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A Máscara de Ripley

by Relógio de Água

A Máscara de Ripley

de Patricia Highsmith

Vou confessar um pequeno prazer: sinto-me bem por ser uma das poucas pessoas actualmente a dedicar-me a ler Patricia Highsmith. Ninguém ao meu redor lhe reconhece o nome sem ser a minha própria mãe, a imprensa e as estantes deixaram de lhe dar destaque, o grande público não está actualmente ciente das suas deliciosas prosas e, sinceramente, é uma Autora cuja prosa atrevida e irónica sobre corriqueiros vilões do dia a dia é viciante.

Nesta segunda entrada na vida de Tom Ripley, a Autora andou uns anos para a frente e apresenta-nos agora o seu querido sociopata levando uma vida casada e desafogada (a vida que sempre almejou). Sucede que, para bem dos leitores, tal desafogo financeiro não obsta a que as pulsões de enriquecimento fácil de Ripley se tenham desvanecido. Aliás, depois do inseguro jovem Tom do primeiro livro, temos agora um golpista mais maduro e confiante em si mesmo.

Em termos de ritmo, este livro é frenético. Vai de Londres a Salzburgo e volta à casa de Tom, em França, num abrir e fechar de olhos. É menos evidente também neste livro a relação do meio ambiente com o estado de espírito do protagonista, com a devida excepção a apresentar-se em Salzburgo. Quem já esteve nesta cidade sabe que é uma cidade lindíssima, mas com uma fria aura nostálgica. Não admira que tenha sucedido aqui o grande desfecho da obra.

Quanto ao enredo deste segundo capítulo, o protagonista Tom Rippley vai gerindo uma pequena rede de altas burlas no mundo da arte, tendo obviamente que falsificar, enganar, mentir, manipular, burlar, assassinar e continuar a enganar o mundo inteiro. É a vida de Ripley — se bem que agora tem muito mais a perder do que quando decidiu fugir de Nova Iorque para a Europa. No entanto, tudo muda quando há um cavalheiro que desconfia de um dos esquemas da pequena rede de burlões de Ripley.

A Autora desta vez é menos bem-sucedida a criar laços de empatia entre o leitor e o seu personagem principal. Contudo, em termos de personagens, o destaque vai sempre para o nosso vilão protagonista. Desde os seus propósitos e planos até aos seus gostos e escolhas, toda a narrativa gira à volta de Tom Ripley.

Até mesmo os personagens secundários (inclusivamente a sua mulher Héloïse Plisson) parecem incapazes de fazer algo mais do que admirar o talento do malandro preferido da Autora. Limitam-se a orbitar ao redor do homem que veem como um mero diabrete quando na verdade, por debaixo do seu rosto sorridente e bem-educado, está um verdadeiro demónio. A própria polícia e inspectores são, mais uma vez, ridicularizados (continuo a não gostar desta parte…). O único que tenta fazer alguma coisa contra tal é o falsificador Bernard Tufts, mas o seu atrevimento tem um desfecho bastante incrível — e sobrenatural diga-se.

Aliás, é este desfecho bastante incrível que me leva a gostar deste livro. Não fosse aqui o delicioso diabolismo de Ripley a fechar o livro e toda a obra me teria servido apenas como uma mera metade de algo mais (sim, porque percebemos desde logo que a história continuará em Ripley’s Game — ou O Amigo Americano, na tradução portuguesa — mesmo antes de a última página chegar).

Venha o terceiro capítulo de Ripley.


O Talentoso Mr. Ripley

O Talentoso Mr. Ripley
de Patricia Highsmith

Tendo por base a (re)descoberta de uma mestra da criação de suspense, joguei-me ao primeiro livro da sua personagem mais conhecida: Tom Ripley. E, dentro de uma capa subtil e fenomenal (bravo Relógio D’Água), descobri um CLÁSSICO quando pensava estar apenas perante mais um bom thriller americano.

O enredo criado pela prosa precisa e bem temperada desta Autora tem por base as vivências duma vida intrujona, e todas as peripécias relativas à mesma realidade. É uma história onde há crime, mentiras e uma humanidade negra e cínica. Mais não me atrevo a dizer quanto ao enredo.

Por outro lado, Tom Ripley, o protagonista, encontra-se magistralmente criado e cheio de várias camadas; algumas das quais desprezíveis, como a sua pulsão primária de ter uma boa vida sem olhar a meios para conquistar tal desiderato. Aliás, o desgraçado talentoso é mesmo um sociopata, nenhum leitor se atreverá a dizer que Tom Ripley é um mocinho ou uma vítima (disso ele não tem nada). Porém, há certos aspectos do mesmo com os quais nos conseguimos relacionar: os corriqueiros desejos de segurança financeira, o sentimento de injustiça dos desfavorecidos face aos favorecidos, o desprezo por alguns filhinhos de boas famílias ou os desejos de conhecer o mundo em viagens intermináveis. Isto leva a que na realidade nos preocupemos com o mesmo ao longo de todo o livro. Ainda que não o apoiemos, percebemos o mesmo. É o ponto mais forte da obra.

Os outros personagens, os secundários, não me agradaram tanto como Ripley — talvez por padecerem de alguma falta de fibra imaginativa. Creio que aqui a Autora pecou um pouco (talvez propositadamente), especialmente no que diz respeito à acefalia inexistente da polícia. Pela minha experiência profissional, quando um polícia/detective fareja algo de errado encontra sempre o que de verdade se encontra errado, a não ser que o trilho leve a nenhures (algo que não me parece de todo verosímil nesta história).

Adiante, gostei também dos espaços escolhidos pela Autora e da forma como esta os trabalhou. Sem longos e densos parágrafos descritivos, há um subtexto perfeito relacionado com cada um destes lugares. Representam a fase emocional do protagonista em cada momento do livro e tornam sempre mais fácil a verdadeira percepção do estado de espírito de Ripley. A título de exemplo, numa Nova Iorque cinzenta e suja Ripley leva uma vida tristonha, com algum nojo até dos próprios amigos. Na soalheira Mongibello, um relaxado Ripley goza o melhor da vida. Na agitada e imperial Roma, Tom atarefa-se com as suas manias de grandeza. E em Veneza, Ripley vê a sua vida a afundar-se.

O ritmo é perfeito, delicioso mesmo. Não houve um capítulo capaz de me dar sono. Havia sempre uma situação ou um pensamento capaz de levar a história para a frente ou de me divertir. Vale por dizer que li as duzentas e sessenta e quatro páginas do livro numas meras cinco noites. Um ápice, tendo em conta a minha vida.

Finalizando, não é um livro perfeito, mas é sem dúvida muito bom. Agradou-me bastante e motivou-me a ler as sequelas. Que mais posso dizer senão aconselhar a todos este livro?


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