Category Archives: Ficção Científica

Stranger Things — Volume 5

by Netflix

Stranger Things — Volume 5

de Duff Brothers

Os bons finais são coisas difíceis — especialmente com obras que ganham força num nicho muito próprio, como um que gosta de suspender a física da realidade e mergulhar em aventuras fantásticas e misteriosas, e se tornam numa série de massas, onde convivem fãs devotos e cinéfilos de olho apurado e excessivamente técnico.

Habituados a dissecar a vírgula de um diálogo ou incongruências científicas num universo com demodogs a raptar criancinhas para o Mundo Invertido, há alguns críticos que caem no erro do Crítico de Ratatouille (se ainda não viram, vejam…). É só o que posso dizer acerca das críticas negativas a esta temporada de Stranger Things — que chegam ao ponto de dizer que há demasiados episódios quando, na verdade, os verdadeiros fãs não queriam que ela acabasse nunca.

Vejamos: o enredo fecha o ciclo de todas as personagens importantes da série (e só são 15!!!), nomeadamente o grupo dos adultos, o grupo dos jovens adultos e o grupo dos miúdos. Não destaco nenhuma destas personagens porque todas brilham. A história encerra com um vilão poderoso, com uma ameaça real e desenlaça com respeito pelas personagens, despindo-se com emoção conforme ditam as regras das despedidas.

Compreendo a desilusão sobre uma vilã, mas o ponto principal relativamente a esta antagonista não era o de ter impacto. Era mostrar que há sempre mais um Brenner ou mais um general pronto a assumir o comando de uma organização sem escrúpulos.  Havendo um erro propriamente dito, talvez tenha sido no casting de um nome como Linda Hamilton (sim, a Sarah Connor) para um papel pequeno e executado sem grande mestria. Mas creio que é tudo quanto de negativo tenho para dizer sobre esta temporada.

Há regresso nostálgico às origens da primeira temporada, há paralelismo, há conflito, há música, há aventura, há drama, há perigo, há romance, há slowburn mistery e, por fim, há um desfecho emocional com o seu toque de agridoce para o temperar na perfeição. Quanto ao divisivo fim de Eleven, é o final perfeito para legar aos fãs, especialmente à luz de um jogo tão importante para a série como Dungeons & Dragons.

Aproveitando aqui para falar sobre toda a série, tivemos uma primeira temporada cheia de mistérios por desvendar e um núcleo de personagens muito próprias; uma segunda e terceira de investimento no desenvolvimento das personagens e das suas relações; uma quarta temporada de resistência e sobrevivência, servindo de prelúdio para a fantástica e última temporada de uma série que ficará no coração de todos que ainda se permitem a suspender a realidade e acreditar que podemos ser heróis e derrotar todos os vilões do universo, mesmo que por um dia.


Capitão América: Brave New World

Capitão América: Brave New World

de Julius Onah

by Marvel Studios

A passagem do escudo a Sam Wilson foi algo controversa e mereceu uma série inteira sobre o tema (The Falcon and the Winter Soldier). A vilã fraquíssima desta série, porém, sabotou uma série com momentos tão icónicos como as trocas de galhardetes entre Sam e Bucky, o aparecimento das Dora Milage, a dança de Zemo ou o monólogo One World, One People.

Neste Brave New World, a Marvel Studios escolheu um pouco melhor os vilões, mas a execução deixou novamente a desejar, o que prejudicou o enredo. Não basta dizer que um vilão tem o poder da superinteligência e depois arranjar-lhe um objectivo tão básico como o plano dum vilão burro: sabotar um acordo e arranjar uma guerra mundial apenas para desacreditar o presidente dos Estados Unidos da América. Um vilão superinteligente tem de ser mostrado a ganhar uma e outra vez, uma e outra vez de forma brilhante até a margem de manobra do herói se limitar a ser apertar as alças do escudo e lançar-se contra um exército de extraterrestres.

Por outro lado, Steve Rogers teve inúmeros momentos no MCU que o solidificaram como O EXEMPLO a seguir. O episódio em que se atirou para cima duma granada para salvar os camaradas ou o seu momento de piedade no elevador indicou-nos que se tratava de alguém invulgarmente corajoso. Sam Wilson, por outro lado, passa o tempo todo em acrobacias, com monólogos genéricos e pouco engenhosos que só aprofundam as suas hesitações e as suas dúvidas quanto a estar à altura do seu antecessor. É como se os escritores tivessem medo de lhe adicionar camadas (a falta de um interesse amoroso, a falta da irmã nesta entrada…) e mostrar que Sam pode ser tão bom ou ainda melhor do que Rogers a salvar o mundo.

Quanto ao elenco adicional, Harrison Ford continua a mostrar porque é quem é. Foi fácil para ele fazer esquecer William Hurt no papel de General Ross, mesmo sem o bigode temperamental. Infelizmente, jamais alguém poderá interpretar um Han Solo ou um Indiana Jones com a mesma mestria ou carisma.


Assim Falou a Serpente

Assim Falou a Serpente

de Luís Corte Real

O segundo tomo de contos acerca das aventuras de Benjamim Tormenta e seus pares repete a aposta do primeiro tomo volume, optando por nos apresentar uma narrativa episódica ao invés de um romance.

Em claro destaque os grandes episódios A Mulher Gorda que Sussurra, com a cidade chuvosa do Porto como pano de fundo, e Assim Falou a Serpente (mais novela que mero episódio), deambulando entre Lisboa, Gibraltar, Malta, Cairo e o sufocante e mágico deserto egípcio.

Em termos de personagens, e, como não poderia deixar de ser, o grande relevo é dado ao bruxeiro protagonista. Os mistérios do passado e da serpente, cada vez mais espicaçados, continuam a envolver em brumas a história do detective do oculto mais afamado do Império Português.  Por outro lado, o Autor, contrariando um pouco o que fez no primeiro livro de Benjamim Tormenta, esforçou-se por destacar o papel de outras personagens.

Talvez devido à propositada concepção do estereotipado Ramanujan, devo confessar a dificuldade em achar interessante o criado indiano do bruxeiro. Já as pesquisas de Quintino Lousada (esse potencial henchman execrável) e a sua pequena evolução deixaram-me a ansiar por um desenlace mais refinado. Por outro lado, o reaproveitamento literário de Fradique Mendes agradou-me tremendamente (e bem mais que o reaproveitamento de Ricardo Reis por José Saramago).

O Autor já anunciou que se encontra a produzir o terceiro volume de aventuras de Benjamim Tormentas. Óptimo, queremos saber o que acontece a seguir…


O GORE E A VIOLÊNCIA COMO DIAPASÃO DA POPULARIDADE AUDIOVISUAL

Olhando para algumas das mais populares séries dos últimos dez anos, podemos concluir que o gosto pela violência explícita e nojenta veio para ficar.

Dexter, com as suas tiradas internas,é uma carta de amor a psicopatas e sociopatas. Spartacus ofereceu-nos a violência dos gladiadores misturada com a promiscuidade sexual própria da época. Breaking Bad, e posteriormente Better Call Saul,conquistou-nos pelas suas personagens bastante presas à realidade e a fios narrativos cuja incapacidade de perdão é ostensiva. Game of Thrones e House of the Dragon surpreenderam e surpreendem muito pelas suas constantes reviravoltas, mas sem nunca esquecer a extrema violência verbal, física e sexual própria dos tempos medievais em guerra. The Boys leva o humor negro, a crítica e a violência para um escalão muito à parte no mundo dos super-heróis. Andor, com uma natureza complexa e bastante alicerçada na realidade e violência opressora do Império, passa-se na galáxia de Star Wars, mas é um show violento e realizado para adultos (tudo aquilo que George Lucas nunca defendeu). 3 Body Problem trata da violência entre espécies de mundos diferentes e com recurso a muita ciência. Séries como Sopranos, The Wire, Gomorrah Peaky Blinders, Boardwalk Empire normalizam o conceito de violência espontânea, atirar primeiro e logo à cabeça é para quem não está para merda nenhuma de brincadeira. Stranger Things consegue conciliar sangue, tripas e musculaturas expostas com crianças e comédia, mas vamos ser sinceros que é tudo menos uma série para crianças. Até mesmo, no mundo do anime, em Attack on Titan, temos gigantes nus a perseguir e comer famílias inteiras, mastigando-lhes os ossos e as tripas como se nada fosse.

Com base nos dados coletados, podemos observar que as séries com temas violentos não só mantêm altos índices de audiência, mas também recebem aclamação crítica e premiações significativas. Além disso, dominam as discussões em redes sociais e mantêm um interesse constante do público. A popularidade dessas séries sugere que a violência explícita pode ser um fator significativo na sua atração, mas outros elementos como qualidade narrativa e desenvolvimento de personagens também desempenham papéis importantes.

O grande concorrente destas séries violentas eram as séries cómicas. Mas eram mesmo porque já não são! Nos últimos cinco anos, quantas séries atingiram o patamar de Simpsons, Friends, The Big Bang, The Office, Theory ou How I Met Your Mother? Eu não dou conta de nenhuma.

O que isto quer dizer sobre a nossa actual geração? Poderemos concluir que as pessoas adoram tripas a cair no chão e degolações bruscas? Será que uma boa esguichadela de sangue para o ecrã e a série corre logo o risco de se tornar um fenómeno? Creio que sim…

E talvez seja por isso que o mundo anda com falta de paciência para a maioria de séries menos explícitas, como as séries da MCU, de Star Wars, Rings of Power, Willow e tantas outras que têm sido imediatamente dilaceradas pela crítica e pelos fãs. Talvez a marca Disney esteja em declínio porque aquilo que as pessoas querem é ver uma arruada gore da turma do Rato Mikey. Ver o Pateta e o Pato Donald a fazer palermices já não chega, é preciso que eles andem de motosserra nas mãos a dilacerar tripas aos seus inimigos.


Foundation — 1ª Temporada e 2ª Temporada

by Apple TV

de Josh Friedman e David S. Goyer.

Confesso que ainda não li absolutamente nada da saga Fundação, escrita pelo afamado Isaac Azimov. Esta confissão é quase um pecado, mas o tempo e o dinheiro aptos a satisfazer todos meus desejos de leitura são escassos. Para além disso, tenho lido e conversado com pessoas acerca desta saga e todos têm convergido para uma opinião quase unânime: é uma história boa, tem um ritmo rápido, mas não consegues criar grande empatia com as personagens (o que não me espanta dada as tendências pulp dos anos 60 a 80). Podem imaginar as minhas reticências uma vez que para mim as personagens são sempre o núcleo duro das obras…

Adiante, e mesmo ciente de todas as críticas feitas a esta adaptação, nomeadamente da libertinagem criativa e pouco respeitosa relativamente ao material original bem como a tendência dos dias que correm para mudar o sexo original das personagens, creio que os defeitos apontados se esbatem perante o resto dos elementos desta adaptação. A qualidade do enredo, a qualidade dos arcos e o desenvolvimento das personagens, a mensagem, e os próprios efeitos audiovisuais não fica nada a dever à maioria das séries e filmes de ficção científica.

O enredo é intricado desde o primeiro episódio, com uma primeira linha narrativa focada na Dinastia Genética do Imperador Cleon II (inspirado, creio, no excelente mito das três faces da deusa Hekate e algo que, pelo que sei, é uma inovação). A segunda linha segue os séculos passados em Terminus e os problemas da Fundação. A terceira linha temporal prende-se com a vida de uma personagem totalmente reformulada chamada Gaal Dornick. Entre estas linhas, muita coisa ocorre nas sombras. E é esse o apelativo da história Fundação. Nós estamos a observar pequenos episódios aparentemente sem grande relevo para os pontos de mudança da história da galáxia, mas a verdade é que são estes momentos que conduzem às grandes mudanças. Especial…

Em termos de personagens, o claro destaque vai para o Imperador Cleon II (interpretado magistralmente pelo trio Cassian Bilton, Lee Pace e Terrence Mann) e para Harry Seldon (do extraordinário Jared Harris), mas Gaal Dornick (interpretado por Lou Lloubell) vai em crescendo. As várias nuances que cada um destes actores (com a ajuda dos demais) consegue dar às suas personagens é algo de extraordinário.

Na maioria dos planos visuais, como os anéis de Trantor, o interior de palácios ou os habitáculos das naves estelares, sentimo-nos estarrecidos. A imaginação não tem limites, desde a forma como a tecnologia é utilizada até aos pingentes vivos de murais especialmente artísticos. Posto isto, eu não embarco na onda de críticos desta adaptação de Fundação. Por norma até gosto que as séries não fujam muito ao material original, mas o que os realizadores estão a fazer ao dar um sopro de empatia de personagens pouco conhecidos e desenvolvidos enquanto mantêm o resto da história (inacabada pelo Autor, diga-se) é algo que muito me apraz. Recomendo vivamente aos fãs do género.


Cloud Cuckoo Land

Cloud Cuckoo Land

de Anthony Doerr

Uma vez que traduzido à letra (A Terra dos Cucos Nefelibatas ou A Terra dos Cucos das Nuvens) este livro cairia imediatamente na lista de livros a evitar devido a parecer uma parvoíce pouco desafiadora, a equipa da Editorial Presença preferiu ter uma abordagem mais conservadora e chamou simplesmente a este obra-prima: Uma Cidade nas Nuvens. Um título impossível de esquecer, certo? Enfim…

Em termos de enredo, o Autor complica e complica ao ponto de me espantar com a sua destreza técnica e planeamento de enredo no final do livro. Temos cinco personagens principais divididas por três linhas temporais, sendo que ainda temos de contar com os flashbacks de três personagens. Ufa…

No início, há aparentemente pouco a ligá-las, mas a verdade é que o enredo vai-se adensando e o que enlaça as três linhas temporais principais (bem como os flashbacks) vai-se tornando muito mais nítido ao ponto de nós percebermos que a verdadeira mensagem deste livro não é apenas que cada livro e bibliotecários são especiais e merecem ser preservados independentemente da doutrina ou do tom com que foram escritos. É realmente grandiosa a forma como o Autor entrega o final.

Por outro lado, em termos de personagens, aprecio particularmente o facto deste livro se reportar bastante à relação entre a adolescência e a terceira-idade. Não há propriamente um protagonista de trinta ou quarenta anos cuja força física se equivalha a uma experiência acumulada e que sirva de ponte entre todas as personagens. O Autor foca-se muito na juventude, na sua ingenuidade, na sua determinação e nos seus diversos problemas ao longo da história para nos fazer perceber a importância modeladora desses acontecimentos iniciais durante o resto da nossa vida.

O ritmo da narrativa é constante e os ganchos narrativos são bastante bem executados.

A prosa do Autor é bastante fluída e não teme socorrer-se de palavras menos comuns para o que quer que seja. Há igualmente uma maravilhosa tendência para comparações e metáforas bastante precisas e imaginativas. Apetecia-me destacar uma ou outra, mas estaria a ser injusto para com o autor ao revelar os seus tesouros metafóricos.

Em termos de conteúdo para lá dos enredos, e sem ser exaustivo, o Autor aborda inúmeros problemas actuais da sociedade como a solidão, a pobreza, os problemas da parentalidade singular, catástrofes climáticas, extinção massiva da biosfera, as consequências do medo, extremismos, conservadorismos, guerras, síndromes e patologias incompreendidas, manipulação de jovens solitários e vulneráveis através da propagação de idiossincrasias perigosas por meio de redes sociais e, por fim, os perigos da programação tecnológica.

É maravilhoso apreciar ao longo de todo o livro este condensar orgânico, tal como é revelador de uma extrema sensibilidade perceber todos os paralelismos que se fazem entre a Conquista de Constantinopla, a nossa década dos novos 20´s e o Futuro da Humanidade. Serão os nossos problemas sempre os mesmos ainda que com capas e vestimentas novas?

O que posso dizer mais? Anthony Doerr é um verdadeiro mestre tecelão. Fiquei abismado e imagino apenas um bocadinho do sofrimento que este homem passou para conseguir enlaçar todas estas histórias umas nas outras de modo a passar a mensagem e os paralelismos que queria passar. Magnífico, o melhor que li no último ano…


Guardiões da Galáxia — Vol. 3

Guardiões da Galáxia — Vol. 3

de James Gunn

As minhas opiniões relativamente ao MCU têm divergido imensamente das opiniões mainstream. Por exemplo, gostei de Ms. Marvel e de Black Widow e achei Loki um pouco dececionante. Por outro lado, a confiança de James Gunn tende um pouco para a arrogância e as suas decisões recentes relativas ao DCEU deixaram-me de pé atrás relativamente a pagar para ver as suas obras.

Adiante, quanto a Guardiões da Galáxia — Vol. 3, um filme esperado há cerca de seis anos. Humor omnipresente, dramatismo excessivo, uma data de personagens bem definidas logo à partida pela Casa de Ideias da Marvel e uma banda sonora muito bem escolhida misturaram-se para um filme satisfatório que falhou em cativar-me emocionalmente, especialmente por não haver um momento realmente dramático com as principais personagens.

Rocket Raccoon e Peter Quill continuam a ser as estrelas deste filme. Todavia, as escolhas narrativas para este filme deixaram muito a desejar. Rocket passa 95% do filme inconsciente, com flashbacks que nunca mais acabam. Quill, por outro lado, cai no cliché da lamúria (com o clichérrimo do alcoolismo pelo meio…) e recusa-se a sair daí. A dinâmica conflituante entre os dois nunca aparece neste filme e isso tem as suas consequências.

Continuam a existir momentos Drax/Mantis muito bem conseguidos, especialmente aqueles em que Nebula (a ganhar um claro destaque emocional neste filme) também se insere. Por outro lado, o desenvolvimento de Gamora, que alguns até acham que deixa muito a desejar, não cai felizmente em clichés de “tocar numa pedra” e reganhar todas as memórias de um passado alternativo.

Quanto a vilões, nada para lembrar senão o sadismo de um cientista maluco.

Sinceramente, não acredito que James Gunn, ao contrário dos actores, tenha colocado toda a sua alma neste filme. Ele próprio sabe que precisava de algo muito especial para este terceiro filme e não nos deu nada disso.

Talvez num filme crossover venhamos a ter mais novidades.


Avatar — The Way of Water

Avatar — The Way of Water

de James Cameron

Mais de uma década após o sucesso do primeiro filme, James Cameron mergulhou-nos literalmente em Pandora numa segunda entrada em tudo melhor do que a primeira.

O argumento do primeiro filme, com um esqueleto copiado linearmente da história de Pocahontas, tinha sido a parte mais fraca do primeiro filme e, talvez por isso, este geek que vos escreve nunca se converteu num grande fã dos Na’vi. Todavia, The Way of Water debela este problema com muito empenho, socorrendo-se e mesclando algumas das melhores ideias de Moby Dick, Titanic e O Último dos Moicanos. No primeiro filme tínhamos uma novela focada em Jake Sully, no segundo temos um romance focado na família Sully, muito particularmente na sua prole de cinco crianças.

Em termos de mensagem, o enredo concentra-se em responder à pergunta “Qual a melhor forma de proteger a nossa família?” e tal não é inteiramente descabido para o mundo em que vivemos (cheio de guerra, fome e miséria…). Ademais, o enredo mexe emocionalmente com o espectador. James Cameron deu aqui há uns meses uma entrevista acerca da não-evolução de alguns personagens da Marvel (que se comportam como universitários na maior parte do tempo, segundo ele…) e percebo agora o que o conceituado realizador queria dizer. Neste filme, há uma clara evolução na maturidade de Jake Sully e isso deve-se em larga medida ao facto deste herói ter de lidar com as consequências dos seus feitos passados enquanto luta no presente para proteger a sua família de velhos inimigos. O contraste/conflito geracional pais preocupados/filhos atrevidos é por demais evidente e certeiro. Os filhos de Jake e Neytiri têm as mesmas ganas que outrora os seus pais tinham, mas os pais destes estão agora mais maduros e temem aquilo que ensinaram aos filhos.

Em termos de efeitos especiais, Pandora continua a ser uma delícia para os olhos. A adição da vida do Clã Metkayina nos recifes e a bioesfera aquática envolvente leva o cenário para um nível que a maior parte de nós já nem sequer julgava ser possível dado o realismo dos últimos filmes de ficção científica. Falar de CGI neste filme é, atrevo-me a dizer, um arcaísmo. O nível de motion capture subaquático é insano, especialmente para quem pensava que Aquaman tinha conseguido levar as coisas para outro nível. Enfim, Pandora continua a ser o planeta perfeito para nos deslumbrar!

O único buraco que encontro nesta sequela é o facto de uma space opera não se poder bastar unicamente com um único mundo. Gostava de ver algo relacionado com a Terra, com o Sistema Solar e com outros planetas deste universo narrativo. Espero que a terceira entrada prometida nos traga isso mesmo.


OBI-WAN KENOBI

by Disney

Achando eu perigoso tanto espremer de histórias relativamente aos protagonistas originais de Star Wars (Luke, Han, Leia, Vader e Obi-Wan), só não parti algo céptico para ver esta série sobre a grande figura de Obi-Wan Kenobi devido ao soberbo trailer que me entusiasmou desde logo devido a Duel of Fates e à sempre assombrosa respiração de Darth Vader. Um reencontro entre mestre e aluno depois de Mustafar? Eh lá, que a Força esteja connosco…

O primeiro episódio é algo lento, nostálgico e sem grande acção (um costume irritante das séries), mas é o ponto de partida necessário e é ele que conjuntamente com o último episódio permite um arco narrativo em que encontramos um círculo fechado nos principais pontos.

Quanto a velhas personagens, somos confrontados com um abatido Obi-Wan Kenobi após ser derrotado naquela que achava que seria uma luta pelas forças do bem ao mesmo tempo que nunca se sentiu vitorioso depois de vencer Anakin. A jovem Leia, revelando aqui como nunca a intuição de uma sensitiva para a Força, como Anakin, bem como os traços de liderança da sua mãe, Padmé Amidala, destaca-se igualmente com a sua importância mirim. Já Darth Vader, sequioso de conseguir vingar-se daquele que foi e será sempre o seu verdadeiro mestre, torna a mostrar porque é uma das personagens mais icónicas do cinema.

Quanto a novas personagens, creio que o enredo revelou cedo demais quem era Reva (ao final do primeiro episódio já tinha percebido o porquê do prólogo) e os seus verdadeiros propósitos. No entanto, não desgostei da sua personagem nem do seu arco narrativo. É, aliás, a única personagem nova que para mim se destaca realmente. Espero vê-la noutras paragens que não uma segunda série de Obi-Wan Kenobi (sim, sou contra espremer mais sumo desta personagem…).

Breve nota igualmente para sublinhar que as actuações de Vivien Lyra Blair (Leia) e Moses Ingram (Reva) se destacam num elenco de luxo composto por Jimmy Smits, Rupert Friend, Sung Kang, Kumail Nanjiani, Indira Varma, O’Shea Jackson Jr., mas o envolvimento emocional é todo ele criado por Ewan McGregor e Hayden Christensen — que eclipsam por completo todas as outras performances aquando de cada uma das suas jogadas e confrontos.

Outra nota para os duelos de ligthsabers, com coreografias soberbas a unirem-se à carga emocional das personagens e a criarem um dos pontos mais fortes da série. Não é à toa que o único filme de Star Wars sem lightsabers (Solo: A Star Wars Story) tenha sido o filme que menos rendeu à franquia. As pessoas adoram estes duelos, especialmente porque carregam sempre consigo uma carga emocional que nos prende ao ecrã. Se as sequelas tivessem tido este tipo de comprometimento por parte dos actores e coreógrafos tenho a certeza de que os filmes teriam sido muito melhor recebidos.

Quanto a pontos mais negativos desta série, acabam por ser dois. O primeiro prende-se com a falta de criatividade dos cenários. Bem sei que começa a ser difícil a Star Wars inventar algo muito melhor do que Tatooine, Mustafar, Hoth, Dagobah, Kamino, Naboo, Coruscant ou a própria Cidade das Nuvens; mas George Lucas deixou um legado quanto à criatividade de cenários que, creio eu, devia ser mais respeitado. Já era espectável um regresso a Tatooine no primeiro episódio, mas um planeta parecido com Coruscant no segundo episódio, um planeta parecido com Tattoine e outro com Kamino no terceiro episódio, bem como planetas terrosos e cheio de rochas parece-me muito pouco criativo. Não é o mais grave, dado certamente o desejo de algumas restrições orçamentais.

A segunda falha é que já é mais grave e prende-se com algumas deficientes e incompreensíveis execuções do enredo (que, repito, é simples e bom a meu ver). Aquelas cenas incompreensíveis do túnel revelaram-se falhas, a falta de estamina de Vader depois de agarrar uma nave e a desfazer em pedaços fez pouco sentido (especialmente com Reva nas suas costas pronto a atacá-lo), a estranha morte e desde logo uma esperada e estranha ressurreição do Grande Inquisidor (ainda que por explicar) e, finalmente, a sobrevivência de Reva após o seu tremendo falhanço revelam-se igualmente pouco credíveis (vamos lá ver, que um zabrak como Darth Maul não morra depois de ser cortado ao meio é uma coisa anatómica dos zabraks, mas uma humana com um buraco nas entranhas sobreviver?!?!?). São pequenas falhas e não põe verdadeiramente o enredo principal em perigo, mas não deixam de enervar sempre um pouco quem está habituado ao padrão de George Lucas.

Feitos os reparos, Obi-Wan Kenobi é uma série que tem por base algumas das consequências dos eventos ocorridos no Episódio III. É uma série que se bate por criar uma ligação emocional entre Obi-Wan e os filhos de Anakin e Padmé e que, finalmente, se bate por recordar tanto a compaixão jedi de Obi-Wan como a perdição de Anakin e a crueldade de Darth Vader.

Assim, não acrescentando muito de novo, é uma série que entretém (sem grandes falhas ao nível de The Last Jedi e num ritmo perfeito, sem as pressas de The Rise of Skywalker ou a lentidão de The Book of Boba Fett) e é uma série que puxa ao sentimento de verdadeiros fãs.


Duna

Duna

de Frank Herbert

by Relógio D’Água

Aproveitando que vem aí o filme, e depois de tanta gente a dizer que Duna era O Livro de ficção científica por excelência, abri finalmente a magna opus de Frank Herbert.

Em termos de espaço, o Autor criou um vasto universo repleto de tramas políticas interessantes e permeado por vastos interesses económicos, tudo salpicado por laivos religiosos (bem trabalhados) que vão ganhando importância à medida que a história se vai desenvolvendo.

O mundo Arrakis, também chamado Duna, é em si árido, com muito pouco para além de areia, vermes de areia e a especiaria melange, que é essencial ao resto do universo. Ainda assim, abre espaço para o forte da obra: o povo fremen.

Estes nativos de Arrakis, povo habituado às agruras de Duna e ao combate frequente com os vilões Harkonen, é de longe a parte mais interessante da obra. Herdeiros de uma paixão religiosa bastante vincada, semelhante em tudo aos povos árabes de hoje em dia, e sedentos por um recurso bastante escasso em Arrakis: a humidade (reparem que não uso a palavra água sequer…), são de longe a parte com mais interesse. Têm uma importância vital para a mensagem ecológica da história e considero a sua luta de terraformação secular algo que hoje em dia falta à humanidade: planos sérios para o planeta e para todos os seus habitantes daqui a 500 anos.

Em termos de personagens, gostei de Dama Jessica. É uma mulher forte e independente, pertencente a uma casta mística de mulheres manhosas preocupadas com a preservação de certas linhagens genéticas, e uma mãe-leoa que pauta sempre toda a sua actuação pelo amor, que é também a sua maior fragilidade.

Já Paul Atreides, o protagonista, vai destruindo com as suas forças de presciência todos os tipos de limitações físicas e morais, o que o torna menos humano e, consequentemente, menos heróico. Paradoxalmente, a sua história é a história da Ascensão de um Herói, mas pouco há dele com que um ser humano se consiga realmente compadecer ao ponto de o achar verdadeiramente um herói. Todo ele foi criado literalmente para ser o herói desta história (grandes capacidades genéticas, grandes tutores e grandes valores; não falha uma decisão) e isso leva a que nos achemos mais perante um robô do que propriamente perante um líder humano.

De resto, os vilões, tirando os laivos do Barão Harkonen, são algo meh… e as personagens secundárias vão perdendo gás ao longo da história. Creio que é tudo demasiado apressado por vezes.

Quanto ao enredo, começa por ser uma luta entre casas e evolui demasiado depressa, e sem grandes reviravoltas, para uma revolução liderada por Paul Atreides. Estamos perante um caso típico daquelas trilogias condensadas num único livro.

Chegados aqui, estamos perante um clássico devido à mensagem ecológica muito forte, mas em termos de história, ritmo e personagens fica aquém de algo que eu realmente gosto (e que tantos autores contemporâneos conseguem). Duna cumpre, mas está longe de ser uma obra perfeita (e talvez por isso tenha tido tantas sequelas quando não era de todo a intenção do Autor no início…).


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