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Este não é meu, mas adoro-o!

Mors Liberatrix
(A Bulhão Pato)

Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Cavaleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas…
Só o gládio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.

— «Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavaleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,
Mas consolo… Subverto, mas resgato…
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

Antero de Quental, in “Sonetos”

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Tributo a Ernest Hemingway

Os americanos adoram glorificar os seus heróis.

Os jornalistas, depois de beberem à conta deles (ou depois de se amantizarem com eles), colocam-nos nos píncaros.

Sucedeu com Hemingway o mesmo que se passou com todos os outros americanos famosos. Este só calha ser mesmo um escritor “preguiçoso” nas palavras; que é como quem diz conciso e preciso.

Aqui ficam algumas ideias minhas que talvez o homem gostasse:

Coveiro ouviu um grito, e despediu-se.

Canos rotos, casamento desfeito!

Amante traído enforcou-se.

 

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Mais uma parvoíce…

O pó da terra dá poesia,

As ondas do mar a maresia,

E as estrelas libertam magia,

Mas a puta da comida dá azia…


Missão Impossível: Fallout

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Missão Impossível: Fallout

De Christopher McQuarrie

Não é segredo nenhum que adoro os filmes Missão Impossível e que acho Ethan Hunt o melhor espião do mundo (muito superior a James Bond).

Claro que sei que a luta para impedir uma catástrofe mundial é já um clichê argumentativo, mas (pensando bem) não é uma missão impossível salvar o mundo? E se é uma missão impossível salvar o mundo quem o pode salvar? O Superman e a CIA ou Hunt e a IMF? Inclino-me para o segundo.

Tom Cruise, como em qualquer filme em que participe, é destaque notório e dá ao filme aquele toque de realismo doido que todos adoramos, mas Simon Pegg (alívio cómico), Rebecca Fergunson (Femme Fatale), Alec Baldwin (melhor director de sempre do IMF) e surpreendentemente Ving Rhames (velho amigo de Ethan) contribuem para o seu charme. Henry Cavill acompanha brutalmente com a sua estampa física os demais, mas Sean Harris pouco ou nada se destaca no papel que repete. Michelle Monaghan e Vanessa Kirby são elementos nostálgicos e fazem-nos recordar de filmes anteriores, o que dá uma sensação de continuidade – o que é sempre bom…

Aqui, uma palavra para algo raro na história: desenvolvimento pessoal de Ethan Hunt. O nosso espião já dormiu com algumas das mulheres mais perigosas do mundo (Alguém se consegue esquecer de Nyah?), mas a verdade é que só casou com Julia e, desde que a teve de esconder do mundo, que só Ilsa se equiparou a ela. É interessante colocarem as duas no mesmo filme e permitirem-nos que nos aproximemos mais de Ethan (ainda que ache que o esquecimento de Nyah é um pecado…)

Quanto ao ponto fraco do filme, o único para mim, é a tentativa frustrada de esconder o agente infiltrado. Ao contrário de outros filmes em que o agente infiltrado (vilão) se esconde muito bem (Jim Phelps interpretado por Jon Voight e Claire interpretada por Emmanuelle Béart no primeiro filme são os maiores destaques, mas não nos esqueçamos de Musgrave interpretado por Billy Crudup no terceiro filme da saga…) este filme denuncia demasiado cedo o seu agente infiltrado.

Finalmente, corpo a corpo, disparos, contagens de bombas nucleares, perseguições de mota, de carro e de helicóptero, escalada e montagens de cenas com as máscaras para conseguir informações ou desmascarar o vilão… Missão Impossível: Fallout tem tudo isso e muito mais.

Eu recomendo sempre.


Choosing Paths

ASES e REIS

Já não sou teu namorado
E deixo-te bem-agradecido
Neste dia claro e aclarado
Sem beijo triste e comovido.

Estou bem, está tudo chorado
E sem último abraço, gemido
Ou desejos de futuro azarado
Espero perder-me bem perdido.

Sigo rápido em passo acelerado,
Sigo sem mal-estar ou aborrecido,
Sigo sem estar preso e adestrado,
Sigo só e livre para o desconhecido.

05252bf30ed556060b83c6117338a34e.jpgChoosing Paths by Andrea Reyes

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Inferno

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by Bertrand

 

Inferno

de Dan Brown

Tendo-me demorado uns bons três meses da minha vida a apreciar a Divina Comédia de Dante Alighieri (a tradução do falecido Vasco Graça Moura), e sendo basicamente esta obra de Dan Brown um livro sobre outro livro: o Inferno (primeiro volume da Divina Comédia), confesso que estava um pouco receoso de pegar nesta obra. Contudo, o livro não me custou dinheiro, foi emprestado, apetecia-me algo leve… e lá acabei por o abrir.

Primeiramente, calando a cambada, não sou um inimigo convicto dos escritores comerciais. É que, bem vistas as coisas, Dante foi um poeta que escreveu para as massas no dialecto toscano (que representa a base da língua italiana actual) e não em latim como era apanágio na época. Claro que hoje em dia não há quem negue o génio deste poeta de massas. (Acabei de comparar Dan Brown a Dante Alighieri?!?!?!? Vou cortar os pulsos e vou direito para uma das divisões do Malebolge…)

Adiante, ler Dan Brown pode ser entediante por vezes com tantas discrições de tantos edifícios e com tantas histórias relativamente aos mesmos, mas a verdade é que este Autor sabe construir uma história, tem uma linha narrativa certinha, tem personagens interessantes e as suas histórias têm sempre umas reviravoltas muito engraçadas e surpreendentes (o que vai rareando para este atento leitor…)

E Inferno tem isto tudo.

Quanto ao argumento, o mais conhecido herói de ocasião Robert Langdon embarca numa corrida contra o tempo para superar a sua perda de memória e salvar o mundo duma pandemia (aproveitando, entretanto, para passear por cidades históricas, pelos mistérios da história e da arte e por dar a conhecer um pouco de ciência…), tudo no conhecido ritmo alucinante que já caracteriza a obra do Autor.

Quanto a personagens, há muito que me deixei de preocupar com Langdon. O Código Da Vinci foi um grande livro, mas uma coisa é pôr o professor de Harvard a tentar desvendar um mistério histórico como uma eventual linhagem de Jesus Cristo; outra é pô-lo a tentar impedir uma pandemia. Ou então talvez Robert Langdon tenha contraído Síndrome de Sherlock Holmes: “Nenhum herói pode ter tantas aventuras na sua vida sem que as pessoas se fartem do facto dele ser sempre o sacana do protagonista que vence tudo e todos…!” (Acabei de inventar isto…)

Enfim, quanto a personagens secundárias da história, o Autor marca pontos. A hiperdotada Sienna Brooks é talvez a personagem de que mais gosto a par do tatuado Mal’akh d’O Símbolo Perdido e do Camerlengo Carlo Ventresca de Anjos e Demónios.

Mais, a visão do vilão gera empatia (ainda que a sua obstinação por Dante não me agrade de todo) e o seu projecto pandémico não deixa de ser uma ousadia tremenda, especialmente pelo modo como o Autor resolve as coisas no final.

Finalmente, o maior mistério da história: o “Consórcio” e o seu líder: o preboste.

O Autor diz-nos logo antes de entrar na história que esta organização de poderosos mercenários, que presta favores de todos os tipos a governos, empresas e milionários, existe e tem sede em pelo menos sete países deste mundo, mas a verdade é que esconde o verdadeiro nome do “Consórcio” por motivos de segurança. Será uma brincadeira do Autor? Até já há vídeos na internet de tipos a dizerem que Dan Brown se inspirou neles…


A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

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by Bertrand

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

de Gonçalo M. Tavares

Sendo um confesso apreciador do Autor e um confesso apreciador de Fantástico, o novo universo Mitologias criou-me imediatamente curiosidade. Mais um autor português de renome a mergulhar no ilimitado mundo do Fantástico? FIXE!!! MUITO FIXE!!!

Assim, após uma longa espera, lá abri o referido livro.

Contudo, fechado o livro, surge aquela velha máxima: há livros melhores que outros. E no caso específico deste Autor a verdade é que o mesmo tem obras que me levam a pô-lo nos píncaros e outras em que um leve encolher de ombros diz tudo.

Ora, neste A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado a ideia do Autor é simplesmente contar histórias sem ligar ao fio temporal das mesmas histórias. Se começarmos a ler a história de trás para a frente, do meio para os lados ou se saltitarmos e voltarmos atrás, o resultado é mesmo. E, ás tantas, o resultado é algo como uma antologia de contos e nalguns destes contos (capítulos) coincidem de vez em quando personagens doutros contos (capítulos).

Personagens estas que, tirando o Homem-do-Mau-Olhado e o seu último capítulo, não nos deixam saudades.

Mais, nesta obra leis como “Se tirares a cabeça a alguém ela morre.” não existem e nenhuma explicação é dada (propositadamente). Aqui, o interesse é não explicar nada, é não mostrar nada mais do que se mostra.

Acontecimentos, sem qualquer juízo valorativo, como o canibalismo, a revolução ou o julgamento são-nos apresentados em bruto, sem edição. Lá está, agora cada um que pense por si no que viu aqui acontecer e no que acha que aconteceu ao que não viu acontecer.

Penso que o Autor não se importaria de definir assim esta primeira obra: espantem-se e pensem!

No entanto, achei muito pouco. É verdade que existem momentos bem construídos, como “Onde está o amor de uma mãe pelos filhos, no corpo ou na cabeça?”; mas, regra geral, a falta de uma linha de continuidade gera-me tédio. Não gosto de antologias de contos, especialmente antologias de contos sobre a mesma história.

É demasiado ensaio e muita pouca história.

Desculpa, Gonçalo M. Tavares; continuo a gostar da tua obra, mas deste não gostei.