Stephen King dispensa apresentação por estes dias que correm; e bem o merece. É dos autores que mais leio. Um daqueles que me obriga a decidir sempre qual dos livros dele é que vou ler agora, dado que o homem continua a escrever sem parar e a publicar a um ritmo que não dá para acompanhar.
Quanto a Billy Summers, um bom e recente livro, só quando entramos no último capítulo é que percebemos que é o típico enredo de… têm de ler para saber. Se revelasse aqui mais alguma coisa seria um desses odiáveis spoilers que todos desprezamos.
Posso, porém, dizer que o protagonista, um assassino a soldo, é bem trabalhado e todos os arcos são bem executados para um final que me deixou desconfiado antes de me surpreender devido à empatia que o protagonista nos gera.
Em termos de ritmo, vou confessar que quase o li em três dias. Só não o fiz porque me sabotei a mim mesmo com o medo do que iria encontrar nos últimos dois capítulos depois de um passeio tão bom e gratificante. Afinal, estamos a falar de Stephen King e dos seus temidos quesitos finais.
Normalmente os desenlaces de King deixam sempre algo a desejar em termos de execução (aquele fim da Torre Negra foi um desastre, o Doutor Sono teve um clímax muito meh!…). Neste livro, porém, o final é muito bem executado e significativo. Talvez seja mesmo o final mais gratificante que encontrei nos livros de King.
Aconselho vivamente este Billy Summers a quem procure um desses livros de assassinos de aluguer. Muito bom.
Sinceramente, gostaria de falar com Henrique Cruz e dizer-lhe cara a cara, ainda que com toda a gentiliza que um texto escrito raramente permite, que foi enganado por quem lhe disse que estava pronto a ser publicado. Poderá um dia vir a estar, mas ainda não estava quando publicou este O Ciclo de Tempo Infinito. E digo isto assim, cruel desde o início, porque:
Quando o argumento se baseia à volta de um protagonista preso num loop temporal — uma premissa explorada ad nauseam por muitos escritores e ainda mais argumentistas de séries de ficção — a originalidade começa a caminhar sobre brasas. Um leitor beta ou um editor a sério deveria ter logo dito ao autor: “Oh Henrique, olha lá que existem n series e n filmes acerca deste ioiô de resets temporais, queres mesmo ir por aí sem mais? Não achas que consegues trabalhar isto de forma mais original e consequente? Olha que para tornar isto apelativo vais precisar de muita coisa…”
Infelizmente, ninguém lho disse e o autor apresentou algo que já todos viram.
Mas, infelizmente, há pior.
O trabalho de edição é inexistente e a revisão absolutamente nula. Há um excessivo rol de erros ortográficos, gramaticais e de sintaxe a fazer lembrar edições de autor. Consequentemente, a escrita imatura (o que é normal para um primeiro livro) cai na pobreza de um relato mal feito ao invés de uma obra literária. A título de grandes problemas: a escolha do narrador alterna sem sentido ao ponto de parecer que estamos a ler um relato e não uma obra de ficção. A sensorialização não existe para nos enlear e nos incorporar na mente do protagonista. Metáfora e recursos estilísticos passaram-me ao lado. Desculpem-me mais uma vez a crueldade, mas ninguém consegue mergulhar na mente ou sentir empatia pelos medos do protagonista com todos estes pecados de base.
O worldbuilding e o background das personagens parecem saídos do ChatGPT. As personagens, para além de serem imensas, não têm traços marcantes, diálogos carismáticos ou qualquer propósito vincado sem ser o de sobreviver a uma ameaça de cientistas loucos.
O ritmo é talvez dos elementos narrativos mais difíceis de controlar, especialmente num primeiro livro. Dou aqui um desconto, mas um melhor trabalho de edição poderia ter-lhe dito que se pode trabalhar o ritmo lento- lentinho do início e o ritmo impossível de aguentar de três batalhas finais, todas elas órfãs de profundidade emocional e contadas qual relato de futebol.
Enfim…
O tempo é um elemento narrativo magnífico quando temos um enredo original que explora premissas sólidas e as combina com outras premissas de grande qualidade — como Inception (o tempo e os sonhos), Tenet (a inversão da causa-efeito), Predestinado (viagens no tempo e mudanças de género) ou 12 Monkeys (viagens no tempo para evitar uma pandemia)…
Porém, este livro não tem nada de magnífico e, a propósito do tempo, só me fez foi perder tempo (chegando inclusivamente ao nível de terminar três calhamaços antes de, com muito esforço, terminar a história de William e verificar a sua promessa de continuação…).
Luís Corte-Real, patrão da Saída de Emergência, editora deste livro, fala muito do inexistente trabalho do editor por terras lusas, mas aconselho o mesmo a ser mais exigente consigo próprio e com a sua equipa. Se há uma decisão de publicar, deve haver um dever de zelo acrescido no que toca a proteger o autor de si mesmo. A recente chancela “Eu Amo Autores Portugueses” foi uma boa iniciativa, mas deveria merecer muito mais respeito de todos os envolvidos no mesmo projecto. Até porque este não é o primeiro livro onde se nota uma clara falta de investimento editorial.
Com uma orientação certeira, talvez Henrique Cruz pudesse ter trabalhado melhor e apresentado algo verdadeiramente apelativo. Assim, daqui a uns anos, estará, como Filipe Faria, a dizer que gostaria de voltar atrás e ter escrito este livro de maneira completamente diferente.