Category Archives: luzes e trevas

Obsessivo Compulsivo

Sim… eu sei que não devia
Ter seguido na sinistra via
Em que mal me via, todavia
As vozes que em mim ouvia –

Doidas retorcidas e doidas
Incontidas – pediam devidas
Medidas, exigiam insupridas
Praxes e reclamavam ávidas

Um eterno silêncio resoluto
Enquanto o mal com que luto
Alastrava e, bem convoluto,
Me desarmava em absoluto…

10.25-news_mental-health.jpg

Anúncios

O Grande Bazar e outras histórias

500_9789892331362_o_grande_bazar.jpg

by 1001 Mundos

O Grande Bazar e outras histórias

de Peter V. Brett

O Ciclo dos Demónios de Peter V. Brett é uma das minhas obras preferidas de fantasia. O Homem Pintado, A Lança do Deserto e A Guerra Diurna foram sempre espectaculares, infalíveis e guardo dessas leituras as melhores recordações. A história parte de uma premissa simples, a noite está cheia de demónios que pretendem o fim da humanidade e esta tenta sobreviver a todo o custo. Contudo, no seu centro, a história é tudo menos simples. Existe conflito entre as ideias do pai e as ideias de um filho, explora-se o conflito entre os costumes sociais e as escolhas pessoais do individuo, prima-se pela ausência de personagens totalmente boas e pela ausência de personagens totalmente más, temos a tragédia, o trauma, a esperança, a intriga e… estava aqui o dia todo.

Entrando na obra em si, é uma antologia de três contos.

Os dois primeiros exploram as primeiras aventuras de um dos maiores protagonistas do Ciclo dos Demónios antes de ser ter tornado o herói que actualmente é no final d’A Guerra Diurna. Mostram-nos que a coragem não vem sozinha, vem sempre acompanhada por conhecimentos, espertezas e princípios; tudo o resto é vão. Para quem admira Arlen Bales (Arlen Fardos, nome muito mais bonito na tradução portuguesa…) e também um conhecido mercador krasiano, são dois contos que nos fazem admirar ainda mais estas duas personagens.

Quanto ao terceiro conto, o mesmo é interessante, explorando tanto uma nova personagem, o Lamacento Bryar Damaj, nascido de uma tragédia, e o velho padrinho de Arlen, o Mensageiro Ragen. O enredo prende-se com um resgate, mas, situando-se o seu final nos momentos imediatamente seguidos (ainda que bastante afastados) ao epílogo d’A Guerra Diurna, quero crer que não é verdadeiramente um conto, mas sim uma iniciação a’O Trono dos Crânios.

Ainda assim, o Autor continua a mostrar porque é um dos melhores criadores de personagens fantásticos da actualidade.

Como se o Homem Pintado, a Renna, a herbanária Leesha, o jogral Roger, o Shar’Dama Ka Jardir ou a sua mulher, a Damaji’ting Inevera, não bastassem para nos retorcermos todos à procura de um motivo para escolher por qual delas torcermos, agora ainda temos o Lamacento Briar…

E tudo num conto fantástico sem espadas, apenas lanças e magia, muita magia.


O Trono dos Crânios

9200000055830894.jpg

by 1001 Mundos

O Trono dos Crânios

de

Peter V. Brett

Há livros e histórias que não cansam e o Ciclo dos Demónios é uma dessas obras. Mais umas oito centenas de páginas, e continuo a ansiar por mais. Quero, quase desesperado, saber como acaba esta história. Infelizmente, só para Maio (se tudo correr bem…) é que devo ter acesso ao referido capítulo final da história.

Mas, enquanto o último livro não sai, o que há para dizer deste Trono dos Crânios?

Que é um livro essencialmente focado nos “protagonistas secundários”. Os conhecidos Leesha, Roger, Inevera, Abban e Briar têm um merecidíssimo destaque nesta obra; ao contrário de Arlen (agora seguido para todo o lado pela sua Renna) e de Jardir, que conseguem um grande feito, mas pouco mais deles se sabe. Destaque também para personagens secundários como as esposas krasianas de Roger, Amanvah e Sikvah, para os dois filhos mais velhos do Libertador, Jayan e Asome, e para a corte de Angiers com o conde Thamos à cabeça. Contudo, neste livro, temos uma nova protagonista incluída, Ashia, e, talvez por ser nova, foi a que mais me chamou à atenção neste livro.

Quanto ao enredo, ficou algo parado no que há história de Arlen diz respeito e quanto ao que há a descobrir quanto aos demónios (ficamos com água na boca para saber mais sobre o Consorte e seus amigos, mas é tudo…). Contudo, quanto a batalhas diurnas, batalhas noturnas, batalhas políticas e batalhas familiares é uma fartura açucarada. Conflito, conflito, conflito aos montes; tal como se quer num bom livro!

Por fim, há que referir a capacidade do Autor para contar histórias sem perder grande tempo com miudezas. Claro que neste quarto livro já não há muito a saber sobre passados e segredos ocultos, o conflito é constante, o drama também e a magia reverbera por todos os lados na prosa concisa, simples e leve do Autor. Não há descrições capazes de cortar o ritmo da história!

É simplesmente fascinante, inteligente e maravilhoso este Ciclo dos Demónios.

Venha o último capítulo!


O Desolado

Segue o Desolado seu desfado
E não se ouve o passo arrastado,
Só o esbafo do cavalo cansado
E o abutre faminto e assustado.

Já a pé, rompe o céu e a bota,
Molha-se a meia até ficar rota
E das bolhas rompe uma gota
Triste pelo avistar da derrota.

Ruíram e arderam todas as obras,
Já nem no lixo restam as sobras
E só o perseguem agora as cobras.

Diz Desolado, a que te agarras
Tão derrotado e com as garras
Gastas? A que tanto te amarras?


Luz Eterna…

E vindo o Fim do Mundo
Em fogo, gelo e destroços
Mergulhados neste fundo
Do abismo cheio de ossos,

O amor, sincero e profundo,
Resistiu, aliando esforços,
Floriu, mesmo sujo e imundo,
E gerou frutos como reforços.

Ah! que luz eterna, brilhante
E das estrelas mui semelhante
Ligando todo o perdido distante.

Ah! que luz tão quente e forte
Desafiando os filhos do desnorte
E amparando-os até à morte!


A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

350x.jpg

by Bertrand

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

de Gonçalo M. Tavares

Sendo um confesso apreciador do Autor e um confesso apreciador de Fantástico, o novo universo Mitologias criou-me imediatamente curiosidade. Mais um autor português de renome a mergulhar no ilimitado mundo do Fantástico? FIXE!!! MUITO FIXE!!!

Assim, após uma longa espera, lá abri o referido livro.

Contudo, fechado o livro, surge aquela velha máxima: há livros melhores que outros. E no caso específico deste Autor a verdade é que o mesmo tem obras que me levam a pô-lo nos píncaros e outras em que um leve encolher de ombros diz tudo.

Ora, neste A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado a ideia do Autor é simplesmente contar histórias sem ligar ao fio temporal das mesmas histórias. Se começarmos a ler a história de trás para a frente, do meio para os lados ou se saltitarmos e voltarmos atrás, o resultado é mesmo. E, ás tantas, o resultado é algo como uma antologia de contos e nalguns destes contos (capítulos) coincidem de vez em quando personagens doutros contos (capítulos).

Personagens estas que, tirando o Homem-do-Mau-Olhado e o seu último capítulo, não nos deixam saudades.

Mais, nesta obra leis como “Se tirares a cabeça a alguém ela morre.” não existem e nenhuma explicação é dada (propositadamente). Aqui, o interesse é não explicar nada, é não mostrar nada mais do que se mostra.

Acontecimentos, sem qualquer juízo valorativo, como o canibalismo, a revolução ou o julgamento são-nos apresentados em bruto, sem edição. Lá está, agora cada um que pense por si no que viu aqui acontecer e no que acha que aconteceu ao que não viu acontecer.

Penso que o Autor não se importaria de definir assim esta primeira obra: espantem-se e pensem!

No entanto, achei muito pouco. É verdade que existem momentos bem construídos, como “Onde está o amor de uma mãe pelos filhos, no corpo ou na cabeça?”; mas, regra geral, a falta de uma linha de continuidade gera-me tédio. Não gosto de antologias de contos, especialmente antologias de contos sobre a mesma história.

É demasiado ensaio e muita pouca história.

Desculpa, Gonçalo M. Tavares; continuo a gostar da tua obra, mas deste não gostei.


O Bem e o Mal

O Bem e o Mal

de Camilo Castelo Branco

Curioso acerca da obra de Camilo Castelo Branco, o primeiro escritor português a viver inteiramente da escrita (ajudado pela Sra. Dona Ferreirinha…), e tendo por casa alguns livros duma colecção incompleta, resolvi pegar nas duzentas e seis páginas d’O Bem e o Mal.

3465604._UY475_SS475_

 

Por conseguinte, abri o livrinho e, assim de rajada, deparou-se-me a palavra quietude.

Ora, hoje em dia a quietude de um primeiro capítulo é algo raro (e alguns dirão mesmo: é algo raro porque é chato!). Contudo, no século dezanove não havia televisão nem havia videojogos, computadores e muito menos telemóveis. Vale por dizer que os fiéis leitores daqueles tempos tinham menos entreténs e mais tempo e mais paciência para descobrir um livro do que os apressados consumidores de livros de hoje.

Adentrando na obra, vamos descobrindo um verdadeiro melodrama típico do Romantismo (movimento artístico surgido nos finais do século dezoito e boa parte do século dezanove).

Nesta senda, com algum humor e ironia à mistura, o Autor apresenta-nos um rol de personagens que nenhum escritor da actualidade se atreve a copiar. A almejada alvura de espírito, por norma destinada a uma vítima, a um mentor ou a um protagonista, é nesta obra transversal a quase todos os personagens. Com um ou outro pormenor aqui e ali que diferencia uma ou outra personagem, a verdade é que, tirando os infames vilões, todos os outros são um festim para quem gosta de zombar das chamadas personagens unidimensionais.

Há o nobre fidalgo (ainda que teimoso e com raízes preconceituosas) que abriga em sua casa um casal de irmãos órfãos (um vigário ponderado e uma virgem mui discreta) e um justo e bravo Casimiro cujo peito é atacado pela filha mais doce e santa do nobre fidalgo. Por fim, como se todas as anteriores não fossem suficientes boas de alma, há o amável lavrador Ladislau, o incansável carpinteiro, a enigmática Condessa de Azinhoso, o João pastor, Dona Brites e, certamente, outros cujo nome não invocarei mas que ficam igualmente lembrados enquanto santas almas incapazes de malevolências que se rebelam contra a infâmia da tragédia e da maldade.

Dirão os críticos consensualmente e os actuais consumidores de livros que tanta bondade enjoa, que não é real e peca por não representar a sociedade em que vivemos. Ora, presumo que o Autor sabia isso mesmo e, portanto, com alguns laivos irónicos, não deixou de confrontar as mesmas personagens com alguns problemas da sociedade daquela época; problemas, aliás, que continuam hoje por resolver como a diferenciação negativa das antigas famílias, a falta de limites da liberdade de imprensa, o valor do silêncio de um arguido, a tendência maliciosa do homem que vive em sociedade e outros que agora não desvendo. Nas mãos de um grande escritor, a unidimensionalidade é só mais uma ferramenta para criar uma grande obra.

Enfim, é uma obra de outros tempos, mas com alguns apontamentos que ainda hoje relevam.  É uma obra a ser lida e relida pelo enorme manancial de verbos e adjectivos que nela se bem primam. E, por fim, é uma obra para quem, ainda hoje, dá valor à nossa língua portuguesa.