Category Archives: Esterótipo

As palavras demasiado fortes

Alguém que escreva regularmente sabe dar-se conta do poder das palavras. A título de exemplo, requerer e solicitar são palavras diferentes de pedir. Senão vejamos: requer-se o pagamento de algo, solicita-se um documento nas finanças e pede-se um favor a alguém.

Nessa senda, é diferente ter desejos pelo pipi, pela vagina e pela cona de uma mulher. No primeiro caso, podemos estar perante a demência da pedofilia, prevista e punida pelo nosso Código Penal Português; no segundo ansiamos formalmente pela rápida abertura de um par pernas despido; e, por fim, ao desejarmos uma cona significa que estamos sedentos de penetrar algum orifício putanesco que só serve mesmo para esse efeito.

Ora, observando o politicamente correcto em vigor, temos hoje liberdade para tudo; especialmente para utilizar sem medos a palavra cona e suas derivações como conaça (quando é mesmo boa) ou coninha (quando é mesmo apertadinha). Temos até a liberdade canibal para dizer “quero comer uma cona!”.

Ora, a verdade é que, para além de se utilizarem livremente palavras horríveis nos dias de hoje, estas palavras banalizaram também sentimentos de despreendimento e descarinho pela mulher, alguém que também tem sentimentos (pelo menos algumas…) e que também sente como nós, homens (desde prazer à dor, passando pelo orgulho até à humilhação).

Por isso, e chegando finalmente ao desenlace desta ideia, pensemos um pouco se as mulheres, qualquer delas, que nascem, caminham e morrem ao nosso lado neste passeio pela vida merecem ouvir faltas de educação constantes relativos à sua genitália.

Acho que não.

Existem sempre palavras mais bonitas para usar e, para os mais criativos, inventem novas palavras.

Claro que não faltarão criaturas que adorem ouvir uns bons palavrões quando as hormonas pululam na cama e que pedem, requerem e solicitam palavras feias quanto à sua mariazinha. Qual o mal de asneiras e de as utilizar aí? Nenhum, desde que o façam sem desrespeitar a pessoa que está com vocês.

Não sejam toscos nem brutos.

Respeitem!

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A Bebida…

Um dia o meu pai disse-me que cinco minutos de bebedeira podem deitar por terra a reputação de uma vida inteira. Como estava envergonhado e achei as palavras mesmo sábias, acedi com a cabeça e fiquei calado. (Bebera demais numa noite de festa, correra o risco de morrer para ali abandonado na casa de um parceiro de copos que não conhecia assim tão bem e envergonhara-me a mim próprio.)

Enfim, repetindo-me para o sublinhar, aceitei que o meu pai tinha razão.

De um momento para o outro, deixamos de ser o Zé, a Maria, o Chico ou a Joana e passamos a ser aquele tipo que bebeu demais e se vestiu de mulher (procurem o significado de hijra), adormeceu na sanita enquanto o vomitava por entre as pernas, correu despido à volta do hotel enquanto abanava a gaita ao passar por um casal de velhotes, acordou para lá das fronteiras num bordel espanhol de terceira categoria ou descobriu que afinal as algemas não eram nenhum fetiche de uma senhora, mas sim uma agente da polícia a constituí-lo arguido por ser levemente mais estúpido que os outros. Acreditem, a palavra envergonhar é um puro e brandíssimo eufemismo para as parvoíces que as leveduras do álcool nos levam a alcançar.

Mas o que vale é que todos temos a típica história borracha para contar aos filhos e aos netos.

Viva a Bebida!!!


A máquina de Joseph Walser

A máquina de Joseph Walser

De Gonçalo M. Tavares

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by Caminho

De volta a’O Reino de Gonçalo M. Tavares (GMT) e de volta à cidade atacada pela guerra de Um Homem: Klaus Klump, o que poderei dizer sobre este livro? Sinceramente, talvez precisasse de muitos mais adjectivos do que aqueles que o Autor usa para contar a história de um homem de tão poucas palavras como Joseph Walser, protagonista desta estória com… tão poucas palavras, mas com tanto contado!

 

A sério, a habilidade que GMT tem para contar histórias que nos emocionam sem se desperdiçar com exaustivas descrições ou capítulos cheios de mistério e acção é algo que tem de ser reconhecido; bastante aplaudido de pé talvez.

 

Fazendo o devido paralelismo entre um Um Homem: Klaus Klump e A máquina de Joseph Walser (querido e desejado pelo próprio Autor, tal como consta da breve nota introdutória da edição que li), o primeiro opta por mostrar a guerra através dos sentimentos e dos pontos de vista de várias personagens enquanto que o segundo conta a história de um homem em guerra consigo mesmo. Mesmo lá fora, nas ruas não muito distantes da sua porta, e ainda assim longínquas, onde a guerra se vai desenrolando, as verdadeiras batalhas travam-se dentro do nosso protagonista, um pilar de fraqueza e apatia indestrutíveis.

 

O nome escolhido para a obra foi A máquina de Joseph Walser, mas bem poderia ter sido “A alma de Joseph Walser” ou “O coração de Joseph Walser”. A metáfora é sublime, e perfeita. Claro que a máquina, capaz talvez de cortar, mas certamente responsável pelas funções de vibrar e sentir do protagonista, existe mesmo na história. Não é meramente uma simples máquina, mas é, isso sim, uma grande metáfora para o que se passa com Joseph Walser.

 

Por fim, ao contrário de Klaus Klump, que não ficaria na memória não fosse o caso de constar no título de uma obra de GMT, Joseph Walser é daquelas personagens que não se esquecem. Joseph Walser talvez se esqueça de si, mas nós, tal como o encarregado Klober Muller, não nos esqueceremos dele.

 

Como nos podemos esquecer de alguém que tem a certeza que irá ser esquecido? Como nos podemos esquecer de alguém que sabe não deter qualquer ambição de reconhecimento público ou mesmo o reconhecimento íntimo da sua própria esposa? Como esquecer alguém tão pouco especial, tão esquecível, tal como a maior parte deste mundo de esquecidos do qual nós fazemos parte?

 

Magistral…

 

Após quatro livros d’O Reino, fiquei com a leve sensação que GMT o tem por seu Magnum Opus (não há um único livro mau nesta tetralogia de empatias obscuras), mas o Autor ainda é novo; logo, temo com agrado que coisas grandiosas advirão das suas penas carregadas de arte e imaginação.


Roseira Brava

Uma roseira brava, outrora cheia de espinhos, viçosos e aguçados,foi ficando uma rosa amestrada, complacente com a tesoura que lhe podava o carácter e a alma; tudo porque queria de si mesma apenas o perfume aveludado das suas pétalas vermelhas.

Como uma desconhecida que se desconhece a si mesma, foi-se desapegando das raízes como se o leite que o ventre da mãe-terra lhe deu não fosse a seiva que lhe empurrou o verdíneo caule para cima, para crescer, ainda que torto.

Sempre a troco do melhor lugar ao sol, foi ignorando a roseira a falta de espinhos e o cair das suas próprias folhas, o cair das unhas e dos pulmões, até que em vez da elegante tesoura de podar veio a última serra findando assim a sua pobre história.


O Gordo e a Gorda

Quem me dera que o Gordo e a Gorda fosse o título de um romance com um final feliz, mas não é. Todos sabemos que os finais felizes têm sempre como protagonistas dois rostos perfeitos e corpos esbeltos embrulhados um no outro ao som de uma música feliz qualquer. Ademais, quando há música e gordos numa cena, todos sabemos, é uma cena cómica; não um final feliz.

Mas indo aos factos:

Há hoje um ataque cerrado à gordura. Há hoje inúmeras campanhas sobre: ginásios, consultas de nutricionistas, promessas de corpos esbeltos, personal trainers sempre preocupados, actividades ao ar livre cheias de ar puro, campeonatos de tudo e mais alguma coisa onde se transpiram litros de suor, a importância da educação física, a necessidade de uma alimentação saudável, a urgência da prevenção de obesidade e… outras quinhentas campanhas mais! Tudo em nome da saúde! (E de alguns interesses económicos e financeiros que nunca existem quando se fala de saúde, alimentação e ecologia.)

Percebem a ideia? O objectivo é ninguém ter barriga na nossa sociedade; como se fosse uma ofensa à sociedade nos dias que correm alguém ter uns quilitos de açúcar a mais. E até aqui tudo bem. Mas depois, a par do ataque à gordura, há um ataque inclemente ao gordo e à gorda.

Alerta!!! Olha o GORDO!!! Alerta!!!

Se repararem, todos nós tememos trilhar um preto, um cigano, um deficiente e até um estrangeiro com certo tipo de comentários ou acções que possam levantar problemas do foro dos mais altos valores humanos. Porém, nenhum de nós teme virar-se para alguém cuja barriga se salienta e dizer “Olha a barriguinha!”, “Estás de quantos meses?”, “Olha o meu pandinha fofo!!!” ou até mesmo muito doutoradamente “Estás a precisar de perder peso, gordinho…”.

Alerta!!! GORDO!!! Alerta!!!

Riam-se à vontade, mas é isto que acontece: O gordo e a gorda são primeiramente notados assim que entram numa sala! Depois são tratados como preguiçosos e gulosos! Depois são tratados como paradigmas de gente nojenta e asquerosa! Numa fase mais avançada, deixam de ser piadas e são tratados como doentes, com pena! Finalmente, são tratados como um problema de saúde pública que pesa literalmente no orçamento de estado todos os anos…

Nunca há o intermédio! Nunca são tratados como pessoas, estudantes e trabalhadores, que se esforçam para emagrecer tanto quanto os outros, e às vezes ainda mais. São apenas gordos…

É que, ora correndo com todo o peso que lhes custa a carregar ora tendo o necessário cuidado com a alimentação, maior parte destas pessoas com excesso de peso, em algum momento da vida, esforçou-se e esforça-se contra a sua genética. Alguns destes, em certo momento da vida, querem ter a leveza de uma pena, querem correr sem se preocupar com ataques de coração e querem ser consideradas pessoas bonitas – como se algumas não fossem lindas desde logo. No entanto, por variadas razões – que não a preguiça – muita desta gente não consegue emagrecer!

E o que fazem aqueles preguiçosos que comem que nem alarves, mas cuja sorte lhes ditou um metabolismo rápido? Gozam com o gordo, chamam o gordo por gordo em vez de o chamarem pelo nome ou, pior ainda, inventam uma alcunha gordalhufa e arredondada para o gordo. Claro está que há sempre espaço para os verdadeiros cabrões peçonhentos que, mesmo sabendo que magoam, apunhalam o gordo com um simples tap-tap na pequena banhinha ao som de: “Eu sou um gordinho gostoso, um gordinho gostoso…”

Enfim, sabem uma coisa? Conheço bastantes magros idiotas; gordos, quase nenhum.

Os gordos sabem o que magoa e sabem o que significa sofrer.

E quem sabe o que significa sofrer aprendeu a respeitar o sofrimento dos outros, mesmo que este sofrimento seja um grande e volumoso silêncio.


Ideias Conservadoras

Não sei quanto a vocês, mas tenho para mim que estes acelerados tempos de progressos, e não estou a falar do progresso científico e muito menos do tecnológico, estão a pôr de parte certos costumes e tradições da nossa sociedade, transformando-os paulatinamente em conceitos de velhos idosos ou de jovens conservadores.

A descrição e subtileza das senhoras meninas e das senhoras mulheres, antes de férrea necessidade, transformou-se hoje em meros preconceitos do passado. Perguntem-me: tens queixas? Eh… Depende. O que nos seduz, homens, está entre o final da manga da camisola que esconde e a ponta dos dedos despidos; portanto, não sou assim tão adepto das meninas da Casa dos Degredos…

Perguntem-me o que acho daqueles linguados ostensivos entre homossexuais e digo-vos que acho o mesmo dos linguados ostensivos dos heterossexuais: magníficos, apaixonados e, às vezes,  até uma certa leva de esperança na humanidade. Todavia, não consigo perceber as singularidades das “bichas ofendidas” e “paneleirices crispadas” que se adoram exibir de forma escandalosa no meio da rua e dos bares.

E o que acho dos penteados do Neymar e do Hulk? Foda-se… Verdadeiras obras de “arte” por parte dos cada vez mais requintados cabeleireiros (e não barbeiros) de topo! Símbolos de marcas na nuca! Poupas cheias de gel! E até cortes de tropa modernos com risquinhas cheias de “estilo”… Credo! Desculpem-me a heresia, mas talvez aquela lista de penteados norte-coreanos servisse a alguns dos espécimes mais distintos da nossa pobre gente.

Portanto, e concluindo este pequeno desabafo, os valores tradicionais da descrição e da subtileza, escondendo o sumo intrínseco que verdadeiramente importa,  padecem actualmente de um certo risco de extinção enquanto a noção de ridículo caminha lentamente, mas ainda assim rápida demais, para um sedimento arcaico da nossa história e que, por isso mesmo, está cada vez mais necessitado de ser conservado por quem ainda preza um pouco o valor do verbo ser em vez do verbo parecer.


Está Provado!!!

 

As estrelas são mais pequenas que a Lua! Está provado! Olha-se para cima à noite e é claro, clarinho. Está provado e nada mais errado.

O Pseudo-Conhecimento assenta muitas vezes nesta frase.

O Sol gira à volta da Terra, está provado! Olhem para o céu! Gira à nossa volta. Ai de quem diga o contrário, sob pena de ser enforcado (Requiescat In Pace Galileu)…

Vamos lá ver o que está provado então nos mesmos termos:

“Os Liberais e os Neo Liberais, como o nome indica, são liberais.” O Liberalismo de Adam Smith funda-se na defesa de Mercado Livre e do adágio Mais Mercado, Menos Estado. Portanto, ser liberal não é sinónimo de defensor de liberdades nem nada… é apenas um nome bonito que se deu a uma tese que não quer Estado em nada.

“A Austeridade, que se entende por altas cargas fiscais sobre a populaça, é o único caminho para sair de uma crise económica.”  Longo caminho aquele que dura uma década e não produz minimamente efeitos.

“Os Árabes são todos Terroristas!” Nunca estereotipar ajuda e muito a ser feliz com os nossos vizinhos. Entre a minoria, talvez cada vez maior, mas ainda minoria, existem serem desprezíveis e condicionados apenas a executar comandos de terror. E o terror é apenas uma ferramenta de destruição, nada mais. Só o respeito e o amor criam algo.

“Os Árabes são todos bons!” Atenção, é preciso discernir o que ensina o Alcorão e a Bíblia. Os ensinamentos são diferentes, os pontos de vista são diferentes, existe muita coisa que nos diferencia. É preciso respeitar a génese das massas islâmicas mas fazer também com que o nosso modelo de vida de matriz romana-judaico-cristã seja respeitado. Se faz confusão a outra pessoa que as nossas mulheres se banhem nas praias em trajes mínimos, respeitem, por favor, e olhem para o lado. (Isto sim é ser pela liberdade e não liberal…)

“Fulano é arguido, logo culpado.” Para quem não sabe, a posição de arguido é uma posição de defesa face aos factos e indícios que o Ministério Público acha que consubstanciam um crime. O Código de Processo Penal prevê até que alguém se possa constituir, por ele próprio e a seu pedido, arguido num processo-crime. Arguido é diferente de Culpado. Isto sim é verdade. Nunca nos devemos esquecer que quando se anda na caça às bruxas, queimam-se santos.

“Existe em Hollywood e na nomeação para os óscares racismo.” Não me apetece muito enumerar  a quantidade de filmes que já ganharam estes prémios que só falavam exclusivamente em racismo, em esclavagismo e afins. Quando se quer direitos que não se merecem, meus amigos, não existe esse direito.

“BD’s, ficção científica e fantasia são géneros para crianças.” Esta é tão rídicula que enumero apenas alguns casos flagrantes que nos dizem o contrário: Watchmen, Sin City, I Robot, 1984, Star Wars, Star Trek, Odisseia, Ilíada, Eneida, Os Lusíadas… nunca mais acabam as obras-primas…

“Poesia é subjectiva.” Pode ser ambígua, mas o significado, ainda que ambíguo, nunca será subjectivo. Quem escreve, sabe o que escreve e o sentido e a musicalidade que dá a cada palavra.

“Matemática é difícil.” Não! A preguiça lusa é que é genética. É incompreensível a compreensão paternal face à preguiça dos meninos. Filho de lontra não sabe nadar, não é? Trabalhem, estudem muito e às tantas não custa nada.

“Vem no jornal, é verdade!” Hummm, quem me dera que Umberto Eco ainda estivesse vivo para me ler o Número Zero. (Estive para lhe mandar um email a agradecer a obra prima).

“Aquele árbitro é gatuno, incompetente…” Olhem só a quantidade de decisões que uma pessoa, sem televisão nem repetições, toma durante um jogo de noventa minutos. Depois comparem com a eficácia e competência das equipas que perdem campeonatos. Depois, olhem ainda para a (in)competência flagrante das direcções dos clubes de futebol todos falidos. E, no fim, deixem de ver os programas desportivos… façam a vossa opinião.

… Tudo provado, tudo errado.

Estou aberto a mais chavões, malta.

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