Daily Archives: Novembro 9, 2021

Análise a Randall Flagg

Cada vez que alguém fala em Randall Flagg, a internet explode de notícias. O maior vilão de Stephen King (segundo o mesmo) é sempre um factor a ter em conta quando o negócio à volta de King deseja fazer ainda mais dinheiro do que já faz. E porquê? Vamos tentar explicar:

Começando pelo que está bem feito, Randall Flagg é a encarnação da tentação, uma espécie de diabo que caminha connosco nas ruas. E todos nós gostamos de histórias em que os protagonistas são tentados pelo malvado vilão, certo? Para além disso, Randall Flagg é igualmente um demónio com estilo. O público também adora isso.

Os problemas começam, a meu ver, quando as promessas narrativas relativamente a Randall Flagg não se cumprem ou são mal executadas. Focando-me apenas nos livros em que o mesmo vilão aparece mesmo com este nome:

Em The Last Stand, Flagg liberta um poderoso vírus que dizima a população de um planeta, ganha os poderes de um deus e o que faz com isso? Passa a viver em Las Vegas, instigando um grupo de dementes a viver como animais. Até aqui tudo bem. Mas depois é inesperadamente derrotado por um dos seus próprios servos? WTF? É a forma do Autor dizer que o mal se derrota a ele mesmo sem precisar que a gente boa faça alguma coisa? Original, mas (num livro com tantas páginas) é executado com demasiada pressa e provocou-me um meh! Para além disto, nunca percebemos as suas razões para fazer o que faz.

Em The Dragon Eyes, Randall Flagg é visto como um feiticeiro que inspira medo em todos. Vai cumprindo com os seus desígnios vilanescos, tentando um príncipe, envenenando um rei, culpando um inocente e envenenando uma sociedade contra o sistema vigente. Porquê? Ninguém sabe. E o que o derrota? A porra de uma seta. Nem sequer temos direito a um confronto entre os protagonistas e o mesmo vilão. Num ápice, o vilão empunha um machado, leva com uma seta e desaparece. Depois de criar expectativas, o Autor simplesmente decide que já escreveu demais e acaba à pressa com o vilão.

Por fim, na saga The Dark Tower, temos o homem de negro (Randall Flagg) como nêmesis do pistoleiro protagonista mais conhecido de Stephen King. Durante toda a saga (sete livros, acrescido de um oitavo livro posterior à conclusão da saga), quer como Walter O’Dim quer como Marten Broadcloak ou Walter Padick, a menção ao homem de negro ou o seu inesperado aparecimento deixa-nos sempre ansiosos por mais. Queremos saber mais sobre ele, queremos saber mais sobre o que o leva a fazer o que faz e, sendo sincero, durante toda a obra não houve nada que eu mais quisesse a não ser ver, num final apoteótico, o pistoleiro a bater-se com o feiticeiro negro (o homem que seduziu a sua mãe e acabou com o seu reino). Mas o que sucedeu a Randall Flagg? Foi comido por um vilão de última hora. Ou seja, teve um fim inesperado e nunca se bateu com o pistoleiro. Porquê? Porque King assim o quis, deixando-nos com o seu pistoleiro órfão de um verdadeiro vilão (já que nem sequer o Crimson King se revelou grande coisa perante um herói inesperado e também ele de última hora). Mais uma vez, demasiadas expectativas geradas e uma terrível execução capaz de frustrar até o mais paciente dos leitores. Achei aqui, inclusivamente, que o Autor se decidira a desrespeitar bastante todos os seus leitores nesta altura.

Posto isto, e porque o Multiverso de King pouco liga a linhas temporais, talvez ainda voltemos a encontrar Randall Flagg — mas espero bem que King lhe dê um arco mais bem construído e magistralmente bem executado. Afinal de contas, King sabe fazê-lo. Já o provou com inúmeras personagens (Jack Torrance, Pennywise…). Vamos ter fé na criatividade do Autor.

Mas, por enquanto, não me digam que Randall Flagg está no mesmo nível de Darth Vader ou Sauron. Sejamos honestos.


Os Olhos do Dragão

Os Olhos do Dragão

de Stephen King

Um conto de príncipes, dragões e feiticeiros escrito pelo próprio Stephen King? É uma sinopse irresistível, certo? Para um fã de fantástico e de Stephen King então é fatal. Mal o vi soube que tinha de o ler.

Infelizmente, o King desta vez desiludiu-me.

O enredo é basicamente a própria sinopse: um rei morto, um príncipe trancafiado numa torre por um feiticeiro negro bastante conhecido — o diabólico Randall Flagg, por sinal — e a necessidade de lutar contra os planos malignos do mesmo feiticeiro. Simples, certo? Dá pano para mangas esta versão masculina de Rapunzel, não acham? O problema é que se fica bastante por aí. Creio que o Autor se deslumbrou um pouco com a forma como urdiu a fuga e daí não saiu.

Por outro lado, este Autor tem-nos habituado a personagens ricas, tanto principais como secundárias, e não foge muito a tal neste livro. Cada personagem tem traços únicos e uma história própria — ainda que mal desenvolvida no caso dos protagonistas. E tal macula a história em termos de empatia. Dei por mim a ligar-me mais com um pobre aprendiz de mordomo do que propriamente com as demais personagens principais. Sinceramente, acho que nunca li um livro do mestre Stephen King com uma panóplia de personagens tão pouco empáticas.

O próprio Randall Flagg (vamos ser sinceros) deixa bastante a desejar. Um personagem que Stephen King tem como o maior dos seus vilões (aparece em The Stand, na saga The Dark Tower e ainda disfarçado noutras obras…) não pode ser assim tão mal executado. Randall Flagg é apenas maldade e tentação — uma unidimensionalidade vilanesca que, por exemplo, resulta com o assustador Pennywise em IT, mas que não resulta tão bem como todos parecem achar com Flagg. O facto de não haver uma base histórica-emocional que justifique toda a sua misantropia relativamente ao Reino de Delain deixa-o bastante mais pobre como personagem e os seus meios são algo básicos (ao nível da Bruxa da Branca de Neve e Malévola). É que uma morte por envenenamento resulta bem quando se trata de um policial e andamos atrás do envenenador, mas não resulta tão bem quando sabemos logo quem é o assassino.

Por fim, o ponto forte da obra continua a ser a escrita do Autor: fluída e certeira na maioria dos casos. Contudo, tal fogacho é insuficiente para insuflar e aquecer uma história tão pobre em termos de enredo e personagens.

Se querem ler um livro de Stephen King este não é o que aconselho.


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