Recordando uma velha máxima dos meus avós, eu sou do tempo em que se brincava na rua com uma bola e se brigava na rua sem pau nem faca nem pistola. Punhos, garra e juízo para saber parar. Os árbitros e os intermédios eram normalmente os amigos, os pais ou os pais dos amigos a quem dávamos sempre ouvidos. As ruas e os descampados não engoliam ninguém nessa altura, só nos tornavam mais fortes.
Eu sou do tempo em que surgiu a Playstation, a Dremcast, a Nintendo 64 e o GameBoy; pelo que também sou do tempo em que os amigos se reuniam em casa uns dos outros para simplesmente: apanharem todos os 150 pokémons conhecidos, ultrapassarem à vez os níveis de jogos de aventuras (entrando um novo jogador a cada morte da Lara Croft) ou competirem entre si num combate de Tekken ou num jogo de PES 2; tudo sempre às gargalhadas ou às caralhadas.
Eu sou do tempo em que a televisão de quatro canais se desdobrou em centenas de canais e, repentinamente, surgiram mais razões para a TV se manter ligada durante todo o dia. A diversidade era tão grande: filmes non-stop, maratonas de séries, notícias 24 horas, canais de música barulhentos. Felizmente, existiam pais que nos mandavam desligar a TV e nos levavam à praia para apanharmos sol e sal.
Eu sou do tempo em que a internet explodiu e, de rajada, tornou os computadores em rápidas fontes de informação, permitindo a todos ver programas indisponíveis nos nossos países e, pasmemo-nos, em falar com pessoas do outro lado do mundo que gostavam das mesmas coisas que nós sem pagar mais um cêntimo por isso.
Eu sou do tempo em que a tecnologia era utilizada apenas por jovens sonhadores e não velhos jarretas. Eu sou do tempo em que esta tecnologia tudo fazia para aproximar as pessoas, inclusive arranjar encontros com gente de outras escolas.
Depois surgiram as redes sociais em todas as plataformas (TV, rádio, computadores, telemóveis). Surgiu o comércio online: vendendo casas, carros e periquitos. E, para mal de todos os nossos pecados consumistas, surgiu o demoníaco algoritmo do marketing personalizado, ao serviço de cada conglomerado e de cada caganita influencer ao ponto de, hoje, até pequenos jogos para crianças estrem cheios de anúncios ou armadilhas para monetizar as brincadeiras dos pequenos.
Novos e velhos foram puxados por memes emocionais para discussões superficiais, dividindo o mundo em dois polos sem razão e invadindo-nos os olhos de propagandas ultrapassadas há muito, mas reavivadas por gentes inumanas.
Eu sou do tempo que achava que o sonho de um mundo mais igual através da internet era possível, mas vi-o esfumar-se à medida que alguns governos democráticos deixavam outros governos despóticos tratar de bloquear conteúdos e permitiam aos bilionários criar plataformas controladas de acordo com os seus objectivos políticos.
Eu vi isso tudo, filhote…
Eu, tal como os meus pais e os meus avós, vi um mundo com tudo para ser perfeito; mas que algumas criaturas insistem em estragar.