Doutor Sono
de Stephen King
Ao contrário da tendência que há, eu tenho-me mantido fiel aos livros de Stephen King ao invés de me focar apenas nas adaptações cinematográficas cada vez mais comuns. Bem sei que o Autor deixa algo a desejar na execução de alguns finais das suas obras. Aquele final da saga Torre Negra, por exemplo, é bom, mas falhou em tantos pontos na execução para se tornar épico…
Ainda assim aprendi que a melhor parte de ler Stephen King são as personagens que ele nos vai apresentando, não tanto o final dos seus enredos. Portanto, e quanto ao que me levou ao Doutor Sono, obviamente que foi a curiosidade de saber o que aconteceu aos membros sobrevivos da família Torrance do famoso The Shining (refiro-me ao livro, não ao filme pouco interessante de Kubrik que só se salva devido aos actores que lhe deram corpo).
Sempre na senda de bons personagens, fui surpreendido pelo homem em que o pequeno Danny se transformou. O Autor continua a explorar o alcoolismo e os demónios da bebida (já presentes em The Shining), aprofundando ainda mais o tema, especialmente no que à recuperação do vício diz respeito.
Mas Doutor Sono não se fica por aí.
Entre o grupo de vilões (que eu gostava que transcendesse esta obra…), uma nova garota brilhante muito engraçada e o papel de vida encontrado por Dan Torrance, o Autor trata de nos presentear com uma panóplia de boas personagens pelas quais tememos, sofremos e sorrimos. O habitual de King e da sua deliciosa escrita.
O clímax da história poderia ter sido ligeiramente mais bem executado, admito. Faltou um pouquinho mais de drama numa determinada cena em que alguém se esgana, uma maior astúcia a alguém bastante antigo e, no geral, maiores riscos de perigo para os protagonistas. São as minhas três únicas críticas negativas a esta história. Ressalvo, porém, que nem sempre é fácil colocar em palavras certas cenas de confronto com todos estes elementos.
Curiosamente, o final remete-nos para a própria vida e experiência do Autor (ele também um antigo alcoólatra). A dualidade entre o caído Jack Torrance de The Shining e o alcoólico em recuperação Dan Torrance remete-nos sempre para os dois caminhos que Stephen King certamente vê todos os dias quando avista uma garrafa de bebida. Não admira que tenha levado tanto tempo a escrever Doutor Sono.
Portanto, para quem gosta de histórias estranhas ambientadas em lugares pacatos e personagens com mais medo dos demónios interiores do que propriamente dos demónios vilanescos, Doutor Sono é um livro que aconselho (tal como The Shining).
