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Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal

Oh-ohh-ohhh!!!

Já não sou uma criança, mas nem por isso deixo de me lembrar dessa barba farfalhuda, dessa barriguinha saliente escondida por baixo do velho casaco vermelho, do saco sempre a abarrotar de presentes e do gorro mais fofinho de sempre. Bem sei que já não me visitas de trenó, que já não me desces pela chaminé e que nem sequer me enches a meiazinha da lareira com chocolates e doces, mas não me importo.

Desde que te continues a vestir de vermelho, continuas no meu coração, Pai Natal.

Mas adiante, escrevo-te, querido Pai Natal, porque, nestes últimos anos, demasiadas crianças têm ficado sem casa, sem comida, sem pais e, acima de tudo, sem brinquedos. E que é do sorriso de uma criança sem brinquedos no Natal?

Não sei se aí no frio gelado da Lapónia já têm Google, Wikipédia, Internet ou sequer uma televisão que passe noticiários às horas da janta. Contudo, aproveitando o meu espírito natalício, dou-lhe conhecimento dos últimos números:

  1. Perto de 50.000.000 (cinquenta milhões) de crianças tiveram que se mudar do local onde viviam e mais de metade destas foram forçadas a abandonar as suas casas devido às guerras dos homens;
  2. Perto de 500.000 (quinhentas mil) crianças vivem actualmente em dezasseis zonas sob cerco na Síria, praticamente sem acesso a água, comida e cuidados de saúde tão básicos como papel higiénico, escova de dentes e até medicamentos;
  3. No nordeste da Nigéria, perto de 1.000.000 (um milhão) de crianças também teve que abandonar a casa e a aldeia onde viviam; às vezes sem os seus pais e sem os seus amigos;
  4. No Afeganistão, perto de metade das crianças com idades entre os cinco e os dez anos não tem como ir à escola e maior parte delas são obrigadas a trabalhar para sobreviver;
  5. No Iémen, quase 10.000.000 (dez milhões) de crianças vivem em zonas afectadas pela guerra e assistem diariamente aos inúmeros horrores que tais conflitos geram;
  6. No Sudão do Sul, 59 % das crianças que deviam frequentar a escola primária não o podem fazer porque uma em cada três escolas estão fechadas devido a vários conflitos;
  7. Dois meses depois de o Furacão Matthew ter atingindo o Haiti, mais de 90.000 (noventa mil) crianças com menos de cinco anos continuam a precisar de assistência médica e de comida.

Acredito que não soubesses disto, Pai Natal. Nem toda a gente sabe destes números. Em Portugal, por exemplo, onde as notícias chegam e passam depressa na televisão, na rádio e até no telemóvel, maior parte das pessoas não sabe destes dados. Imagina na Lapónia, onde as notícias, com o gelo, só devem chegar de trenó.

Deste modo, e com tudo isto em mente, Pai Natal, este ano não te peço umas roupas chiques, um telemóvel novo, uma consola de jogos para substituir a velha ou o último descapotável de luxo que saiu no último Outono. Este ano peço-te algo diferente – e não, não te estou a pedir Ferrero-Rochers.

A minha lista é simplesmente esta:

  • Uma noite de paz no mundo inteiro: uma única noite em que o som de um tiro ou de uma explosão não interrompa o jantar a nenhuma família deste nosso planeta;
  • Uma segunda noite em que todas as crianças possam desfrutar de uma boa ceia de natal, sorrir e brincar sem medo que as doenças ou os homens do saco as venham buscar.
  • Uma terceira noite em que todos os homens e mulheres se lembrem de que um dia também já foram crianças frágeis, assustadas e carentes de protecção; uma noite em que decidam proteger quer as suas crianças quer as outras.

Sim, já sei,Pai Natal, já sei o que me vais perguntar a seguir e, infelizmente, a minha resposta é igual à de tantos anos.

Eu não me portei sempre bem este ano. Cometi erros, chateei -me com coisinhas sem interesse nenhum e, em certos dias, assumo que fui injusto para com algumas pessoas a quem só quero bem; mas, Pai Natal, vá lá… só este ano.

Só desta vez!

Se me ofereceres só um destes presentes, um único, eu prometo que para o ano não me porto mal nem te peço nada. Mais, se me deres apenas um destes presentes, prometo que vou para a Lapónia ajudar-te a ti a todos os teus duendes mágicos, mesmo que faça um frio de rachar no Inverno, como é habitual aí.

Um abraço, Pai Natal

E

Feliz Natal para Todos


Necessidades Humanas: nomes

Alguém sabe como nos nomeiam os macacos, os tubarões ou os periquitos? Será que nos chamam Primos Implumes? Será que nos chamam Petiscos de Praia? Será que nos chamam Engaioladores? Não sei, não sabemos, ninguém sabe. No entanto, algo me diz que os instintos animais, sempre tão pragmáticos, muito provavelmente não têm qualquer nome ou palavra para nos darem.

Os animais reconhecem-se uns aos outros e ao resto das coisas apenas pela visão, pelo cheiro, pelo toque e só nós, humanos, pelos nomes. As palavras são uma necessidade humana. Somos nós que temos nomes, apelidos e alcunhas para tudo. Bolas, até os muxoxos e os sons estranhos que fazemos com a garganta se definem como interjeições…

É impensável que exista algo sem nome.

Nada existe se não puder ser definido numa palavra.

Na nossa arrogante natureza, desafiamos o próprio Universo ao socorrermo-nos apenas de oito míseras letras para o nomenclar quando, pasme-se, a sua dimensão, ao que parece, é infinita. Já alguma vez repararam que acabamos com as teorias da expansão do Universo quando encerramos todo esse espaço negro dentro duma palavra?

Tudo em nós precisa de um nome, inclusive existe uma palavra para… nome!!!

Um livro não é um livro se não tiver na capa um título que o nomeie; uma invenção não está completa até ter um nome próprio e qualquer quadro não se basta apenas com todas as cores que o compõem, pelo que ainda precisa de um nome a etiquetá-lo.

Enfim, até aqui limitei-me a levantar pequenos factos.

Abaixo seguem as perguntas:

Donde surge esta necessidade tão primária? Do cérebro e da necessidade deste organizar informação. É um processo biológico… pesquisem mais se quiserem melhores respostas!

Serão os nomes algo de bom para sociedade? Atenção às nacionalidades, classes, castas, raças, grupos e demais separações que com tantos intuitos de nos organizar nos desorganizam na maior parte das vezes…

Serão os nomes melhores que os números? Muito melhores! Se repararem, inventámos nomes para todos os números, inventámos termos como a subjectividade para interpretar números e inventámos até termos como o calor para aquecer a frieza dos números.

Há alguma forma de apagar os nomes? Borrachas brancas para não deixar borrões de memórias, corretores para derramar oblívios alvos sobre as letras  dos nomes e, o método mais eficiente de todos para apagar nomes, e tudo o resto já agora: Lobotomias!!! AHAHAHAHAHHHHHH!!!!

E, finalmente, deixo à vossa consideração: podemos viver sem nomes?