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De Cicatriz em Cicatriz…

Na vida, sempre um aprendiz
Buscando formas de ser feliz,
Mas, como Dante por Beatriz,
Vivo de cicatriz em cicatriz

E, mais que muito machucado,
Continuo à busca dum ducado,
Dum paraíso obscuro, intocado
E talvez de defeito delicado.

E não, não estou aqui doente,
Só que dói como um sol poente
Em dia de Inverno prepotente,

Dói como faca cravada no peito,
Dói como todo o feito defeito
Deste sujeito sempre imperfeito.

 

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African man with scars by Christian Luneborg


Problema Eutanásia

Sem vida, não há pessoa; logo, só há pessoa com vida. Vale por dizer que se uma sociedade é composta por pessoas, só há sociedade quando há pessoas e, logo, só há sociedade quando há vida.

Como o raciocínio atrás bem retrata, resultou da minha formação que fui ensinado que o maior bem da sociedade, o maior valor da sociedade, é a vida. E tal naturalmente decorre porque a sociedade, num instinto de autopreservação, obriga-se a proteger as suas pessoas; que é o mesmo que dizer que se obriga a proteger a si mesma. Portanto, e acabando com as redundâncias, a sociedade está obrigada a proteger a vida das pessoas que a compõem.

Todavia, colhe em mim a ideia que existe um único valor que consegue secundar o valor vida: o valor vida digna. É que é muito bonito invocar deuses, princípios, opções pessoais, juramentos deontológicos e n outros argumentos, mas a verdade é que sabemos todos que existe vida e vida.

Quero com isto dizer que a vida tem muitas coisas boas, muitas mesmo, e até os acontecimentos mais ruins podem ser vistos de uma forma positiva passado algum tempo (por mais que não seja, para nos ensinar com erros e a dor que deles resulta…).

Contudo, existe um factor que, quando permanente, é capaz de afastar todas as coisas boas na vida: o sofrimento. Sinceramente, de que vale o sol brilhante, o céu azul, a morena cheirosa e as flores da Primavera perante o esforço colossal de aguentar uma vida sem poder sair de uma cama, sem poder mover-se sozinho, sem poder sentar-se numa sanita sozinho, sem poder tomar banho sozinho, sem poder alimentar-se sozinho, sem poder satisfazer-se sexualmente sozinho…

Aqui, talvez a palavra-chave não seja, na sua grande essência, o sofrimento só por si, mas sim o sofrimento gerado pela incapacidade permanente de ser, por si próprio, alguém individual, alguém que se faça valer sozinho.

Claro que há pessoas teimosas, e tremendamente corajosas, que não se deixam abater por esta incapacidade e deixam de se importar com o quanto são dependentes todos os dias. Há pessoas que descobrem a sua força interior quando todas as restantes forças se vão e dedicam-se a outras formas de viver.

Porém, existem outras pessoas que percebem que, lá no fundo, nunca conseguirão ser felizes com tal incapacidade sem saída. E tal gera um sofrimento sem igual que apenas se acaba com a coragem (o outro verso da moeda) de dizer “Basta! Já não quero viver!”.

É aqui que se percebe que estar vivo, sem dignidade nenhuma, passa a ser um sofrimento tremendo que não pode ser imposto a estas pessoas que sofrem e é aqui que toda a sociedade tem o dever de compreender que ser pessoa é muito mais do que ter um coração que bate dentro dum saco de carne podre e imóvel.

Se alguém cujo sofrimento permanente e incurável lhe obliterou a vontade de viver, porquê negar-lhe o seu único desejo?

Estará a fazer mal à sociedade um tipo que diz que:

a) Eu não quero mais viver, só quero uma saída digna para mim;

b) Eu não quero mais chatear quem cuida de mim, só quero uma saída para eles;

c) Eu não quero continuar a receber tostões do Estado, só quero uma saída para que o Estado não tenha de inventar desculpas para dizer que não consegue tratar de mim.

Será que Deus fecha as portas a uma pessoa que, depois de tanto sofrimento, só quer ir ter com a sua Graça mais depressa? Será que um médico se ficará a sentir pior depois de acabar com o sofrimento incurável de um paciente sem solução? Será que algum juiz, político ou outro soberano qualquer, em última representação da sociedade, terá coragem de cobrar mais um imposto derradeiro (a vida) à custa do sofrimento permanente e incurável de um dos seus membros?

É lindo ver a democracia parlamentar (cheia de velhos cristãos retrógrados…) a votar por si mesmos, sem qualquer directriz parlamentar. Pena é que um voto seja uma escolha e nessa escolha retire uma outra escolha, completamente legítima, a quem tanto sofre no meu país…

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frase-quando-alguem-compreende-que-e-contrario-a-sua-dignidade-de-homem-obedecer-a-leis-injustas-mahatma-gandhi-147600 by kdfrases


Os Cinquenta Acéfalos

Que nós já sabíamos que certas pessoas, pela posição social que detêm na sociedade, têm a obrigação de manter o decoro no uso da palavra, já sabíamos. Que discursos inflamados e virados para a guerra não têm nenhuma razão de existir em tempos de paz, e especialmente sobre matérias de lazer e desporto, também já sabíamos. Que nós sabemos que a idiotice colectiva se pega, também já sabíamos.

Assim, e após uma data de anos de discursos de ódios verdes, só faltava mesmo saber quantos idiotas sem massa cefálica suficiente estragariam as vidas por causa dum clube de futebol.

Pelos vistos, estão vinte e três acéfalos presos e andam à procura dos restantes… tudo porque a sua equipa de futebol ficou em terceiro lugar no campeonato.

É mesmo caso para dizer que vidas sem causa só causam problemas… a si e aos outros.

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Invasão à Academia do Sporting, by Correio da Manhã


Falando a sério da Pornografia

Sim, eu sei que é difícil falar dum tema como a pornografia sem que de repente surja uma daquelas piadas com três bolinhas vermelhas. E também sei que é difícil defender o porno sem parecer um canholeiro profissional…

Tentando pôr de parte estas bananalidades, vamos lá falar a sério:

Primeiro, importa distinguir a pornografia da nobre ferramenta do erotismo; ou seja, o conjunto de técnicas artísticas que indiciando actos de cariz sexual (sem mostrar ou mostrando muito pouco…) visam provocar um fascínio (uma emoção) ao seu público.

Este erotismo visa seduzir o espectador com metáforas e outros aforismos que glorificam actos como os esforços de sedução, a dança, o primeiro beijo, as roupas a caírem no chão e, já na linha vermelha, alguns preliminares ensombrados antes da cena se interromper e deixar à imaginação do público o que vem a seguir.

Já a pornografia, como qualquer miúdo na puberdade sabe, não indicia nada; mostra tudo, revela tudo, expõe tudo…

Aqui não se glorifica a subtileza nem se apela à imaginação do espectador. Põe-se tudo a nú, vulgariza-se tudo (especialmente a puta e o preto…) e não há minudências que se escondam do público. Mostra-se todo o acoitar entre dois seres (ou mais…): a mulher escancarada em 4K e o homem a penetrar em FullHD até uma ejaculação bombástica suceder em 3D… (Lá estão as piadas.)

Posto isto, porque me dei ao trabalho de escrever sobre a importância da pornografia? Porque me dei ao trabalho de defender algo que, por via das normas, é sujo, vulgar e brutal? Porque me dei ao trabalho de defender algo que por vezes até explora gostos criminosos como a pedofilia ou incita aos abusos sexuais?

Simplesmente pelo papel da pornografia na quebra de tabus.

Hoje, quase todos sabemos bem mais sobre sexo do que os nossos pais. Porquê? Sinceramente, não é pelos folhetos do centro de saúde, não é pelas conversas cheias de medo dos pais e muito menos pelas afamadas aulas de educação sexual (incluindo as catequeses ridículas de algumas religiões mais conhecidas…).

Hoje, a nossa cambada sabe bem mais do que os nossos pais sobre sexo devido ao bombardeamento de conteúdos porno e os efeitos colaterais que daí advêm.

Efeitos colaterais que passo a enumerar:

– Dessacralização do sexo;

– Percepção que o desejo sexual e o sexo é uma pulsão comum a todos os seres humanos;

– Abertura… mental para a discussão sobre  pornografia e, em consequência, para a discussão sobre sexo;

– Partilha de gostos e de novas experiências;

– Saúde mental e física, sobretudo através de alertas para a necessidade de sexo seguro (Fazer sexo na ponta duma grua fica mais seguro se usarmos preservativo!);

– Exploração da criatividade na cama (ou noutro lugar);

– Empoderamento pessoal através do conforto com o descaramento (que pode ser uma forma de coragem…);

E muitos mais que cada um saberá…

Portanto, da próxima vez que alguém vos disser que são uns tarados por defenderem a pornografia, vocês só têm que dizer que a pornografia é algo bastante liberal e totalmente democrático. Para quem esteja interessado, existe para todos os géneros, para todas as raças e para todos os gostos… mesmo para aqueles tipos e tipas que gostam de coisas verdadeiramente estranhas!

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Priapus

 


Inferno

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by Bertrand

 

Inferno

de Dan Brown

Tendo-me demorado uns bons três meses da minha vida a apreciar a Divina Comédia de Dante Alighieri (a tradução do falecido Vasco Graça Moura), e sendo basicamente esta obra de Dan Brown um livro sobre outro livro: o Inferno (primeiro volume da Divina Comédia), confesso que estava um pouco receoso de pegar nesta obra. Contudo, o livro não me custou dinheiro, foi emprestado, apetecia-me algo leve… e lá acabei por o abrir.

Primeiramente, calando a cambada, não sou um inimigo convicto dos escritores comerciais. É que, bem vistas as coisas, Dante foi um poeta que escreveu para as massas no dialecto toscano (que representa a base da língua italiana actual) e não em latim como era apanágio na época. Claro que hoje em dia não há quem negue o génio deste poeta de massas. (Acabei de comparar Dan Brown a Dante Alighieri?!?!?!? Vou cortar os pulsos e vou direito para uma das divisões do Malebolge…)

Adiante, ler Dan Brown pode ser entediante por vezes com tantas discrições de tantos edifícios e com tantas histórias relativamente aos mesmos, mas a verdade é que este Autor sabe construir uma história, tem uma linha narrativa certinha, tem personagens interessantes e as suas histórias têm sempre umas reviravoltas muito engraçadas e surpreendentes (o que vai rareando para este atento leitor…)

E Inferno tem isto tudo.

Quanto ao argumento, o mais conhecido herói de ocasião Robert Langdon embarca numa corrida contra o tempo para superar a sua perda de memória e salvar o mundo duma pandemia (aproveitando, entretanto, para passear por cidades históricas, pelos mistérios da história e da arte e por dar a conhecer um pouco de ciência…), tudo no conhecido ritmo alucinante que já caracteriza a obra do Autor.

Quanto a personagens, há muito que me deixei de preocupar com Langdon. O Código Da Vinci foi um grande livro, mas uma coisa é pôr o professor de Harvard a tentar desvendar um mistério histórico como uma eventual linhagem de Jesus Cristo; outra é pô-lo a tentar impedir uma pandemia. Ou então talvez Robert Langdon tenha contraído Síndrome de Sherlock Holmes: “Nenhum herói pode ter tantas aventuras na sua vida sem que as pessoas se fartem do facto dele ser sempre o sacana do protagonista que vence tudo e todos…!” (Acabei de inventar isto…)

Enfim, quanto a personagens secundárias da história, o Autor marca pontos. A hiperdotada Sienna Brooks é talvez a personagem de que mais gosto a par do tatuado Mal’akh d’O Símbolo Perdido e do Camerlengo Carlo Ventresca de Anjos e Demónios.

Mais, a visão do vilão gera empatia (ainda que a sua obstinação por Dante não me agrade de todo) e o seu projecto pandémico não deixa de ser uma ousadia tremenda, especialmente pelo modo como o Autor resolve as coisas no final.

Finalmente, o maior mistério da história: o “Consórcio” e o seu líder: o preboste.

O Autor diz-nos logo antes de entrar na história que esta organização de poderosos mercenários, que presta favores de todos os tipos a governos, empresas e milionários, existe e tem sede em pelo menos sete países deste mundo, mas a verdade é que esconde o verdadeiro nome do “Consórcio” por motivos de segurança. Será uma brincadeira do Autor? Até já há vídeos na internet de tipos a dizerem que Dan Brown se inspirou neles…


Obsessivo Compulsivo

Sim… eu sei que não devia
Ter seguido na sinistra via
Em que mal me via, todavia
As vozes que em mim ouvia –

Doidas retorcidas e doidas
Incontidas – pediam devidas
Medidas, exigiam insupridas
Praxes e reclamavam ávidas

Um eterno silêncio resoluto
Enquanto o mal com que luto
Alastrava e, bem convoluto,
Me desarmava em absoluto…

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