Tanto as várias diásporas do mundo como os que lutam por um pedaço de terreno ocupado há décadas partilham dum sentimento idêntico cujo núcleo essencial é este: o nosso lugar no Universo é aqui, eu pertenço aqui.
O nosso apego ao lugar onde tanto nós como os nossos familiares se criaram tem algumas curiosidades; até para os mais aventureiros que partem com um sorriso desapegado quando, bem lá no fundo, escondem no coração um silêncio melancólico, já ansioso pelo próximo retorno.
A nossa humana tendência para nos sentirmos confortáveis numa rotina de Sísifo é uma das primeiras curiosidades a contribuir para o facto de odiarmos que nos obriguem a sair de um determinado lugar. Ninguém gosta de ser expulso da discoteca, quanto mais despejado da própria barraca que sempre conheceu. Para o comum dos mortais, mudar de casa (e de terra) é algo sinistramente complicado — e não se deve apenas aos preços cobrados pelas empresas de mudanças. Lá no fundo odiamos êxodos!
Outra dessas curiosidades é sempre acharmo-nos com mais direitos sobre um determinado lugar só porque há determinados vizinhos que vieram viver para junto de nós bem mais tarde. Que interessa o nosso amor mútuo pelo mesmo lugar? Há sempre um que chega depois e só por isso já não vale nada.
Finalmente, a última curiosidade tem por pilar uma tara qualquer por morrer na terra cujo cheiro e textura sempre haveremos de reconhecer. A curiosidade mais estúpida é esta mesmo. Eu não partilho do amor à pátria nem acho mais do que lírica a imagem do peito de Robert (criado por Hemingway) a sangrar e a misturar-se com o solo espanhol. Simplesmente, há coisas que não valem o nosso amor e muito menos o nosso sangue.
Feito o longo introito, olhemos hoje para Israel e para a Palestina.
Após uma longa diáspora, os israelitas arrogam-se hoje no direito de ocupar um reino fundado pelos seus patriarcas ancestrais; são os vizinhos mais velhos, aqueles que conhecem há mais tempo o cheiro da terra e o sentido dos cursos de água daquele lugar.
Os palestinianos, por seu lado, são os vizinhos que se defendem dizendo que aquele solo sagrado foi outrora abandonado pelos judeus, conquistado pelo Rei David, que depois deixou os seus descendentes serem tomados por babilônios, assírios, persas, gregos, selêucidas, romanos, cristãos, otomanos e, finalmente, ocupados pelos muçulmanos que agora preferem morrer a sair dali quando não têm hipótese alguma de por lá ficar.
Uma coisa é certa, já a perceber que nunca é fácil estreitar os laços entre vizinhos velhos e vizinhos novos, o projeto de partilha da Palestina aprovado pela ONU em 1947 previu o estabelecimento de dois estados, um árabe e outro judaico, que formariam entre si uma união aduaneira capaz de partilhar todos os recursos. Haveria cenário melhor? Confesso que não tenho assim tanta criatividade…
Todavia, será mesmo possível uma conciliação entre um povo de tradições resguardadas e sem vocação missionária como os judeus e outro povo muçulmano cujo mandamento é impor aos outros a sua fé? E o ódio histórico que passa de geração em geração?
É possível sonhar com a erradicação deste ódio, não sobreviveríamos sem essa esperança. Mas enquanto existirem bestas que acham melhor morrer pela terra ao invés de perceberem que quem está mal muda-se…
Por vezes ouvimos alguns populistas dizer: Vox populi, vox dei, que traduzido do latim para uma língua viva como a nossa significa voz do povo, voz de deus. É uma frase sonante, admito. Uma frase que até pode ter tido alguma relevância em eras seculares. Contudo, continuará a ter alguma razão de ser nos dias de hoje?
De um ponto de vista conotativo, podemos interpretá-la como um adágio que visa sensibilizar os patrícios políticos para os problemas da plebe votante. E deste ponto de vista até serve (algumas vezes, poucas, talvez pouquíssimas…) para pressionar a malta da política a mexer-se um bocadinho de modo a não perder votos nas eleições seguintes.
Contudo, se formos para um sentido mais literal, no sentido em que o povo normalmente interpreta, imaginem lá o Alto Pai da Criação ignorar o facto de a Organização Mundial de Saúde ter retirado a homossexualidade da lista de problemas de saúde há cerca de 32 anos — em 17 de Maio de 1990 mais precisamente — e repetir as mais recentes declarações de Khalid Salman (actual embaixador do Mundial 2022 no Catar e alguém que actualmente representa uma enorme falange do povo islamita). Imaginem lá a carantonha do Alto Deus a dizer-nos com o apontador levantado: “A homossexualidade é uma doença mental!”.
Enfim…
Por outro lado, deixemos os exemplos mais sonantes e estapafúrdios da actualidade. O que seria do povo de Deus se o próprio Deus começasse a repetir, por exemplo, as mais discretas e transversais vozes seculares do povo português: “Um olho no burro, outro no cigano”, “A mula e a mulher com pau se quer”, “A judeu e a porco não metas no teu horto” e “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Que Deus teríamos? Um Deus racista, misógino e xenófobo?
Pensemos.
Talvez exista mesmo uma expressão melhor e mais actual com tendências universalistas: Voz do povo? Só mesmo voz do povo…
Já tinha lido Jesus Cristo bebia cerveja de Afonso Cruz. Na altura tinha achado interessante (bastante interessante) a imagética do mesmo bem como a sua tendência de usar e abusar de recursos estilísticos.
Neste Para onde vão os guarda-chuvas, Afonso Cruz mantém essa poderosa escrita imagética e, de forma maravilhosa, vai ainda mais longe (até ao Médio-Oriente, no mínimo…) no sentido em que até os mistifórios de personagens criadas se confundem com uma unidimensionalidade real e irreal ao mesmo tempo.
Quanto às coisas más, arrisco-me a dizer que é uma obra que tem quase tudo menos um verdadeiro clímax. Por estranho que pareça, tem um princípio, um meio e um final, mas não um clímax. Talvez seja por neste mundo com um “equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado” não haver momentos de clímax. Todavia, há determinados desequilíbrios que gostaríamos de ter visto mais equilibrados e que nunca o foram. Será propositado? Não sei. Só sei que é uma obra que nos rasga e que nos cose para logo a seguir nos rasgar mais uma vez.
Quanto a coisas boas, há muito investimento na maioria das personagens.
Temos Elahi, o patriarca do sofrimento. Temos Badini, um poeta com um mundo inteiro calado dentro de si (adorei a técnica utilizada pelo Autor para os diálogos de um mudo). Temos Bibi, uma mulher sedenta de liberdade. Temos Aminah, uma cega para a vida. Temos Nachiketa Mudaliar, um homem apaixonado. E temos Isa, um órfão carente do amor dos seus pais vivos. Há mais, claro, e todos eles bem desenvolvidos, mas estes são os principais.
Todos eles percorrem as ruas de um médio-oriente muito bem imaginado, com tudo o que de bom e mau esperamos aí encontrar (presença forte da religião, costumes culturais tradicionais, atropelos aos Direitos Humanos, violência, descriminação, os sonhos… e a alegria possível). Achei tal um ponto bastante positivo tendo em conta que quanto a cenários há uma enorme tendência dos autores portugueses para as aldeias rurais do interior português — o que já me cansa há décadas.
Adiante, Para onde vão os guarda-chuvas é uma obra sobre a condição humana, especialmente sobre o equilíbrio desequilibrado que premeia todo o nosso mundo, nomeadamente quanto ao luto, o perdão, os milagres e sobre as variações do amor.
Eu gosto e aprecio esta aspereza diamantina de vez em quando. É bom por vezes lermos coisas que nos magoem. É sinal que estamos vivos e ainda mantemos a nossa empatia. Isto porque, ainda que com capítulos curtos e uma escrita inteligível, tenho a dizer que não é um livro para toda a gente. Os mais impressionáveis terão sempre de ter cuidado com esta obra.
Aguerrido quando jovem, viu de perto
A ceifa de mil amigos e, nesse aperto,
Mais de mil inimigos lá deixou decerto
Abandonados, pilhados e a descoberto.
Tanta morte amainou-lhe os ímpetos,
Refreou-lhe a paixão pelos insurrectos
Lutadores e, mesmo órfã de sonetos,
Ensinou-lhe a poesia e os seus afectos.
Assim, à paciência deu mais que um verso,
Compôs rimas para expor quem é diverso,
E pela paz versou ainda mais contra o adverso,
Mas os ceifadores deste infinito universo
Não querem a paz das pazes, querem o inverso:
Do homem bom querem só o ódio perverso!
A propósito dos recentes eventos, nomeadamente depois da HBO MAX ter decidido retirar o galardoado filme “E Tudo o Vento Levou” e dos idiotas americanos que estão mais preocupados a atacar a polícia e a derrubar as estátuas de Cristóvão Colombo, apetece-me dizer o seguinte: há fome e miséria, há guerra, há peste e há morte.
Do que estávamos à espera? Que as massas ficassem apenas quietas? Que reagissem com responsabilidade perante a “desorganização” dos nossos líderes políticos? Que exigissem políticas sérias? Tretas…
Nesta altura, a faísca anarca e egocêntrica, que todos os humanos têm, arde com vigor nos mais imponderados e estes não resistem ao seu apelo destrutivo: do próximo (roubos, pilhagens, assassinatos…), das instituições (polícia, governo…) e da própria história (como se alguém idolatrasse as estátuas de Colombo ou de antigos empresários que ninguém conhece…).
E o pior de tudo nem é esta falta de resistência a instintos destrutivos ou dos políticos acéfalos que os tentam legitimar. É a corrupção e a radicalização dos valores de gente que até há umas décadas lutava por algo bastante decente.
Senão vejamos, quem censura o racismo (e bem) censura estupidamente as artes (Hucklberry Finn, E Tudo o Vento Levou…) só porque estas retratam diversos períodos da História. As feministas, que lutam pelos direitos das mulheres (e não pelo direito da igualdade de tratamento), coagem com processos em Tribunal os homens só porque estes as olharam ou as convidaram para sair há décadas atrás. E a comunidade LGBT, em vez de lutar contra a tirania opressiva de estados medievais, vai para as redes sociais atacar e aterrorizar figuras públicas de modo a tentar limitar as suas opiniões e até o humor destas.
Eu, pessoalmente, não tenho pachorra para estes rebanhos e para estas ideologias de falsos rebeldes. Prefiro pensar pela minha cabeça. Contudo, quando a paz em que gosto de viver é suspensa por um bando de gente que apenas tem em mente causar o caos e a destruição, importa recordar que esta escumalha de ideias inquinadas começou como o bando de terroristas que destruiu a Biblioteca de Alexandria, a Escola de Medicina e a Biblioteca de Isfahan, as ruínas de Palmira e tantas outras maravilhas do passado.
“Ah, mas estão a destruir apenas ícones esclavagistas!”, dizem os idiotas sem consciência da inutilidade de julgar a memória de homens de outras eras; que, depois de alcançarem algo bastante importante para a era, morreram com esses mesmos valores da época na mente.
Ademais, e pergunto eu: destruímos o Coliseu de Roma, a Muralha da China e São Peterburgo apenas porque eles foram feitos por escravos e para escravos? E apagamos da memória os terrores e horrores que ali se passaram? É isso que queremos? Destruir os marcos da história humana? Para quê? Para esquecermos e para tornarmos a fazer igual?
É preciso resistir a todos estes terroristas que apenas querem ver o mundo a arder. Não passam de pirómanos e como pirómanos que são impõe-se que sejam presos e condenados. Caso contrário, tudo o fanatismo levará…