Category Archives: Pensamentos

Agora sou EU quem o diz…

Recordando uma velha máxima dos meus avós, eu sou do tempo em que se brincava na rua com uma bola e se brigava na rua sem pau nem faca nem pistola. Punhos, garra e juízo para saber parar. Os árbitros e os intermédios eram normalmente os amigos, os pais ou os pais dos amigos a quem dávamos sempre ouvidos. As ruas e os descampados não engoliam ninguém nessa altura, só nos tornavam mais fortes.

Eu sou do tempo em que surgiu a Playstation, a Dremcast, a Nintendo 64 e o GameBoy; pelo que também sou do tempo em que os amigos se reuniam em casa uns dos outros para simplesmente: apanharem todos os 150 pokémons conhecidos, ultrapassarem à vez os níveis de jogos de aventuras (entrando um novo jogador a cada morte da Lara Croft) ou competirem entre si num combate de Tekken ou num jogo de PES 2; tudo sempre às gargalhadas ou às caralhadas.

Eu sou do tempo em que a televisão de quatro canais se desdobrou em centenas de canais e, repentinamente, surgiram mais razões para a TV se manter ligada durante todo o dia. A diversidade era tão grande: filmes non-stop, maratonas de séries, notícias 24 horas, canais de música barulhentos. Felizmente, existiam pais que nos mandavam desligar a TV e nos levavam à praia para apanharmos sol e sal.

Eu sou do tempo em que a internet explodiu e, de rajada, tornou os computadores em rápidas fontes de informação, permitindo a todos ver programas indisponíveis nos nossos países e, pasmemo-nos, em falar com pessoas do outro lado do mundo que gostavam das mesmas coisas que nós sem pagar mais um cêntimo por isso.

Eu sou do tempo em que a tecnologia era utilizada apenas por jovens sonhadores e não velhos jarretas. Eu sou do tempo em que esta tecnologia tudo fazia para aproximar as pessoas, inclusive arranjar encontros com gente de outras escolas.

Depois surgiram as redes sociais em todas as plataformas (TV, rádio, computadores, telemóveis). Surgiu o comércio online: vendendo casas, carros e periquitos. E, para mal de todos os nossos pecados consumistas, surgiu o demoníaco algoritmo do marketing personalizado, ao serviço de cada conglomerado e de cada caganita influencer ao ponto de, hoje, até pequenos jogos para crianças estrem cheios de anúncios ou armadilhas para monetizar as brincadeiras dos pequenos.

Novos e velhos foram puxados por memes emocionais para discussões superficiais, dividindo o mundo em dois polos sem razão e invadindo-nos os olhos de propagandas ultrapassadas há muito, mas reavivadas por gentes inumanas.

Eu sou do tempo que achava que o sonho de um mundo mais igual através da internet era possível, mas vi-o esfumar-se à medida que alguns governos democráticos deixavam outros governos despóticos tratar de bloquear conteúdos e permitiam aos bilionários criar plataformas controladas de acordo com os seus objectivos políticos.

Eu vi isso tudo, filhote…

Eu, tal como os meus pais e os meus avós, vi um mundo com tudo para ser perfeito; mas que algumas criaturas insistem em estragar.


TODAY

Luz ligada, cam ligada,
Todos on one more time,
Living live, streaming life,
Vivendo de play em play,
Gozando de like em like.

Curtimos e comentamos
Se achamos que gostamos,
Vemos reacts e reviews
Para saber como reagir
Ao que jamais alcançamos.

Tutoriais nas redes sociais
Sugerem-se como essenciais,
Mas caçam-me os segundos
Para resumos superficiais
E desinteligências artificiais.

Ontem, eram as oratórias
As grandes linhas divisórias,
Hoje é só histórias e stories,
Para o dedo scrolar e scrolar
Ao alegado ritmo do algoritmo.

Todos tão bem trabalhados:
Ora divertidos, ora aparvalhados,
Ora maravilhados, ora partidos,
É o que somos hoje: plugados,
Mas simplesmente desconectados.


O GORE E A VIOLÊNCIA COMO DIAPASÃO DA POPULARIDADE AUDIOVISUAL

Olhando para algumas das mais populares séries dos últimos dez anos, podemos concluir que o gosto pela violência explícita e nojenta veio para ficar.

Dexter, com as suas tiradas internas,é uma carta de amor a psicopatas e sociopatas. Spartacus ofereceu-nos a violência dos gladiadores misturada com a promiscuidade sexual própria da época. Breaking Bad, e posteriormente Better Call Saul,conquistou-nos pelas suas personagens bastante presas à realidade e a fios narrativos cuja incapacidade de perdão é ostensiva. Game of Thrones e House of the Dragon surpreenderam e surpreendem muito pelas suas constantes reviravoltas, mas sem nunca esquecer a extrema violência verbal, física e sexual própria dos tempos medievais em guerra. The Boys leva o humor negro, a crítica e a violência para um escalão muito à parte no mundo dos super-heróis. Andor, com uma natureza complexa e bastante alicerçada na realidade e violência opressora do Império, passa-se na galáxia de Star Wars, mas é um show violento e realizado para adultos (tudo aquilo que George Lucas nunca defendeu). 3 Body Problem trata da violência entre espécies de mundos diferentes e com recurso a muita ciência. Séries como Sopranos, The Wire, Gomorrah Peaky Blinders, Boardwalk Empire normalizam o conceito de violência espontânea, atirar primeiro e logo à cabeça é para quem não está para merda nenhuma de brincadeira. Stranger Things consegue conciliar sangue, tripas e musculaturas expostas com crianças e comédia, mas vamos ser sinceros que é tudo menos uma série para crianças. Até mesmo, no mundo do anime, em Attack on Titan, temos gigantes nus a perseguir e comer famílias inteiras, mastigando-lhes os ossos e as tripas como se nada fosse.

Com base nos dados coletados, podemos observar que as séries com temas violentos não só mantêm altos índices de audiência, mas também recebem aclamação crítica e premiações significativas. Além disso, dominam as discussões em redes sociais e mantêm um interesse constante do público. A popularidade dessas séries sugere que a violência explícita pode ser um fator significativo na sua atração, mas outros elementos como qualidade narrativa e desenvolvimento de personagens também desempenham papéis importantes.

O grande concorrente destas séries violentas eram as séries cómicas. Mas eram mesmo porque já não são! Nos últimos cinco anos, quantas séries atingiram o patamar de Simpsons, Friends, The Big Bang, The Office, Theory ou How I Met Your Mother? Eu não dou conta de nenhuma.

O que isto quer dizer sobre a nossa actual geração? Poderemos concluir que as pessoas adoram tripas a cair no chão e degolações bruscas? Será que uma boa esguichadela de sangue para o ecrã e a série corre logo o risco de se tornar um fenómeno? Creio que sim…

E talvez seja por isso que o mundo anda com falta de paciência para a maioria de séries menos explícitas, como as séries da MCU, de Star Wars, Rings of Power, Willow e tantas outras que têm sido imediatamente dilaceradas pela crítica e pelos fãs. Talvez a marca Disney esteja em declínio porque aquilo que as pessoas querem é ver uma arruada gore da turma do Rato Mikey. Ver o Pateta e o Pato Donald a fazer palermices já não chega, é preciso que eles andem de motosserra nas mãos a dilacerar tripas aos seus inimigos.


Sobre a Migração – O Grande Tema Legislativas Portuguesas de 2024

Políticos, forças de segurança, organizações não governamentais, jornalistas, comentadores de televisão, populistas, progressistas, conservadores e conversadores de café ocasionais. Todos falam da emigração como um fenómeno recente (tal como fizeram com a Pandemia do Covid-19), mas nem todos se encontram conscientes de que tal fenómeno data dos primórdios da criação, ainda antes da humanidade nómada. É pena porque poderiam todos parar de discutir causas de algo que é natural a todos os seres: ir em busca de um lugar melhor para viver e criar a prole.

Ocupação de postos de trabalho a preços reduzidos, competitividade laboral inquinada, aumento de criminalidade, habitações lotadas, ruas cheias de emigrantes, insegurança para os que cá estão, recusa de vacinas e terrorismo religioso são talvez os subtemas que mais se cruzam com este grande fenómeno migratório. E, por um lado, até é bom que se discutam estas realidades que, pasmem-se os populistas, não afectam apenas as pessoas de bem; afectam os dois lados da moeda.

Ninguém fala dos sonhos desfeitos de uma pessoa que se vê obrigada a fugir de um lugar com medo do narcotráfico, dos receios de mudar de país/continente, do câmbio que leva 4/5 das poupanças, da dor causada pela distância das famílias ou da separação entre pais e filhos.

Ninguém fala das exorbitâncias cobradas a título de honorários aos emigrantes para solicitarem autorização de residência e trabalho ou do batelão de taxas e impostos pagos até finalmente um burocrata mandrião achar um buraquinho na agenda para recolher uma foto, a altura, as impressões digitais e a assinatura de um fulano que mal percebe a nossa língua, quanto mais as nossas manhas.

Ninguém fala de como os sucessivos governos e associações patronais (portuguesas, europeias, britânicas e norte-americanas) têm mantido a porta aberta aos que vêm de fora para baixar os preços de determinados sectores comerciais, das quais se destacam os trabalhadores de grandes superfícies comerciais, os técnicos de callcenters, os entregadores de comida ao domicílio e os eternos condenados da restauração e hotelaria.

Ninguém fala de como o respeito e a segurança (física, mental, laboral e social) de um estrangeiro corresponde igualmente à segurança de um nacional.

Tenho para mim que os populistas estão perdidos. Escumalha são, escumalha serão. Falam muito, mas todos nós sabemos o que eles pretendem das instituições democráticas: destruir e reinar.

Já quanto aos conservadores e aos progressistas, creio que ambos se podiam reunir em torno de uma opção geopolítica de grande envergadura com quatro pilares básicos:

1º) Controlar melhor quem entra na nossa casa (será sempre uma essencialidade básica, até por uma questão de cooperação interpolicial e interjudicial);

2º) Criar quotas regionais de entradas migratórias por mês/ano de modo a manter uma identidade cultural portuguesa com tendências por um estado de direito laico e democrático;

3º) Evidenciar esforços (inclusivamente militares) para evitar que tensões geopolíticas escalem para guerras geradoras de refugiados;

4º) E, por fim, forçar os países que adoram fundos de desenvolvimento, reciprocidade de vistos turísticos e extinção de pautas aduaneiras a adoptar com rigor e seriedade medidas bastante reais para evitar que os seus cidadãos (normalmente multiplicados como peixes pelos sermões dos padres…) também deixem de querer sair dos seus países de origem.

A ideia base será que quanto mais alimentados, abrigados, educados, integrados, democráticos e seguros estiverem os nossos vizinhos, mais seguros continuaremos nós. Exigir resultados ao ritmo necessário é fundamental a todos.


Personagens e Vómitos

Sabem o que têm em comum o Conde Drácula, o detective Sherlock Holmes, o monstro de Frankenstein, Hamlet, as irritantes irmãs Bennet, D’Artagnan e os Três Mosqueteiros e Alice no País das Maravilhos? Todas estas personagens são icónicos e têm, pelo menos, mais de vinte adaptações para o cinema.

Quer seja respeitando o conteúdo original ou dando azo a reciclagens mais criativas, onde se alteram tons de pele, modos, vícios ou finais felizes, a tendência de Hollywood reutilizar vezes sem conta estes personagens acentua uma enorme falta de criatividade.

Dei comigo agora a saber que Nosferatu vai ser alvo de uma nova adaptação, como se não existissem já filmes de vampiros aos magotes.

Enfim, por isso é que de tempos em tempos temos determinados movimentos renascentistas em que a criatividade volta à mó de cima. Gostaria apenas de estar a passar por ela…


MUDAR DE CASA

Tanto as várias diásporas do mundo como os que lutam por um pedaço de terreno ocupado há décadas partilham dum sentimento idêntico cujo núcleo essencial é este: o nosso lugar no Universo é aqui, eu pertenço aqui.

O nosso apego ao lugar onde tanto nós como os nossos familiares se criaram tem algumas curiosidades; até para os mais aventureiros que partem com um sorriso desapegado quando, bem lá no fundo, escondem no coração um silêncio melancólico, já ansioso pelo próximo retorno.

A nossa humana tendência para nos sentirmos confortáveis numa rotina de Sísifo é uma das primeiras curiosidades a contribuir para o facto de odiarmos que nos obriguem a sair de um determinado lugar. Ninguém gosta de ser expulso da discoteca, quanto mais despejado da própria barraca que sempre conheceu. Para o comum dos mortais, mudar de casa (e de terra) é algo sinistramente complicado — e não se deve apenas aos preços cobrados pelas empresas de mudanças. Lá no fundo odiamos êxodos!

Outra dessas curiosidades é sempre acharmo-nos com mais direitos sobre um determinado lugar só porque há determinados vizinhos que vieram viver para junto de nós bem mais tarde. Que interessa o nosso amor mútuo pelo mesmo lugar? Há sempre um que chega depois e só por isso já não vale nada.

Finalmente, a última curiosidade tem por pilar uma tara qualquer por morrer na terra cujo cheiro e textura sempre haveremos de reconhecer. A curiosidade mais estúpida é esta mesmo. Eu não partilho do amor à pátria nem acho mais do que lírica a imagem do peito de Robert (criado por Hemingway) a sangrar e a misturar-se com o solo espanhol. Simplesmente, há coisas que não valem o nosso amor e muito menos o nosso sangue.

Feito o longo introito, olhemos hoje para Israel e para a Palestina.

Após uma longa diáspora, os israelitas arrogam-se hoje no direito de ocupar um reino fundado pelos seus patriarcas ancestrais; são os vizinhos mais velhos, aqueles que conhecem há mais tempo o cheiro da terra e o sentido dos cursos de água daquele lugar.

Os palestinianos, por seu lado, são os vizinhos que se defendem dizendo que aquele solo sagrado foi outrora abandonado pelos judeus, conquistado pelo Rei David, que depois deixou os seus descendentes serem tomados por babilônios, assírios, persas, gregos, selêucidas, romanos, cristãos, otomanos e, finalmente, ocupados pelos muçulmanos que agora preferem morrer a sair dali quando não têm hipótese alguma de por lá ficar.

Uma coisa é certa, já a perceber que nunca é fácil estreitar os laços entre vizinhos velhos e vizinhos novos, o projeto de partilha da Palestina aprovado pela ONU em 1947 previu o estabelecimento de dois estados, um árabe e outro judaico, que formariam entre si uma união aduaneira capaz de partilhar todos os recursos. Haveria cenário melhor? Confesso que não tenho assim tanta criatividade…

Todavia, será mesmo possível uma conciliação entre um povo de tradições resguardadas e sem vocação missionária como os judeus e outro povo muçulmano cujo mandamento é impor aos outros a sua fé? E o ódio histórico que passa de geração em geração?

É possível sonhar com a erradicação deste ódio, não sobreviveríamos sem essa esperança. Mas enquanto existirem bestas que acham melhor morrer pela terra ao invés de perceberem que quem está mal muda-se…


AUCTORITAS

Auctoritas. Os antigos romanos tinham esta palavra que há muito me ecoa no ouvido. Gosto particularmente dela e de tudo aquilo que ela representa. Até da sua sonoridade eu gosto: auctoritas

O referido conceito, facilmente intuitivo e que deu origem ao étimo português “autoridade”, aplicava-se normalmente ao prestígio moral de um cidadão na sociedade romana e, consequentemente, à sua capacidade para influenciar e reunir apoios em torno das suas posições políticas. O mesmo termo, para além de utilizado na ciência política, tem também um ângulo mitológico que se prende com o misterioso dom, quiçá divino, para o “poder do comando” de algumas figuras lendárias do Império Romano. Uma vez que defendo a laicidade do estado não gosto muito deste ângulo divino, mas mais adiante vão perceber porque o menciono agora.

Atravessando nós um momento em que vale tudo na política portuguesa (e na política ocidental também, sejamos verdadeiros…), é importante resgatar esta ideia de auctoritas na hora de nomear pessoas para posições importantes, designadamente assessores, gestores públicos, secretários de estado, ministros e até líderes da oposição.

Igualmente importante é não confundir este auctoritas com competência técnica. Há gente muito boa no que faz que não tem o hábito de decidir nem o dom de liderar. Logo, esta pessoa muito competente pode (e deve) ser escolhida pelo seu prestígio técnico para exercer um cargo público, mas não pode estar à frente de decisões como alguém que tenha um perfil de líder, um perfil carismático, aglutinador e capaz de comandar hostes.

Um líder com verdadeiro auctoritas, por mais que oiça e se aconselhe, decide e decreta caminhos. Ao técnico competente é-lhe delegada a missão de prosseguir conforme a liderança definiu. É tão fácil no papel, não é? O problema é por vezes perceber que um líder pode e deve ser igualmente uma pessoa competente tecnicamente, tal como o técnico pode (e deve) ser tão proativo (e valorizado) como um líder dado que é este que executa e dá corpo às diretrizes da própria auctoritas.

Posto isto, numa altura em que os ventos dos autoritarismos começam a ganhar força por todo o mundo onde antes não passavam de escumalha ignorante, é preciso que os políticos que defendem a harmonia e o equilíbrio das democracias percebam que só existem três formas de combater a polarização da sociedade:

  1. Escolher pessoas com um auctoritas inquestionável e inabalável para desempenhar cargos públicos de liderança;
  2. Tomar cada decisão com o intuito de preservar sempre o auctoritas do líder e o nosso próprio auctoritas;
  3. Investigar, expor as faltas e falsidades de auctoritas dos agentes mais radicais da política e despojá-los de opinião pública e tempo de antena.

Quando tratamos de malta que se encontra indecisa entre o método científico e o negacionismo é preciso encontrar alguém que ponha as pessoas a ouvir verdadeiramente o que é dito sobre determinado assunto; pelo que não pode ser uma pessoa qualquer encontrada num comício de uma qualquer juventude partidária que repita o que ouviu dizer nem um fulano que define a sua moral estritamente pela positividade da lei.

Quando tratamos dos problemas entre equilibrados e desequilibrados, não podemos deixar de preservar a nossa imagem enquanto escutamos as preocupações dos raciocínios mais ultrapassados — como racismos, xenofobias e demais misantropias — e apontamos a puxar para a superfície a sua falha essencial: medos e ódios não resultam e nunca resultaram em nada a não ser um estado de absoluta inacção e conformação com os actos mais vis e cruéis.

Quando se trata de distinguir o que é verdadeira acção política de uma narrativa meramente populista, devemos evidenciar todos os esforços para desmascarar os discursos mais bonitos e tentadores da praça pública.

Tornando aqui à mitologia, nunca se esqueçam que uma das alcunhas preferidas do Diabo é o simplesmente o Tentador e uma das suas ferramentas preferidas é a própria tentação. Logo, gente com prestígio moral e capaz de comandar massas deve apontar ao demónio e mostrar a todos porque até ele gostaria de ceder às tentações, mas não pode. Porque ceder à tentação é abrir a porta à entrada de uma sociedade ainda mais caótica.

Alguns dir-me-ão que já não há gente com auctoritas. Pois eu digo que há. É só uma questão de os procurar e definir critérios precisos para os jogar para a frente ao mesmo tempo que devemos fazer tudo para retirar às falanges radicais cada pingo de prestígio dos doidos que as fazem avançar.

by JFoliveras

Os Estrangeiros

Como é possível que na Europa estejamos a assistir à ascensão de movimentos populistas com tendências xenófobas? Num território como o europeu, onde diariamente tanto os professores como os media fazem questão de referir que a xenofobia e o racismo são desvalores bárbaros e contrários a uma sociedade desenvolvida, é paradoxal que estes movimentos estejam a crescer, tal como a antipatia pelo “estrangeiro que vem para cá tirar trabalho aos que cá estão”. Porque acontece isto?

Começando por provocar: estes radicais em ascensão até têm alguma razão na sumária identificação que fazem do problema. Tirando a ideologia da questão e correndo por um trilho pragmático, a verdade é que os migrantes que chegam à Europa vêm para cá porque (surpresa!) querem melhores condições de vida. Querem mais segurança, mais dinheiro e algumas perspectivas sérias de futuro para os filhos. E tanto os seus propósitos como a sua necessidade de ganhar sustento, motes que devem ser respeitados, gera competição entre a mão-de-obra interna e a que vem de fora.

Tudo isto é normal e bastante humano. O que não é normal nem humano é a inércia estadual perante a autêntica desregulação e ausência de fiscalização da actividade laboral. Vejamos alguns exemplos:

Patrões que, não conseguindo ou não querendo pagar o justo pelo trabalho prestado, contratam e trazem trabalhadores do Nepal, do Brasil ou dum qualquer país africano a preço de uva mijona. Fogem às contribuições, ao fisco e, mal o trabalhador manifesta algum desagrado, vai para a rua sem qualquer tipo de fundo de desemprego. Isto é mato nas empresas de construção.

Por outro lado, a restauração. Quem é que quer trabalhar num restaurante, num hotel ou num café cheio de bêbados seis dias por semana por 800,00€ pagos por fora? Ninguém, certo? Mas a verdade é que rareia o cafezinho em Portugal onde não há um emigrante a trabalhar nestas condições. E porquê? Porque precisa de pagar renda, contas e custos com processos de regularização de permanência em território nacional. O facto de poder vir a magoar-se e não ter direito a apoios financeiros do estado pouco lhe importa.

E quanto aos shoppings? Quem é que aguenta ganhar o salário mínimo e trabalhar para grandes empresas que do nada usam com uma facilidade mínima a mobilidade geográfica do trabalhador para o manter de cabeça baixa? E quem é que trabalha nas lojas dos shoppings maioritariamente? Os emigrantes, certo?

Até aqui só dei exemplos de mão-de-obra pouco qualificada, mas vejam o que sucede já nos hospitais com médicos da América Latina a fazerem turnos atrás de turnos em regime de recibos verdes. Ou na advocacia, com os advogados de outros países e outras leis a entupirem os serviços de estrangeiros e fronteiras com processos muitas vezes e propositadamente mal instruídos com o único intuito de evitar deportações de quem nunca se interessou pela legalidade.

Posto isto, o problema não se prende com a importação massiva de pagodes brasileiros, kizombas angolanas, chamuças indianas ou plásticos chineses. Sendo sincero, a maioria dos portugueses até acha piada às diferenças e até as consome, especialmente se forem gastronómicas. O problema prende-se com o facto dos estados europeus nada fazerem para evitar a desvalorização dos rendimentos de quem trabalha. Não é tanto uma questão de valores morais e culturais, é muito simplesmente uma questão de carteira e de valores monetários.

Quando ninguém vigia (incluindo o próprio trabalhador que se sujeita a tudo e mais alguma coisa) e quando ninguém controla dá-se isto: o que deveria ser excepcional começa a aproximar-se da regra geral. E o que sucede depois? Conformismo, pobreza, fome, descontentamento e ascensão de movimentos radicais. O Brexit, por exemplo, deveu-se em larga maioria ao facto de os britânicos deixarem de estar dispostos para acolher novas vagas de gente que, merecendo respeito, vinha ao abrigo desse ideal de mercado livre e concorrencial que, habitualmente, desvaloriza os rendimentos de pessoas que, inegavelmente, já se encontram inseridas num mercado livre e concorrencial.

Chegados aqui, depois de identificados alguns dos problemas a curto e longo prazo, importa debruçarmo-nos sobre formas de resolver estes problemas:

O primeiro ponto a ter em conta é que o ideal “mercado de livre concorrência” precisa de ser relativizado. Jamais poderá ser absoluto. Caso contrário, ou os concorrentes se aliam para não mais baixar os preços (e falseiam a concorrência, o que é ilegal…) ou então os concorrentes deixam de prestar o seu trabalho porque não estão para oferecer gratuitamente o seu produto/serviço de graça. Só assim, valorizando mais os rendimentos que o mercado, se consegue reter o talento que se forma nas nossas escolas e universidades.

O segundo ponto a ter em conta é exigir mais a quem quer vistos turísticos para, sub-repticiamente, permitir aos seus cidadãos que emigrem e não mais voltem. Dá imenso jeito, por exemplo, ao Brasil que os seus brasileiros viajem como turistas e depois apresentem uma manifestação de interesse para ficar em solo europeu, tal como dá jeito ao Brasil invocar o princípio da reciprocidade para dizer que os europeus também podem ir viver para território brasileiro quando quiserem. O problema é que nenhum pobretanas europeu quer voar para os braços abertos de um estado que pouco ou nada faz para melhorar a segurança das ruas, o estado das estradas e dos transportes, a educação primária e secundária, os serviços públicos, os preços dos supermercados, a ética patronal e os rendimentos de quem trabalha. Se um estado quer vistos turísticos tem de alcançar um patamar em que o princípio da reciprocidade se aplique num plano real (como ocorre entre Estados Unidos da América e a Europa) ao invés de um plano meramente teórico.

Terceiro ponto, apagar fogos no quintal do vizinho. Se a casa ao lado da nossa estiver a arder a reacção mais adequada será sempre levantar o rabo do sofá e ir ajudar o vizinho e bombeiros a apagar o incêndio. Caso contrário, o que sucederá à nossa casa? Os países europeus não podem continuar a permitir o corrente relaxo e o caos endémico nos países africanos. Se os povos africanos não conseguem assegurar a sua própria segurança interna e os seus dignatários roubam os fundos públicos ao invés de investirem em estradas e fortes projectos de agricultura e barragens, os estados europeus têm de intervir, exigir e, se for caso disso, repor a ordem. Caso contrário, continuarão a existir guerras civis e refugiados que, de forma totalmente justificada, fogem para solo europeu para competir em segurança com a mão-de-obra que cá já existe.

Uma última nota para referir que Elon Musk e todos os outros empresários dignos deste nome já se aperceberam que o futuro passará inevitavelmente pela exploração das estrelas; esta nossa casa não acolherá para sempre um tão grande número de pessoas.  Mas, no entretanto, e como a tecnologia ainda não nos permite fazer uma horinha daqui até Marte, é preciso defender até à exaustão a organização dos povos, a valorização dos rendimentos e o bem-estar das pessoas. Caso contrário, os movimentos populistas continuarão a aumentar. E a História está cheia de exemplos do horror e terror que estes movimentos populistas provocam quando chegam ao poder. Tanto para os estrangeiros como para os nativos.


Vox populi? Justa vox populi…

Por vezes ouvimos alguns populistas dizer: Vox populi, vox dei, que traduzido do latim para uma língua viva como a nossa significa voz do povo, voz de deus. É uma frase sonante, admito. Uma frase que até pode ter tido alguma relevância em eras seculares. Contudo, continuará a ter alguma razão de ser nos dias de hoje?

De um ponto de vista conotativo, podemos interpretá-la como um adágio que visa sensibilizar os patrícios políticos para os problemas da plebe votante. E deste ponto de vista até serve (algumas vezes, poucas, talvez pouquíssimas…) para pressionar a malta da política a mexer-se um bocadinho de modo a não perder votos nas eleições seguintes.

Contudo, se formos para um sentido mais literal, no sentido em que o povo normalmente interpreta, imaginem lá o Alto Pai da Criação ignorar o facto de a Organização Mundial de Saúde ter retirado a homossexualidade da lista de problemas de saúde há cerca de 32 anos — em 17 de Maio de 1990 mais precisamente — e repetir as mais recentes declarações de Khalid Salman (actual embaixador do Mundial 2022 no Catar e alguém que actualmente representa uma enorme falange do povo islamita). Imaginem lá a carantonha do Alto Deus a dizer-nos com o apontador levantado: “A homossexualidade é uma doença mental!”.

Enfim…

Por outro lado, deixemos os exemplos mais sonantes e estapafúrdios da actualidade. O que seria do povo de Deus se o próprio Deus começasse a repetir, por exemplo, as mais discretas e transversais vozes seculares do povo português: “Um olho no burro, outro no cigano”, “A mula e a mulher com pau se quer”, “A judeu e a porco não metas no teu horto” e “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Que Deus teríamos? Um Deus racista, misógino e xenófobo?

Pensemos.

Talvez exista mesmo uma expressão melhor e mais actual com tendências universalistas: Voz do povo? Só mesmo voz do povo…


Desespero Silente

É sufocante e sombria
A água desta poça vazia
Onde me afogo lentamente
Faltam coisas neste peito —
Só não me falta o ar, ainda…

Das profundezas do martírio
Me aproximo neste afundanço
Sem mergulho precedente,
Sem empurrão dum falhanço
Ou sem uma falha decadente.

Acordei nestas trevas somente,
Destituído de forças e coragens —
Outrora fiéis, imutáveis e estáveis —,
Acordei neste abismo simplesmente,
Sem aliados e sem solução evidente.


Design a site like this with WordPress.com
Iniciar