Category Archives: poema; beijo; amor; paixão; necessidade

O Arco-íris

Quando éramos crianças, o arco-íris tinha sete cores,
Mas parece-me hoje que ele perdeu alguma tira de cor
Ou será apenas a névoa que ficou mais forte?
Talvez o tempo tenha passado e mudado o arco-íris
Tal como me mudou a mim, mas não mudou o facto de
Eu continuar apenas à tua procura e
Continuar a não te encontrar em lugar nenhum.

Fecho os olhos, olho para dentro,
Escuto o bate-bate do meu coração ecoando o teu nome,
Uma e outra vez, uma e outra vez, e
Peço-lhe com cuidado que aguente até te conseguir ver novamente,
Esperando igualmente que, ao contrário de mim, nada te tenha mudado…
Nem mesmo o tempo neste moribundo mundo cinzento,
Com esta maldita névoa que desaparecerá algum dia e,
Como deveria ser, devolverá o que nos roubou.

Em seguida, esbracejo e grito de tanto vazio que aqui vai
Enquanto por dentro se desarrumam, caóticas e sem ordem,
Uma data das mais desconsoladas questões:
O que perdi? O que perdemos?
Será que ainda te posso dar mão?
Ou será que já tens as mãos fechadas para mim?
Não sei… só sei que vai escurecendo a névoa.

A noite entrevada vai esbulhando, à vez, cada matiz do incompleto arco-íris e
Quando, finalmente, as trevas o apagam por completo do céu,
Envolvo-me no negrume, sozinho com os meus passos e
Só com uma gélida sinfonia: a dos pingos da chuva caindo e
A das minhas lágrimas castanhas escorrendo cheias dúvidas:
E se eu não tivesse vindo por aqui?
E se eu tivesse tomado outro caminho?

Abrando… e abrando porque não quero chegar ao fim desta ponte sem ti
Quero encontrar-te antes do final deste passadiço em que vou caminhando e
Quero encontrar-te bem, inteira, perfeita, raiando luz,
Talvez trazendo as sete nuances que faltam ao arco-íris no sorriso,
Talvez pronta a abraçares-me com carinho e,
Só depois, beijamo-nos e beijamo-nos e beijamo-nos
Até, já cansados de beijos, devolvermos juntos as setes cores que faltam ao céu.

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by kevinflemming88

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Estrelinhas

Demorada, achou esta vista
Morando na tua pele morena
Uma dezena de pintas à vista:
Uma subtil constelação terrena

De estrelas negras à conquista
Do bronzeado da extraterrena
Divindade que, algo imprevista
E surrealista, tanto me serena.

Quantos e quantos zodíacos
Se espreguiçam demoníacos
Nesses declives paradisíacos

Onde se acaba o mundo ruim?
E quantos olham só para mim
E me convidam a ir até ao fim?

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Lide do amor

Não sabemos de onde veio nem de onde vem,
Sabemos apenas que tanto trepa terraços tranquilos
Como cai do céu durante uma chuvada de meteoritos.

Não sabemos quem o tem ou deixa de o ter,
Sabemos apenas que brota da fonte e floresce
Como uma flor viçosa de pétalas incandescentes.

Não sabemos quando vem nem porque surge,
Sabemos apenas que surge em perfeita sincronia
Como quando do nascer do sol nasce mais um dia.

Não sabemos como ocorre ou como sucede,
Sabemos apenas que ora se cala em arrepios da pele
Como se revela em desnorteadas batidas do coração.

Enfim, não sabemos lá muito bem o que é que é,
Sabemos apenas ao que sabe enrolado na nossa língua
Como sabemos que a mesma língua lhe chama só amor…


Ébriando solitariamente…

Hoje à noite estava eu num bar
E, numa comichão, faltou-me o ar
Faltou-me o chão e faltaste-me tu,
Meu único par, para me amparar.

Estava só, rodeado de bêbados risos
E muitas piadas cheias de improvisos,
Mas, sempre em falta: os teus sorrisos
Amorosos e perfeitos e brancos e lisos.

Pior, as mesas do bar estavam cheias
Embriagando de alegria todas as veias
Mas, como um copo vazio e sem ideias,

Eu ia bebendo, bebendo e bebendo
Com mais a recordar do teu sendo
Do que para me ir de ti esquecendo.


A vida de um homem bom…

Não acreditava nada em missas
Nem nessas modas das castiças,
Preferindo furtar-se às preguiças
De acreditar cego em tais justiças.

Escuso de correr atrás dum centil
Brincava a sério e jogava-se infantil
Dum velho cantil para um novo cantil
Cantando ébrio e tocando gentil

Peitos ao sul e paixões ao norte,
Vivendo de espírito esperto e forte
Até que ricamente lhe faltou a sorte
E lhe chegou a pobre hora da morte.


De que adianta a luz do Sol?

De que adianta a luz do Sol
Se sem ti, e nesta escuridão,
Não vejo luzir nada de nada?

De que adianta o girar do Sol
Se sem ti, e nesta inexatidão,
Esta vida parece deseixada?

De que adianta o calor do Sol
Se sem ti, e nesta solidão,
Só sinto a minha pele gelada?

De que adianta o pôr-do-sol
Se sem ti, e nesta sofridão,
Nenhuma noite fica estrelada?

De que adianta o nascer do Sol
Se sem ti, e nesta ingratidão,
Não tenho tua boca apaixonada?


Desinspiração

A chuva cinzenta não
Borrou a tinta destas
Rimas nem destes versos;
Faltam-me os verbos e
Não, não foi o vento
Que levou minha arte.
Fugiram-me do peito a
Musa morena e os nomes
E os pronomes, todos eles
Fugiram, como um moscardo,
A este bardo, deixando-me só
Desinspirado e desvairado.