Desmitificando, o facto de o mundo estar repleto de gente inculta (não burra!), e na maior parte das vezes convencida que detém a verdade, não é acidental, como pode parecer à primeira vista.
Os motivos são vastos, pelo que este post será o primeiro de alguns:
1 ª Inverdade
“O ensino escolar é fraco (especialmente o ensino público).” É uma das inverdades (não lhes chamemos falácias nem mentiras).
Eu, na escola pública (1º-12º ano), num meio social suburbano de Lisboa, aprendi a escrever, a fazer contas, aflorei a história de Portugal, foi-me dado a conhecer alguns conceitos geográficos, apreendi conceitos básicos de física e química e biologia, rascunhei uns traços artísticos, moldei umas coisas em gesso, fiz projectos com madeira e electricidade e foi-me transmitida a importância do exercício físico.
Claro que me esqueci de algumas coisas durante a vida. Motivos? A falta de jeito? O desinteresse? A preguiça? Provavelmente um mistifório dos três…
No entanto, o essencial está cá. Sei escrever, sei matemática básica (somar, subtrair, multiplicar e dividir e mais algumas contas de três simples), sei que quem não sabe o que significa 1143 não é português e sei mais uma quantidade de coisas que apenas serviriam para engrandecer o meu pequeno ego e o vosso enfado…
Por outro lado, muitas das pessoas que conheço ficam especadas a olhar para mim quando invoco conceitos tão simples como uma metáfora ou como o PIB, nomes tão famosos como o Condestável ou como o Infante D. Henrique ou datas tão importantes para Portugal como 1755 e 1974.
Os olhos arregalam-se, as sobrancelhas acanham-se e alguns, os mais envergonhados, têm o cuidado de me pedir que explique do que estou a falar. Os mais arrogantes preferem remeter-se ao silêncio e passar por burros silenciosos – não percebem que os olhos em baixo, os queixos tímidos e os ombros encolhidos falam tanto como uma boca fechada.
Claro que certas perguntas me dão uma vontade desesperada de lhes perguntar o que andaram a fazer na escola comigo. Contudo, o que me tira do sério é, em primeira instância, a arrogância de nem sequer admitir que um dia lhe foi ensinado aquilo que eu também tive oportunidade de aprender e, num segundo momento, a preguiça de nem sequer terem instalada a aplicação da Wikipédia naquele precioso smartphone colado às mãos.
Com tudo isto em mente, tornemos a pensar na escola pública e na razão de ser do ensino público ser mau.
Em primeiro lugar, quem a compõe? Conselhos Directivos, que normalmente já foram Professores e, por sua vez, também Alunos; Professores que já foram Alunos; Funcionários que já foram Alunos; Pais que já foram Alunos; e Alunos que nunca foram mais nada.
Assim sendo, temos que analisar esta hierarquia.
Começando por cima: como pode um Conselho Directivo ser bom? Provavelmente, deve ter um propósito muito concreto que é o de elevar a média geral das notas de todas as turmas da escola e fazer dos seus meninos cidadãos com valores bem definidos. Contudo, deve fazê-lo consciente dos recursos e limitações que dispõe. Uma escola, hoje dia, não funciona sem professores, sem electricidade, sem casas-de-banho, sem secretarias e tesourarias e outros componentes em que não me quero alongar. Qualquer Conselho Directivo deve providenciar todos estes recursos mínimos.
Desconfio que dez porcento da minha geração possa dizer que lhe faltaram durante 12 anos seguidos qualquer um daqueles componentes. As médias podem não ter subido, mas a culpa de tanta falta de cultura em adultos será do Conselho Directivo depois de 12 anos com o rabo sentado na cadeira?
Em segundo plano, os professores. Sempre existiu e sempre haverá de existir uma classe de bons profissionais e outra de maus profissionais. O que se exige é que tenhamos mais quadros bons do que quadros maus. Pergunta: será que maior parte da populaça só teve professores maus?!?!? Desculpem, mas não me parece…
Não falemos dos pobres funcionários, que pouco contam ainda que façam muito pelas escolas.
Falemos dos alunos.
O que é um bom aluno? É aquele que escuta calado nas aulas, se diverte nos intervalos, aprendendo por vezes coisas como a amizade e o amor, e estuda, a sério, quando é necessário. Tão simples quanto isso… O problema é que, com muita certeza, existem vezes em que a juventude prefere aprender outro tipo de coisas da vida (amizade, namoradas e futebol) durante as aulas em vez de estar calado a ouvir o professor, seja este bom ou mau… Como podem depois estes últimos não arregalar os olhos e bater as pestanas espantadas quando ouvem falar de Fernando Pessoa e não o sabem distinguir do tipo que escreveu Os Lusíadas.
Por fim: os pais. Ao contrário do que se pensa, são os pais a base da pirâmide. A escola ensina conceitos, mas raramente valores. Não tem tempo para ensinar valores. Em consequência, é aos pais a quem compete ensinar palavras como a bondade, a amabilidade, a honestidade, o respeito e seus limites, bem como os modos de cortesia e de viver em sociedade. Não basta indicar aos filhotes as cores do clube que devem seguir cegamente. É importante, todos os dias, serem o professor do jovem coração a que deram fôlego, o exemplo do ser social que o uma pessoa é e, mais importante de tudo, saber pedir desculpas aos filhos quando se erra – porque aos pais também é permitido errar.
Quer-me com isto parecer que, chegados aqui, estamos já habilitados a perceber uma coisa que falha muito ao cidadão: A casa faz parte da escola (pública ou privada).
Logo, se há algo que falha na escola pública, não é apenas a escola essencialmente a culpada pelo estado do ensino público. No núcleo central do problema está a casa e quem manda nela! Os pais, os avôs, os tios, os tutores, os representantes legais e o diabo a nove! Se os alicerces da casa não forem fortes, quem lá vive corre o risco de que o tecto lhe desabe em cima da cabeça!
(Não aproveitem os professores e os sindicalistas para se eximirem das suas responsabilidades, pois que cada mau professor é uma falha do Estado e dos seus cidadãos!!!)
Todavia, se um filho aprender em casa valores, aprenderá também na escola os conceitos, mas não só na escola. Aprenderá em cada recanto conceitos e experimentará sem medos tudo aquilo que a vida tem para lhe oferecer. Deixará de precisar de professores.
Por outras palavras, aprenderá a pescar sozinho porque lhe ofereceram a cana-de-pesca, a linha e o anzol.