Duna

Duna

de Frank Herbert

by Relógio D’Água

Aproveitando que vem aí o filme, e depois de tanta gente a dizer que Duna era O Livro de ficção científica por excelência, abri finalmente a magna opus de Frank Herbert.

Em termos de espaço, o Autor criou um vasto universo repleto de tramas políticas interessantes e permeado por vastos interesses económicos, tudo salpicado por laivos religiosos (bem trabalhados) que vão ganhando importância à medida que a história se vai desenvolvendo.

O mundo Arrakis, também chamado Duna, é em si árido, com muito pouco para além de areia, vermes de areia e a especiaria melange, que é essencial ao resto do universo. Ainda assim, abre espaço para o forte da obra: o povo fremen.

Estes nativos de Arrakis, povo habituado às agruras de Duna e ao combate frequente com os vilões Harkonen, é de longe a parte mais interessante da obra. Herdeiros de uma paixão religiosa bastante vincada, semelhante em tudo aos povos árabes de hoje em dia, e sedentos por um recurso bastante escasso em Arrakis: a humidade (reparem que não uso a palavra água sequer…), são de longe a parte com mais interesse. Têm uma importância vital para a mensagem ecológica da história e considero a sua luta de terraformação secular algo que hoje em dia falta à humanidade: planos sérios para o planeta e para todos os seus habitantes daqui a 500 anos.

Em termos de personagens, gostei de Dama Jessica. É uma mulher forte e independente, pertencente a uma casta mística de mulheres manhosas preocupadas com a preservação de certas linhagens genéticas, e uma mãe-leoa que pauta sempre toda a sua actuação pelo amor, que é também a sua maior fragilidade.

Já Paul Atreides, o protagonista, vai destruindo com as suas forças de presciência todos os tipos de limitações físicas e morais, o que o torna menos humano e, consequentemente, menos heróico. Paradoxalmente, a sua história é a história da Ascensão de um Herói, mas pouco há dele com que um ser humano se consiga realmente compadecer ao ponto de o achar verdadeiramente um herói. Todo ele foi criado literalmente para ser o herói desta história (grandes capacidades genéticas, grandes tutores e grandes valores; não falha uma decisão) e isso leva a que nos achemos mais perante um robô do que propriamente perante um líder humano.

De resto, os vilões, tirando os laivos do Barão Harkonen, são algo meh… e as personagens secundárias vão perdendo gás ao longo da história. Creio que é tudo demasiado apressado por vezes.

Quanto ao enredo, começa por ser uma luta entre casas e evolui demasiado depressa, e sem grandes reviravoltas, para uma revolução liderada por Paul Atreides. Estamos perante um caso típico daquelas trilogias condensadas num único livro.

Chegados aqui, estamos perante um clássico devido à mensagem ecológica muito forte, mas em termos de história, ritmo e personagens fica aquém de algo que eu realmente gosto (e que tantos autores contemporâneos conseguem). Duna cumpre, mas está longe de ser uma obra perfeita (e talvez por isso tenha tido tantas sequelas quando não era de todo a intenção do Autor no início…).


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