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O GORE E A VIOLÊNCIA COMO DIAPASÃO DA POPULARIDADE AUDIOVISUAL

Olhando para algumas das mais populares séries dos últimos dez anos, podemos concluir que o gosto pela violência explícita e nojenta veio para ficar.

Dexter, com as suas tiradas internas,é uma carta de amor a psicopatas e sociopatas. Spartacus ofereceu-nos a violência dos gladiadores misturada com a promiscuidade sexual própria da época. Breaking Bad, e posteriormente Better Call Saul,conquistou-nos pelas suas personagens bastante presas à realidade e a fios narrativos cuja incapacidade de perdão é ostensiva. Game of Thrones e House of the Dragon surpreenderam e surpreendem muito pelas suas constantes reviravoltas, mas sem nunca esquecer a extrema violência verbal, física e sexual própria dos tempos medievais em guerra. The Boys leva o humor negro, a crítica e a violência para um escalão muito à parte no mundo dos super-heróis. Andor, com uma natureza complexa e bastante alicerçada na realidade e violência opressora do Império, passa-se na galáxia de Star Wars, mas é um show violento e realizado para adultos (tudo aquilo que George Lucas nunca defendeu). 3 Body Problem trata da violência entre espécies de mundos diferentes e com recurso a muita ciência. Séries como Sopranos, The Wire, Gomorrah Peaky Blinders, Boardwalk Empire normalizam o conceito de violência espontânea, atirar primeiro e logo à cabeça é para quem não está para merda nenhuma de brincadeira. Stranger Things consegue conciliar sangue, tripas e musculaturas expostas com crianças e comédia, mas vamos ser sinceros que é tudo menos uma série para crianças. Até mesmo, no mundo do anime, em Attack on Titan, temos gigantes nus a perseguir e comer famílias inteiras, mastigando-lhes os ossos e as tripas como se nada fosse.

Com base nos dados coletados, podemos observar que as séries com temas violentos não só mantêm altos índices de audiência, mas também recebem aclamação crítica e premiações significativas. Além disso, dominam as discussões em redes sociais e mantêm um interesse constante do público. A popularidade dessas séries sugere que a violência explícita pode ser um fator significativo na sua atração, mas outros elementos como qualidade narrativa e desenvolvimento de personagens também desempenham papéis importantes.

O grande concorrente destas séries violentas eram as séries cómicas. Mas eram mesmo porque já não são! Nos últimos cinco anos, quantas séries atingiram o patamar de Simpsons, Friends, The Big Bang, The Office, Theory ou How I Met Your Mother? Eu não dou conta de nenhuma.

O que isto quer dizer sobre a nossa actual geração? Poderemos concluir que as pessoas adoram tripas a cair no chão e degolações bruscas? Será que uma boa esguichadela de sangue para o ecrã e a série corre logo o risco de se tornar um fenómeno? Creio que sim…

E talvez seja por isso que o mundo anda com falta de paciência para a maioria de séries menos explícitas, como as séries da MCU, de Star Wars, Rings of Power, Willow e tantas outras que têm sido imediatamente dilaceradas pela crítica e pelos fãs. Talvez a marca Disney esteja em declínio porque aquilo que as pessoas querem é ver uma arruada gore da turma do Rato Mikey. Ver o Pateta e o Pato Donald a fazer palermices já não chega, é preciso que eles andem de motosserra nas mãos a dilacerar tripas aos seus inimigos.


ONDE ESTÃO OS TESOUROS LUSÓFONOS?

Tanto em livros ambientados na História da Humanidade como em filmes ambientados em mundos e universos alternativos, com mais ou menos acção, creio que existe um único género de narrativas que apaixona todas as pessoas: as caças ao tesouro.

Olhemos os clássicos em diversas plataformas:

Em termos de obras literárias, A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson é o maior exemplo de como um simples enredo se pode tornar numa obra intemporal desde que bem executada. Este livro — que levou inúmeras gerações a terem presente ideias de piratas com perna de pau e que o “X indica o local do tesouro” — é obrigatório para quem gosta de histórias de aventuras de piratas e caças ao tesouro. Os arcos narrativos de Jim Hawkins e Long John Silver (que ainda hoje é o pirata por excelência…) são simples — mas muito bem escritos — e, por isso mesmo, bastante divertidos. Quem ainda não leu devia ler. Claro que há mais exemplos, e bons, como o clássico As Minas de Salomão de H. Rider Haggard — a primeira aventura baseada em civilizações perdidas. Os Cinco na Ilha do Tesouro de Enid Blyton ou Harry Potter e a Pedra Filosofal são entradas mais juvenis. Recentemente, O Código de Da Vinci de Dan Brown (com uma estrutura de thriller informativo) veio recordar às pessoas de como é bom ler sobre as aventuras de professores universitários e a saga The Dark Tower de Stephen King, com uma realidade alternativa e distópica onde um pistoleiro busca descobrir a Torre Negra para salvar toda a Existência, estabeleceu novos limites para a imaginação.

Em termos de cinema, vem logo à mente o chicote e o chapéu de Indiana Jones. Não há ninguém que não adore o icónico arqueólogo (interpretado magistralmente por Harrison Ford). Os Salteadores da Arca Perdida (primeiro filme de Indy em 1981) e A Última Cruzada (a terceira entrada do filme em 1989) são dois dos melhores filmes de sempre, mesclando perfeitamente cenas de exploração (aquela cena arrepiante da câmara das serpentes…), acção (a batalha em cima de tanques…) e desenvolvimento dos personagens (a relação de Indy com o pai…). Não há ninguém que não conheça Indiana Jones e não há filmes que se comparem aos dele. O seu sucesso é tanto que todos os dias perseguem Harrison Ford para que ele faça novos filmes de Indiana Jones atrás de filmes de Indiana Jones (como se os joelhos de um sessentão ainda aguentassem saltar de um carro em andamento…). Isso diz muito da importância da mesma personagem para a indústria cinematográfica. Por outro lado, o cinema tem buscado de vez em quando novos caçadores de tesouros como o Man With No Name de The Good, the Bad and the Ugly (um western à procura de um saque escondido), Ben Gates de National Treasure (focado nos tesouros da história dos Estados Unidos da América), Rick O’Connell em A Múmia (uma comédia de caçadores de múmias), Dirk Pitt em Sahara (um enredo metade caça ao tesouro, metade intriga política) e o próprio mirabolante capitão Jack Sparrow da franquia dos Piratas das Caraíbas (um dos mais fantasiosos e fantásticos mundos de piratas onde é possível mergulhar). Recentemente, e à boleia do fenomenal Ready Player One (uma caça ao tesouro online), até Aquaman e Doctor Strange in the Multiverse of Madness, no género dos super-heróis, assumiram essa estrutura de caça ao tesouro.

Na indústria dos jogos, a franquia Tomb Raider é das mais rentáveis de sempre. Lara Croft, a inglesa salteadora de túmulos com muita atitude, um par de pistolas e outro par de mamas grandes, conquistou com os seus acrobáticos saltos e as suas aventuras cheias de tiros inúmeras gerações de aficionados por jogos de aventuras e deu inclusivamente fama a Angelina Jolie com os seus dois bons filmes de adaptação. Recentemente, e conforme os novos ventos trazidos pela espectacular franquia Uncharted, a indústria achou por bem renovar a imagem da moça e transformou um pouco um jogo de exploração, charadas e tiro num jogo de sobrevivência ao mesmo tempo que se caça o tesouro. Reduziu-lhe a copa, tornou-a mais frágil fisicamente (ainda que a mesma se mantenha imbatível) e deu-lhe um par de machados de alpinismo ao invés do par de armas. Seja como for, Lara Croft continua como a maior protagonista de jogos de caça ao tesouro, descobrindo deuses da Atlântida, a espada Excalibur, o martelo de Thor, entre muitos outros sítios e artefactos dignos de um ou dois novos posts só para o efeito. Mas não pensem que Lara Croft é a única. O sucesso recente de Nathan Drake de Uncharted (que é uma versão moderna de Indiana Jones que usa telemóvel enquanto descobre o El Dorado e Libertalia) ou de Ezio e Desmond em Assassins Creed II e Assassins Credd: Brotherhood (com uma dupla narrativa entre presente e passado que tem por base a busca por um artefacto ancestral) leva-me igualmente à conclusão que se segue.

Se virem bem, cada exemplo que dei tem um tesouro próprio e aborda a busca/caça de muitas e diversas formas. Desde a mais simplista aventura de piratas, com os mapas em selvas tropicais, até às aventuras mais fantástica, plenas de mitologias próprias, tiros, explosões ou enredos de ficção científica com os mapas e pistas a encontrarem-se nas memórias dos antepassados, passando igualmente pelos géneros de comédia ou melodramas, a verdade é que os filmes de caça ao tesouro têm uma popularidade inegável.

Não percebo por isso o medo dos autores lusófonos em apostar mais nestas estruturas narrativas, tão populares. Por acaso esquecemo-nos do tempo em que os portugueses exploravam o mundo desconhecido e transportavam ouro e riquezas por todo o mundo? Esquecemo-nos dos diamantes angolanos míticos e dos garimpeiros brasileiros? Porque não uma sociedade de exploradores lusófonos em histórias de caça ao tesouro?


Duna

Duna

de Frank Herbert

by Relógio D’Água

Aproveitando que vem aí o filme, e depois de tanta gente a dizer que Duna era O Livro de ficção científica por excelência, abri finalmente a magna opus de Frank Herbert.

Em termos de espaço, o Autor criou um vasto universo repleto de tramas políticas interessantes e permeado por vastos interesses económicos, tudo salpicado por laivos religiosos (bem trabalhados) que vão ganhando importância à medida que a história se vai desenvolvendo.

O mundo Arrakis, também chamado Duna, é em si árido, com muito pouco para além de areia, vermes de areia e a especiaria melange, que é essencial ao resto do universo. Ainda assim, abre espaço para o forte da obra: o povo fremen.

Estes nativos de Arrakis, povo habituado às agruras de Duna e ao combate frequente com os vilões Harkonen, é de longe a parte mais interessante da obra. Herdeiros de uma paixão religiosa bastante vincada, semelhante em tudo aos povos árabes de hoje em dia, e sedentos por um recurso bastante escasso em Arrakis: a humidade (reparem que não uso a palavra água sequer…), são de longe a parte com mais interesse. Têm uma importância vital para a mensagem ecológica da história e considero a sua luta de terraformação secular algo que hoje em dia falta à humanidade: planos sérios para o planeta e para todos os seus habitantes daqui a 500 anos.

Em termos de personagens, gostei de Dama Jessica. É uma mulher forte e independente, pertencente a uma casta mística de mulheres manhosas preocupadas com a preservação de certas linhagens genéticas, e uma mãe-leoa que pauta sempre toda a sua actuação pelo amor, que é também a sua maior fragilidade.

Já Paul Atreides, o protagonista, vai destruindo com as suas forças de presciência todos os tipos de limitações físicas e morais, o que o torna menos humano e, consequentemente, menos heróico. Paradoxalmente, a sua história é a história da Ascensão de um Herói, mas pouco há dele com que um ser humano se consiga realmente compadecer ao ponto de o achar verdadeiramente um herói. Todo ele foi criado literalmente para ser o herói desta história (grandes capacidades genéticas, grandes tutores e grandes valores; não falha uma decisão) e isso leva a que nos achemos mais perante um robô do que propriamente perante um líder humano.

De resto, os vilões, tirando os laivos do Barão Harkonen, são algo meh… e as personagens secundárias vão perdendo gás ao longo da história. Creio que é tudo demasiado apressado por vezes.

Quanto ao enredo, começa por ser uma luta entre casas e evolui demasiado depressa, e sem grandes reviravoltas, para uma revolução liderada por Paul Atreides. Estamos perante um caso típico daquelas trilogias condensadas num único livro.

Chegados aqui, estamos perante um clássico devido à mensagem ecológica muito forte, mas em termos de história, ritmo e personagens fica aquém de algo que eu realmente gosto (e que tantos autores contemporâneos conseguem). Duna cumpre, mas está longe de ser uma obra perfeita (e talvez por isso tenha tido tantas sequelas quando não era de todo a intenção do Autor no início…).


O Talentoso Mr. Ripley

O Talentoso Mr. Ripley
de Patricia Highsmith

Tendo por base a (re)descoberta de uma mestra da criação de suspense, joguei-me ao primeiro livro da sua personagem mais conhecida: Tom Ripley. E, dentro de uma capa subtil e fenomenal (bravo Relógio D’Água), descobri um CLÁSSICO quando pensava estar apenas perante mais um bom thriller americano.

O enredo criado pela prosa precisa e bem temperada desta Autora tem por base as vivências duma vida intrujona, e todas as peripécias relativas à mesma realidade. É uma história onde há crime, mentiras e uma humanidade negra e cínica. Mais não me atrevo a dizer quanto ao enredo.

Por outro lado, Tom Ripley, o protagonista, encontra-se magistralmente criado e cheio de várias camadas; algumas das quais desprezíveis, como a sua pulsão primária de ter uma boa vida sem olhar a meios para conquistar tal desiderato. Aliás, o desgraçado talentoso é mesmo um sociopata, nenhum leitor se atreverá a dizer que Tom Ripley é um mocinho ou uma vítima (disso ele não tem nada). Porém, há certos aspectos do mesmo com os quais nos conseguimos relacionar: os corriqueiros desejos de segurança financeira, o sentimento de injustiça dos desfavorecidos face aos favorecidos, o desprezo por alguns filhinhos de boas famílias ou os desejos de conhecer o mundo em viagens intermináveis. Isto leva a que na realidade nos preocupemos com o mesmo ao longo de todo o livro. Ainda que não o apoiemos, percebemos o mesmo. É o ponto mais forte da obra.

Os outros personagens, os secundários, não me agradaram tanto como Ripley — talvez por padecerem de alguma falta de fibra imaginativa. Creio que aqui a Autora pecou um pouco (talvez propositadamente), especialmente no que diz respeito à acefalia inexistente da polícia. Pela minha experiência profissional, quando um polícia/detective fareja algo de errado encontra sempre o que de verdade se encontra errado, a não ser que o trilho leve a nenhures (algo que não me parece de todo verosímil nesta história).

Adiante, gostei também dos espaços escolhidos pela Autora e da forma como esta os trabalhou. Sem longos e densos parágrafos descritivos, há um subtexto perfeito relacionado com cada um destes lugares. Representam a fase emocional do protagonista em cada momento do livro e tornam sempre mais fácil a verdadeira percepção do estado de espírito de Ripley. A título de exemplo, numa Nova Iorque cinzenta e suja Ripley leva uma vida tristonha, com algum nojo até dos próprios amigos. Na soalheira Mongibello, um relaxado Ripley goza o melhor da vida. Na agitada e imperial Roma, Tom atarefa-se com as suas manias de grandeza. E em Veneza, Ripley vê a sua vida a afundar-se.

O ritmo é perfeito, delicioso mesmo. Não houve um capítulo capaz de me dar sono. Havia sempre uma situação ou um pensamento capaz de levar a história para a frente ou de me divertir. Vale por dizer que li as duzentas e sessenta e quatro páginas do livro numas meras cinco noites. Um ápice, tendo em conta a minha vida.

Finalizando, não é um livro perfeito, mas é sem dúvida muito bom. Agradou-me bastante e motivou-me a ler as sequelas. Que mais posso dizer senão aconselhar a todos este livro?


Moby Dick

Moby Dick

de Herman Melville

by Publicações Europa América

Sem a paciência para ler esta obra de uma vez só, fui lendo a espaços os breves (mas ainda assim maçudos) capítulos de Moby Dick enquanto ia lendo outras obras. Portanto, e para dizer a verdade, só quando entrei nas últimas cem páginas é que dei por mim finalmente investido na história.

Isto porque o Autor (quiçá pago à palavra) exagera quanto à morfologia, história, filosofia e simbolismo da baleia. Ficamos a conhecer o leviatã mítico de Jonas; bem como a perceber da pele, da barbatana, da ossatura e do espiráculo e do espermacete e de tudo quanto mais compõe o corpo dos cetáceos. Um autêntico tratado de cetologia…

Por outro lado, o enredo é simples e conhecido: a tripulação do Pequod liderada pelo determinado Ahab (Acab em português…) procura caçar a monstruosa e assassina baleia a quem chamam Moby Dick. Esta simplicidade, porém, entrelaça-se com alguns episódios a bordo do navio e com alguns temas ainda hoje actuais.

Destaco a glorificação da caça à baleia (algo com que não me identifico minimamente) como metáfora da luta infrutífera do homem contra a natureza. O próprio Ahab acaba por representar o mais desafiador dos homens que, mesmo perante sucessivas derrotas, não desiste de desafiar o trágico destino que o espera. Sob outro ponto de vista (que até acho pouco explorado), o final imposto por Moby Dick ao Pequod representa igualmente o castigo expectável que aguarda todos quanto se dedicam à vingança e/ou a combater a natureza.

Quanto a personagens, todo o destaque vai, conforme até aqui é possível perceber, para Ahab. O resto do tempo temos algumas peripécias vividas pelo próprio narrador e por outras personagens secundárias, mas com muito pouco de desenvolvimento ao longo das mais de seiscentas páginas do livro. É quase como se apenas existissem duas personagens: Ahab e a Tripulação do Pequod.

Há igualmente uma boa escrita, muito náutica e precisa, tal como um tom carregado de ironia que serve para atenuar a tragédia épica do final. Os monólogos gigantes e fastidiosos quebram, no entanto, a genialidade de algumas tiradas.

Concluindo, e talvez pela arrogância de já ter lido bastantes clássicos, e bem melhores, não considero Moby Dick uma obra-prima. Tem um tema atemporal que o transforma num clássico, mas creio que enquanto obra-prima (ao nível de Dom Quixote, O Conde de Monte Cristo, Dom Casmurro, Huckleberry Finn, Oliver Twist…) só o é certamente para os critérios americanos e para os ceguidistas da cultura americana. Fica a heresia.


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