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O Trono — A História de Maquiavel

by ASA

O Trono — A História de Maquiavel

de Franco Bernini

Os bons romances históricos têm a particularidade de humanizar os agentes históricos — algo que um historiador apenas consegue a espaços, dada a exigência científica. Por outro lado, têm a particularidade de glorificar alguns destes actores históricos e ostracizar outros conforme as suas visões do mundo — o que não é lá muito aconselhável nos dias correntes.

Exemplo acabado de glorificação é o de Ricardo, Coração de Leão, um rei bem pior do que o folclore sobre Robin Hood conta. Quanto ao exemplo da ostracização, a visão de Alexandre Dumas sobre o Cardeal Richelieu n’Os Três Mosqueteiros ainda hoje inquina a visão de um estrategista político com várias facetas — e que até ajudou os portugueses a libertar-se do jugo espanhol e a reganhar a independência lusa.

Em O Trono, Franco Bernini opta por nos contar a história de Nicolau no momento mais desafiante da sua vida ao serviço de Florença: espiar o auge de César Bórgia e o modo como este liderava as suas forças, governava os seus súbditos e lidava com os seus aliados e inimigos.

Uma obra destas poderia cair na tentação de glorificar uns e ostracizar outros, mas não o faz. Ao mesmo tempo, não se coíbe de mostrar a impotência frustrante de Maquiavel enquanto enfatiza a sua arte para as palavras, não se coíbe de revelar a brutalidade misógina de César Bórgia enquanto revela o pragmatismo político deste e, por fim, não se coíbe de nos revelar que todos nós podemos ser inspirados por alguém odioso e cruel.

O autor d’O Trono apresenta-nos a pessoa de Nicolau di Bernardo Machiavelli, mero servo de Florença, ao invés de Nicolau Maquiavel, o grande autor de um clássico sobre a política moderna. Não nos mostra um Maquiavel maduro e cínico, à procura das melhores palavras para a magnum opus que viria a cunhar o termo maquiavélico, mas mostra-nos o tipo ansioso por ficar na História. Mostra-nos o homem revoltado com a misoginia, mas também o adúltero e grande adepto de prostitutas. O mandatário da República e valente espião, mas também o poeta e o prosador.

Por falar em prosa, a escrita de Franco Bernini é concisa e directa, mas tem momentos de brilhante contemplação e não deixa de honrar alguns dos mais tocantes pensamentos de Maquiavel.

O ritmo é igualmente adequado, abrindo com um prólogo forte, desacelerando nos momentos certos e tornando-se novamente frenético no desenlace — algo que não acontece com a maioria dos romances históricos. Vale por dizer que não nos mói a paciência…

Posto isto, este é um livro para quem pretende saber um pouco mais sobre a vida de Maquiavel e não se importa de lidar com alguma da brutalidade renascentista.


As Sombras Eternas — As Crónicas da Companhia Negra

by Saída de Emergência

As Sombras Eternas — As Crónicas da Companhia Negra

de Glen Cook

Despachando logo o livro: o mesmo é muito bom nos cinco pontos que considero sempre essenciais: enredo, personagens, espaço, tempo e técnica de escrita. É uma sequela bastante boa do primeiro livro, ainda que lhe falte alguma intensidade do primeiro. Agora, o que me apraz mesmo dizer:

A Companhia Negra talvez não seja para leitoras mais ávidas por romances paranormais ou leitores que apenas gostam de obras fundamentalmente existencialistas. No entanto, é um tremendo prazer para aqueles que gostam de ler histórias para fugir ao mundano, às aventuras cliché e que têm aquele gostinho por se rir de algumas alhadas alheias.

E digo isto porque estes anais da Companhia Negra, não obstante terem como pano de fundo uma batalha entre as trevas mais claras e as trevas mais escuras num mundo onde existe alguma feitiçaria e uma tirana chamada Senhora, preocupam-se muito mais em relatar a vida de um punhado de mercenários (que vão enchendo secretamente e subtilmente os bolsos como podem, inclusivamente à custa dos seus companheiros) cuja hierarquia de valores está sempre bem estabelecida: em primeiro, segundo e terceiro lugar sobrevive-se, não importa como nem a quem; depois, protege-se e livra-se o próprio couro de todo o tipo de planos e responsabilidades que a cadeia de comando quer impor; e, por fim, lealdade aos camaradas e à missão até sermos obrigados a fugir com o rabo entre as pernas.

Quando estou a ler capítulos atrás de capítulos da Companhia Negra brota em mim uma sensação de tolice juvenil; a mesma adrenalina de quem vai picar o traseiro de um boi apenas porque perdeu uma aposta às cartas e agora tem de fazer os outros parceiros rir enquanto gasta o fôlego para evitar levar uma cornada brutal no cú.

Ensimesmando, cheguei inclusive à conclusão de que a Companhia Negra está para a camaradagem entre soldados pilantras como o Senhor dos Anéis está para a irmandade emocional entre verdadeiros irmãos de armas.

Como digo, não é leitura para todos; mas acredito que é leitura para muitos homens responsáveis com ânsias de voltar a ser meninos irresponsáveis. É puro divertimento do princípio ao fim…


Capitão América: Brave New World

Capitão América: Brave New World

de Julius Onah

by Marvel Studios

A passagem do escudo a Sam Wilson foi algo controversa e mereceu uma série inteira sobre o tema (The Falcon and the Winter Soldier). A vilã fraquíssima desta série, porém, sabotou uma série com momentos tão icónicos como as trocas de galhardetes entre Sam e Bucky, o aparecimento das Dora Milage, a dança de Zemo ou o monólogo One World, One People.

Neste Brave New World, a Marvel Studios escolheu um pouco melhor os vilões, mas a execução deixou novamente a desejar, o que prejudicou o enredo. Não basta dizer que um vilão tem o poder da superinteligência e depois arranjar-lhe um objectivo tão básico como o plano dum vilão burro: sabotar um acordo e arranjar uma guerra mundial apenas para desacreditar o presidente dos Estados Unidos da América. Um vilão superinteligente tem de ser mostrado a ganhar uma e outra vez, uma e outra vez de forma brilhante até a margem de manobra do herói se limitar a ser apertar as alças do escudo e lançar-se contra um exército de extraterrestres.

Por outro lado, Steve Rogers teve inúmeros momentos no MCU que o solidificaram como O EXEMPLO a seguir. O episódio em que se atirou para cima duma granada para salvar os camaradas ou o seu momento de piedade no elevador indicou-nos que se tratava de alguém invulgarmente corajoso. Sam Wilson, por outro lado, passa o tempo todo em acrobacias, com monólogos genéricos e pouco engenhosos que só aprofundam as suas hesitações e as suas dúvidas quanto a estar à altura do seu antecessor. É como se os escritores tivessem medo de lhe adicionar camadas (a falta de um interesse amoroso, a falta da irmã nesta entrada…) e mostrar que Sam pode ser tão bom ou ainda melhor do que Rogers a salvar o mundo.

Quanto ao elenco adicional, Harrison Ford continua a mostrar porque é quem é. Foi fácil para ele fazer esquecer William Hurt no papel de General Ross, mesmo sem o bigode temperamental. Infelizmente, jamais alguém poderá interpretar um Han Solo ou um Indiana Jones com a mesma mestria ou carisma.


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