Daily Archives: Setembro 15, 2020

O Ano da Morte de Ricardo Reis

O Ano da Morte de Ricardo Reis

de José Saramago

by Porto Editora

Antes de mais, a obra de José Saramago é vasta, rica e plena de reflexões críticas. É para quem gosta de alta literatura. Logo, apenas paguem e peguem neste livro se estiverem interessados em focar-se num ensaio pleno de pensamentos e sarcasmos.

Posto isto, e pessoalmente, o estilo de conter histórias de Saramago (capítulos densos e parágrafos intermináveis numa história mais reflexiva do que com um ritmo alto) nunca foi o que mais me atraiu neste autor. O que sempre me atraiu em Saramago foi a sua capacidade de contar coisas fantásticas com um tom genuinamente e pluralmente crítico.

Porém, ao contrário do que encontrei em Caim, Memorial do Convento ou n’As Intermitências da Morte, O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma mera homenagem ao poeta Fernando Pessoa tendo como pano de fundo uma Lisboa engolida pela ascensão dos regimes ditatoriais do século XX.

O propósito do Autor neste livro é somente um: ligar a fatídica morte de Fernando Pessoa (uma luzinha genial extinta) à implantação do Estado Novo (o império das sombras capaz de subjugar tudo e todos). Curiosamente, o tom faz-me lembrar Star Wars: The Revenge of the Sith.

Não há muito mais a reter deste livro de enredo inexistente. Vemos apenas pelos olhos de Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa) o regime de Salazar a abater-se perante uma Lisboa incapaz de resistir.

Há umas figuras engraçadas: Marcenda, uma moça cujo braço e mão esquerdos não passam de apêndices do corpo (uma clara alusão à fraqueza dos movimentos políticos de esquerda), o fedor a cebola da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, o fantasma de Pessoa, a Estátua do Adamastor (que quer gritar a Lisboa, mas não consegue) e a empregada Lídia (a única personagem capaz de criar empatia comigo…).

Claro que há muitas páginas fenomenais (falamos de José Saramago, afinal…), mas creio que na página 463 desta obra encontramos um arrematar de ideias absolutamente genial. Retirei estas mesmas pérolas de lá e dei comigo com as reflexões infra:


“(…) um jornal não pode mentir, seria o maior pecado do mundo (…)” Pensem nas consequências de uma mentira de um jornal a sério e não me digam que não é o maior pecado do mundo.

“Sempre me respondes com as palavras do teu irmão, E o senhor doutor fala-me sempre com as palavras dos jornais(…)” De quem são as palavras que me saem da boca a mim? Perguntar isto a mim próprio enche-me de medo…

“(…) uma guerra civil à portuguesa.” Esta frase demonstra bem que há sempre uma maneira portuguesa de fazer as coisas no Universo…

Posto isto tudo, acho que Saramago tem obras fascinantes, mas esta , ainda que tenha bons momentos, está longe do brilhantismo de Memorial do Convento. Portanto, Ministério da Educação, caguem nos protestos das igrejas e devolvam Baltasar e Blimunda aos miúdos. Deixem este Ricardo Reis partir, tal como partiu Fernando Pessoa.


AWAY

AWAY

de Andrew Hinderaker

AWAy by Neflix

A nova série da Netflix tem um enredo simples: a tripulação da nave Atlas é lançada com a missão de alcançar a superfície de Marte. Contudo, engane-se quem pensa que isto é uma space opera ou uma mera série sobre as dificuldades de viver no espaço durante três anos. Mais do que uma mera epopeia realista sobre o maior desafio da humanidade desta era, estamos perante um drama familiar sobre astronautas e as suas famílias (recordando-nos o recente Ad Astra com Brad Pitt).

O maior destaque vai obviamente para a comandante Emma Green (grande papel de Hilary Swank a fazer lembrar Million Dollar Baby) e para o seu marido Matt Green (Josh Charles) que fica na Terra a lutar para ultrapassar um AVC e para cuidar da sua filha adolescente. Uma nota para Josh Charles que surpreende da forma como mostra alguém fragilizado fisicamente e tremendamente racional ao mesmo tempo que nos esconde todo o descontrolo emocional que lhe palpita interiormente. Tem, sem dúvida, o melhor desempenho de toda a série.

Contudo, e uma vez que o foco desta série são as personagens, importa relevar que todos os tripulantes do Atlas têm origens diversas, relações de relevo com personagens que ficaram na Terra, motivos e propósitos. Acima de tudo, têm força suficiente para, por si próprios, alcançar o inalcançável e criar laços empáticos com o espectador. Acabei de ver a primeira temporada sem um tripulante favorito.

Para além disso, a série apresenta em cada episódio um problema passível de acontecer durante a interminável viagem de três anos até Marte. Começa com o facto de vermos a sua comandante dividida entre o sonho de alcançar Marte e o desejo de ficar para cuidar do marido que sofreu um AVC; desenvolve algumas temáticas relacionadas com eventuais problemas mecânicos que podem surgir, problemas de ansiedade e de saúde (mononucleose e cegueira espacial) a bordo da nave a trinta e dois milhões de quilómetros de distância do hospital mais perto; não coloca de lado as questões políticas que diferenciam Oriente e Ocidente e, por fim, culmina com a maior força de todas para alcançar Marte: o binómio esperança e fé.

O último dos dez episódios, com a tensa chegada à atmosfera de Marte e consequente aterragem, constitui assim um clímax emocional ao nível apenas do reencontro entre pai e filha de Interstellar ou da chegada à Terra da astronauta de Gravity.

Aconselho vivamente.


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