As Sombras Eternas — As Crónicas da Companhia Negra
de Glen Cook
Despachando logo o livro: o mesmo é muito bom nos cinco pontos que considero sempre essenciais: enredo, personagens, espaço, tempo e técnica de escrita. É uma sequela bastante boa do primeiro livro, ainda que lhe falte alguma intensidade do primeiro. Agora, o que me apraz mesmo dizer:
A Companhia Negra talvez não seja para leitoras mais ávidas por romances paranormais ou leitores que apenas gostam de obras fundamentalmente existencialistas. No entanto, é um tremendo prazer para aqueles que gostam de ler histórias para fugir ao mundano, às aventuras cliché e que têm aquele gostinho por se rir de algumas alhadas alheias.
E digo isto porque estes anais da Companhia Negra, não obstante terem como pano de fundo uma batalha entre as trevas mais claras e as trevas mais escuras num mundo onde existe alguma feitiçaria e uma tirana chamada Senhora, preocupam-se muito mais em relatar a vida de um punhado de mercenários (que vão enchendo secretamente e subtilmente os bolsos como podem, inclusivamente à custa dos seus companheiros) cuja hierarquia de valores está sempre bem estabelecida: em primeiro, segundo e terceiro lugar sobrevive-se, não importa como nem a quem; depois, protege-se e livra-se o próprio couro de todo o tipo de planos e responsabilidades que a cadeia de comando quer impor; e, por fim, lealdade aos camaradas e à missão até sermos obrigados a fugir com o rabo entre as pernas.
Quando estou a ler capítulos atrás de capítulos da Companhia Negra brota em mim uma sensação de tolice juvenil; a mesma adrenalina de quem vai picar o traseiro de um boi apenas porque perdeu uma aposta às cartas e agora tem de fazer os outros parceiros rir enquanto gasta o fôlego para evitar levar uma cornada brutal no cú.
Ensimesmando, cheguei inclusive à conclusão de que a Companhia Negra está para a camaradagem entre soldados pilantras como o Senhor dos Anéis está para a irmandade emocional entre verdadeiros irmãos de armas.
Como digo, não é leitura para todos; mas acredito que é leitura para muitos homens responsáveis com ânsias de voltar a ser meninos irresponsáveis. É puro divertimento do princípio ao fim…
