de Josh Friedman e David S. Goyer.
Confesso que ainda não li absolutamente nada da saga Fundação, escrita pelo afamado Isaac Azimov. Esta confissão é quase um pecado, mas o tempo e o dinheiro aptos a satisfazer todos meus desejos de leitura são escassos. Para além disso, tenho lido e conversado com pessoas acerca desta saga e todos têm convergido para uma opinião quase unânime: é uma história boa, tem um ritmo rápido, mas não consegues criar grande empatia com as personagens (o que não me espanta dada as tendências pulp dos anos 60 a 80). Podem imaginar as minhas reticências uma vez que para mim as personagens são sempre o núcleo duro das obras…
Adiante, e mesmo ciente de todas as críticas feitas a esta adaptação, nomeadamente da libertinagem criativa e pouco respeitosa relativamente ao material original bem como a tendência dos dias que correm para mudar o sexo original das personagens, creio que os defeitos apontados se esbatem perante o resto dos elementos desta adaptação. A qualidade do enredo, a qualidade dos arcos e o desenvolvimento das personagens, a mensagem, e os próprios efeitos audiovisuais não fica nada a dever à maioria das séries e filmes de ficção científica.
O enredo é intricado desde o primeiro episódio, com uma primeira linha narrativa focada na Dinastia Genética do Imperador Cleon II (inspirado, creio, no excelente mito das três faces da deusa Hekate e algo que, pelo que sei, é uma inovação). A segunda linha segue os séculos passados em Terminus e os problemas da Fundação. A terceira linha temporal prende-se com a vida de uma personagem totalmente reformulada chamada Gaal Dornick. Entre estas linhas, muita coisa ocorre nas sombras. E é esse o apelativo da história Fundação. Nós estamos a observar pequenos episódios aparentemente sem grande relevo para os pontos de mudança da história da galáxia, mas a verdade é que são estes momentos que conduzem às grandes mudanças. Especial…
Em termos de personagens, o claro destaque vai para o Imperador Cleon II (interpretado magistralmente pelo trio Cassian Bilton, Lee Pace e Terrence Mann) e para Harry Seldon (do extraordinário Jared Harris), mas Gaal Dornick (interpretado por Lou Lloubell) vai em crescendo. As várias nuances que cada um destes actores (com a ajuda dos demais) consegue dar às suas personagens é algo de extraordinário.
Na maioria dos planos visuais, como os anéis de Trantor, o interior de palácios ou os habitáculos das naves estelares, sentimo-nos estarrecidos. A imaginação não tem limites, desde a forma como a tecnologia é utilizada até aos pingentes vivos de murais especialmente artísticos. Posto isto, eu não embarco na onda de críticos desta adaptação de Fundação. Por norma até gosto que as séries não fujam muito ao material original, mas o que os realizadores estão a fazer ao dar um sopro de empatia de personagens pouco conhecidos e desenvolvidos enquanto mantêm o resto da história (inacabada pelo Autor, diga-se) é algo que muito me apraz. Recomendo vivamente aos fãs do género.
