  parece agora querer vingar-se em cima destes meus ossos que demoram a aquecer. E sim, o trabalho não me aquece, só me arrefece. Quem diz o contrário é porque não aprecia estar quieto, a gozar férias e a pensar que é tão bom não fazer a ponta dum…

E sabem? Os minutos até nem se esquecem de passar, mas o molhe de papeis que se começam a acumular em cima da minha mesa acumulam-se em câmara lenta, em s-l-o-w m-o-t-i-o-n… Mas donde será que vêm tantos papeis? Agarra-se numa folha, lê-se outra, torna-se atrás e, de repente, temos mais de mil páginas à frente ameaçando cegar-nos as vistas com tantas linhas escuras baralhando aquilo que já foi branco e da cor da neve. Às vezes, a vida de uma pessoa resume-se a linhas e mais linhas que se vão infinitando para lado nenhum.

Mas voltemos ao meu dia!

Para quem trabalha e não fuma, esqueçam a hora da bucha. Só nos resta contar até à hora do almoço… E como passa esta hora mais rapidamente que todas as outras. Minutos se passam até o prato do dia estar pronto, demora ainda mais um pouco a sobremesa, bebe-se o café e depois duma espreguiçadela lá está o ponteiro das duas da tarde a anunciar o tudo o que o mundo tem de mau: trabalhar sem nos deitarmos à sesta.

Por esta altura já se vai no segundo café, mas há sempre tempo para mais um ou dois quando se vai para fora do escritório. E agora? Os olhos muito abertos, não querendo pensar sequer em parar. No entanto, a lei manda: no tribunal os advogados só se levantam para alegações, o resto do tempo têm que estar sentadinhos a assistir aos alegadamente ladrãozecos, traficantes e demais putanheiros que só tiveram azar uma vez na vida: ser apanhados. Coitadinhos…

O ponteiro das rotações arranca-se e até se arronca se for preciso. Sempre a assapar pela autoestrada até ao escritório (fodam-se as coimas e as multas) tentando impedir que este sol que se vesperta caia de vez antes de eu terminar o dia.

Mas que diabos! Porque continua a minha secretária para ali cheia de trabalho?

E agora? E agora? E agora?

Esqueçam as seis, as sete e as oito.

Com sorte, sai-se às nove, nove mais cinco, nove mais dez…

Tudo para além disso é tão cruel que por breves segundos penso: mais valia ter-me alistado como paraquedista e ter pedido que me largassem no meio de uma zona de guerra. Que são tripas a voar, balas a zunir e gritos assustados comparado com o facto de termos de aguentar para lá das nove no escritório? Foda-se tudo e mais um pouco; trabalhar nem para quem gosta…

O que se gosta mesmo é quando se regressa finalmente a casa com um único desejo pulsando: purga total! Há finalmente tempo para cagar, tomar banho e, oh glória, uns cinco minutos para os cotonetes limparem a merda que ouvimos incessantemente durante o dia todo… Mais, alguma vez pensaram que toda a estupidez que ouvimos todos os dias, a toda a hora, vinda de todos os lugares possíveis e imaginários, pode ter efeitos nocivos? Quem nos garante que tantas baboseiras não nos envenenam aos poucos e poucos até por fim acabarem connosco? Limpem bem os ouvidos, meus amigos…

Por fim, uma ceia ligeira e, esperemos, um sono tranquilo.

Amanhã há mais, mas esperemos menos.