Quando o Vaticano Caiu
de Pedro Catalão Moura
Não sou propriamente o maior fã de romances de realidade alternativa, mas fui seduzido pela apresentação do livro no Bangcast, um canal do YOUTUBE que vale a pena seguir.
Relativamente à obra, vou primeiro apontar os dois maiores defeitos:
O título é chamativo, mas não o creio o mais adequado. É certo que tudo o que acontece na obra tem origem na invasão nazi do Vaticano, mas creio que a originalidade desta obra se prende muito mais com o evento (pouco explorado, sublinhe-se) de um conclave (e das suas vicissitudes) do que propriamente com os efeitos em cadeia de uma reacção a uma invasão e a mudança da cúria para outro país.
Por outro lado, uma das promessas inicias desta narrativa era a de perceber os efeitos da reacção da maior instituição do mundo a uma invasão, tal como os efeitos da mudança da cúria católica para este Portugal suspenso no tempo. “Como reagiria o mundo à destruição do Vaticano, inclusivamente os próprios católicos da Alemanha?”, “O que significaria realmente para a cúria, a nível económico, político e social mudar-se da luxuosa Cidade do Vaticano para uma aldeola como Fátima?”, “Com que questões políticas, sociais, económicas e religiosas Portugal se confrontaria após o assentar da cúria em Fátima?”. Ficaram por responder com mais detalhe e profundidades estas perguntas essenciais. A título de exemplo, acho que tanto o Cardeal Cerejeira como a Irmã Lúcia poderiam ter desempenhado uns papéis altamente alternativo nesta história, mas pronto…
Quanto aos pontos fortes:
A maior qualidade é o seu ritmo. Os capítulos pequenos, sucintos e, ainda assim, bem executados ajudam imenso o leitor que dispõe de pouco tempo do seu dia para ler. Por outro lado, há dois ticking clocks que carregam a história: a mudança da cúria para Fátima — que eu considero interessante, ainda que demorada nalgumas partes — e a eleição de um novo papa — interessante, entusiasmante, detalhado e muito bem executado.
Em termos de personagens, o Autor fez o que era possível dentro de uma ficção histórica e trabalhou nomes como o Papa Pio XII, o Cardeal Belmonte e o Cardeal Maglione de uma forma bastante empática. Nunca é fácil transformar vidas reais em personagens de uma história, mas creio que o Autor, alicerçado em muita pesquisa, soube lidar bem com essas dificuldades.
Por fim, mesmo eu achando a mudança de narrador entre parágrafos uma escolha bastante arriscada em termos de clareza narrativa, a escrita é bastante apurada. Nunca caímos na confusão, nunca nos perdemos. Sabemos sempre quais os olhos com que estamos a absorver os acontecimentos e isso é um ponto muito forte no que à habilidade do escritor diz respeito.
Para quem anda sempre à procura de novos escritores lusófonos, para quem gosta de assuntos religiosos e adora ler sobre meandros políticos, está aqui a obra para se desfrutar. É um bom começo para o Autor, que tenha muito sucesso.
