Daily Archives: Novembro 21, 2021

Timbuktu

by Edições ASA (Grupo Leya)

Timbuktu

de Paul Auster

Depois de tanto adiar comprar um livro de Paul Auster — ainda que por diversas vezes já tivesse folheado as suas páginas em bastantes livrarias deste país — deixei-me levar por um inesperado impulso e comprei, finalmente, e na passada segunda-feira, este Timbuktu. Não sei que estranho impulso foi esse. O preço da obra não estava com desconto, a sinopse deu-me logo a entender que se tratava de uma história narrada por um cão e eu, nesse mesmo dia, estava livre de qualquer intento de comprar um romance. Mas a verdade é que comprei Timbuktu e já o acabei de ler. Acho que, essencialmente, a força do olhar canino na capa desta edição, um olhar melancólico e solitário de um vira-lata, foi chamativo e suficientemente convincente para me levar a comprá-lo e a devorá-lo.

Num aparte sincero, creio que, como não tenho tempo para ter um cão, o melhor mesmo é que me afaste de um canil ou então estou tramado…

Dando por encerrado o longo introito, e começando pela capa (algo que de que falo muito pouco), tenho de dar os parabéns ao seu artífice: Rui Garrido. Ainda que não goste do facto do nome do Autor ocupar a maior parte da frente da capa e, como se isto não bastasse, ter a face do mesmo Autor desenhada e escarrapachada na parte de trás da capa (tinha de referir estes excessos publicitários), a verdade é que a cor crepuscular e a pequena imagem de um cão triste e sozinho — colocada como está: junto da margem inferior da capa e ligeiramente descaída para o lado (como se o rafeiro se estivesse a roçar nas nossas pernas) — condizem perfeitamente ao que é tratado no interior do livro: a triste vida de um velho cão.

Aproveitando para entrar no enredo, temos Mr. Bones, o rafeiro que protagoniza esta obra, a ter uma última aventura com o seu vagabundo dono, Willy Gurevitch, e as tragicómicas aventuras que se seguem após o esperado falecimento deste.

Ora, gostando eu de animais, mas sendo-me difícil gostar de livros narrados por animais, fui surpreendido com a profundidade empática que o Autor conseguiu criar entre mim e o protagonista canino desta obra. É raro eu sentir tal empatia por bichos na literatura, especialmente porque não aprecio muito a colocação de pensamentos humanos na cabeça de seres não-humanos. Todavia, e de forma sublime, Paul Auster conseguiu que sentisse uma profunda conexão emocional com Mr. Bones. Eu senti tristeza quando o velho cão caiu triste, eu senti medo e terror quando Mr. Bones encolheu o rabo e fugiu, eu senti-me revoltado e humilhado quando despojaram Mr. Bones da sua dignidade e senti-me também alegre e refastelado quando um humano mais caridoso encheu a barriga a Mr. Bones.

Isto, meus amigos, é arte. Justamente e precisamente, apenas arte. E é raro encontrar este tipo de autores com tanta arte para dizer o tanto que dizem numas meras duas centenas de páginas.

Paul Auster é um mestre a escrever; disso não tenho dúvidas. E quando tal sucede todos os elogios são poucos. Apenas posso dizer que, infelizmente, demorei bastante a dedicar uns tempos da minha vida à leitura das obras deste Autor. No entanto, acreditem em mim, não demorarei muito a voltar a apreciar a sua maravilhosa escrita. Já tenho uns quantos livros em vista e tudo.

Espero igualmente que o trabalho de tradução de outros livros deste Autor esteja tão boa como a de Timbuktu. Nunca é demais elogiar o trabalho de José Viera de Lima. Mudou para português quando devia mudar e manteve, quando assim se exigia, os necessários termos no seu inglês materno de modo a não desvirtuar o texto — e sempre com o cuidado de apresentar breves notas de tradução que ajudam a perceber ainda melhor o refinamento da obra.

O único ponto menos forte do livro são os longos cinco capítulos distribuídos por duzentas e seis páginas. Creio que há momentos na obra em que um corte de capítulo, deixando determinada ideia sedimentar, seria muito mais eficaz que um mero parágrafo. Releve-se e atente-se que é o ponto menos forte e não um ponto fraco. Este livro, um quase tratado sobre a condição de vida canina, não tem pontos fracos.

Assim, aconselho vivamente Timbuktu, tanto a pessoas que gostem de cães como a pessoas que não gostem de cães. Quando acabarem de ler a última página, e depois de vos jogarem à cara uma data de mensagens fortes — algumas expressas, outras tácitas — ver-se-ão de certeza mudados em algo. E especialmente com um novo olhar para a vida do melhor amigo do homem.


Design a site like this with WordPress.com
Iniciar