Category Archives: Inverdade

Agora sou EU quem o diz…

Recordando uma velha máxima dos meus avós, eu sou do tempo em que se brincava na rua com uma bola e se brigava na rua sem pau nem faca nem pistola. Punhos, garra e juízo para saber parar. Os árbitros e os intermédios eram normalmente os amigos, os pais ou os pais dos amigos a quem dávamos sempre ouvidos. As ruas e os descampados não engoliam ninguém nessa altura, só nos tornavam mais fortes.

Eu sou do tempo em que surgiu a Playstation, a Dremcast, a Nintendo 64 e o GameBoy; pelo que também sou do tempo em que os amigos se reuniam em casa uns dos outros para simplesmente: apanharem todos os 150 pokémons conhecidos, ultrapassarem à vez os níveis de jogos de aventuras (entrando um novo jogador a cada morte da Lara Croft) ou competirem entre si num combate de Tekken ou num jogo de PES 2; tudo sempre às gargalhadas ou às caralhadas.

Eu sou do tempo em que a televisão de quatro canais se desdobrou em centenas de canais e, repentinamente, surgiram mais razões para a TV se manter ligada durante todo o dia. A diversidade era tão grande: filmes non-stop, maratonas de séries, notícias 24 horas, canais de música barulhentos. Felizmente, existiam pais que nos mandavam desligar a TV e nos levavam à praia para apanharmos sol e sal.

Eu sou do tempo em que a internet explodiu e, de rajada, tornou os computadores em rápidas fontes de informação, permitindo a todos ver programas indisponíveis nos nossos países e, pasmemo-nos, em falar com pessoas do outro lado do mundo que gostavam das mesmas coisas que nós sem pagar mais um cêntimo por isso.

Eu sou do tempo em que a tecnologia era utilizada apenas por jovens sonhadores e não velhos jarretas. Eu sou do tempo em que esta tecnologia tudo fazia para aproximar as pessoas, inclusive arranjar encontros com gente de outras escolas.

Depois surgiram as redes sociais em todas as plataformas (TV, rádio, computadores, telemóveis). Surgiu o comércio online: vendendo casas, carros e periquitos. E, para mal de todos os nossos pecados consumistas, surgiu o demoníaco algoritmo do marketing personalizado, ao serviço de cada conglomerado e de cada caganita influencer ao ponto de, hoje, até pequenos jogos para crianças estrem cheios de anúncios ou armadilhas para monetizar as brincadeiras dos pequenos.

Novos e velhos foram puxados por memes emocionais para discussões superficiais, dividindo o mundo em dois polos sem razão e invadindo-nos os olhos de propagandas ultrapassadas há muito, mas reavivadas por gentes inumanas.

Eu sou do tempo que achava que o sonho de um mundo mais igual através da internet era possível, mas vi-o esfumar-se à medida que alguns governos democráticos deixavam outros governos despóticos tratar de bloquear conteúdos e permitiam aos bilionários criar plataformas controladas de acordo com os seus objectivos políticos.

Eu vi isso tudo, filhote…

Eu, tal como os meus pais e os meus avós, vi um mundo com tudo para ser perfeito; mas que algumas criaturas insistem em estragar.


Sobre a Migração – O Grande Tema Legislativas Portuguesas de 2024

Políticos, forças de segurança, organizações não governamentais, jornalistas, comentadores de televisão, populistas, progressistas, conservadores e conversadores de café ocasionais. Todos falam da emigração como um fenómeno recente (tal como fizeram com a Pandemia do Covid-19), mas nem todos se encontram conscientes de que tal fenómeno data dos primórdios da criação, ainda antes da humanidade nómada. É pena porque poderiam todos parar de discutir causas de algo que é natural a todos os seres: ir em busca de um lugar melhor para viver e criar a prole.

Ocupação de postos de trabalho a preços reduzidos, competitividade laboral inquinada, aumento de criminalidade, habitações lotadas, ruas cheias de emigrantes, insegurança para os que cá estão, recusa de vacinas e terrorismo religioso são talvez os subtemas que mais se cruzam com este grande fenómeno migratório. E, por um lado, até é bom que se discutam estas realidades que, pasmem-se os populistas, não afectam apenas as pessoas de bem; afectam os dois lados da moeda.

Ninguém fala dos sonhos desfeitos de uma pessoa que se vê obrigada a fugir de um lugar com medo do narcotráfico, dos receios de mudar de país/continente, do câmbio que leva 4/5 das poupanças, da dor causada pela distância das famílias ou da separação entre pais e filhos.

Ninguém fala das exorbitâncias cobradas a título de honorários aos emigrantes para solicitarem autorização de residência e trabalho ou do batelão de taxas e impostos pagos até finalmente um burocrata mandrião achar um buraquinho na agenda para recolher uma foto, a altura, as impressões digitais e a assinatura de um fulano que mal percebe a nossa língua, quanto mais as nossas manhas.

Ninguém fala de como os sucessivos governos e associações patronais (portuguesas, europeias, britânicas e norte-americanas) têm mantido a porta aberta aos que vêm de fora para baixar os preços de determinados sectores comerciais, das quais se destacam os trabalhadores de grandes superfícies comerciais, os técnicos de callcenters, os entregadores de comida ao domicílio e os eternos condenados da restauração e hotelaria.

Ninguém fala de como o respeito e a segurança (física, mental, laboral e social) de um estrangeiro corresponde igualmente à segurança de um nacional.

Tenho para mim que os populistas estão perdidos. Escumalha são, escumalha serão. Falam muito, mas todos nós sabemos o que eles pretendem das instituições democráticas: destruir e reinar.

Já quanto aos conservadores e aos progressistas, creio que ambos se podiam reunir em torno de uma opção geopolítica de grande envergadura com quatro pilares básicos:

1º) Controlar melhor quem entra na nossa casa (será sempre uma essencialidade básica, até por uma questão de cooperação interpolicial e interjudicial);

2º) Criar quotas regionais de entradas migratórias por mês/ano de modo a manter uma identidade cultural portuguesa com tendências por um estado de direito laico e democrático;

3º) Evidenciar esforços (inclusivamente militares) para evitar que tensões geopolíticas escalem para guerras geradoras de refugiados;

4º) E, por fim, forçar os países que adoram fundos de desenvolvimento, reciprocidade de vistos turísticos e extinção de pautas aduaneiras a adoptar com rigor e seriedade medidas bastante reais para evitar que os seus cidadãos (normalmente multiplicados como peixes pelos sermões dos padres…) também deixem de querer sair dos seus países de origem.

A ideia base será que quanto mais alimentados, abrigados, educados, integrados, democráticos e seguros estiverem os nossos vizinhos, mais seguros continuaremos nós. Exigir resultados ao ritmo necessário é fundamental a todos.


Foundation — 1ª Temporada e 2ª Temporada

by Apple TV

de Josh Friedman e David S. Goyer.

Confesso que ainda não li absolutamente nada da saga Fundação, escrita pelo afamado Isaac Azimov. Esta confissão é quase um pecado, mas o tempo e o dinheiro aptos a satisfazer todos meus desejos de leitura são escassos. Para além disso, tenho lido e conversado com pessoas acerca desta saga e todos têm convergido para uma opinião quase unânime: é uma história boa, tem um ritmo rápido, mas não consegues criar grande empatia com as personagens (o que não me espanta dada as tendências pulp dos anos 60 a 80). Podem imaginar as minhas reticências uma vez que para mim as personagens são sempre o núcleo duro das obras…

Adiante, e mesmo ciente de todas as críticas feitas a esta adaptação, nomeadamente da libertinagem criativa e pouco respeitosa relativamente ao material original bem como a tendência dos dias que correm para mudar o sexo original das personagens, creio que os defeitos apontados se esbatem perante o resto dos elementos desta adaptação. A qualidade do enredo, a qualidade dos arcos e o desenvolvimento das personagens, a mensagem, e os próprios efeitos audiovisuais não fica nada a dever à maioria das séries e filmes de ficção científica.

O enredo é intricado desde o primeiro episódio, com uma primeira linha narrativa focada na Dinastia Genética do Imperador Cleon II (inspirado, creio, no excelente mito das três faces da deusa Hekate e algo que, pelo que sei, é uma inovação). A segunda linha segue os séculos passados em Terminus e os problemas da Fundação. A terceira linha temporal prende-se com a vida de uma personagem totalmente reformulada chamada Gaal Dornick. Entre estas linhas, muita coisa ocorre nas sombras. E é esse o apelativo da história Fundação. Nós estamos a observar pequenos episódios aparentemente sem grande relevo para os pontos de mudança da história da galáxia, mas a verdade é que são estes momentos que conduzem às grandes mudanças. Especial…

Em termos de personagens, o claro destaque vai para o Imperador Cleon II (interpretado magistralmente pelo trio Cassian Bilton, Lee Pace e Terrence Mann) e para Harry Seldon (do extraordinário Jared Harris), mas Gaal Dornick (interpretado por Lou Lloubell) vai em crescendo. As várias nuances que cada um destes actores (com a ajuda dos demais) consegue dar às suas personagens é algo de extraordinário.

Na maioria dos planos visuais, como os anéis de Trantor, o interior de palácios ou os habitáculos das naves estelares, sentimo-nos estarrecidos. A imaginação não tem limites, desde a forma como a tecnologia é utilizada até aos pingentes vivos de murais especialmente artísticos. Posto isto, eu não embarco na onda de críticos desta adaptação de Fundação. Por norma até gosto que as séries não fujam muito ao material original, mas o que os realizadores estão a fazer ao dar um sopro de empatia de personagens pouco conhecidos e desenvolvidos enquanto mantêm o resto da história (inacabada pelo Autor, diga-se) é algo que muito me apraz. Recomendo vivamente aos fãs do género.


Cloud Cuckoo Land

Cloud Cuckoo Land

de Anthony Doerr

Uma vez que traduzido à letra (A Terra dos Cucos Nefelibatas ou A Terra dos Cucos das Nuvens) este livro cairia imediatamente na lista de livros a evitar devido a parecer uma parvoíce pouco desafiadora, a equipa da Editorial Presença preferiu ter uma abordagem mais conservadora e chamou simplesmente a este obra-prima: Uma Cidade nas Nuvens. Um título impossível de esquecer, certo? Enfim…

Em termos de enredo, o Autor complica e complica ao ponto de me espantar com a sua destreza técnica e planeamento de enredo no final do livro. Temos cinco personagens principais divididas por três linhas temporais, sendo que ainda temos de contar com os flashbacks de três personagens. Ufa…

No início, há aparentemente pouco a ligá-las, mas a verdade é que o enredo vai-se adensando e o que enlaça as três linhas temporais principais (bem como os flashbacks) vai-se tornando muito mais nítido ao ponto de nós percebermos que a verdadeira mensagem deste livro não é apenas que cada livro e bibliotecários são especiais e merecem ser preservados independentemente da doutrina ou do tom com que foram escritos. É realmente grandiosa a forma como o Autor entrega o final.

Por outro lado, em termos de personagens, aprecio particularmente o facto deste livro se reportar bastante à relação entre a adolescência e a terceira-idade. Não há propriamente um protagonista de trinta ou quarenta anos cuja força física se equivalha a uma experiência acumulada e que sirva de ponte entre todas as personagens. O Autor foca-se muito na juventude, na sua ingenuidade, na sua determinação e nos seus diversos problemas ao longo da história para nos fazer perceber a importância modeladora desses acontecimentos iniciais durante o resto da nossa vida.

O ritmo da narrativa é constante e os ganchos narrativos são bastante bem executados.

A prosa do Autor é bastante fluída e não teme socorrer-se de palavras menos comuns para o que quer que seja. Há igualmente uma maravilhosa tendência para comparações e metáforas bastante precisas e imaginativas. Apetecia-me destacar uma ou outra, mas estaria a ser injusto para com o autor ao revelar os seus tesouros metafóricos.

Em termos de conteúdo para lá dos enredos, e sem ser exaustivo, o Autor aborda inúmeros problemas actuais da sociedade como a solidão, a pobreza, os problemas da parentalidade singular, catástrofes climáticas, extinção massiva da biosfera, as consequências do medo, extremismos, conservadorismos, guerras, síndromes e patologias incompreendidas, manipulação de jovens solitários e vulneráveis através da propagação de idiossincrasias perigosas por meio de redes sociais e, por fim, os perigos da programação tecnológica.

É maravilhoso apreciar ao longo de todo o livro este condensar orgânico, tal como é revelador de uma extrema sensibilidade perceber todos os paralelismos que se fazem entre a Conquista de Constantinopla, a nossa década dos novos 20´s e o Futuro da Humanidade. Serão os nossos problemas sempre os mesmos ainda que com capas e vestimentas novas?

O que posso dizer mais? Anthony Doerr é um verdadeiro mestre tecelão. Fiquei abismado e imagino apenas um bocadinho do sofrimento que este homem passou para conseguir enlaçar todas estas histórias umas nas outras de modo a passar a mensagem e os paralelismos que queria passar. Magnífico, o melhor que li no último ano…


AUCTORITAS

Auctoritas. Os antigos romanos tinham esta palavra que há muito me ecoa no ouvido. Gosto particularmente dela e de tudo aquilo que ela representa. Até da sua sonoridade eu gosto: auctoritas

O referido conceito, facilmente intuitivo e que deu origem ao étimo português “autoridade”, aplicava-se normalmente ao prestígio moral de um cidadão na sociedade romana e, consequentemente, à sua capacidade para influenciar e reunir apoios em torno das suas posições políticas. O mesmo termo, para além de utilizado na ciência política, tem também um ângulo mitológico que se prende com o misterioso dom, quiçá divino, para o “poder do comando” de algumas figuras lendárias do Império Romano. Uma vez que defendo a laicidade do estado não gosto muito deste ângulo divino, mas mais adiante vão perceber porque o menciono agora.

Atravessando nós um momento em que vale tudo na política portuguesa (e na política ocidental também, sejamos verdadeiros…), é importante resgatar esta ideia de auctoritas na hora de nomear pessoas para posições importantes, designadamente assessores, gestores públicos, secretários de estado, ministros e até líderes da oposição.

Igualmente importante é não confundir este auctoritas com competência técnica. Há gente muito boa no que faz que não tem o hábito de decidir nem o dom de liderar. Logo, esta pessoa muito competente pode (e deve) ser escolhida pelo seu prestígio técnico para exercer um cargo público, mas não pode estar à frente de decisões como alguém que tenha um perfil de líder, um perfil carismático, aglutinador e capaz de comandar hostes.

Um líder com verdadeiro auctoritas, por mais que oiça e se aconselhe, decide e decreta caminhos. Ao técnico competente é-lhe delegada a missão de prosseguir conforme a liderança definiu. É tão fácil no papel, não é? O problema é por vezes perceber que um líder pode e deve ser igualmente uma pessoa competente tecnicamente, tal como o técnico pode (e deve) ser tão proativo (e valorizado) como um líder dado que é este que executa e dá corpo às diretrizes da própria auctoritas.

Posto isto, numa altura em que os ventos dos autoritarismos começam a ganhar força por todo o mundo onde antes não passavam de escumalha ignorante, é preciso que os políticos que defendem a harmonia e o equilíbrio das democracias percebam que só existem três formas de combater a polarização da sociedade:

  1. Escolher pessoas com um auctoritas inquestionável e inabalável para desempenhar cargos públicos de liderança;
  2. Tomar cada decisão com o intuito de preservar sempre o auctoritas do líder e o nosso próprio auctoritas;
  3. Investigar, expor as faltas e falsidades de auctoritas dos agentes mais radicais da política e despojá-los de opinião pública e tempo de antena.

Quando tratamos de malta que se encontra indecisa entre o método científico e o negacionismo é preciso encontrar alguém que ponha as pessoas a ouvir verdadeiramente o que é dito sobre determinado assunto; pelo que não pode ser uma pessoa qualquer encontrada num comício de uma qualquer juventude partidária que repita o que ouviu dizer nem um fulano que define a sua moral estritamente pela positividade da lei.

Quando tratamos dos problemas entre equilibrados e desequilibrados, não podemos deixar de preservar a nossa imagem enquanto escutamos as preocupações dos raciocínios mais ultrapassados — como racismos, xenofobias e demais misantropias — e apontamos a puxar para a superfície a sua falha essencial: medos e ódios não resultam e nunca resultaram em nada a não ser um estado de absoluta inacção e conformação com os actos mais vis e cruéis.

Quando se trata de distinguir o que é verdadeira acção política de uma narrativa meramente populista, devemos evidenciar todos os esforços para desmascarar os discursos mais bonitos e tentadores da praça pública.

Tornando aqui à mitologia, nunca se esqueçam que uma das alcunhas preferidas do Diabo é o simplesmente o Tentador e uma das suas ferramentas preferidas é a própria tentação. Logo, gente com prestígio moral e capaz de comandar massas deve apontar ao demónio e mostrar a todos porque até ele gostaria de ceder às tentações, mas não pode. Porque ceder à tentação é abrir a porta à entrada de uma sociedade ainda mais caótica.

Alguns dir-me-ão que já não há gente com auctoritas. Pois eu digo que há. É só uma questão de os procurar e definir critérios precisos para os jogar para a frente ao mesmo tempo que devemos fazer tudo para retirar às falanges radicais cada pingo de prestígio dos doidos que as fazem avançar.

by JFoliveras

Triste Mundo Televisivo…

Tal como há muito ouvimos dizer, é difícil arranjar notícias em Portugal. Cá passa-se mesmo muito pouco de importante. É uma realidade inegável. As coisas importantes (e moralmente dúbias) passam-se por norma à porta fechada. Portanto, pensam os media, temos de inventar e colocar a nossa criatividade a trabalhar para ter audiências. Caso contrário, acaba-se a maminha…

Só assim se justifica a cambada de parolos, destiladores de ódio e criminosos a quem é concedida opinião pública com uma regularidade aflitiva para qualquer cidadão intelectualmente honesto.

Antigos ou novos, mais engravatados ou menos engravatados, gente que só percebe de futebol (ou nem isso…) é colocada a comentar formas de combate à criminalidade, trâmites de processos judiciais, situações fiscais e contributivas, política, economia e finanças… falam basicamente de tudo e o que esclarecem?

Nada!

Já nem sequer levantam perguntas que mereçam uma resposta! Não admira que o povo português se encontre cada vez menos esclarecido. Com uma opinião pública mais populucha do que intelectualmente esclarecida, cheia de mexericos em vez de precisão factual, não é de admirar.

Já não há pachorra para tanta calúnia, já não há pachorra para tanta difamação. Por cada sessenta minutos de programa, sessenta minutos de pura guerra e parolice. E eu até mudava de canal, mas não adianta escolher entre a CMTV (certamente a pior), TVI (pai deles todos), SIC (recentemente entrada neste mercado de ódios) ou RTP (um pouco mais suave, mas com os seus belicistas também).

E no final diz a minha fatura que eu não pago canais pornográficos…


A Questão do Politicamente Correcto e Decoro da Voz Pública

Entendendo eu o bom senso como um conjunto de princípios essenciais ao funcionamento de um Estado de Direito Democrático, poder-se-á dizer que o politicamente correcto é uma ferramenta deste bom senso. Deste ponto de vista, e indo buscar um princípio essencial ao funcionamento de qualquer sociedade: o meu respeito por terceiros e o respeito de terceiros por mim, cumprirá relevar que a cortesia perante o destinatário de qualquer declaração é mais do que uma exigência.

Bem sei que o palavrão e o calão são aspectos da língua portuguesa bastante apreciados pelos povos lusófonos. Gera uma sensação de camaradagem no ouvido de quem escuta e apela ao cidadão menos dado às palavras difíceis; e, ainda que ache gratuito e de mau gosto, não me choca ouvir um presidente da república dizer “Foda-se, não promulgo esta lei porque ela é essencialmente uma merda!” Está a referir-se a um mau trabalho em particular e não ofende (directamente) ninguém.

Já me choca é uma deputada europeia entrevistada, um jornalista em plena televisão ou um tipo com responsabilidades à frente de uma instituição que visa combater o racismo apontarem o dedo e lá vai bomba suja: “Corruptos!”, “Corja de bandidos!”, “Polícia de Bosta!”

Ora, conforme resulta do bom senso, quem qualifica os comportamentos das pessoas como criminosos e os pune são os tribunais. Se alguém considera outra pessoa criminosa, não tem o dever de os queimar nas redes sociais nem na televisão. Tem o dever de os denunciar aos órgãos jurisdicionais competentes e estes tratam do assunto.

Fora disto, quem pratica este tipo de actos injustos arrisca-se a que a mesma injustiça faça ricochete.

Ou não seria justo a Sra. Deputada Ana Gomes levar com o apelido de parola depois de dizer que sob o Dr. Paulo Portas existem suspeitas de corrupção e logo em seguida ser condenada por difamação e calúnia?  Mais, depois de ser punido disciplinarmente não seria justo o jornalista da BTV ser gozado pela “corja do Porto” ? Ou não será humilhante para o Mamadou Ba o facto de pedir protecção policial depois de colocar em causa a Polícia de Segurança Pública?

Têm sorte estes indivíduos porque a Justiça não deixa de proteger fala-baratos que não têm bom senso nem decoro nenhum quando se pronunciam no espaço público.

Que sorte têm de viver num país democrático…

 


Advogado do Diabo

Eu queria não ser aquele tipo que se preocupa em enviar emails a jornalistas, dando conta, de forma objectiva, que detectei imprecisões claras no texto deles.

Eu queria não ser aquele tipo a quem devolvem uma gentileza com acusações de iliteracia e que eu não percebo nada daquilo que leio.

Eu queria não ser aquele tipo cuja opinião sobre jornalistas é exatamente a mesma que tenho pelos políticos e por todos os outros que adoram ser preguiçosos ao mesmo tempo que proactivam a sua qualidade de papagaios.

Eu queria não ser aquele tipo que vive num mundo em que:

  1. Os jornalistas imprecisos vão permitir
  2. Que os corruptos políticos tomem o poder
  3. Aos injustos procuradores justiceiros,
  4. Aos relaxados e soberanos juízes que actuam como funcionários públicos
  5. E ao inerte povo sem ideias.

Eu queria não ser aquele tipo que vive num mundo em que ninguém respeita advogados; já que terei que ser eu, advogado, a escrever pelas vitimas, a alegar pelos inocentes, a clamar por justiça, a lutar contra a injustiça, a ir preso por ser um cidadão exemplar e a ser saneado publicamente de modo a recordar às pessoas o que é o Estado de Direito Democrático.


Um laivo de misantropia

Desculpem-me o laivo de misantropia, mas vamos parar por um segundo e esquecer a obra de Isaac Azimov. Podemos também esquecer as sagas Terminator, Matrix e todas as outras obras em que os grande vilões do cinema são os robôs e a inteligência artificial.

Resetrebootingupdatingclear to go!

Já pensaram como seria o mundo se em vez de sermos todos os dias confrontados com idiotas no trânsito a conduzirem as suas bombas tivéssemos todos um carro inteligente? Uma espécie de K.I.T.T. para cada pessoa? Um K.I.T.T. que impedisse bêbados de conduzir e que suprimisse a falta de instintos dos mais velhotes que ainda gostam de pisar no acelerador e se esquecem do travão?

E que tal um sistema de eletrodomésticos inteligente? Algo que triplicasse o nosso conforto habitacional adaptando a temperatura aos nossos gostos e limpando a casa ao mesmo tempo que detecta possíveis riscos de curtos-circuitos, de incêndios e de explosões? Será assim tão perigoso querermos algo um pouco mais certo do que uma empregada doméstica cujas limitações físicas e intelectuais, por mais diminutas que sejam, existirão sempre?

E porque não pais artificialmente inteligentes ao invés de pais naturalmente ineptos? Ou porque não uma Lassie inteligente ao invés dum Pluto idiota?  Será que não podemos amar e ser amados por algo sintético?  Se amamos um livro, se adoramos uma música; porque não podemos deixar-nos de tabus e amarmos almas sintéticas?

Muitos talvez me digam que os robôs não substituem pessoas. Contudo, por mais problemas que apresentem, os robôs podem vir a ser actualizados; as pessoas não. Durante a infância, as crianças criam hábitos que muito dificilmente poderão vir a ser modificados durante a idade adulta. Qualquer tipo sabe isso, especialmente aqueles que já tenha entrado numa repartição pública…

Já pensaram em como seria bom um mundo em que os nossos estados tivessem nos seus topos e nas suas repartições androides eficientes e incorruptíveis? Que loucura… Função Pública incorruptível? E eficiente?!?!?! Distopia ou Utopia?

 

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Robot in Love by Rudy-Jan Faber


Falando a sério da Pornografia

Sim, eu sei que é difícil falar dum tema como a pornografia sem que de repente surja uma daquelas piadas com três bolinhas vermelhas. E também sei que é difícil defender o porno sem parecer um canholeiro profissional…

Tentando pôr de parte estas bananalidades, vamos lá falar a sério:

Primeiro, importa distinguir a pornografia da nobre ferramenta do erotismo; ou seja, o conjunto de técnicas artísticas que indiciando actos de cariz sexual (sem mostrar ou mostrando muito pouco…) visam provocar um fascínio (uma emoção) ao seu público.

Este erotismo visa seduzir o espectador com metáforas e outros aforismos que glorificam actos como os esforços de sedução, a dança, o primeiro beijo, as roupas a caírem no chão e, já na linha vermelha, alguns preliminares ensombrados antes da cena se interromper e deixar à imaginação do público o que vem a seguir.

Já a pornografia, como qualquer miúdo na puberdade sabe, não indicia nada; mostra tudo, revela tudo, expõe tudo…

Aqui não se glorifica a subtileza nem se apela à imaginação do espectador. Põe-se tudo a nú, vulgariza-se tudo (especialmente a puta e o preto…) e não há minudências que se escondam do público. Mostra-se todo o acoitar entre dois seres (ou mais…): a mulher escancarada em 4K e o homem a penetrar em FullHD até uma ejaculação bombástica suceder em 3D… (Lá estão as piadas.)

Posto isto, porque me dei ao trabalho de escrever sobre a importância da pornografia? Porque me dei ao trabalho de defender algo que, por via das normas, é sujo, vulgar e brutal? Porque me dei ao trabalho de defender algo que por vezes até explora gostos criminosos como a pedofilia ou incita aos abusos sexuais?

Simplesmente pelo papel da pornografia na quebra de tabus.

Hoje, quase todos sabemos bem mais sobre sexo do que os nossos pais. Porquê? Sinceramente, não é pelos folhetos do centro de saúde, não é pelas conversas cheias de medo dos pais e muito menos pelas afamadas aulas de educação sexual (incluindo as catequeses ridículas de algumas religiões mais conhecidas…).

Hoje, a nossa cambada sabe bem mais do que os nossos pais sobre sexo devido ao bombardeamento de conteúdos porno e os efeitos colaterais que daí advêm.

Efeitos colaterais que passo a enumerar:

– Dessacralização do sexo;

– Percepção que o desejo sexual e o sexo é uma pulsão comum a todos os seres humanos;

– Abertura… mental para a discussão sobre  pornografia e, em consequência, para a discussão sobre sexo;

– Partilha de gostos e de novas experiências;

– Saúde mental e física, sobretudo através de alertas para a necessidade de sexo seguro (Fazer sexo na ponta duma grua fica mais seguro se usarmos preservativo!);

– Exploração da criatividade na cama (ou noutro lugar);

– Empoderamento pessoal através do conforto com o descaramento (que pode ser uma forma de coragem…);

E muitos mais que cada um saberá…

Portanto, da próxima vez que alguém vos disser que são uns tarados por defenderem a pornografia, vocês só têm que dizer que a pornografia é algo bastante liberal e totalmente democrático. Para quem esteja interessado, existe para todos os géneros, para todas as raças e para todos os gostos… mesmo para aqueles tipos e tipas que gostam de coisas verdadeiramente estranhas!

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Priapus

 


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