Category Archives: Palpitção

Cai lá fora…

Cai lá fora, molhada,
E, não caindo calada,
Cai, pinga a pinga,
Fria e um pouco gelada.

Cai no chão, no corrimão
Da varanda e batendo
Nos vidros das janelas
Se vai a nuvem escorrendo,

Se vai o calor esmorecendo
E se vai o Verão dizendo:
Cuidado que aí vem descendo,
Aí vem o Inverno chovendo!

 

 

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De que adianta a luz do Sol?

De que adianta a luz do Sol
Se sem ti, e nesta escuridão,
Não vejo luzir nada de nada?

De que adianta o girar do Sol
Se sem ti, e nesta inexatidão,
Esta vida parece deseixada?

De que adianta o calor do Sol
Se sem ti, e nesta solidão,
Só sinto a minha pele gelada?

De que adianta o pôr-do-sol
Se sem ti, e nesta sofridão,
Nenhuma noite fica estrelada?

De que adianta o nascer do Sol
Se sem ti, e nesta ingratidão,
Não tenho tua boca apaixonada?


Desinspiração

A chuva cinzenta não
Borrou a tinta destas
Rimas nem destes versos;
Faltam-me os verbos e
Não, não foi o vento
Que levou minha arte.
Fugiram-me do peito a
Musa morena e os nomes
E os pronomes, todos eles
Fugiram, como um moscardo,
A este bardo, deixando-me só
Desinspirado e desvairado.

 


Podes ir, fico aqui…

Podes ir, fico aqui
Até vires e voltares,
Mas, se conseguires –
E não importa se é caro –
Volta no vôo mais rápido,
Na lancha mais veloz,
E pela trilha mais curta.

Podes cortar por um atalho,
Saltar por cima dos muros
E escalar lesta até as fragas
Deste distanciar que aqui
Vem, mas, por favor, corre só
De volta para este coração aqui
Guardado e só por ti aguardando.

 


Inspiração…

Amor, quando me conheceste
Eu era um tonto sem inspiração
Que não sonhava ser o poeta
Que hoje sou de alma e coração.

Sem versos e sem rimas, este
Eu era só mais uma decepção
À procura de algo sem emoção
Em vez da mais segura direcção.

Felizmente, advindo do sudoeste,
Esse beijo quente e a nossa relação
Ensinaram-me em jeito de revelação
Que o amor não existe só na ficção.


Meia-Volta…

Preguiçosa e toda despida
Dás meia-volta na nossa cama
E, como única contrapartida,
Exiges amor a quem tanto te ama.

Nada humilde e toda convencida
Pedes mais beijos e algum drama
Para chorar a infalível despedida
Que embacia um pouco esta chama.

Mas passam os minutos e nada muda
O lençol foge-te, deslizas-te desnuda
E eu, manhoso, aumento minha ajuda

Até, por fim, renovarmos – pelados,
Nunca calados e por vezes demorados –
Os nossos votos quentes e enamorados.


Pequeno, pequenino…

Hoje sinto-me pequeno, pequenino,
Nada homem, muito menos homenzinho,
Só um idiota armado em engraçadinho.

E bem me podes castigar, mas castigado
Já eu estou só por teus olhos fazer chorar
Tanto que entre soluços te falta o ar.

Magoei o peito que não devia magoar
Feri o coração que nunca devia ferir
E entristeci quem nunca devia ficar triste.

Hoje sinto que sou torpe, sujo e imundo!
Sinto que sou só erros e vergonhas
E sinto que só sou culpas sem desculpas…

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