Category Archives: poema; beijo; amor; paixão; necessidade

Ébriando solitariamente…

Hoje à noite estava eu num bar
E, numa comichão, faltou-me o ar
Faltou-me o chão e faltaste-me tu,
Meu único par, para me amparar.

Estava só, rodeado de bêbados risos
E muitas piadas cheias de improvisos,
Mas, sempre em falta: os teus sorrisos
Amorosos e perfeitos e brancos e lisos.

Pior, as mesas do bar estavam cheias
Embriagando de alegria todas as veias
Mas, como um copo vazio e sem ideias,

Eu ia bebendo, bebendo e bebendo
Com mais a recordar do teu sendo
Do que para me ir de ti esquecendo.

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A vida de um homem bom…

Não acreditava nada em missas
Nem nessas modas das castiças,
Preferindo furtar-se às preguiças
De acreditar cego em tais justiças.

Escuso de correr atrás dum centil
Brincava a sério e jogava-se infantil
Dum velho cantil para um novo cantil
Cantando ébrio e tocando gentil

Peitos ao sul e paixões ao norte,
Vivendo de espírito esperto e forte
Até que ricamente lhe faltou a sorte
E lhe chegou a pobre hora da morte.


De que adianta a luz do Sol?

De que adianta a luz do Sol
Se sem ti, e nesta escuridão,
Não vejo luzir nada de nada?

De que adianta o girar do Sol
Se sem ti, e nesta inexatidão,
Esta vida parece deseixada?

De que adianta o calor do Sol
Se sem ti, e nesta solidão,
Só sinto a minha pele gelada?

De que adianta o pôr-do-sol
Se sem ti, e nesta sofridão,
Nenhuma noite fica estrelada?

De que adianta o nascer do Sol
Se sem ti, e nesta ingratidão,
Não tenho tua boca apaixonada?


Desinspiração

A chuva cinzenta não
Borrou a tinta destas
Rimas nem destes versos;
Faltam-me os verbos e
Não, não foi o vento
Que levou minha arte.
Fugiram-me do peito a
Musa morena e os nomes
E os pronomes, todos eles
Fugiram, como um moscardo,
A este bardo, deixando-me só
Desinspirado e desvairado.

 


Podes ir, fico aqui…

Podes ir, fico aqui
Até vires e voltares,
Mas, se conseguires –
E não importa se é caro –
Volta no vôo mais rápido,
Na lancha mais veloz,
E pela trilha mais curta.

Podes cortar por um atalho,
Saltar por cima dos muros
E escalar lesta até as fragas
Deste distanciar que aqui
Vem, mas, por favor, corre só
De volta para este coração aqui
Guardado e só por ti aguardando.

 


Inspiração…

Amor, quando me conheceste
Eu era um tonto sem inspiração
Que não sonhava ser o poeta
Que hoje sou de alma e coração.

Sem versos e sem rimas, este
Eu era só mais uma decepção
À procura de algo sem emoção
Em vez da mais segura direcção.

Felizmente, advindo do sudoeste,
Esse beijo quente e a nossa relação
Ensinaram-me em jeito de revelação
Que o amor não existe só na ficção.


Meia-Volta…

Preguiçosa e toda despida
Dás meia-volta na nossa cama
E, como única contrapartida,
Exiges amor a quem tanto te ama.

Nada humilde e toda convencida
Pedes mais beijos e algum drama
Para chorar a infalível despedida
Que embacia um pouco esta chama.

Mas passam os minutos e nada muda
O lençol foge-te, deslizas-te desnuda
E eu, manhoso, aumento minha ajuda

Até, por fim, renovarmos – pelados,
Nunca calados e por vezes demorados –
Os nossos votos quentes e enamorados.