Daily Archives: Abril 13, 2021

Para onde vão os guarda-chuvas

Para onde vão os guarda-chuvas

De Afonso Cruz

by Companhia das Letras

Já tinha lido Jesus Cristo bebia cerveja de Afonso Cruz. Na altura tinha achado interessante (bastante interessante) a imagética do mesmo bem como a sua tendência de usar e abusar de recursos estilísticos.

Neste Para onde vão os guarda-chuvas, Afonso Cruz mantém essa poderosa escrita imagética e, de forma maravilhosa, vai ainda mais longe (até ao Médio-Oriente, no mínimo…) no sentido em que até os mistifórios de personagens criadas se confundem com uma unidimensionalidade real e irreal ao mesmo tempo.

Quanto às coisas más, arrisco-me a dizer que é uma obra que tem quase tudo menos um verdadeiro clímax. Por estranho que pareça, tem um princípio, um meio e um final, mas não um clímax. Talvez seja por neste mundo com um “equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado” não haver momentos de clímax. Todavia, há determinados desequilíbrios que gostaríamos de ter visto mais equilibrados e que nunca o foram. Será propositado? Não sei. Só sei que é uma obra que nos rasga e que nos cose para logo a seguir nos rasgar mais uma vez.

Quanto a coisas boas, há muito investimento na maioria das personagens.

Temos Elahi, o patriarca do sofrimento. Temos Badini, um poeta com um mundo inteiro calado dentro de si (adorei a técnica utilizada pelo Autor para os diálogos de um mudo). Temos Bibi, uma mulher sedenta de liberdade. Temos Aminah, uma cega para a vida. Temos Nachiketa Mudaliar, um homem apaixonado. E temos Isa, um órfão carente do amor dos seus pais vivos. Há mais, claro, e todos eles bem desenvolvidos, mas estes são os principais.

Todos eles percorrem as ruas de um médio-oriente muito bem imaginado, com tudo o que de bom e mau esperamos aí encontrar (presença forte da religião, costumes culturais tradicionais, atropelos aos Direitos Humanos, violência, descriminação, os sonhos… e a alegria possível). Achei tal um ponto bastante positivo tendo em conta que quanto a cenários há uma enorme tendência dos autores portugueses para as aldeias rurais do interior português — o que já me cansa há décadas.

Adiante, Para onde vão os guarda-chuvas é uma obra sobre a condição humana, especialmente sobre o equilíbrio desequilibrado que premeia todo o nosso mundo, nomeadamente quanto ao luto, o perdão, os milagres e sobre as variações do amor.

Eu gosto e aprecio esta aspereza diamantina de vez em quando. É bom por vezes lermos coisas que nos magoem. É sinal que estamos vivos e ainda mantemos a nossa empatia. Isto porque, ainda que com capítulos curtos e uma escrita inteligível, tenho a dizer que não é um livro para toda a gente. Os mais impressionáveis terão sempre de ter cuidado com esta obra.


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