Cada vez que alguém fala em Randall Flagg, a internet explode de notícias. O maior vilão de Stephen King (segundo o mesmo) é sempre um factor a ter em conta quando o negócio à volta de King deseja fazer ainda mais dinheiro do que já faz. E porquê? Vamos tentar explicar:
Começando pelo que está bem feito, Randall Flagg é a encarnação da tentação, uma espécie de diabo que caminha connosco nas ruas. E todos nós gostamos de histórias em que os protagonistas são tentados pelo malvado vilão, certo? Para além disso, Randall Flagg é igualmente um demónio com estilo. O público também adora isso.
Os problemas começam, a meu ver, quando as promessas narrativas relativamente a Randall Flagg não se cumprem ou são mal executadas. Focando-me apenas nos livros em que o mesmo vilão aparece mesmo com este nome:
Em The Last Stand, Flagg liberta um poderoso vírus que dizima a população de um planeta, ganha os poderes de um deus e o que faz com isso? Passa a viver em Las Vegas, instigando um grupo de dementes a viver como animais. Até aqui tudo bem. Mas depois é inesperadamente derrotado por um dos seus próprios servos? WTF? É a forma do Autor dizer que o mal se derrota a ele mesmo sem precisar que a gente boa faça alguma coisa? Original, mas (num livro com tantas páginas) é executado com demasiada pressa e provocou-me um meh! Para além disto, nunca percebemos as suas razões para fazer o que faz.
Em The Dragon Eyes, Randall Flagg é visto como um feiticeiro que inspira medo em todos. Vai cumprindo com os seus desígnios vilanescos, tentando um príncipe, envenenando um rei, culpando um inocente e envenenando uma sociedade contra o sistema vigente. Porquê? Ninguém sabe. E o que o derrota? A porra de uma seta. Nem sequer temos direito a um confronto entre os protagonistas e o mesmo vilão. Num ápice, o vilão empunha um machado, leva com uma seta e desaparece. Depois de criar expectativas, o Autor simplesmente decide que já escreveu demais e acaba à pressa com o vilão.
Por fim, na saga The Dark Tower, temos o homem de negro (Randall Flagg) como nêmesis do pistoleiro protagonista mais conhecido de Stephen King. Durante toda a saga (sete livros, acrescido de um oitavo livro posterior à conclusão da saga), quer como Walter O’Dim quer como Marten Broadcloak ou Walter Padick, a menção ao homem de negro ou o seu inesperado aparecimento deixa-nos sempre ansiosos por mais. Queremos saber mais sobre ele, queremos saber mais sobre o que o leva a fazer o que faz e, sendo sincero, durante toda a obra não houve nada que eu mais quisesse a não ser ver, num final apoteótico, o pistoleiro a bater-se com o feiticeiro negro (o homem que seduziu a sua mãe e acabou com o seu reino). Mas o que sucedeu a Randall Flagg? Foi comido por um vilão de última hora. Ou seja, teve um fim inesperado e nunca se bateu com o pistoleiro. Porquê? Porque King assim o quis, deixando-nos com o seu pistoleiro órfão de um verdadeiro vilão (já que nem sequer o Crimson King se revelou grande coisa perante um herói inesperado e também ele de última hora). Mais uma vez, demasiadas expectativas geradas e uma terrível execução capaz de frustrar até o mais paciente dos leitores. Achei aqui, inclusivamente, que o Autor se decidira a desrespeitar bastante todos os seus leitores nesta altura.
Posto isto, e porque o Multiverso de King pouco liga a linhas temporais, talvez ainda voltemos a encontrar Randall Flagg — mas espero bem que King lhe dê um arco mais bem construído e magistralmente bem executado. Afinal de contas, King sabe fazê-lo. Já o provou com inúmeras personagens (Jack Torrance, Pennywise…). Vamos ter fé na criatividade do Autor.
Mas, por enquanto, não me digam que Randall Flagg está no mesmo nível de Darth Vader ou Sauron. Sejamos honestos.