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SHARP OBJECTS

Sharp Objects

de Marti Noxon

A série corre imensos riscos narrativos, especialmente com um primeiro episódio muito pouco interessante até em termos de gancho. Todavia, este ritmo slowburn contribui imenso para o desenvolvimento de todos os personagens e para a ligação empática entre a protagonista e os espectadores. Os três últimos episódios puxam por toda a nossa atenção e culminam num epílogo tremendo.

Não sendo um mero policial ou uma novela sobre uma investigação jornalística, Sharp Objects debruça-se sobre ligações familiares, traumas e distúrbios psicológicos de todas as índoles. O mais visceral é aquele que a protagonista carrega.

Em termos de personagens, o guião dá imenso material a todos os actores para desenvolverem a psicologia e o comportamento físico das suas personagens. A título de exemplo, Amy Adams mostra porque já tinha sido escolhida para interpretar uma das mais famosas repórteres do mundo e (ao contrário do que aconteceu com a sua personagem Lois Lane no DCU) a nossa protagonista brilha nesse campo de investigação, procurando detalhes emocionais e cenas visuais para contar histórias (ao invés de se dedicar a descobrir a mera identidade do assassino das jovens). Ademais, a actriz acrescenta com a sua arte uma profunda e cortante amargura em termos de drama emocional.

Novo exemplo, este já numa base mais secundária, é igualmente fascinante a forma como a personagem do padrasto da protagonista nos é apresentada ao longo de toda a história.

Algo que achei bastante interessante na história prende-se com a escolha tremendamente arriscada de transformar o papel dos protagonistas masculinos em papéis que por norma cabem no cinema às mulheres. Em vez do homem rico que tem aventuras extraconjugais, temos uma raposa abastada que tem aventuras extraconjugais ao mesmo tempo que manipula e se serve do poder desse amante. Em vez da mulher traída, temos homens traídos. Em vez do macho herói que fornicou com uma data de mulheres, temos uma “heroína macha” que se serviu de uma data de mocinhos numa orgia. Em vez de um marido forte e ditatorial, temos um marido assustado e submisso ao comando da mulher…

Vale por dizer que a Autora (e aqui menciono Gillian Flynn, autora do livro com o mesmo nome, ao invés do realizador da série) escolheu mostrar a mulher como dona das suas próprias escolhas, empoderando-as e assustando-nos com esse tremendo poder oculto no corpo aparentemente mais frágil das mulheres. Tudo sem reduzir a participação dos homens na vida delas. Fascinante.

Aconselho a pessoas que se interessam pelos recantos mais sombrios da humanidade e pelos recantos mais sujos de histórias de família disfuncionais.


Sobre a Migração – O Grande Tema Legislativas Portuguesas de 2024

Políticos, forças de segurança, organizações não governamentais, jornalistas, comentadores de televisão, populistas, progressistas, conservadores e conversadores de café ocasionais. Todos falam da emigração como um fenómeno recente (tal como fizeram com a Pandemia do Covid-19), mas nem todos se encontram conscientes de que tal fenómeno data dos primórdios da criação, ainda antes da humanidade nómada. É pena porque poderiam todos parar de discutir causas de algo que é natural a todos os seres: ir em busca de um lugar melhor para viver e criar a prole.

Ocupação de postos de trabalho a preços reduzidos, competitividade laboral inquinada, aumento de criminalidade, habitações lotadas, ruas cheias de emigrantes, insegurança para os que cá estão, recusa de vacinas e terrorismo religioso são talvez os subtemas que mais se cruzam com este grande fenómeno migratório. E, por um lado, até é bom que se discutam estas realidades que, pasmem-se os populistas, não afectam apenas as pessoas de bem; afectam os dois lados da moeda.

Ninguém fala dos sonhos desfeitos de uma pessoa que se vê obrigada a fugir de um lugar com medo do narcotráfico, dos receios de mudar de país/continente, do câmbio que leva 4/5 das poupanças, da dor causada pela distância das famílias ou da separação entre pais e filhos.

Ninguém fala das exorbitâncias cobradas a título de honorários aos emigrantes para solicitarem autorização de residência e trabalho ou do batelão de taxas e impostos pagos até finalmente um burocrata mandrião achar um buraquinho na agenda para recolher uma foto, a altura, as impressões digitais e a assinatura de um fulano que mal percebe a nossa língua, quanto mais as nossas manhas.

Ninguém fala de como os sucessivos governos e associações patronais (portuguesas, europeias, britânicas e norte-americanas) têm mantido a porta aberta aos que vêm de fora para baixar os preços de determinados sectores comerciais, das quais se destacam os trabalhadores de grandes superfícies comerciais, os técnicos de callcenters, os entregadores de comida ao domicílio e os eternos condenados da restauração e hotelaria.

Ninguém fala de como o respeito e a segurança (física, mental, laboral e social) de um estrangeiro corresponde igualmente à segurança de um nacional.

Tenho para mim que os populistas estão perdidos. Escumalha são, escumalha serão. Falam muito, mas todos nós sabemos o que eles pretendem das instituições democráticas: destruir e reinar.

Já quanto aos conservadores e aos progressistas, creio que ambos se podiam reunir em torno de uma opção geopolítica de grande envergadura com quatro pilares básicos:

1º) Controlar melhor quem entra na nossa casa (será sempre uma essencialidade básica, até por uma questão de cooperação interpolicial e interjudicial);

2º) Criar quotas regionais de entradas migratórias por mês/ano de modo a manter uma identidade cultural portuguesa com tendências por um estado de direito laico e democrático;

3º) Evidenciar esforços (inclusivamente militares) para evitar que tensões geopolíticas escalem para guerras geradoras de refugiados;

4º) E, por fim, forçar os países que adoram fundos de desenvolvimento, reciprocidade de vistos turísticos e extinção de pautas aduaneiras a adoptar com rigor e seriedade medidas bastante reais para evitar que os seus cidadãos (normalmente multiplicados como peixes pelos sermões dos padres…) também deixem de querer sair dos seus países de origem.

A ideia base será que quanto mais alimentados, abrigados, educados, integrados, democráticos e seguros estiverem os nossos vizinhos, mais seguros continuaremos nós. Exigir resultados ao ritmo necessário é fundamental a todos.


Cloud Cuckoo Land

Cloud Cuckoo Land

de Anthony Doerr

Uma vez que traduzido à letra (A Terra dos Cucos Nefelibatas ou A Terra dos Cucos das Nuvens) este livro cairia imediatamente na lista de livros a evitar devido a parecer uma parvoíce pouco desafiadora, a equipa da Editorial Presença preferiu ter uma abordagem mais conservadora e chamou simplesmente a este obra-prima: Uma Cidade nas Nuvens. Um título impossível de esquecer, certo? Enfim…

Em termos de enredo, o Autor complica e complica ao ponto de me espantar com a sua destreza técnica e planeamento de enredo no final do livro. Temos cinco personagens principais divididas por três linhas temporais, sendo que ainda temos de contar com os flashbacks de três personagens. Ufa…

No início, há aparentemente pouco a ligá-las, mas a verdade é que o enredo vai-se adensando e o que enlaça as três linhas temporais principais (bem como os flashbacks) vai-se tornando muito mais nítido ao ponto de nós percebermos que a verdadeira mensagem deste livro não é apenas que cada livro e bibliotecários são especiais e merecem ser preservados independentemente da doutrina ou do tom com que foram escritos. É realmente grandiosa a forma como o Autor entrega o final.

Por outro lado, em termos de personagens, aprecio particularmente o facto deste livro se reportar bastante à relação entre a adolescência e a terceira-idade. Não há propriamente um protagonista de trinta ou quarenta anos cuja força física se equivalha a uma experiência acumulada e que sirva de ponte entre todas as personagens. O Autor foca-se muito na juventude, na sua ingenuidade, na sua determinação e nos seus diversos problemas ao longo da história para nos fazer perceber a importância modeladora desses acontecimentos iniciais durante o resto da nossa vida.

O ritmo da narrativa é constante e os ganchos narrativos são bastante bem executados.

A prosa do Autor é bastante fluída e não teme socorrer-se de palavras menos comuns para o que quer que seja. Há igualmente uma maravilhosa tendência para comparações e metáforas bastante precisas e imaginativas. Apetecia-me destacar uma ou outra, mas estaria a ser injusto para com o autor ao revelar os seus tesouros metafóricos.

Em termos de conteúdo para lá dos enredos, e sem ser exaustivo, o Autor aborda inúmeros problemas actuais da sociedade como a solidão, a pobreza, os problemas da parentalidade singular, catástrofes climáticas, extinção massiva da biosfera, as consequências do medo, extremismos, conservadorismos, guerras, síndromes e patologias incompreendidas, manipulação de jovens solitários e vulneráveis através da propagação de idiossincrasias perigosas por meio de redes sociais e, por fim, os perigos da programação tecnológica.

É maravilhoso apreciar ao longo de todo o livro este condensar orgânico, tal como é revelador de uma extrema sensibilidade perceber todos os paralelismos que se fazem entre a Conquista de Constantinopla, a nossa década dos novos 20´s e o Futuro da Humanidade. Serão os nossos problemas sempre os mesmos ainda que com capas e vestimentas novas?

O que posso dizer mais? Anthony Doerr é um verdadeiro mestre tecelão. Fiquei abismado e imagino apenas um bocadinho do sofrimento que este homem passou para conseguir enlaçar todas estas histórias umas nas outras de modo a passar a mensagem e os paralelismos que queria passar. Magnífico, o melhor que li no último ano…


Mr. Robot

Mr. Robot

de Sam Esmail

O facto de não me apetecer pagar aquilo que a Netflix exige mensalmente quando apenas se contenta em oferecer novidades cada vez mais meh uma vez por mês levou-me a subscrever a Amazon Prime (mais barata e com bastante mais conteúdo por mim ainda não assistido). E qual não é o meu espanto quando encontro disponível, para meu total deleite, a série Mr. Robot.

Com quatro temporadas, sendo a primeira e a última as mais fascinantes e viciantes, esta série ganhou desde logo destaque pelo quanto revelou de assustador acerca do mundo em que vivem os hackers e o quanto eles podem fazer — obviamente que dramatizando, mas ainda assim não menos assustador.

Adiante, o enredo começa com uma premissa simples: Elliot, um engenheiro de cibersegurança de dia e um hacker vigilante à noite, quer destruir a maior corporação corrupta do mundo porque esta foi a grande responsável pela morte do seu pai. Simples e fácil de entender, mas à medida que os episódios vão avançado e o enredo se vai desenvolvendo, com inúmeras reviravoltas inesperadas desde o princípio até ao fim, a história vai-se revelando cada vez mais genial até finalmente culminar no último episódio da série, o mais emocionante e emocional de todos.

Em termos de personagens, o protagonismo centra-se e assenta todo ele na dinâmica entre Elliot (interpretado pelo talentoso Rami Malek) e Mr. Robot (interpretado por Christian Slater, cujo talento tem sido inversamente proporcional à sua capacidade de selecionar os melhores projectos cinematográficos desde a Entrevista com o Vampiro). São as convergências e divergências entre estas duas personagens que criam a necessária emoção e empatia com o público — e sempre num raro crescendo!

Contudo, as personagens secundárias, por muito ou pouco tempo que tenham em cena, acabam sempre por ganhar um destaque próprio, com o maior crescimento da série a reportar-se à personagem de Darlene (Carly Chaikin fez um trabalho fenomenal a interpretar esta personagem).

Já falei aqui das inúmeras reviravoltas inesperadas, do guião e das personagens, mas se estes factores constituem as sólidas fundações desta série bem-planeada, os cenários, a música, os efeitos especiais e todos ângulos cénicos escolhidos arrematam e edificam esta série como uma das melhores séries de sempre a que já assisti (e já foram muitas…).

O único ponto baixo da série é o ritmo mais baixo da segunda e terceira temporadas. Após assistir a toda série percebi que se tratava de um ritmo necessário para os explosivos finais destas temporadas e para a ainda mais explosiva quarta série, mas mesmo assim dei comigo a lutar para concluir alguns episódios, especialmente aqueles derivados da segunda temporada. Depois, já na quarta temporada, tudo ficou muito mais fácil.

Sem dramas juvenis e pueris e sem grandes cenas chocantes e sangrentas, Mr. Robot destaca-se pelos vínculos emocionais que consegue criar entre personagens e público, pela inteligência do enredo (que esconde segredos até mesmo ao último episódio) e pela enorme variedade de questões filosóficas (sem cores políticas) que levanta ao longo de toda a série e das quais destaco as seguintes: O mundo são apenas zeros e uns? Estamos num sistema binário entre o bem e o mal ou há mais? Onde reside o verdadeiro poder? O que é o sistema e quem faz parte dele? E, por fim, quem realmente somos verdadeiramente?

Uma obra-prima.


E Tudo o Fanatismo Levará…

A propósito dos recentes eventos, nomeadamente depois da HBO MAX ter decidido retirar o galardoado filme “E Tudo o Vento Levou” e dos idiotas americanos que estão mais preocupados a atacar a polícia e a derrubar as estátuas de Cristóvão Colombo, apetece-me dizer o seguinte: há fome e miséria, há guerra, há peste e há morte.

Do que estávamos à espera? Que as massas ficassem apenas quietas? Que reagissem com responsabilidade perante a “desorganização” dos nossos líderes políticos? Que exigissem políticas sérias? Tretas…

Nesta altura, a faísca anarca e egocêntrica, que todos os humanos têm, arde com vigor nos mais imponderados e estes não resistem ao seu apelo destrutivo: do próximo (roubos, pilhagens, assassinatos…), das instituições (polícia, governo…) e da própria história (como se alguém idolatrasse as estátuas de Colombo ou de antigos empresários que ninguém conhece…).

E o pior de tudo nem é esta falta de resistência a instintos destrutivos ou dos políticos acéfalos que os tentam legitimar. É a corrupção e a radicalização dos valores de gente que até há umas décadas lutava por algo bastante decente.

Senão vejamos, quem censura o racismo (e bem) censura estupidamente as artes (Hucklberry Finn, E Tudo o Vento Levou…) só porque estas retratam diversos períodos da História. As feministas, que lutam pelos direitos das mulheres (e não pelo direito da igualdade de tratamento), coagem com processos em Tribunal os homens só porque estes as olharam ou as convidaram para sair há décadas atrás. E a comunidade LGBT, em vez de lutar contra a tirania opressiva de estados medievais, vai para as redes sociais atacar e aterrorizar figuras públicas de modo a tentar limitar as suas opiniões e até o humor destas.

Eu, pessoalmente, não tenho pachorra para estes rebanhos e para estas ideologias de falsos rebeldes. Prefiro pensar pela minha cabeça. Contudo, quando a paz em que gosto de viver é suspensa por um bando de gente que apenas tem em mente causar o caos e a destruição, importa recordar que esta escumalha de ideias inquinadas começou como o bando de terroristas que destruiu a Biblioteca de Alexandria, a Escola de Medicina e a Biblioteca de Isfahan, as ruínas de Palmira e tantas outras maravilhas do passado.

“Ah, mas estão a destruir apenas ícones esclavagistas!”, dizem os idiotas sem consciência da inutilidade de julgar a memória de homens de outras eras; que, depois de alcançarem algo bastante importante para a era, morreram com esses mesmos valores da época na mente.

Ademais, e pergunto eu: destruímos o Coliseu de Roma, a Muralha da China e São Peterburgo apenas porque eles foram feitos por escravos e para escravos? E apagamos da memória os terrores e horrores que ali se passaram? É isso que queremos? Destruir os marcos da história humana? Para quê? Para esquecermos e para tornarmos a fazer igual?

É preciso resistir a todos estes terroristas que apenas querem ver o mundo a arder. Não passam de pirómanos e como pirómanos que são impõe-se que sejam presos e condenados. Caso contrário, tudo o fanatismo levará…


Versos Pandémicos

Neste mundo em que nascemos
Anda invisível o mal que não vemos
E nosso lar, que não esquecemos,
Cheira ainda ao que conhecemos.

Mas e se esta peste inodora não
Passa? Odiamos o quê senão
A proibição de aliviar a comichão
Do rosto com os dedos da mão?

Por agora, aguentamos, resistimos
E sussurramos que conseguimos
Tratar deste bicho que descobrimos
Só agora e que não tarda extinguimos.


QUARENTENANDO

Nenhum ser humano prescinde da liberdade de ânimo leve. A tão almejada liberdade está para lá dum mero direito fundamental. A par do oxigénio, da água, da comida e do calor apresenta-se como uma necessidade básica a satisfazer e a cultivar diariamente – quer na sua vertente relativa ao poder de fazer algo, quer na sua vertente mais inteligível e espiritual.

A escravidão é proibida por isso mesmo: um ser humano privado de liberdade vê a sua humanidade esquartejada. Fica ainda mais incompleto e imperfeito do que já o era. Por outro lado, o analfabetismo e a desinformação: dois alvos igualmente a abater. Gente inculta e por esclarecer facilmente se deixa manipular e condicionar por dogmas de todo o tipo – já que há gente que quer acorrentar pensamentos e não prender apenas corpos.

Olhando então para este meu exílio autoimposto e para esta reclusão dentro de quatro paredes, o que tenho? E o que me faz realmente falta?

A primeira resposta é simples: tenho tecto, tenho internet, tenho eletricidade, tenho gás, tenho comida, tenho água (e papel higiénico…) e tenho saudáveis as pessoas de quem realmente gosto. Agradeço esta última sorte à providência divina.

Quanto ao que me faz falta: respostas. Quando é que isto acaba? Quando é que posso sair de casa sem ter medo do que não vejo? Quando é que posso passar por um campo verde e inspirar fundo sem receios de ser contaminando por um estranho bicho nanométrico? Quando é que posso voltar a beijar quem quero beijar e a abraçar quem quero abraçar sem receio de lhe estar a fazer mal? Quando é que este medo passa? Quando é que a liberdade de que abdiquei em prole da saúde pública volta? Quando é que recupero essa liberdade que tinha?

Está a demorar bastante, e é preciso coragem para resistir.

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Cavalgadas do Apocalipse

Primeiro, as guerras. Pelo mundo inteiro rebentam tiros e explodem bombas. Os motivos são muitos e ninguém muda nada a falar e sem lutar. Quem terá força para impedir crianças tolas e interesseiras? Ninguém? Ninguém ergue essa espada…

Depois, a doença. Quem não tem hoje medo da pestilência invisível que nos infecta e das pandemias que podem vir a surgir ainda? Com tantos cuidados, como se espalha algo tão grave como este Covid-19? Que anda a fazer quem tem responsabilidades? Nada? Nada de nada, nenhum escudo se levanta…

Por outro lado, e em demasiados locais do mundo, a fome dos velhos e a subnutrição dos recém-nascidos mantêm-se como constantes. Quem lhes enche o pote e lhes leva a colher à boca? O pai não, a mãe também não! A verdade é que o pão e o leite não chegam para a boca de todos…

E a acompanhar cada um destes fenómenos está a morte: inexorável, cruel e impiedosa. Tanta tecnologia, tanto saber e não há quem parta a maldita foice!

Deus, que se passa cá em baixo? O que se deseja e decide aí em cima?

Resistimos?


DEBATES IMPROFÍCUOS

Dentista com o paciente:
– O senhor tem os dentes tortos, quer colocar um aparelho?
– Quem disse que tenho os dentes tortos? A senhora? Já viu que está a ficar careca?
– Eu a ficar careca? O senhor usa óculos de garrafão!
– A senhora é gorda!
– Contudo, o bafo do senhor tresanda a álcool!
– E a senhora tem cara de quem precisa de sexo!
– E você é um pulha que deve bater na sua mulher só porque ela lhe diz que tem os dentes tortos!
– Eu tenho os dentes tortos? A senhora está a ficar careca! Quem é você para me dizer que estou a ficar com os dentes tortos?!?!?

Quem atentar bem a este pobre e caricaturado diálogo, percebe facilmente que os dentes tortos do paciente são o primeiro problema identificado. Igualmente percebe que lhe é sugerida uma solução. Contudo, ofendido o paciente (quiçá estúpido como uma pedra…) pelo notado problema, ignora a sua tortuosa dentadura e parte para o “Quem é você para me dizer o que quer que seja? Você até tem igualmente defeito!”. Por sua vez, igualmente ofendida pelo paciente, a dentista retribui na mesma moeda e leva retorno e torna a responder e assim sucessivamente até facilmente percebermos que o primeiro problema (os dentes tortos do paciente) continua por resolver e vai continuar por se resolver.

Isto, infelizmente, é o que temos na televisão portuguesa (especialmente no mundo do futebol e na vida política). Argumentos sobre um tema rapidamente se dispersam e divagam para o “Queres que eu respeite isso, mas tu nunca o fizeste!” ou “Sim, sim! Mas o teu clube/partido é tão incompetente/criminoso como o meu!”.

Portanto, o que temos para discutir quando as pessoas não sabem discutir? Como encontramos juntos uma solução se as partes se focarem apenas em comparar problemas? Mais, o que fazemos quando esta forma de desargumentar é reiteradamente propositada pelos propagandistas do inócuo e do vazio?

Bem sabemos que existe a liberdade de expressão, mas onde está o acrescer da responsabilidade inerente a quem tem voz pública e a exerce de forma leviana, imprecisa e geralmente de forma sofista?

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2666

2666

de Roberto Bolaño

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Uma vez que a magna obra póstuma de Roberto Bolaño é dividida em cinco complexas partes, e de forma a fazer justiça ao Autor, decidi pronunciar-me separadamente sobre as cinco partes, que até tinham o propósito de ser cinco livros independentes dentro do mesmo universo, mas que, por decisão editorial e dos herdeiros, foram conjugados neste monstruoso 2666. Depois, logo farei a conclusão referindo-me em geral a toda a obra.

A Parte dos Críticos

Três críticos: um francês, um espanhol e um italiano tornam-se amigos através do gosto que nutrem pela obra literária de um enigmático autor alemão chamado Benno von Archimboldi. Tal paixão junta-os e permite-lhes bons momentos de fraternidades. Depois entra a única mulher do grupo, uma inglesa, e coloca tudo em alvoroço. E mesmo dentro deste alvoroço, a busca pelo referido autor alemão continua e leva-os até Santa Teresa, uma cidade mexicana fronteiriça onde mulheres são todos os dias assassinadas.

Ainda que os ganchos do Autor sejam sublimes e de alguma maneira originais, eles existem e obrigam-nos a virar a página. Claro que o arco narrativo é simplista e os três críticos mais não são que simples estereótipos do francês romântico, do espanhol de sangue-quente e do galante italiano (ainda que de cadeira-de-rodas…); mas temos Liz Norton, a inglesa, que é de longe a personagem mais interessante nesta Parte. Os seus medos femininos, os seus desejos femininos e as suas escolhas femininas são simplesmente humanas e falhas por isso mesmo.

Esta parte serve igualmente para levantar os dois pontos essenciais a compreender nesta obra: Benno von Archimboldi e Santa Teresa.

A Parte de Amalfitano

A parte das potenciais vítimas, como eu gosto de lhe chamar, tem menos personagens interessantes, mas o arco narrativo de Santa Teresa adensa-se e surge aqui a história de Amalfitano, um marido abandonado que se queda a cuidar da filha Rosa num ambiente que faz lembrar um lento, louco e suado purgatório para todos os que nela vivem.

A prosa do Autor consegue que cada palavra surja húmida, tensa e preocupada com o que se passa. Há medo, medo profundo e ansiedade neste pai a quem a droga e outros demónios mais lhe roubaram a mulher e cuja cidade onde vive lhe ameaça roubar também a filha.

Uma constante também é o medo de não nos lembrarmos. Evidentemente o medo de deixarmos de ser quem somos, e, portanto, o medo maior que alguém pode ter; não o supera sequer o medo da morte. Temos medo de nos esquecermos e de nos perdermos do nosso caminho, temos medo de nos esquecermos de quem somos e de nos perdermos da nossa alma e temos medo de nos esquecer de quem somos e deixarmos de existir ainda antes da nossa hora chegar. Bravíssimo este ponto de vista!

A Parte de Fate

Aqui a história, cruzando-se com a de Amalfitano e de Rosa, acompanha um jornalista que tem de cobrir um combate de boxe em Santa Teresa após perder a própria mãe. Não é uma parte fácil, está cheia de confirmações súbitas e de subtilezas suspeitas: há um serial killer em Santa Teresa, mas quem é (ou quem são) e porque são as vítimas apenas mulheres?

Há partes brilhantes, especialmente a do velho Barry Seaman (um arrependido Black Panther) que não vê os seus jovens aprenderem com os seus erros e com as suas lições. Depois o combate de boxe: toda a subtil violência social que gira à volta de um acontecimento explicitamente violento. Há os ricos, há as apostas, há as putas, há o sangue, há o conluio entre comunicação social e o poder… e há os vícios. Neste combate, e no que lhe sucede, encontra-se o primeiro indício que os assassinatos de mulheres não são apenas um erro do sistema culminados num ser hediondo, sociopata e misógino, mas sim algo mais… muito mais!

A Parte dos Crimes

Sendo de todo a parte mais entediante do livro (morreu esta, morreu aquela, foi encontrada aqui, foi encontrada ali…) é também a maior parte. E esta maior parte tem personagens interessantes – como o detective Juan de Dios Martinez, que sofre dos males do sexo desapaixonado, ou de Klaus Haas, um empresário alemão que se vê injustamente enclausurado numa prisão que mais parece o malebolge de Dante  – mas, sem sombra de dúvida, a grande personagem é a cidade de Santa Teresa. Diabos, é uma litania de raptos, torturas, violações, mortes e achamentos de cadáveres de tal ordem que a certo ponto (tal como na realidade) deixarmos de nos chocar e deixarmos de lhe prestar a devida importância. O desenrolar da lista de cadáveres (e nem todos do serial killer…) é assustadora e revela a verdade assustadora sobre a referida cidade: mesmo com a existência de um serial killer o que ressalta é a podridão humana que urbaniza malogradamente aquele pedaço de deserto fronteiriço.

A Parte de Archimboldi

A melhor parte do livro, sem dúvida nenhuma, conta-nos a história do jovem Hans Reiter e do velho Benno von Archimboldi. Ambientado na Alemanha no período que antecede a Segunda Guerra Mundial, no período da mesma guerra e no período que lhe sucede, vemos pelos olhos do desengonçado Reiter o mundo sucumbir e vemos uma paz assustada a ressurgir.

Não sei se o Autor fez de propósito ou não, mas a verdade é que talvez se possa desenhar um paralelo entre o inferno da Segunda Guerra Mundial e o inferno de Santa Teresa, que apenas surge na última parte para juntar as pontas soltas das outras quatro partes.

Mais, Archimboldi não nasce na guerra, mas nasce da Segunda Guerra Mundial e, no fim, prepara-se para enfrentar Santa Teresa. Mais que escritor, sempre soldado…

E o fim? Tão subtil, tão maduro e tão triste. O último monólogo do vendedor de gelados, queixando-se que as pessoas apenas se lembram do nome do gelado e não do nome nem da história do seu criador (que porventura quase parece que existiu apenas para dar o seu nome à porcaria dum gelado) é um subtil e final desabafo de um Autor, talvez com medo de ser esquecido e talvez com inveja da própria obra que ele mesmo criou. Paradoxal? Certamente. Verdadeiro? Claro. No fim da vida de uma pessoa que interessam os prédios que ergueu, as pontes que levantou ou os livros que escreveu? Já que o corpo não aguenta o que interessa é que a nossa história seja recordada!

Magnífico!

CONCLUSÃO SOBRE 2666

Vamos ver, certamente que cada uma das cinco partes, ainda que com valor próprio e mesmo funcionando no mesmo universo do Autor, seriam, divididas, boas estórias (mas nunca uma estória transcendente, como é o caso de 2666).

Truques narrativos, paradoxos, metáforas, estórias e histórias… 2666 é, como o número indica, uma besta ao quadrado em todos os sentidos. Narrativa, personagens, descrições: arte bestial ao quadrado! É apenas preciso um pouco de paciência e tempo, muito tempo. Demorei quase sete meses a acabá-lo (se bem que gosto de ler para me afastar da realidade, algo que é impossível com 2666, pelo que também não consegui pegar nele muitas vezes dois dias seguidos… demasiada realidade cruel).

Contudo, não há como negar a prosa agradavelmente divagante (e ainda assim objectiva) de Roberto Bolaño. Fenomenalmente, há um paradoxo evidente nesta obra: se lida depressa, entedia. Se a lermos devagar, caímos no desafio e colocamo-nos a pensar – o que alguns até acham perigoso. A quantidade de pensamentos, de ideias e de silêncios que despontam desta única e gigantesca obra é fenomenal e não me admira que digam que caiba o mundo inteiro nela nem que seja já um clássico da literatura mundial.


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