Category Archives: Palavras, verbos, adjectivos, nomes

Desinspiração

A chuva cinzenta não
Borrou a tinta destas
Rimas nem destes versos;
Faltam-me os verbos e
Não, não foi o vento
Que levou minha arte.
Fugiram-me do peito a
Musa morena e os nomes
E os pronomes, todos eles
Fugiram, como um moscardo,
A este bardo, deixando-me só
Desinspirado e desvairado.

 

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Podes ir, fico aqui…

Podes ir, fico aqui
Até vires e voltares,
Mas, se conseguires –
E não importa se é caro –
Volta no vôo mais rápido,
Na lancha mais veloz,
E pela trilha mais curta.

Podes cortar por um atalho,
Saltar por cima dos muros
E escalar lesta até as fragas
Deste distanciar que aqui
Vem, mas, por favor, corre só
De volta para este coração aqui
Guardado e só por ti aguardando.

 


Inspiração…

Amor, quando me conheceste
Eu era um tonto sem inspiração
Que não sonhava ser o poeta
Que hoje sou de alma e coração.

Sem versos e sem rimas, este
Eu era só mais uma decepção
À procura de algo sem emoção
Em vez da mais segura direcção.

Felizmente, advindo do sudoeste,
Esse beijo quente e a nossa relação
Ensinaram-me em jeito de revelação
Que o amor não existe só na ficção.


Meia-Volta…

Preguiçosa e toda despida
Dás meia-volta na nossa cama
E, como única contrapartida,
Exiges amor a quem tanto te ama.

Nada humilde e toda convencida
Pedes mais beijos e algum drama
Para chorar a infalível despedida
Que embacia um pouco esta chama.

Mas passam os minutos e nada muda
O lençol foge-te, deslizas-te desnuda
E eu, manhoso, aumento minha ajuda

Até, por fim, renovarmos – pelados,
Nunca calados e por vezes demorados –
Os nossos votos quentes e enamorados.


Pequeno, pequenino…

Hoje sinto-me pequeno, pequenino,
Nada homem, muito menos homenzinho,
Só um idiota armado em engraçadinho.

E bem me podes castigar, mas castigado
Já eu estou só por teus olhos fazer chorar
Tanto que entre soluços te falta o ar.

Magoei o peito que não devia magoar
Feri o coração que nunca devia ferir
E entristeci quem nunca devia ficar triste.

Hoje sinto que sou torpe, sujo e imundo!
Sinto que sou só erros e vergonhas
E sinto que só sou culpas sem desculpas…

Forgiveness-hands-rock.jpg


Dia de Praia

Há o cheiro quente da areia
Que me amolece, me alheia
E me purga qualquer ideia
De me erguer, o que já rareia.

Marulhando o mar, fico ouvindo,
Calmo e néscio, o indo e vindo
Que me embala por um eco lindo:
Um eco azul oceânico e bem-vindo.

Por fim, suave, a mão companheira
Do meu lado, preguiçosa e soalheira,
Que faz de mim sua espreguiçadeira
E me abusa com sua boca beijoqueira.


Indiferente

Estás cega? Não vês que me sufocas com o tanto que as tuas mãos me apertam e os teus braços me seguram? Tens medo? Sim, talvez tenhas medo daquilo que não controlas e talvez teu maior medo seja mesmo o de não me poderes controlar. Contudo, desculpa-me: não aguento perder mais um segundo aqui contigo! Tudo aquilo que pensaste que eu podia ser caiu do céu e morreu na terra, tal como a primeira pessoa do plural morreu contigo e bem à tua frente!

E porquê?

Porque estou cansado de ser o que queres que eu seja! Porque estou cada vez mais descrente nisto nosso que já não é bem nosso! Porque me afoguei perdido neste mar agitado e voltei à tona boiando ainda mais perdido! E, por fim, porque não sei o que esperavas de mim ao exigires-me com tanta força para que seguisse caminhando com os teus sapatos, com as tuas botas e desfilando até dentro das tuas saias.

E o pior?

O pior é que cada passo que dava era só mais um passo errado noutra direcção, um trilho enganado ou certamente um fado equivocado e sem sentido. Errei, em ti, tantas vezes que meu erro se tornou indiferente e nessa indiferença de erros rotineiros me indiferenciei de ti até ao ponto de se me esgotar  o excessivo tanto que amava em ti. Finalmente, um pouco mais em mim, despertei ciente do que era realmente preciso: ser menos como tu, ser mais como eu.

Vou falhar?

Sim, eu sei que posso acabar falhando também. Sei que posso cair num buraco, pisar uma armadilha ou mergulhar num abismo ainda mais profundo que este. Todavia, por favor, não ignores que és apenas como eu: um alguém com outro alguém tremendamente desapontando, francamente desiludido e agradavelmente desenganado.

Estou diferente?

Não, estou apenas… indiferente!

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Mind Devour by Sebastian Eriksson