Category Archives: morte, ceifeira

FOGO MESQUINHO

Toma lá mais um pinguinho
É só riscar um pouquinho
E pegar fogo ao parquinho
Do meu maior padrinho.

Queimo tudo, sou mesquinho
Com o risinho mais sonsinho
Queimo cada ramo verdinho
Até não restar um coitadinho.

Estou farto de ser mansinho,
Vamos lá, sem nervosinho,
Acabar com todo o carinho
Destruir cada dia certinho.


O Imperador de Espinhos

by TopSeller

O Imperador de Espinhos

de Mark Lawrence

Entrando naquele que é o livro mais fraco da trilogia (o que não quer dizer que seja mau, antes pelo contrário), encontramos Jorg novamente dividido entre a presente cavalgada para se tornar imperador e, novamente, uma caminhada pelos episódios passados da vida do Rei de Espinhos. Há ainda espaço para explorar o ponto de vista de uma deliciosa personagem (certamente bastante querida pelo Autor).

Dizer que a personagem de Jorg evolui parece uma blasfémia, mas é verdade. Por entre mortos, esquemas, manhas, probabilidade e mais alguns mortos, o rasto deixado pelo Rei Jorg não é totalmente inconsequente para o protagonista mais sádico e cruelmente divertido que alguma vez encontrei. Longe de se conseguir redimir, Jorg vai ainda assim abrindo portas a alguns laços… mesmo com personagens que o odeiam de morte.

Contudo, nem tudo correu bem neste desenlace. O Autor andou perdido na estrada com Jorg durante muito tempo (e eu gostei disso), mas creio que atalhou no clímax da história. Poderia tê-lo trabalhado um bocadinho melhor durante todo o tempo que teve ao invés de se perder com magos menores e primos cuja única função foi arrancar-nos um sorriso. Especialmente no que ao Rei Morto diz respeito, a ideia para o final foi boa, mas a execução deixou algo a desejar. Dois ou três capítulos a mais, e distribuídos de forma criteriosa pela obra, podiam ter feito muita diferença e arrancado de nós o comentário: bravo, cinco estrelas.

Ainda assim, a verdade é que demorei apenas de 5 dias a ler esta trilogia ensombrada. Não sei se isso diz muito acerca da obra ou revela ainda mais da minha alma sinistra…


O Rei de Espinhos

by TopSeller

O Rei de Espinhos

de Mark Lawrence

Continuando a história de Jorg Ancrath, agora rei, o Autor decidiu pôs os capítulos de breves analepses de parte e escolheu dividir a narrativa em três: o passado de aventuras na estrada de Jorg, o presente de Jorg ameaçado por uma invasão impossível de ser vencida e, num registo mais epistolar, a vida de Katherine na corte de Ancrath e da Flecha. E tudo converge, de forma absolutamente deliciosa, para um momento muito pragmático à Indiana Jones.

Com as tiradas cínicas a continuarem, o ritmo das narrativas, os tiques-taques narrativos e os ganchos são alucinantes. Ainda não consegui perceber de qual das narrativas gostei mais, mas sei que não me aborreci com o facto de andarmos a deambular pela estrada do passado de Jorg e isso diz muito quando, normalmente, aquilo que se quer sempre é conhecer o futuro das personagens e não tanto o seu passado. Execução fenomenal.

Não abordei isto na crítica ao primeiro livro, mas faço-o agora: os verdadeiros inimigos de Jorg vão-se acumulando quanto à corrida ao trono imperial, mas nada demais especialmente quanto aos magos (a parte menos trabalhada da história).

Por outro lado, nunca tinha sido confrontado com um antagonista tão bonzinho como Orrin, Príncipe da Flecha. Isto sim foi inverter o tropo: nós a puxar pelo vilão contra o inimigo carregado de tudo quanto é valor luzidio e humano. Mas ver o mundo pelos olhos de Jorg deixa-nos assim. Puxa pela nossa parte mais cruel. Venha o terceiro e final livro do Império Quebrado.


O Príncipe de Espinhos

by TopSeller

O Príncipe dos Espinhos

de Mark Lawrence

A capa sombria apelou aos meus gostos de leitura mais umbrosos. O prólogo definiu vários aspectos da narrativa — como o narrador na primeira pessoa, o sombrio tom cínico e o enredo sangrento desde logo assente — grudando-me imediatamente a esta saga bastante bem construída.

Dominada pela vida dum jovem sociopata Jorg, e com o seu objectivo de se tornar rei aos quinze anos, a obra vai intercalando breves capítulos de analepses com a narrativa principal, sempre com um bom ritmo a revelar-nos momentos chave da vida de Jorg e vários pontos deste mundo bárbaro e selvagem que outrora pertenceu aos Construtores.

As personagens secundárias neste livro têm aspectos físicos, tiques e feitios deliciosamente descritos da forma mais cruel e cínica possível. Mas servem literalmente em todos os aspectos o protagonista Jorg. O que nos fica sempre é o facto de todos eles nos parecerem dispensáveis e descartáveis a todo o momento face aos interesses do protagonista.

Quanto ao mundo em si, temos o Império Quebrado, uma espécie de antigas províncias do Império Romano sem imperador e em luta aberta pelo poder desde que a linhagem imperial se extinguiu. Os laivos dos Construtores exploram a ideia de um futuro apocalíptico onde a humanidade regrediu à Idade Medieval (não é uma ideia nova, mas a execução promete algo novo).

Finalmente, quanto à escrita, Mark Lawrence brinda-nos com um dos textos mais cínicos da literatura, resvalando de uma normalidade cruenta para momentos de absoluta banalização de actos tão terríveis como incendiar, pilhar, violar e assassinar aldeias e civilizações inteiras. A metáfora dos espinhos e do espinheiro é igualmente muito bem trabalhada. Mas são as tiradas de Jorg e as suas observações cínicas a arrancar-nos sorrisos.

Concluindo, arrisco dizer que esta obra terá leitores que vão odiar profundamente esta história desde o primeiro momento e outros que a vão adorar. Não acredito que haja meio-termo relativamente a esta saga. Eu incluo-me naqueles que gostaram. E vou já partir para o segundo volume da trilogia.


Bam! Bang! Kaboom!

O caos dançarino, a ordem traída
Entram os dois, oh tragédia atraída
Damas de parte, cerveja distraída
Estala a confusão, não há saída:

Dados nos bares, cartas nos salões
Punhos prontos, preparem os colhões
Punhais afiados, olhos nos vilões
Pistolas disparam, sem distinções.

Fogo barulhento, lavado a gasolina,
Feridas turmalinas, lágrimas salinas
Juras de órfãos, perseguidas nas colinas
Tudo converge, em desforras felinas.

savage_worlds_deadlands_saloon_rumble_by_sebastien_ecosse

Cloud Cuckoo Land

Cloud Cuckoo Land

de Anthony Doerr

Uma vez que traduzido à letra (A Terra dos Cucos Nefelibatas ou A Terra dos Cucos das Nuvens) este livro cairia imediatamente na lista de livros a evitar devido a parecer uma parvoíce pouco desafiadora, a equipa da Editorial Presença preferiu ter uma abordagem mais conservadora e chamou simplesmente a este obra-prima: Uma Cidade nas Nuvens. Um título impossível de esquecer, certo? Enfim…

Em termos de enredo, o Autor complica e complica ao ponto de me espantar com a sua destreza técnica e planeamento de enredo no final do livro. Temos cinco personagens principais divididas por três linhas temporais, sendo que ainda temos de contar com os flashbacks de três personagens. Ufa…

No início, há aparentemente pouco a ligá-las, mas a verdade é que o enredo vai-se adensando e o que enlaça as três linhas temporais principais (bem como os flashbacks) vai-se tornando muito mais nítido ao ponto de nós percebermos que a verdadeira mensagem deste livro não é apenas que cada livro e bibliotecários são especiais e merecem ser preservados independentemente da doutrina ou do tom com que foram escritos. É realmente grandiosa a forma como o Autor entrega o final.

Por outro lado, em termos de personagens, aprecio particularmente o facto deste livro se reportar bastante à relação entre a adolescência e a terceira-idade. Não há propriamente um protagonista de trinta ou quarenta anos cuja força física se equivalha a uma experiência acumulada e que sirva de ponte entre todas as personagens. O Autor foca-se muito na juventude, na sua ingenuidade, na sua determinação e nos seus diversos problemas ao longo da história para nos fazer perceber a importância modeladora desses acontecimentos iniciais durante o resto da nossa vida.

O ritmo da narrativa é constante e os ganchos narrativos são bastante bem executados.

A prosa do Autor é bastante fluída e não teme socorrer-se de palavras menos comuns para o que quer que seja. Há igualmente uma maravilhosa tendência para comparações e metáforas bastante precisas e imaginativas. Apetecia-me destacar uma ou outra, mas estaria a ser injusto para com o autor ao revelar os seus tesouros metafóricos.

Em termos de conteúdo para lá dos enredos, e sem ser exaustivo, o Autor aborda inúmeros problemas actuais da sociedade como a solidão, a pobreza, os problemas da parentalidade singular, catástrofes climáticas, extinção massiva da biosfera, as consequências do medo, extremismos, conservadorismos, guerras, síndromes e patologias incompreendidas, manipulação de jovens solitários e vulneráveis através da propagação de idiossincrasias perigosas por meio de redes sociais e, por fim, os perigos da programação tecnológica.

É maravilhoso apreciar ao longo de todo o livro este condensar orgânico, tal como é revelador de uma extrema sensibilidade perceber todos os paralelismos que se fazem entre a Conquista de Constantinopla, a nossa década dos novos 20´s e o Futuro da Humanidade. Serão os nossos problemas sempre os mesmos ainda que com capas e vestimentas novas?

O que posso dizer mais? Anthony Doerr é um verdadeiro mestre tecelão. Fiquei abismado e imagino apenas um bocadinho do sofrimento que este homem passou para conseguir enlaçar todas estas histórias umas nas outras de modo a passar a mensagem e os paralelismos que queria passar. Magnífico, o melhor que li no último ano…


Guerra e Paz

Olhando para a Ucrânia e para tudo o que a sua guerra tem de abjecto, encontrei no YouTube dois vídeos em que soldados ucranianos usam telemóveis de soldados russos mortos em combate para ligar às respectivas esposas destes últimos e tratam de lhes revelar que os mesmos soldados russos morreram em combate. Se tiverem curiosidade por observar o referido fenómeno (os links ficam infra), podemos observar que há notoriamente dois factores que diferenciam os dois vídeos:

Num vídeo temos o respeito que um soldado ucraniano nutre pelo luto de uma viúva do seu inimigo e, em resposta, observamos o desmoronar em lágrimas da viúva que cede imediatamente ao luto. Percebe-se que há uma barricada que separa soldado ucraniano e viúva russa, mas há igualmente uma dor dos dois lados que os torna simplesmente humanos e que talvez os motive a procurar juntos algo chamado paz e pazes.

No segundo vídeo temos o desrespeito que o soldado ucraniano nutre pela dor e pelo luto da esposa de um inimigo caído e observamos imediatamente uma resposta odiosa e cheia de cólera da mesma viúva. O que dizer disto? Alguns chamar-lhe-ão uma infantilidade do soldado ucraniano, outros dirão que o soldado transformado em besta carniceira pela guerra cometeu um acto de malvadez sobre alguém que nenhuma culpa tem de amar um soldado. Eu, por exemplo, prefiro olhar para esta interacção e sublinhar que se trata de um acto que só tem uma consequência: mais ódio, mais justificação para a beligerância.

Enfim, é fácil de perceber qual o modo mais eficaz de obter a paz. Resta às chefias passar aos seus soldados o que é certo e o que é errado.

Antes de morrer em 1992, o escritor Isaac Asimov legou-nos muitos clássicos de ficção científica, dos quais se destacam inegavelmente a saga Fundação. Este homem de sangue russo e criado em Brooklyn foi alguém que olhou para o passado, presente e, especialmente, para o futuro antes de se preocupar a ensinar o seguinte:

“A espécie humana apenas se pode permitir uma guerra: a guerra contra a sua própria extinção.”


Predador Apex

Não me digam que eu não luto,
Busco tempo em cada minuto —
Um tempo estacado, em bruto —
Para não deixar de ser este puto.

Desejo, em sonhos profundos,
Umas horas sem os segundos
Vagabundos que, mui imundos,
Me varrem de todos os mundos.

Mas, convenhamos, é inevitável,
Não há cá verdade mais estável:
O tempo é um predador detestável
E preda tudo o que seja admirável.

Alzheimer No 01 Drawing by Mahdi Mahdian

Timbuktu

by Edições ASA (Grupo Leya)

Timbuktu

de Paul Auster

Depois de tanto adiar comprar um livro de Paul Auster — ainda que por diversas vezes já tivesse folheado as suas páginas em bastantes livrarias deste país — deixei-me levar por um inesperado impulso e comprei, finalmente, e na passada segunda-feira, este Timbuktu. Não sei que estranho impulso foi esse. O preço da obra não estava com desconto, a sinopse deu-me logo a entender que se tratava de uma história narrada por um cão e eu, nesse mesmo dia, estava livre de qualquer intento de comprar um romance. Mas a verdade é que comprei Timbuktu e já o acabei de ler. Acho que, essencialmente, a força do olhar canino na capa desta edição, um olhar melancólico e solitário de um vira-lata, foi chamativo e suficientemente convincente para me levar a comprá-lo e a devorá-lo.

Num aparte sincero, creio que, como não tenho tempo para ter um cão, o melhor mesmo é que me afaste de um canil ou então estou tramado…

Dando por encerrado o longo introito, e começando pela capa (algo que de que falo muito pouco), tenho de dar os parabéns ao seu artífice: Rui Garrido. Ainda que não goste do facto do nome do Autor ocupar a maior parte da frente da capa e, como se isto não bastasse, ter a face do mesmo Autor desenhada e escarrapachada na parte de trás da capa (tinha de referir estes excessos publicitários), a verdade é que a cor crepuscular e a pequena imagem de um cão triste e sozinho — colocada como está: junto da margem inferior da capa e ligeiramente descaída para o lado (como se o rafeiro se estivesse a roçar nas nossas pernas) — condizem perfeitamente ao que é tratado no interior do livro: a triste vida de um velho cão.

Aproveitando para entrar no enredo, temos Mr. Bones, o rafeiro que protagoniza esta obra, a ter uma última aventura com o seu vagabundo dono, Willy Gurevitch, e as tragicómicas aventuras que se seguem após o esperado falecimento deste.

Ora, gostando eu de animais, mas sendo-me difícil gostar de livros narrados por animais, fui surpreendido com a profundidade empática que o Autor conseguiu criar entre mim e o protagonista canino desta obra. É raro eu sentir tal empatia por bichos na literatura, especialmente porque não aprecio muito a colocação de pensamentos humanos na cabeça de seres não-humanos. Todavia, e de forma sublime, Paul Auster conseguiu que sentisse uma profunda conexão emocional com Mr. Bones. Eu senti tristeza quando o velho cão caiu triste, eu senti medo e terror quando Mr. Bones encolheu o rabo e fugiu, eu senti-me revoltado e humilhado quando despojaram Mr. Bones da sua dignidade e senti-me também alegre e refastelado quando um humano mais caridoso encheu a barriga a Mr. Bones.

Isto, meus amigos, é arte. Justamente e precisamente, apenas arte. E é raro encontrar este tipo de autores com tanta arte para dizer o tanto que dizem numas meras duas centenas de páginas.

Paul Auster é um mestre a escrever; disso não tenho dúvidas. E quando tal sucede todos os elogios são poucos. Apenas posso dizer que, infelizmente, demorei bastante a dedicar uns tempos da minha vida à leitura das obras deste Autor. No entanto, acreditem em mim, não demorarei muito a voltar a apreciar a sua maravilhosa escrita. Já tenho uns quantos livros em vista e tudo.

Espero igualmente que o trabalho de tradução de outros livros deste Autor esteja tão boa como a de Timbuktu. Nunca é demais elogiar o trabalho de José Viera de Lima. Mudou para português quando devia mudar e manteve, quando assim se exigia, os necessários termos no seu inglês materno de modo a não desvirtuar o texto — e sempre com o cuidado de apresentar breves notas de tradução que ajudam a perceber ainda melhor o refinamento da obra.

O único ponto menos forte do livro são os longos cinco capítulos distribuídos por duzentas e seis páginas. Creio que há momentos na obra em que um corte de capítulo, deixando determinada ideia sedimentar, seria muito mais eficaz que um mero parágrafo. Releve-se e atente-se que é o ponto menos forte e não um ponto fraco. Este livro, um quase tratado sobre a condição de vida canina, não tem pontos fracos.

Assim, aconselho vivamente Timbuktu, tanto a pessoas que gostem de cães como a pessoas que não gostem de cães. Quando acabarem de ler a última página, e depois de vos jogarem à cara uma data de mensagens fortes — algumas expressas, outras tácitas — ver-se-ão de certeza mudados em algo. E especialmente com um novo olhar para a vida do melhor amigo do homem.


Deixado em Paz

Um dia lá bem atrás –
Quando era um rapaz
Mas não queria
Ser um rapaz – pedia:

Deixem-me em paz!
Mas não sabia nada,
Não sabia correr atrás,
Não sabia a diferença

Entre um puto incapaz
E um tipo forte e capaz,
Não sabia mesmo nada
De nada, nem sequer sabia

Que ninguém acha a paz
Quando é finalmente deixado
Em paz e nessa mesma paz
É deixado também para trás.


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