Category Archives: Críticas

A Paixão do Conde de Fróis

A Paixão do Conde de Fróis

de

Mário de Carvalho

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by Porto Editora

Primeira incursão na obra de Mário de Carvalho e não posso dizer que tenha ficado desagradado. É cuidadoso, bastante cuidadoso, nas palavras que usa e os seus engenhos de ironia casaram perfeitamente com os portugueses mesquinhos e parolos que ele nos apresenta nesta obra.

O fio narrativo da história prende-se com um cerco espanhol a uma pequena praça do norte de Portugal e aqui fica preso. O Autor relata-nos a vida pacata da aldeia, a chegada de um desterrado conde de Fróis ao mesmo lugar e a forma como coloca a praça em sentido para uma eventual investida espanhola que não tarda em acontecer. Depois, naturalmente descrevem-se as agruras do cerco e a forma como as diversas personagens vão lidando com o referido aperto.

Falando em personagens, há dois grandes protagonistas: o conde e o padre. O primeiro deseja patrioticamente resistir aos espanhóis, o segundo acha que se deve fazer a vontade de Deus (ceder aos espanhóis) e todo o trama gira à volta do conflito que se gera entre este dois. O resto são personagens de ocasião, pouco aprofundados.

Tal como aflorado acima, dentro das duzentas páginas de estória, a escrita do Autor é cuidado, engenhosa e irónica. Claro que recorre incessantemente a arcaísmos  que nos dificultam por vezes o avanço dos capítulos (eu tenho sempre que parar uma leitura para ir ao dicionário quando não conheço as palavras…), mas emprega bem essas palavras, já que historicamente se falava assim há séculos (e a língua portuguesa era tão mais rica então…).

Posto isto, resta concluir que é um Autor para gostos mais refinados e gentes mais ciosas de aprender novas palavras. Se for um destes leitores, aconselho-lhe este livro facilmente.

 

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Mono No Aware

Mono No Aware

de

Ken Liu

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Kanji de Mono no Aware

Ainda que o título sugira algo completamente enigmático, este pequeno conto (que venceu o Prémio Hugo para a mesma categoria) debruça-se sobre a grande próxima aventura da humanidade: deixar o nosso condenado planeta e seguir à procura de um novo lar pela imensidão do cosmos, com todos os perigos inerentes.

Contudo, através da história do protagonista (o último japonês do universo com quem simpatizamos imediatamente) e duma subtil metáfora, revela-se uma mensagem sobre a consciência da transitoriedade das coisas que me tocou verdadeiramente.

Olhamos para as coisas, especialmente as mais belas, e sabemos que elas se vão findar um dia e isso entristece-nos, mas ao mesmo tempo damos conta que essa existência efémera faz parte deste universo. Porque me comove? Porque não me revolta? Porque um dos objectivos da história é precisamente aconselhar-nos a aceitar que somos apenas excertos, passagens, flores e borboletas de um livro cujo autor, pagína de início e página final se desconhecem.

O conceito japonês Mono No Aware (sensibilidade melancólica sobre coisas efémeras) é uma preciosidade cultural nipónica e através deste conto (de ficção científica) o Autor dá a conhecer ao mundo este étimo de forma ímpar. Parabéns, Ken Liu!

Sei que os prémios valem o que valem, mas este conto merece mesmo ser distinguido. Aconselho vivamente, até porque a Saída de Emergência publicou o mesmo conto na sua BANG! e esta revista tem a apelativa qualidade de ser gratuita.

 


O Núcleo

O Núcleo

de

Peter V. Brett

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by 1001 Mundos

Capítulo final do Ciclo dos Demónios e, tal como o título sugere, descida infernal ao núcleo deste mundo que, ainda que acossado por inúmeros tipos de demónios, inclusive humanos, me encantou com a sua magia.

Quanto ao enredo, a Sharak Ka (Guerra Nocturna) intensifica-se e aproxima-se a todo o vapor do final, mas com as forças da superfície em claras dificuldades para resistir às cada vez mais organizadas incursões das forças demoníacas. Resta agora saber se Arlen e Jardir, acompanhados por Renna, conseguirão alcançar a Colmeia a tempo, acabar com a Mãe dos Demónios e impedir a derrota certa dos humanos na noite. Portanto, para fio narrativo: uma corrida contra o tempo…

Por outro lado, parece-me que os maiores cuidados do Autor, mesmo num capítulo final, foram todos para as personagens e se no início Arlen, o Homem Pintado, merecia um destacadíssimo relevo, suplantando todas as demais personagens, chegamos agora ao último capítulo com a sensação de que todas as personagens se tornaram importantes. Claro que a missão de Arlen nunca é esquecida (na minha opinião é ele o verdadeiro Libertador e todos os outros se libertaram à sua conta…), mas as personagens “secundárias” – como Jardir (inicialmente um traidor que virou um dos meus personagens preferidos), Inevera (de longe a rainha desta e de muitas histórias), Abban (negociante e trapaceiro exímio), Briar (o Lamacento que perdeu a família e encontrou uma nova), Ashia (feroz mãe e guerreira), Leesha (que de menina ostracizada virou a condessa do Outeiro), Renna (companheira de Arlen), Elissa e Ragen (verdadeiros pais de Arlen) – e todo o demais lote de personagens terciárias merecem destaque. Claro que o carisma e as tolices do mestre Roger Meia-Mão neste livro fazem-se sentir, mas há tanto que o compensa…

O ritmo da estória, ao jeito bem habitual de Peter V. Brett, é alucinante e se ao princípio nos questionamos como será possível alcançar o Núcleo a tempo, no final ficamos espantados com a capacidade do Autor para levar a bom porto toda a história, ainda que talvez houvesse algumas pontas que gostássemos de ver um pouco mais exploradas. Enfim, cumpre bem o seu papel.

Chegando ao final desta saga, importará dizer que este não é o melhor livro da saga (A Lança do Deserto e A Guerra Diurna são na minha opinião os melhores da saga), mas oferece um final digno de toda a saga e isso talvez seja o mais importante.

Contudo, parece-me que teremos mais estórias sobre este universo num futuro próximo. Afinal de contas, será mesmo possível derrotar todos os demónios deste mundo?


Crítica: Fantastic Beasts 2 – The Crimes of Grindelwald

Fantastic Beasts 2 – The Crimes of Grindelwald

de

J.K. Rowling e David Yates

 

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by Warner Brothers

Nova incursão ao Wizarding World e, não há como negar, J.K. Rowling continua mágica e fiel a si mesma. É fácil soltar umas piadas com as varinhas mágicas e com os modos caricaturais de algumas das suas personagens, mas a verdade é que esta senhora continua a ser uma escritora de topo e a misturar subtilmente magia com problemas reais, problemas estes ligados à condição e história humana que criam empatia com quem vê a história.

Feito este pequeno elogio (e atenção que me apetece muito elogiar esta senhora…) falemos do argumento, muito semelhante ao primeiro filme: descobrir uma criatura para a ajudar (se bem que neste filme a criatura seja um conhecido órfão desorientado, cujos poderes chamam a atenção do foragido Grindelwald). Portanto, fio narrativo clarinho ao contrário do que dizem muitos críticos profissionais (espanta-me como estes tipos ganham a vida a dizer baboseiras… se há coisa que J.K. Rowling sabe criar é bons enredos e tem sempre um twist ou dois para nos espantar, e por aqui me fico).

Claro que, quanto a pontos menos bons, temos de dizer que ainda bem que começamos pelas aventuras de Harry Potter em Hogwarts. É que se não fosse esta escola a ter-nos ensinado bastante acerca do mundo mágico e dos puro-sangue e estaríamos tão perdidos no filme como um mago sem varinha.

Quanto a personagens, o brilhante, estrambólico e ingénuo Newt Scamander aparece-nos como uma continuação do primeiro filme, mas evolui aos trambolhões através da interação com o seu irmão Theseus Scamander e Leta Lestrange. É igualmente bem acompanhado pelas demais personagens com a excepção de Tina Goldstein. Já não tinha gostado muito da personagem no primeiro filme e neste apenas vi dela um momento no filme em que basicamente é tratada como o interesse amoroso de Newt (pobrezinha…).

Destaco, porém, o magnífico Grindelwald, interpretado pelo talentoso Johhnny Deep. A personagem começa com uma fuga muito bem planeada e ao longo de todo o filme aparece-nos como um dos personagens mais interessantes de toda a saga. Arrisco mesmo dizer que J.K. Rowling gosta de escrever sobre um mundo mágico, mas tem estado bastante atenta à realidade e não me admirava nada que ela viesse a revelar que se baseou em Trump, Giuseppe Conte ou Boris Johnson para encher Grindelwald de conteúdo. É que ao contrário de Voldemort (psicopata puro), Grindewald é um revolucionário fascista que invoca a teoria do “bem maior” e a “luta pela liberdade” para angariar seguidores que se sentem ostracizados e incompreendidos pela sociedade (Se na nossa sociedade temos os desempregados, os precários e os inseguros, Grindelwald tem incompreendidas criaturas, magos que não gostam de se esconder e os sufocados por obsoletas leis…).

Finalmente, quanto à cenografia e aos efeitos especiais parecem-nos bestiais quanto às criaturas, mágicos quanto aos truques e feitiços e muito bem pensados. David Yates sabe o que faz e como o faz. Há, por exemplo, um plano perfeito que torna uma morte bastante emotiva e abre portas a uma data de enredos.

Quanto ao demais, é magia para todos aqueles que gostam deste universo mágico.


DEBATES IMPROFÍCUOS

Dentista com o paciente:
– O senhor tem os dentes tortos, quer colocar um aparelho?
– Quem disse que tenho os dentes tortos? A senhora? Já viu que está a ficar careca?
– Eu a ficar careca? O senhor usa óculos de garrafão!
– A senhora é gorda!
– Contudo, o bafo do senhor tresanda a álcool!
– E a senhora tem cara de quem precisa de sexo!
– E você é um pulha que deve bater na sua mulher só porque ela lhe diz que tem os dentes tortos!
– Eu tenho os dentes tortos? A senhora está a ficar careca! Quem é você para me dizer que estou a ficar com os dentes tortos?!?!?

Quem atentar bem a este pobre e caricaturado diálogo, percebe facilmente que os dentes tortos do paciente são o primeiro problema identificado. Igualmente percebe que lhe é sugerida uma solução. Contudo, ofendido o paciente (quiçá estúpido como uma pedra…) pelo notado problema, ignora a sua tortuosa dentadura e parte para o “Quem é você para me dizer o que quer que seja? Você até tem igualmente defeito!”. Por sua vez, igualmente ofendida pelo paciente, a dentista retribui na mesma moeda e leva retorno e torna a responder e assim sucessivamente até facilmente percebermos que o primeiro problema (os dentes tortos do paciente) continua por resolver e vai continuar por se resolver.

Isto, infelizmente, é o que temos na televisão portuguesa (especialmente no mundo do futebol e na vida política). Argumentos sobre um tema rapidamente se dispersam e divagam para o “Queres que eu respeite isso, mas tu nunca o fizeste!” ou “Sim, sim! Mas o teu clube/partido é tão incompetente/criminoso como o meu!”.

Portanto, o que temos para discutir quando as pessoas não sabem discutir? Como encontramos juntos uma solução se as partes se focarem apenas em comparar problemas? Mais, o que fazemos quando esta forma de desargumentar é reiteradamente propositada pelos propagandistas do inócuo e do vazio?

Bem sabemos que existe a liberdade de expressão, mas onde está o acrescer da responsabilidade inerente a quem tem voz pública e a exerce de forma leviana, imprecisa e geralmente de forma sofista?

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Vergonha Política…

Há uns meses, foi fotografo um deputado a ver em plena assembleia da república um vídeo pornográfico. Chocante? Para a nossa política portuguesa não. Seria talvez um pouquinho mais chocante se o mesmo tivesse tido uma erecção, se tivesse aberto a braguilha para polir a ferramenta ou ejaculado precocemente. Assim, só vendo pornografia? Tudo normal. Quem nunca viu um filme pornográfico em pleno parlamento que atire a primeira pedra…

Depois, aqui há dias, houve uma deputada a pintar as unhas durante um plenário na Assembleia da República. Só estava em discussão o orçamento geral do estado para 2019 (pouca coisa…), pelo que achou a referida deputada que socorrer-se da reconhecidíssima capacidade das mulheres para multitarefas (isto é sexismo, já agora…) não traria mal nenhum ao mundo. Pior seria se ela tivesse entornado o verniz sobre os papéis ou se estivesse a pintar as unhas para melhor masturbar o idiota do deputado que gosta de ver filmes para adultos no parlamento. Agora assim? Só retocar as unhas? Nada de mal…

Esta semana, recordando os tempos de faculdade, outro deputado achou por bem baldar-se a um plenário (como se o seu “minguado” salário lhe exigisse que cumprisse deveres democráticos ou profissionais noutro lado…). Pior, marcaram-lhe a presença no referido plenário (parece mesmo a faculdade…). Contudo, vem agora dizer que é honesto, que nunca pediu para assinarem por si e até pediu a intervenção do Ministério Público para averiguar esse crime (e atenção que é mesmo crime…). Em seguida, aparece uma colega do mesmo a dizer que por “engano” entrou no computador do referido colega e marcou-lhe a presença (Cough! Cough! Tanga!!!).

Ora, os políticos são humanos, é óbvio. Logo, têm falhas humanas. Também é uma verdade inegável. Contudo, existem comportamentos que por mais humanos que sejam praticam-se única e exclusivamente em casa e outros cujo bom senso exige que se omitam em locais escrutinados todos os dias pelos media. É que há falhas humanas justificáveis e outras injustificáveis (por mais que se justifiquem…).

Finalmente, é preciso não esquecer que quem ocupa funções soberanas deve proceder de forma solene e dando o melhor exemplo. César, por favor, porta-te como César. Arrisco-me mesmo a dizer que esta maneira de agir é verdadeiramente a única coisa que os eleitores exigem a um político hoje em dia. O resto já sabemos que é o pragmatismo do possível…


O ÓBVIO

Será pedir muito artisticamente que um trailer, qualquer ele que seja e sobre o que seja, não revele a história? Estragaram o filme do último Exterminador, o Suicide Squad e até o Venom. Agora vem o filme do Aquaman… metade do filme já está cá fora. Só faltam os créditos…

Será que são incompetentes ou gostam mesmo de ser idiotas?